Lista de Poemas
O Meu Desejo
Olhando a nuvem de oiro que flutua...
Ó minha perfeição que criou Deus
E que num dia lindo me fez sua!
Nos altos que diviso pela rua,
Que cruzam os seus passos com os meus...
Minha boca tem fome só da tua!
Meus olhos têm sede só dos teus!
Sombra da tua sombra, doce e calma,
Sou a grande quimera da tua alma
E, sem viver, ando a viver contigo...
Deixa-me andar assim no teu caminho
Por toda a vida, Amor, devagarinho,
Até a morte me levar consigo...
Neurastenia
Um sino dobra em mim, Ave-Marias!
Lá fora, a chuva, brancas mãos esguias,
Faz na vidraça rendas de Veneza...
O vento desgrenhado, chora e reza
Por alma dos que estão nas agonias!
E flocos de neve, aves brancas, frias,
Batem as asas pela Natureza...
Chuva... tenho tristeza! Mas por quê?!
Vento... tenho saudades! Mas de quê?!
Ó neve que destino triste o nosso!
Ó chuva! Ó vento! Ó neve! Que tortura!
Gritem ao mundo inteiro esta amargura,
Digam isto que sinto que eu não posso!!...
Vão Orgulho
É um orgulho a mais, outra vaidade,
A coroa de loiros desfolhada
Com que se espera a Imortalidade.
Ser Beatriz! Natércia! Irrealidade...
Mentira... Engano de alma desvairada...
Onde está desses braços a verdade,
Essa fogueira em cinzas apagada?...
Mentira! Não te quis... não me quiseste...
Eflúvios subtis dum bem celeste?
Gestos... palavras sem nenhum condão...
Mentira! Não fui tua... não! Somente...
Quis ser mais do que sou, mais do que gente,
No alto orgulho de o ter sido em vão!...
Évora
Cor de violetas roxas... Ruas frades
Pedindo em triste penitência a Deus
Que nos perdoe as míseras vaidades!
Tenho corrido em vão tantas cidades!
E só aqui recordo os beijos teus,
E só aqui eu sinto que são meus
Os sonhos que sonhei noutras idades!
Évora!... O teu olhar... o teu perfil...
Tua boca sinuosa, um mês de Abril
Que o coração no peito me alvoroça!
...Em cada viela o vulto dum fantasma...
E a minha alma soturna escuta e pasma...
E sente-se passar menina-e-moça...
Sonho Vago
Erguido ao alto em horas de demência...
Gotas de água que tombam em cadência
Na minh’alma tristíssima, distante...
Onde está ele o Desejado? O Infante?
O que há de vir e amar-me em doida ardência?
O das horas de mágoa e penitência?
O Príncipe Encantado? O Eleito? O Amante?
E neste sonho eu já nem sei quem sou...
O brando marulhar dum longo beijo
Que não chegou a dar-se e que passou...
Um fogo-fátuo rútilo, talvez...
E eu ando a procurar-te e já te vejo!...
E tu já me encontraste e não me vês!...
Angústia
Quem nos dera calar a tua voz!
Quem nos dera cá dentro, muito a sós,
Estrangular a hidra num momento!
E não se quer pensar!... E o pensamento
Sempre a morder-nos bem, dentro de nós...
Q’rer apagar no Céu – Ó sonho atroz! –
O brilho duma estrela, como o vento!...
E não se apaga, não... nada se apaga!
Vem sempre rastejando como a vaga...
Vem sempre perguntando: “O que te resta?...”
Ah! não ser mais que o vago, o infinito!
Ser pedaço de gelo, ser granito,
Ser rugido de tigre na floresta!
O Meu Condão
Como o diamante à luz que o alumia,
Dar-me uma alma fantástica, impossível:
– Um bailado de cor e fantasia!
Quis Deus fazer de ti a ambrosia
Desta paixão estranha, ardente, incrível!
Erguer em mim o facho inextinguível,
Como um cinzel vincando uma agonia!
Quis Deus fazer-me tua... para nada!
– Vãos, os meus braços de crucificada,
Inúteis, esses beijos que te dei!
Anda! Caminha! Aonde?... Mas por onde?...
Se a um gesto dos teus a sombra esconde
O caminho de estrelas que tracei...
Para quê?!
Tudo é tristeza; tudo é pó, é nada!
E mal desponta em nós a madrugada,
Vem logo a noite encher o coração!
Até o amor nos mente, essa canção
Que o nosso peito ri à gargalhada,
Flor que é nascida e logo desfolhada,
Pétalas que se pisam pelo chão!...
Beijos d’amor! Pra quê?!... Tristes vaidades!
Sonhos que logo são realidades,
Que nos deixam a alma como morta!
Só acredita neles quem é louca!
Beijos d’amor que vão de boca em boca,
Como pobres que vão de porta em porta!...
A Minha Dor
A minha Dor é um convento ideal
Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.
Os sinos têm dobres d’agonias
Ao gemer, comovidos, o seu mal...
E todos têm sons de funeral
Ao bater horas, no correr dos dias...
A minha Dor é um convento. Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca os viu alguém!
Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro!
E ninguém ouve... ninguém vê... ninguém...
Mais Triste
Do Mar imenso! E aquela voz fatal
Com que ele fala, agita o nosso mal!...
E a Noite é triste como a Extrema-Unção.
É triste e dilacera o coração
Um poente do nosso Portugal!
E não veem que eu sou... eu... afinal,
A coisa mais magoada das que o são!
Poentes d’agonia tenho-os eu
Dentro de mim, e tudo quanto é meu
É um triste poente d’amargura!
E a vastidão do Mar, toda essa água
Trago-a dentro de mim num Mar de Mágoa!
E a Noite sou eu própria, a Noite escura!
Comentários (13)
FLORBELA ESPANCA : paixão na primeira poesia! poesia que vasa sentimento pra todos os lados! sentimentos que espelham sofrimentos d'alma!
Alma luz! Poesia.
naseu en 8 de dezembro e moreu em 8 de dezembro
.....erro atrás de erro.... Cada calinada ortográfica capaz de por vacas a grunhir.....Deus, assevera que a língua portuguesa em locais de domínio linguístico como este é suposto ser, dizia, deixa no exterior erros crassos, quer de incúria, quer por livre arbítrio
.....quanto à violência mefítica daqueles que, por não se saberem sentados em palha, julgarão seus atributos na jactância da vil existência que se lhes (a eles próprios) conferem. Falar ou opinar sobre língua portuguesa e, com quem dela se serviu para redesenharem a sua alma como Deus assentiu o mundo pela geometria, sem o fervor da deferência, então nada sabe sobre o parir duma Essência
Quem foi FLORBELA ESPANCA I 50 FATOS
Aula 36 - Poetisa original: Florbela Espanca
Ser Poeta - Florbela Espanca - Cantado por Luís Represas
Eu | Poema de Florbela Espanca com narração de Mundo Dos Poemas
Florbela Espanca Documentário
Mariza - Desejos Vãos (Florbela Espanca) HD Fado Live Lisboa
Florbela Espanca na UFRGS (Literatura)
Fagner, Zé Ramalho - Fanatismo (Sobre Poema de Florbela Espanca) (Ao Vivo)
Nunca Fui Como Todos | Poema de Florbela Espanca com narração de Mundo Dos Poemas
Conheça a história da poetisa Florbela Espanca
Silêncio | Poema de Florbela Espanca com narração de Mundo Dos Poemas
Clara Troccoli | Ódio? | Florbela Espanca
Fanatismo - Fagner / Florbela Espanca
O Meu Impossível | Poema de Florbela Espanca com narração de Mundo Dos Poemas
A Mulher II | Poema de Florbela Espanca com narração de Mundo Dos Poemas
Florbela Espanca - "Versos"
Em Busca Do Amor | Poema de Florbela Espanca com narração de Mundo Dos Poemas
FLORBELA ESPANCA - DOCUMENTÁRIO
Ser Poeta - Trovante (Florbela Espanca) [Portugal]
FLORBELA ESPANCA | A História de vida dela [BIOGRAFIA]
Eunice Munõz diz dez poemas de Florbela Espanca*
Ler Mais Ler Melhor Vida e Obra de Florbela Espanca
Os Versos Que Te Fiz | Poema De Florbela Espanca Narrado Por Mundo Dos Poemas
Valéria Amar amar (Florbela Espanca)
Herman José - Entrevista Histórica a Florbela Espanca
Poesia "Os Versos Que Te Fiz" [Florbela Espanca]
Ser Poeta - Florbela Espanca (Cantado por Luís Represas)
Falo De Ti Às Pedras Das Estradas | Poema de Florbela Espanca com narração de Mundo Dos Poemas
Análise sobre os poemas "Vaidade" e "Eu" de Florbela Espanca.
Silêncios: Se tu viesses ver-me de Florbela Espanca
EU| FLORBELA ESPANCA | ANÁLISE DO POEMA
MARÍLIA PÊRA lendo o poema FANATISMO, de Florbela Espanca.
Florbela Espanca: a primeira feminista de Portugal?
Florbela Espanca - Primavera
Florbela Espanca | João Villaret | são mortos
Poesias de Florbela Espanca Na Voz de Miguel Falabella
Vila Viçosa: “A Casa Florbela Espanca quer ser um meio para celebrar o mundo das artes”
Florbela Espanca | Miguel Falabella | os versos que te fiz
Quién es Florbela Espanca
Fascinação, FlorBela Espanca.
Esquecimento | Poema de Florbela Espanca com narração de Mundo Dos Poemas
Poesia "Se Tu Viesses Ver-me" [Florbela Espanca]
Amar "Florbela Espanca" D'ALMA
Florbela Espanca | João Villaret | alma a sangrar
trecho do poema Amar de Florbela Espanca e Amor é Fogo que Arde Sem se Ver de Camões - AMO POEMAS.
SAUDADES - FLORBELA ESPANCA | SOMOS LINGUAGENS
Vaidade | Poema de Florbela Espanca com narração de Mundo Dos Poemas
Amar | Florbela Espanca
FLORBELA ESPANCA | Poetas do Mundo #10
Poema "Ódio?" de Florbela Espanca.
Registada como filha de pai incógnito, foi todavia educada pelo pai e pela madrasta, Mariana Espanca, em Vila Viçosa, tal como seu irmão de sangue, Apeles Espanca, nascido em 1897 e registado da mesma maneira. Note-se como curiosidade que o pai, que sempre a acompanhou, só 19 anos após a morte da poetisa, por altura da inauguração do seu busto, em Évora, e por insistência de um grupo de florbelianos, a perfilhou.
Estudou no liceu de Évora, mas só depois do seu casamento (1913) com Alberto Moutinho concluiu, em 1917, a secção de Letras do Curso dos Liceus. Em Outubro desse mesmo ano matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, que passou a frequentar. Na capital, contactou com outros poetas da época e com o grupo de mulheres escritoras que então procurava impor-se.
Colaborou em jornais e revistas, entre os quais o Portugal Feminino. Em 1919, quando frequentava o terceiro ano de Direito, publicou a sua primeira obra poética, Livro de Mágoas.
Em 1921, divorciou-se de Alberto Moutinho, de quem vivia separada havia alguns anos, e voltou a casar, no Porto, com o oficial de artilharia António Guimarães. Nesse ano também o seu pai se divorciou, para casar, no ano seguinte, com Henriqueta Almeida. Em 1923, publicou o Livro de Sóror Saudade.
Em 1925, Florbela casou-se, pela terceira vez, com o médico Mário Laje, em Matosinhos. Os casamentos falhados, assim como as desilusões amorosas, em geral, e a morte do irmão, Apeles Espanca (a quem Florbela estava ligada por fortes laços afectivos), num acidente com o avião que tripulava sobre o rio Tejo, em 1927, marcaram profundamente a sua vida e obra.
Em Dezembro de 1930, agravados os problemas de saúde, sobretudo de ordem psicológica, Florbela morreu em Matosinhos, tendo sido apresentada como causa da morte, oficialmente, um «edema pulmonar».
Postumamente foram publicadas as obras Charneca em Flor (1930), Cartas de Florbela Espanca, por Guido Battelli (1930), Juvenília (1930), As Marcas do Destino (1931, contos), Cartas de Florbela Espanca, por Azinhal Botelho e José Emídio Amaro (1949) e Diário do Último Ano Seguido De Um Poema Sem Título, com prefácio de Natália Correia (1981). O livro de contos Dominó Preto ou Dominó Negro, várias vezes anunciado (1931, 1967), seria publicado em 1982.
A poesia de Florbela caracteriza-se pela recorrência dos temas do sofrimento, da solidão, do desencanto, aliados a uma imensa ternura e a um desejo de felicidade e plenitude que só poderão ser alcançados no absoluto, no infinito.
A veemência passional da sua linguagem, marcadamente pessoal, centrada nas suas próprias frustrações e anseios, é de um sensualismo muitas vezes erótico. Simultaneamente, a paisagem da charneca alentejana está presente em muitas das suas imagens e poemas, transbordando a convulsão interior da poetisa para a natureza.
Florbela Espanca não se ligou claramente a qualquer movimento literário. Está mais perto do neo-romantismo e de certos poetas de fim-de-século, portugueses e estrangeiros, que da revolução dos modernistas, a que foi alheia. Pelo carácter confessional, sentimental, da sua poesia, segue a linha de António Nobre, facto reconhecido pela poetisa.
Por outro lado, a técnica do soneto, que a celebrizou, é, sobretudo, influência de Antero de Quental e, mais longinquamente, de Camões. Poetisa de excessos, cultivou exacerbadamente a paixão, com voz marcadamente feminina (em que alguns críticos encontram dom-joanismo no feminino).
A sua poesia, mesmo pecando por vezes por algum convencionalismo, tem suscitado interesse contínuo de leitores e investigadores. É tida como a grande figura feminina das primeiras décadas da literatura portuguesa do século XX.TORMENTO DO IDEAL
Laury Maciel[1]
Florbela d’Alma da Conceição Lobo Espanca nasceu em Vila Viçosa (Alentejo), em 1894. Seus primeiros versos são da época em que fez o curso secundário, em Évora, e que somente viriam a ser reunidos em volume depois de sua morte.
Malogrado seu casamento, vai para Lisboa estudar Direito e, nesse mesmo ano, 1919, publica Livro de mágoas, que passa despercebido. Igual destino teve a obra seguinte, Livro de Soror Saudade, dado a lume em 1923. Novamente infeliz no casamento, retira-se do convívio social, embora continue a escrever poesia e a publicá-la ao acaso. Recolhe-se a Matosinhos, já agora estimulada pelas renovadas esperanças de felicidade conjugal, mas seus versos entram a dar sinais de exaustão. Morre, segundo alguns estudiosos, de suicídio, em 1930.
Toda a produção de Florbela entre os anos de 1915 e 1917 – tanto em poesia como em contos – foi escrita em um livro de mercearia ao qual ela deu o título de Trocando olhares. Deste livro ela separou 33 poemas para publicar sob o título de O livro d’ele, o que não aconteceria.
Publicou os livros de poesia: Livro de mágoas, 1919; Livro de Soror Saudade, 1923; Reliquiae, 1931; Charneca em flor, 1929. E contos: As máscaras do destino, 1931; Dominó negro, 193l.
Talvez Tormento do ideal, título de um dos sonetos de Antero de Quental[2], de quem Florbela Espanca foi discípula – e que recorrera ao suicídio, na impossibilidade de respostas para suas indagações de ordem teológico-existencial –, possa lançar tênue luz sobre a trajetória filosófica e moral da poeta, da qual certamente a base é o amor. “Dele brotam – como notou muito bem Antônio Freire – todas as qualidades e defeitos da poetisa; nele, até, mergulha raízes profundas a prodigiosa inspiração poética que a imortalizou como artista”.
Portadora de uma insaciável sede de amar, logo convertida em ideário de vida, tem início sua dolorosa tragédia: a impossibilidade de expressar, à perfeição, este estado de alma.
Feliciano Ramos, em sua excelente História da Literatura Portuguesa, assinala que “Escolheu (Florbela Espanca) o soneto para transmitir a sua perturbante e sombria interioridade. Dentro dessa pequenina fórmula métrica e estrófica, Florbela move-se e realiza-se com todo o à vontade: crê-se que os seus versos registram com estridência dramática o cruciante viver de sua ‘alma trágica e doente’ (soneto Ao vento). E, no entanto, embora os sonetos de Florbela sejam tão angustiosos e contagiantes, ela tristemente verifica a impossibilidade de efetuar a comunicação integral de sua desventura: no soneto Impossível, confessa que a sua dor é tão grande que não caberia mesmo em ‘cem milhões de versos’, caso os viesse a escrever.” E continua Feliciano Ramos: “Agitada por eterna ansiedade, está sempre longe de encontrar o que espera: ‘o meu reino fica para além’ dirá Florbela, assediada pelo tormento de constantemente pedir à vida mais do que ela pode dar. Esta ‘inquietação’ de exilada da realidade inspira-lhe versos comoventes”.
Nesse sentido – me parece – é que no mencionado Tormento do ideal (soneto em que Antero traduz, à perfeição, todo o seu pessimismo à Schopenhauer), reside integralmente o drama existencial de Florbela Espanca: a inútil busca da forma para expressá-lo:
Tropeço em sombras, na matéria dura,
E encontro a imperfeição de quanto existe.
De ti que me trouxeste pela mão
Até ao brilho desta chama quente.
Ensinou-me a cantar... e essa canção
Foi ritmo nos meus versos de paixão,
Foi graça no meu peito de descrente,
Cravos rubros a arder numa fogueira.
– Águia real, apontas-me a subida!
Sempre o amor: Mesmo a um velho eu perguntei: “Velhinho, /Viste o Amor acaso em teu caminho?” / E o velho estremeceu... olhou...e riu... / (...) E eu paro a murmurar: “Ninguém o viu!”
Pior: o amor ludibriou-a: Procurei o amor que me mentiu.
A própria poeta, num autorretrato, mostra até que ponto o seu temperamento, visceralmente insatisfeito, a fadava à incompreensão: O meu talento! De que me tem servido? Não trouxe nunca às minhas mãos vazias a mais pequena esmola do destino. Até hoje não há ninguém que de mim se tenha aproximado que não me tenha feito mal. Talvez culpa minha, talvez... O meu mundo não é como o dos outros; quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que nem eu mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que se não sente bem onde está, que tem saudades... sei lá de quê!
É lícito, pois, diante de tanto sofrimento, que a confissão acima corrobora, admitir-se a ideia de que Florbela Espanca se teria suicidado. Amélia Vilar, uma estudiosa da grande poeta, afirma: Essa neurastenia que, sem dó nem piedade, lhe tumultuava no sangue, tinha de produzir os seus funestos estragos nas lamentáveis consequências do suicídio.
Se colocarmos a questão sob a jurisdição da patologia, talvez Amélia Vilar tenha razão. Mas não. Florbela padece de uma sede de infinito que nem seu invulgar talento pode saciar: um tormento do ideal, que tem a ver muito mais com a verdade literária do que com a patologia.
A verdade é que o suicídio nunca se provou, por mais que queiram justificá-lo também com uma provável relação incestuosa com seu irmão Apeles, tragicamente morto nas águas do Tejo, por quem, de fato, votava extremado amor de irmã. Tudo não passou de uma campanha difamatória, como tantas que circularam em torno da poeta.
Há um testemunho decisivo, definitivo (colhido pelo citado Antônio Freire), sobre o assunto e, que, a nosso ver, encerra o assunto: é o do padre Nuno Sanches, de Matosinhos, e que diz o seguinte: Como sacerdote católico, sei o que a Igreja estabelece para os suicidas; como coadjutor da paróquia (de Matosinhos), no cemitério do qual foi inumada a poetisa Florbela Espanca, sei que o seu enterro foi feito religiosamente, assim como o fora antes o seu casamento. Para o enterro religioso não foi pedida nenhuma dispensa ou autorização especial às autoridades eclesiásticas, o que exclui, portanto, essa tal hipótese, que tenho por caluniosa e tanto mais reprovável quando se trata de alguém que não pode defender-se.
Por tudo isso, Florbela Espanca tem sido considerada, com muita justiça, a figura feminina mais importante da Literatura Portuguesa. Sua poesia, mais significativa que seus contos e produto duma sensibilidade exacerbada por fortes impulsos eróticos, corresponde a um verdadeiro diário íntimo, cuja temperatura de confidência só encontra semelhança nas Cartas de Amor de Mariana Alcoforado.
Cansada de suplicar, a Morte é o próximo passo (como em Antero, no soneto Com os mortos): Deixai entrar a Morte, a iluminada /A quem vem para mim, pra me levar /Abri todas as portas par em par /Como asas a bater em revoada.
A tragédia da impossibilidade de comunicar um amor incorrespondido foi, portanto, a grande tragédia de Florbela Espanca, compreensível (se é que há compreensão para essas coisas) na fusão das duas personalidades da poeta numa só: a artista e a amante.
É neste sentido que o mencionado Tormento do ideal, de Antero de Quental, pode ajudar a derramar alguma luz sobre sua alma trágica.
[1] Laury Maciel (1924-2002) foi escritor, autor de Pedra dos anjos e Noites no sobrado, entre outros, livros e professor de Literatura Portuguesa.
[2]Antero Tarquírio de Quental (1842-1891), grande poeta português, figura polêmica, ativista político, teve grande influência sobre a geração de intelectuais da segunda metade do século XIX e início do século XX. Poeta notável, seu livro mais importante é Sonetos completos (1866). Esteve em Paris em 1868, onde conheceu Michelet e Proudhon, de quem passou a comunhar das ideias socialistas. Suicidou-se em 1891 com um tiro de revólver, em plena praça principal da cidade de Ponta Delgada, nos Açores.
Português
English
Español
.....começo sempre com reticências quando a minha alma não sabe o que ordenar à mão manuense....algo tangível que se lhe dedique humanamente possível atingi-la por tamanha arte de pôr na dor a poesia de sentir,, eu estive em Vila viçosa, e esta de flor só tem que ser viva
Florbela exagerada que só ela vi
Intelligent keyboards fuck words lose across the streets. ...Ha ha ha
Nâo. Ser poeta nâo é ser maior. A vossa ordem está errada. Quando quiserem saber onde comessa (o meu teclado está hostil) a a grande sabedoria de uma, talvez, quiça, a mais impoortante poetisa portuguesa, não inicuam na soberba, que, eu ateista e tolerante com todas as religiões....não posso aceitar. Grande poetisa, nâo maior que ninguém. Grande é aquele que vê na Humanidade seu alto desiderato.
Florbela, com metro ou sem métrica tenho raiva do tempo em que nos perdemos. Não acredito em épicas declarações apesar de um dos maiores de todos. Preferia ser aquela ou quem quisesses que fosse e saciasse rua sede de infinito como amiga ou realidade à tua escolha. Essa languidez envolve-me e esse medo esse frio... Pudera estar aí para te dar uma palavra uma mão uma opinião de como és real e completamente gente, admiravelmente mulher, poetiza por decorrências irresolvidas. Beijinhos
Ser poeta é ser mais alto, é ser maior Do que os homens! Morder como quem beija! É ser mendigo e dar como quem seja Rei do Reino de Aquém e de Além Dor! É ter de mil desejos o esplendor E não saber sequer que se deseja! É ter cá dentro um astro que flameja, É ter garras e asas de condor! É ter fome, é ter sede de Infinito! Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim... É condensar o mundo num só grito! E é amar-te, assim, perdidamente... É seres alma, e sangue, e vida em mim E dizê-lo cantando a toda a gente!
quanta besteira leio aqui, de pessoas que julgam, uma pessoa por seus escritos e vidaa particular.poesia é poesia, o particular fica a parte. porem, deus infelismente não dá a todos em seus neuroneos, a capacidade de ser e escrever como ''Flor Bela''...é quando se vê quanta estupidez e inguinorância.
POESIAS SAO CHATAS MAS SAO MUITO ESPERIENTES DE FAZER NAO SEI OQUE MAS E LEGAL KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK