Lista de Poemas
70
colher no seu anel de estrela inóx,
a força terrestre da colher e da chávena,
coisas ditas com luz própria erguida,
palavra e mão uma a uma até ao cume irrespirável de umas quantas
linhas,
e ninguém sabe por mais abrupto que suba da muita iluminação,
dias botânicos, cerâmicos, aumentados,
frutas a pleno oxigénio,
o verão é de azulejo,
que vida alpinista, que epifania!
de tudo se fulgura e se resulta curto,
néon de um astro no quarto,
trate-se o erro intratável no recôndito sentado,
mas antes sentido a salto do que sentado escrito
55
com piscadelas de olho ao “real quotidiano’’,
aqui o autor diz: desculpe, sr. dr., mas:
merda!, 1971 — e agora,
mais de trinta anos na cabeça e no mundo,
e não,
não um dr. mas mil drs. de um só reino,
e não se tem paciência para mandar tantas vezes à merda,
oh afastem de mim O reino,
afastem-nos a eles todos,
atirem-lhes aos focinhos o que puderem dela,
sim até se acabar a mirífica montanha,
ó stôr não me foda com essa de história literária,
O stôr passou-se da puta da mona,
a terra extravasa do real feito à imagem da merda,
e então vou-me embora,
quer dizer que falo para outras pessoas,
falo em nome de outra ferida, outra
dor, outra interpretação do mundo, outro amor do mundo,
outro tremor,
se alguém puder tocar em alguém oh sim há-de encontrar alguém
em quem toque,
dedos atentos atados à cabeça,
luz,
um punhado de luz,
cada lenço que se ata a própria seda do lenço O desata,
a luz que se desata,
aí é que se ouve a gramática cantada, imagine-se, cantada para sempre
sem se ver a quem,
baixo ressoando,
alto ressoando,
mexendo os dedos nas costuras de sangue entre as placas do cabelo rude,
rútilo cabelo e o sangue que suporta tanta rutilação, tanta
beltà, beauty, que beleza! diz-se, fique
aí onde está dr. porque para si já se reservou
um quilo, uma tonelada, desculpe,
estou com pressa,
alguém lá fora dança na floresta devorada,
alguém primeiro escuta depois canta através da floresta devorada,
desculpe dr. mas já desapareci como quem se abisma
num espaço de hélio e labaredas,
eu próprio atravesso o incêndio imitando uma floresta,
fui-me embora pela floresta infravermelha fora,
não estou para essas merdas floresta infravermelha fora
41
e amadureces,
e no meio de azulejos, torneiras, gás, temperaturas,
tocas,
por favor da ferida primeira,
no teu centro, tocas
para causar profundidade,
quer dizer: vem o Deus que há-de vir, sente-se
contra a água e a cabeça,
tão perto, contra
kapput,
a cabeça
purificada
— e o Deus que há-de vir há-de vir andando sobre as águas? —
nada no mundo pede de ti o poder da dança,
nenhum poder debaixo da água lustral que te abraça,
por teor dos movimentos do duche,
te despe e abraça,
entre membros e ilhargas, o nó que rematou a obra
desde o remoto, essa
sim jubilação arcaica,
pois por trás da cortina plástica já se exacerba
a matéria dos dons, tão
leve
linguagem, uma
espécie de técnica do temor e tremor no quotidiano entre objectos
de uso
como:
champô e gel, e em cheio, baptismal, no cabelo,
o chuveiro de Deus,
e ei-la, a tua mão vibrante, ou pela força do sangue
que suporta pensamento e corpo
e a palavra,
ou pela força dos ramais desde as rudes reservas
até como estremeces sob águas assim
sopradas, e sobretudo o que não sabes que te abala
nos fundamentos
a cada instante inseparável
(na banheira)
82
em idioma: um copo de água agreste plenamente na mesa,
só em linguagem o copo me inebria
— placa de gelo em que lóbulos
do cérebro? — e exalta-me a transparência, porque
fora, sob
administração
geral: ciência, literatura, economia, gramática,
nada, nenhum copo, nenhuma água na mesa,
me fazem sangrar aferida essencial, ou mover-me
às cegas e às avessas
até ao último reduto; só antes,
por trás, depois,
à frente, eu sinto que a membrana de vidro, reservando uma pouca
de água miraculadamente do caos
dos dicionários, me despedaça
como primeira palavra,
não apenas os dedos, mas dedos e memória, devotação de vida;
a lição do nome
que não tem Deus, e de que o nosso nome
diminuto se aproxima; basta aquela água delgada enquanto algures
ceifam na terra,
edificam; água colhida no verbo
copo ou em Deus advérbio
de modo,
e há um nó interno requeimado, um nó semântico, e um calafrio
trespassa a bic preta, e em nativo escrevo
a música de ouvido,
e o ar que está por cima enche
todo o caderno,
e equilibram-se
o copo sobre a toalha, transparência, plano de água,
e dedos e papel e script e trémula superfície da memória,
tudo passado a multíplice e ardente
45
tão junto ao granito, de olho ríspido,
e o outro olho sob a pálpebra virado do avesso,
para dentro,
a luz movendo-se no sistema
cérebro,
cerebelo,
bolbo raquidiano,
e eu digo: ,;tu que no granito atas um nó ou desatas um laço,
como alguém bate na madeira fechada
e bota flor, na vidraria fechada,
na prata, na fala fechada e bota flor,
talvez alguém que não ouvisse, e a gente batesse, e ele
jogasse o ar na cara da gente
e botasse flor?
e então ele diz que não lavra só uma pedra
e que fazes então na ordem das coisas entre nó e laço?
faço a beleza ,;que beleza?
faço-a comum, manual, analfabeta,
mas não fecho só um nó nem abro só um laço,
com o grosso movimento das riscas do analfabeto da gente,
eu faço numa pedra a catedral inteira
63
gloria in excelsis, a minha língua na tua língua,
também eu queria escrever um poema maior que o mundo,
escrevê-lo com o mais verbal e primeiro de mim mesmo,
o mais irrefutável,
quem do caos ouvisse subir os cantantes capítulos,
quem dessa altura do nome tirasse uma língua para confundir
qualquer poema escrito em bárbaro soberbíssimo,
eu que disse: nas inexpugnáveis retretes da terra casam-se língua
e poesia,
não tenho qualquer memória nupcial:
retretes graves, há sempre;
português, menos;
poesia, faz tempo que não conheço nenhuma,
quero dizer: ílima, íssima, poesia superlativa absoluta simples ou
sintética indizível,
ponta com ponta tocando-se dentro da boca,
é por lá que se apura em leveza e quilate o elemento ouro:
toca-me lábil,
língua,
alerta, silvestre, tão como vais morrer,
com menos favor, menos condição, menos poder que todos os
fenómenos da língua e do mundo,
mas se é mister que te salves,
faz então um mistério e não te salves para ninguém,
porque tu és mais surgida,
mais sucessiva,
mais falada em música,
com mais atenção inspirada, digo,
tudo por começar és com mais respiração:
melhor é saliva língua na língua do que revolvê-la em poemas maiores
ou falá-la,
na vida pessoal de repente uma língua encontrada,
sabe-se como todos morrem pela boca,
espero não encontrá-la nunca,
espero mesmo não encontrar a mão de Deus,
a sua mão esquerda,
o poema galáctico que escreveu era ainda infante,
espero nada encontrar faiscando nas trevas aquando da ressurreição
frente às riquezas dos reinos,
a minha língua na tua língua em todos os sentidos sagrados e profano:
saliva, muita, e temperatura animal
56
abaixo do cabelo,
sentado à mesa brilhando ou em pé brilhando muito,
acima de onde as obras,
abaixo de onde as obras se lavraram,
o dito assintáctico do poema, o exercício, o poema físico, o de abrupto
sentido, o poema absoluto,
acima da camisa sobre o sangue,
abaixo da camisa,
poema tão difícil aprendido até ao último erro,
e entre caos e melancolia,
a mão:
pela escrita da memória assoprada na folha:
a actividade prática,
rápida:
mão plenária apanhando o dia de cada sítio em cada sítio transborda
em nome de outra lição, outra
dor, outro júbilo, outro louvor, outra interpretação do mundo, outro amor do mundo,
outro tremor, outro mundo,
e os dedos trabalhados pela bic apanham tudo, o cru e o cozido, o aberto e o fechado, os elementos leves ar e fogo
e a ciência dos fenómenos:
a acerba, funda língua portuguesa,
poema revolvido a quente e resolvido
a frio entre os átomos,
o puro rebrilhar
irredutível, irreversível, imperecível: saber a quantas
translações estamos
entre sujeito e acto, a quanto preto bic do escrito,
auto de autor, a luz inteligente sobre o mundo,
magnificência,
e o mundo, entre visto e emendado e rescrito
46
não me corta o sangue escrito,
não corta a água,
e quem não queria uma língua dentro da própria língua?
eu sim queria,
jogando linho com dedos, conjugando
onde os verbos não conjugam,
no mundo há poucos fenómenos do fogo,
água há pouca,
mas a língua, fia-se a gente dela por não ser como se queria,
mais brotada, inerente, incalculável,
e se a mão fia a estriga e a retoma do nada,
e a abre e fecha,
é que sim que eu a amava como bárbara maravilha,
porque no mundo há pouco fogo a cortar
e a água cortada é pouca,
jque língua,
que húmida, muda, miúda, relativa, absoluta,
e que pouca, incrível, muita,
e la poésie, c’est quand le quotidien devient extraordinaire, e que
música,
que despropósito, que língua língua,
disse Maurice Lefèvre, e como rebenta com a boca!
queria-a toda
68
ou de lado
a lado negro, quando se é esquerdo,
o amargo e o canhestro à custa
de fôlego e lenta
bebedeira: o esforço de estar vivo —
e lunas e esteias: e as vozes magnificam pequenas
coisas das casas, e teias dos elementos
pelas janelas, teias
portas adentro: da água compacta no corpo das paredes,
do ar a circundar as zonas veementes dos utensílios
— e a música mirabilíssima que ninguém escuta:
o duro, duro nome da tua oficina de mão torta,
boca cheia de areia estrita, áspera cabeça,
tanto que só pensas:
se isto é música, ou condição de música, se isto é para estar redivivo,
então não percebo sequer o movimento, digamos,
da laranja
na fruteira, ou o movimento da luz na lâmpada,
ou
o movimento do sangue na garganta
impura — e menos ainda percebo o movimento que já sinto
no papel se se aproxima, por exemplo,
pelo tremor da textura
do caderno e da força da
esferográfica dolorosa, a palavra Deus saída pronta,
arrebatada aos limbos, como se diz que se arrebata
aos ferros, a poder de tenazes e martelos,
um objecto, vá lá, supremo:
uma chave, quer
se queira quer se não queira, mas
que não abre coisa alguma: que abre, a partir de como se está de rojo,
um espaço em cada nome, e nesse espaço se possa
dançar, no abismo entre um quarto
e outro quarto da terra, dançar dentro do ar como para
o ar bater nas paredes, e as paredes
estremecerem com a água esmagada contra si própria —
e depois ninguém fala, e cada
coisa actua
sobre cada coisa, e tudo o que é visível abala
o território invisível.
Redivivo. E foi por essa mínima palavra que apareceu não
se sabe o quê que arrancou
à folha e à esferográfica canhota a poderosa superfície
de Deus, e assim é
que te encontraste redivivo, tu que tinhas morrido um momento antes,
apenas.
59
ou assintáctico ou mágico, mas:
um pouco louco,
porque faço com mãos estilísticas um invento fora e dentro dos estados
naturais:
e a faúlha e o ar à volta dela, jóia, digo, quero-a de repente,
e as matérias maduras e dramáticas: ouro, petróleo:
e com que potência mandibular me debruço sobre o prato,
e ávido e inculto,
com mão aprendiz côlho o áspero alimento do mundo,
e rosto, membros, torso, radiações dos dedos,
trabalho no meu nome,
obra pequena de hemoglobina, enxofre, células, osso, lume,
para estar mais perto de quem acaso me chame ou toque
— eu,
sem beleza nem maravilha,
só dor,
desamor ou descuidada memória —
mas me conheça por isso que não é bem música,
talvez sim um som
dificílimo, sêco, acerbo, rouco, côncavo, precaríssimo
de apenas consoantes,
pregos
Comentários (4)
I can't keep a secret??
H. H.
Gostei muito , mas a escrita não e grande coisa , mas gostei +- . É razoável . 12/10
Casava
Etc
Exemplos
A colher na boca
1961
Poemacto
1961
Lugar
1962
A máquina de emaranhar Paisagens
1963
Comunicação Académica
1963
A Máquina Lírica (Electronicolírica)
1964
Húmus
1967
O Bebedor Nocturno
1968
Apresentação do rosto
1968
Cinco canções Lacunares
1968
Antropofagias
1973
Os brancos arquipélagos
1973
Cobra
1977
O corpo, o luxo, a obra
1978
Photomaton & Vox
1979
Flash
1980
A cabeça entre as mãos
1982
Última ciência
1988
Os selos
1990
Os selos, outros, últimos
1991
Do mundo
1994
A faca não corta o fogo
2008
Servidões
2013
A morte sem mestre
2014
Minha cabeça estremece - Herberto Helder // Rodrigo Leão
Herberto Helder
Morreu o poeta Herberto Helder
Herberto Helder dito por Luis Miguel Cintra
Deixarei Os Jardins A Brilhar Com Seus Olhos| Poema de Herberto Helder narrado por Mundo Dos Poemas
Não Sei Como Dizer-te | Poema de Herberto Helder com narração de Mundo Dos Poemas
Os poetas - "No sorriso louco das mães" (Herberto Helder) disco "entre nós e as palavras" (1997)
Herberto Helder :: Bate-me à porta, em mim / Por Luís Lucas
Poesia e realidade pela obra de Herberto Helder - Aula 1
Um livreiro que, às vezes, desaconselha a poesia de Herberto
A última bilha de gás durou dois meses e três dias
Este Lugar Não Existe, Herberto Helder
Descortinar Herberto Helder com Joana Matos Frias
HERBERTO HELDER - Poetas do Mundo #17
Herberto Helder :: Havia um homem que corria pelo orvalho dentro
Herberto Helder :: A manhã começa a bater no meu poema
Herberto Helder — O amor em Visita (por José-António Moreira)
Herberto Helder diz "Este lugar não existe" disco single s/ titulo (1968)
Os poetas - "Minha cabeça estremece" (Herberto Helder) disco "entre nós e as palavras" (1997)
"Levanto à vista" - Poema de Herberto Helder, dito por Fernando Alves
“Poemas Completos”, de Herberto Helder
Ep 512 | Herberto Hélder
Herberto Helder: Crítica e Criação - Profa. Dra. Joana Matos Frias
Não sei como dizer-te | poema de Herberto Helder
Sobre Um Poema | Poema de Herberto Helder com narração de Mundo Dos Poemas
Herberto Helder diz "A manhã começa a bater no meu poema" disco single s/ titulo (1968)
Herberto Helder :: Levanto à vista / Por Fernando Alves
Herberto Helder :: Minha cabeça estremece / Música de Rodrigo Leão & Gabriel Gomes
Herberto Helder :: Um quarto dos poemas é imitação literária / Por Fernando Alves
Herberto Helder - via INIMIGO RUMOR
Herberto Helder :: O actor / Por Mário Viegas
HERBERTO HELDER E O ESFACELAMENTO DO SIGNO
Dons do Amante, Herberto Hélder
Alguns traços da obra poética de Herberto Helder
Herberto Helder - Tríptico (por José-António Moreira)
RODRIGO LEÃO - HERBERTO HELDER
Herberto Helder
Tributo a Herberto Helder
Não sei como dizer-te - poema de Herberto Helder.
16 poemas Zen de Herberto Helder: 06 - o galo de madeira
Poesia e realidade pela obra de Herberto Helder - Aula 2
Herberto Hélder ● A Simple Tribute
Herberto Helder :: As manhãs começam logo com a morte das mães / Por Fernando Alves
herberto helder
Herberto Helder diz "Havia um homem que corria" disco single s/ titulo (1968)
Evandro Affonso Ferreira recomenda "Os Passos em Volta" de Herberto Helder | Super Libris
16 poemas Zen de Herberto Helder: 08 - o teu cavalo
Tributo a Herberto Helder
16 poemas Zen de Herberto Helder: 10 - o peixe e o pássaro
Poesia e realidade pela obra de Herberto Helder - Aula 4
Português
English
Español