Lista de Poemas
Desde o início
Na escura caixa do peito
meu coração se sabe destinado
à lança.
Dorme a serpente
inchando seu veneno
os escorpiões se escondem
sob as pedras
corre ainda o meu sangue
livre de peçonha.
Uma lâmina aguarda
além da esquina
uma gilete um vírus um projétil
marcam na estrada pontos de fronteira
na mesma estrada em que caminho
há tempos
presos meus pés a inarredáveis trilhos.
meu coração se sabe destinado
à lança.
Dorme a serpente
inchando seu veneno
os escorpiões se escondem
sob as pedras
corre ainda o meu sangue
livre de peçonha.
Uma lâmina aguarda
além da esquina
uma gilete um vírus um projétil
marcam na estrada pontos de fronteira
na mesma estrada em que caminho
há tempos
presos meus pés a inarredáveis trilhos.
👁️ 1 053
Lua de mel em Veneza
Na mesa à minha esquerda
as duas americanas
remexem nos pratos
com medo da comida
medo do garçom que canta
medo do vinho
do sol
da falta de ketchup.
À direita
na mesa
as alianças do casal brasileiro
brilham novas
a gomalina no cabelo dele brilha
antiga
os olhos não se buscam
embora as mãos se toquem
por cima da toalha
e em pleno meio-dia
a lua não é de mel.
Começa em quarto minguante
um longo silêncio conjugal.
as duas americanas
remexem nos pratos
com medo da comida
medo do garçom que canta
medo do vinho
do sol
da falta de ketchup.
À direita
na mesa
as alianças do casal brasileiro
brilham novas
a gomalina no cabelo dele brilha
antiga
os olhos não se buscam
embora as mãos se toquem
por cima da toalha
e em pleno meio-dia
a lua não é de mel.
Começa em quarto minguante
um longo silêncio conjugal.
👁️ 995
UCCELLO, EM VÔO
Paolo, chamado Uccello
porque amava os pássaros
e que não os tendo em gaiolas
deles se rodeava
em desenhos e quadros
mas que não com pássaros
e sim com cavalos
alçou vôo.
Cavalos de terracota
e gesso
ancas de espuma
focinhos que o formão entalha
em duro lenho
negros cavalos
cavalos fundidos em aço
couraças rampantes
cavalos gerânios em flor
e o mudo relincho
na selva das lanças.
Laranjais perfumam a caçada noturna
e a batalha.
A pintura de Uccello
abre as asas.
porque amava os pássaros
e que não os tendo em gaiolas
deles se rodeava
em desenhos e quadros
mas que não com pássaros
e sim com cavalos
alçou vôo.
Cavalos de terracota
e gesso
ancas de espuma
focinhos que o formão entalha
em duro lenho
negros cavalos
cavalos fundidos em aço
couraças rampantes
cavalos gerânios em flor
e o mudo relincho
na selva das lanças.
Laranjais perfumam a caçada noturna
e a batalha.
A pintura de Uccello
abre as asas.
👁️ 1 010
A ÚLTIMA ILHA
Neste mundo de pontes virtuais
e imediatos contatos
a última ilha que resta
se chama aeroporto.
Ilha
cercada de pausa
por todos os lados
a meio caminho entre os fusos
a meia distância entre os rumos
a meio destino.
Nenhuma garrafa nos chega
nenhuma mensagem
somente chamadas de embarque.
A nossa presença
tornou-se um cartão de check-in
viajamos parados
na espera suspensa
nem temos
ainda
atando o corpo a poltrona
a vã segurança do cinto.
e imediatos contatos
a última ilha que resta
se chama aeroporto.
Ilha
cercada de pausa
por todos os lados
a meio caminho entre os fusos
a meia distância entre os rumos
a meio destino.
Nenhuma garrafa nos chega
nenhuma mensagem
somente chamadas de embarque.
A nossa presença
tornou-se um cartão de check-in
viajamos parados
na espera suspensa
nem temos
ainda
atando o corpo a poltrona
a vã segurança do cinto.
👁️ 926
Neblina no lago de Como
Essa neblina
que não pousa no lago
mas que do lago ascende
como se duplicasse
água em água,
essa neblina densa
como um sono
que num mesmo casulo
nos envolve
e aos brotos das glicínias
e às montanhas,
essa neblina vem da minha infância
e eu a esperava
desde que cheguei.
Marina em Como
as sirenes da guerra
as Ursulinas
a oleografia de hortênsias
na moldura
o Duomo do outro lado da janela.
E lá fora a neblina.
A neblina deitada rente ao cais
cabelo esparramado dentro d'água
sereia.
A neblina galgando o meu terraço
meneio deslizando entre paredes
serpente.
Neblina
que Quixote lacera com sua lança
que Rolando derrota em Roncesvalle
que Ulisses dilacera com seu barco
que os piratas de Salgari destroçam.
Na sala escura
onde os livros se empilham
duas crianças conversam
longos contos de sol.
A neblina encosta os dedos no vidro
e ouve.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
que não pousa no lago
mas que do lago ascende
como se duplicasse
água em água,
essa neblina densa
como um sono
que num mesmo casulo
nos envolve
e aos brotos das glicínias
e às montanhas,
essa neblina vem da minha infância
e eu a esperava
desde que cheguei.
Marina em Como
as sirenes da guerra
as Ursulinas
a oleografia de hortênsias
na moldura
o Duomo do outro lado da janela.
E lá fora a neblina.
A neblina deitada rente ao cais
cabelo esparramado dentro d'água
sereia.
A neblina galgando o meu terraço
meneio deslizando entre paredes
serpente.
Neblina
que Quixote lacera com sua lança
que Rolando derrota em Roncesvalle
que Ulisses dilacera com seu barco
que os piratas de Salgari destroçam.
Na sala escura
onde os livros se empilham
duas crianças conversam
longos contos de sol.
A neblina encosta os dedos no vidro
e ouve.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
👁️ 1 116
Com o sol na língua
Ó Senhor!, que a garganta
não aguenta
tanto leandro em flor
tanta giesta
e o mar lá embaixo
como mesa posta.
Quero água de fonte
sobre os pulsos
e o sol na língua
como pão ou hóstia.
Quero descer
subir
a escadaria da encosta
a alma escancarada
a carne exposta
e esse explodir de sinos
na cabeça.
não aguenta
tanto leandro em flor
tanta giesta
e o mar lá embaixo
como mesa posta.
Quero água de fonte
sobre os pulsos
e o sol na língua
como pão ou hóstia.
Quero descer
subir
a escadaria da encosta
a alma escancarada
a carne exposta
e esse explodir de sinos
na cabeça.
👁️ 849
PISANELLO, AL LOUVRE
La Principessa Estense
che hai ritratta
su un fondo di farfalle
e di fioretti
cosa pensava mentre stava in posa?
Sorride appena appena
lo sguardo basso
il volto quasi chino
l'espressione serena.
Era sposa da poco
Margherita
di nome fiore anch'essa
e in piena fioritura
nessun vento la sfiora
la morte non l'adombra
sebbene sia vicina
Offre il profilo
e attende che il futuro
la prenda
Cicco il futuro alla sua fronte alta
alla gola di stelo passerà oltre
consegnandola al nulla
E a salvarla
sara solo il ritratto.
che hai ritratta
su un fondo di farfalle
e di fioretti
cosa pensava mentre stava in posa?
Sorride appena appena
lo sguardo basso
il volto quasi chino
l'espressione serena.
Era sposa da poco
Margherita
di nome fiore anch'essa
e in piena fioritura
nessun vento la sfiora
la morte non l'adombra
sebbene sia vicina
Offre il profilo
e attende che il futuro
la prenda
Cicco il futuro alla sua fronte alta
alla gola di stelo passerà oltre
consegnandola al nulla
E a salvarla
sara solo il ritratto.
👁️ 940
CINCO DA TARDE E SUDOESTE
Logo virá a tempestade
trazendo a noite.
Mas por enquanto tudo
é doce mucosa
e o cinza e o rosa
se tocam no horizonte.
Sábias como aves de rocha
as traineiras se aninham
os recortes da costa.
Uma primeira luz se acende
junto à ilha.
E o grilo ainda canta
quando ao longe
o trovão escancara a garganta.
trazendo a noite.
Mas por enquanto tudo
é doce mucosa
e o cinza e o rosa
se tocam no horizonte.
Sábias como aves de rocha
as traineiras se aninham
os recortes da costa.
Uma primeira luz se acende
junto à ilha.
E o grilo ainda canta
quando ao longe
o trovão escancara a garganta.
👁️ 948
NA CORTE DE HAAKON
Para bem degolar
um viking
agarra-se por trás
o cabelo comprido
e puxa-se com força.
Só então
na curva da garganta
afia-se o fio
da espada.
Na corte de Haakon
da Noruega
oito cabeças sobre o chão de pedra
olham a festa
com seus olhos mortos.
Chegada é a vez de
Sved
-e Sved não tem sequer
dezoito anos -
longos cabelos
para curta vida
longos cabelos
como rédea ou laço
enrolados nos punhos
do inimigo.
A garganta de Sved se tende
em arco
a espada canta
atenta ao seu chamado.
Mas num arranco
Sved
ergue a cabeça
e a lâmina decepa
aqueles punhos
que a seda envolve
como dois casulos.
Na corte de Haakon
da Noruega
pergunta a voz de Sved
aço cortante:
- Que arrogante esqueceu
suas mãos
nos meus cabelos?
um viking
agarra-se por trás
o cabelo comprido
e puxa-se com força.
Só então
na curva da garganta
afia-se o fio
da espada.
Na corte de Haakon
da Noruega
oito cabeças sobre o chão de pedra
olham a festa
com seus olhos mortos.
Chegada é a vez de
Sved
-e Sved não tem sequer
dezoito anos -
longos cabelos
para curta vida
longos cabelos
como rédea ou laço
enrolados nos punhos
do inimigo.
A garganta de Sved se tende
em arco
a espada canta
atenta ao seu chamado.
Mas num arranco
Sved
ergue a cabeça
e a lâmina decepa
aqueles punhos
que a seda envolve
como dois casulos.
Na corte de Haakon
da Noruega
pergunta a voz de Sved
aço cortante:
- Que arrogante esqueceu
suas mãos
nos meus cabelos?
👁️ 1 036
MEU AMIGO AO NÍVEL DO CHÃO
Quando vi meu amigo morto
deitado ao nível do chão
coberto por um pano
- ou teria sido plástico -
temi por ele
temi que baratas pudessem
Por que temer insetos
se em breve ele entraria
terra adentro
noite adentro?
Por que temer
tão pouco
se dos temores
o maior
já não podia temer?
deitado ao nível do chão
coberto por um pano
- ou teria sido plástico -
temi por ele
temi que baratas pudessem
Por que temer insetos
se em breve ele entraria
terra adentro
noite adentro?
Por que temer
tão pouco
se dos temores
o maior
já não podia temer?
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Comentários (1)
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maria2020
2020-11-04
Amo muito essa escritora mas confesso que nunca sonhei que escrevesse poesias acho que gosto ainda mais dela ela é muito boa
Affonso Romano de Sant'Anna e Marina Colasanti - 58° Feira do Livro de Porto Alegre
ÁGUA ACIMA, miniconto do livro Hora de alimentar serpentes, por Marina Colasanti
Marina Colasanti (Asmara (Etiópia), 1937) chegou ao Brasil em 1948, e sua família se radicou no Rio de Janeiro. Entre 1952 e 1956 estudou pintura com Catarina Baratelle; em 1958 já participava de vários salões de artes plásticas, como o III Salão de Arte Moderna. Nos anos seguintes, atuou como colaboradora de periódicos, apresentadora de televisão e roteirista. Em 1968, foi lançado seu primeiro livro, Eu Sozinha; de lá para cá, publicaria mais de 30 obras, entre literatura infantil e adulta. Seu primeiro livro de poesia, Cada Bicho seu Capricho, saiu em 1992. Em 1994 ganhou o Prêmio Jabuti de Poesia, por Rota de Colisão (1993), e o Prêmio Jabuti Infantil ou Juvenil, por Ana Z Aonde Vai Você?. Suas crônicas estão reunidas em vários livros, dentre os quais Eu Sei, mas não Devia (1992). Nelas, a autora reflete, a partir de fatos cotidianos, sobre a situação feminina, o amor, a arte, os problemas sociais brasileiros, sempre com aguçada sensibilidade.
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