Lista de Poemas
Na cadeia
o seu ar de contemplativos!
que é das feras de olhos acesos?!
pobres dos seus olhos cativos
passeiam mudos entre as grades,
parecem peixes num aquário.
- campo florido das saudades,
porque rebentas tumultuário?
serenos... serenos... serenos...
trouxe-os algemados a escolta.
- estranha taça de venenos
meu coração sempre em revolta.
coração, quietinho... quietinho...
porque te insurges e blasfemas?
pschiu... não batas... devagarinho...
olha os soldados, as algemas!
Eu vi a luz em um país perdido
A minha alma é lânguida e inerme.
Oh! Quem pudesse deslizar sem ruído!
No chão sumir-se, como faz um verme...
Floriram por engano as rosas bravas
No Inverno: veio o vento desfolhá-las...
Em que cismas, meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?
Castelos doidos! Tão cedo caístes!...
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que num momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!
E sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos...
Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze --- quanta flor! --- do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?
Interrogação
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.
Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do Cântico dos Cânticos.
Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno...
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.
Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.
Eu não sei se é amor. Será talvez começo...
Eu não sei que mudança a minha alma pressente...
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.
Crepuscular
De desejos de amor, dais comprimidos...
Uma ternura esparsa de balidos,
Sente-se esmorecer como um perfume.
As madressilvas murcham nos silvados
E o aroma que exalam pelo espaço,
Tem delíquios de gozo e de cansaço,
Nervosos, femininos, delicados.
Sentem-se espasmos, agonias dave,
Inapreensíveis, mínimas, serenas...
--- Tenho entre as mãos as tuas mãos pequenas,
O meu olhar no teu olhar suave.
As tuas mãos tão brancas danemia...
Os teus olhos tão meigos de tristeza...
--- É este enlanguescer da natureza,
Este vago sofrer do fim do dia.
Ao Longe os Barcos de Flores
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranqüila,
- Perdida voz que de entre as mais se exila,
- Festões de som dissimulando a hora
Na orgia, ao longe, que em clarões cintila
E os lábios, branca, do carmim desflora...
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila.
E a orquestra? E os beijos? Tudo a noite, fora,
Cauta, detém. Só modulada trila
A flauta flébil... Quem há-de remi-la?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?
Só, incessante, um som de flauta chora...
Estátua
No teu olhar sem cor, --- frio escalpelo,
O meu olhar quebrei, a debatê-lo,
Como a onda na crista dum rochedo.
Segredo dessa alma e meu degredo
E minha obsessão! Para bebê-lo
Fui teu lábio oscular, num pesadelo,
Por noites de pavor, cheio de medo.
E o meu ósculo ardente, alucinado,
Esfriou sobre o mármore correcto
Desse entreaberto lábio gelado...
Desse lábio de mármore, discreto,
Severo como um túmulo fechado,
Sereno como um pélago quieto.
Vida
Irrompe o campo das liliáceas.
Foi bem fecunda, a estação pluviosa!
Que vigor no campo das liliáceas!
Calquem. Recal-quem, não o afogam.
Deixem. Não calquem. Que tudo invadam.
Não as extinguem. Porque as degradam?
Para que as calcam? Não as afogam.
Olhem o fogo que anda na serra.
É a queimada... Que lumaréu!
Podem calcá-lo, deitar-lhe terra,
Que não apagam o lumaréu.
Deixem! Não calquem! Deixem arder.
Se aqui o pisam, reben-ta além.
- E se arde tudo? - Isso que tem?
Deitam-lhe fogo, é para arder...
Viola Chinesa
Ao longo da viola morosa
Vai adormecendo a parlenda,
Sem que, amadornado, eu atenda
A lengalenga fastidiosa.
Sem que o meu coração se prenda,
Enquanto, nasal, minuciosa,
Ao longo da viola morosa,
Vai adormecendo a parlenda.
Mas que cicatriz melindrosa
Há nele, que essa viola ofenda
E faz que as asitas distenda
Numa agitação dolorosa?
Ao longo da viola, morosa...
QUEM POLUIU
Onde esperei morrer - meus tão castos lençóis?
Do meu jardim exíguo os altos girassóis
Quem foi que os arrancou e lançou no caminho?
Quem quebrou (que furor cruel e simiesco!)
A mesa de eu cear - tábua tosca de pinho?
E me espalhou a lenha? E me entornou o vinho?
- Da minha vinha o vinho acidulado e fresco...
Ó minha pobre mãe!... Nem te ergas mais da cova.
Olha a noite, olha o vento. Em ruína a casa nova...
Dos meus ossos o lume a extinguir-se breve.
Não venhas mais ao lar. Não vagabundes mais,
Alma da minha mãe... Não andes mais à neve,
De noite a mendigar às portas dos casais.
Comentários (1)
camilo pessanha
Documentário: Camilo Pessanha, Um Poeta ao Longe
Porque o Melhor, Enfim...| Poema de Camilo Pessanha com narração de Mundo Dos Poemas
Camilo Pessanha | Vamos Todos Morrer | Antena 3
Interrogação | Poema DE Camilo Pessanha com Narração De Mundo Dos Poemas
Simbolismo Português | Eugênio de Castro e Camilo Pessanha
Estátua | Poema de Camilo Pessanha com narração de Mundo Dos Poemas
CAMILO PESSANHA - Poetas do Mundo #27
Caminho II | Poema de Camilo Pessanha com narração de Mundo Dos Poemas
Camilo Pessanha
Camilo Pessanha
Especial Camilo Pessanha 150 Anos
Camilo Pessanha - Parte 1
Clepsydra, de Camilo Pessanha ⏳
SAIBA UM POUCO MAIS SOBRE O POETA PORTUGUÊS CAMILO PESSANHA
Aula 79 - Poeticamente, o que é a vida (em David Mourão-Ferreira e Camilo Pessanha)
Camilo Pessanha. Caminho (I)
Camilo Pessanha - Trabalho de Literatura
Camilo Pessanha
Homenagem ao grande poeta ...Camilo Pessanha.wmv
CAMILO PESSANHA - Passou o outono (poema recitado)
"Clepsydra" by Camilo Pessanha || OPINIÃO
AUDIOLIVRO: "Clepsidra", de Camilo Pessanha
Camilo Pessanha: Branco e Vermelho (Audiobook)
Projeto INSCRIÇÃO: o universo literário de Camilo Pessanha
"Pintores poetas, Pintura e Caligrafia na Doação Camilo Pessanha"
Book Review: "Clepsidra", de Camilo Pessanha.
Simbolismo Portugal [Prof. Noslen]
"Não sei se isto é amor" - Poema de Camilo Pessanha
Camilo Pessanha
FLORIRAM POR ENGANO AS ROSAS BRAVAS - Camilo Pessanha
Simbolismo - Camilo Pessanha “Porque o Melhor, enfim”
Caminho/Camilo Pessanha Time is Nothing/Frusciante
Aqui Há História – Camilo Pessanha
Poema de Camilo Pessanha -Simbolismo/Ao longe os barcos de flores
Invisível / Visível - Camilo Pessanha, por Vhils, 2016.12.09
Vênus (Poema), de Camilo Pessanha
Melodia criada com base em um poema de Camilo Pessanha.
VIOLONCELO, CAMILO PESSANHA
Canção da Partida - Fato Macaco lê Camilo Pessanha
Não Sei se Isto é Amor - Camilo Pessanha
IMAGENS QUE PASSAIS PELA RETINA, CAMILO PESSANHA
Na cadeia - Camilo Pessanha
DIA 03 (30/06) O sentimento dum moderno: Camilo Pessanha
Poema Final
Não sei se isto é amor - Camilo Pessanha
Livros com João Guedes – Homenagem a Camilo Pessanha
Imagens que passais pela retina (Poema), de Camilo Pessanha
Projeto Poema Falado 12 - Camilo Pessanha
Análise do poema "Se andava no jardim", de Camilo Pessanha
Interrogação - Camilo Pessanha
Português
English
Español