Escritas

O Livro d'Ele

O Livro d'Ele

Poemas nesta obra

A Esta Hora...

A esta hora branda d’amargura,
A esta hora triste em que o luar
Anda chorando, Ó minha desventura
Onde estĂĄs tu? Onde anda o teu olhar?

A noite Ă© calma e triste... a murmurar
Anda o vento, de leve, na doçura
Ideal do aveludado ar
Onde estrelas palpitam... Noite escura

Dize-me onde ele estĂĄ o meu amor,
Onde o vosso luar o vai beijar,
Onde as vossas estrelas co fulgor

Do seu brilho de fogo o vĂŁo cobrir! ...
Dize-me onde ele estĂĄ!... Talvez a olhar
A mesma noite linda a refulgir...

Aonde?...

Ando a chamar por ti, demente, alucinada,
Aonde estĂĄs, amor? Aonde... aonde... aonde?...
O eco ao pé de mim segreda... desgraçada...
E sĂł a voz do eco, irĂŽnica, responde!

Estendo os braços meus! Chamo por ti ainda!
O vento, aos meus ouvidos, soluça a murmurar;
Parece a tua voz, a tua voz tĂŁo linda
Cantando como um rio banhado de luar!

Eu grito a minha dor, a minha dor intensa!
Esta saudade enorme, esta saudade imensa!
E sĂł a voz do eco Ă  minha voz responde...

Em gritos, a chorar, soluço o nome teu
E grito ao mar, à terra, ao puro azul do céu:
Aonde estĂĄs, amor? Aonde... aonde... aonde?...

Aos Olhos D’Ele

Não acredito em nada. As minhas crenças
Voaram como voa a pomba mansa,
Pelo azul do ar. E assim fugiram
As minhas doces crenças de criança.

Fiquei então sem fé; e a toda a gente
Eu digo sempre, embora magoada:
NĂŁo acredito em Deus e a Virgem Santa
É uma ilusão apenas e mais nada!

Mas avisto os teus olhos, meu amor,
Duma luz suavĂ­ssima de dor...
E grito então ao ver esses dois céus:

Eu creio, sim, eu creio na Virgem Santa
Que criou esse brilho que m’encanta!
Eu creio, sim, creio, eu creio em Deus!

Aos Olhos D’Ele

É noite de luar casto e divino.
Tudo Ă© brancura, tudo Ă© castidade...
Parece que Jesus, doce bambino,
Anda pisando as ruas da cidade...

E eu que penso na suavidade
Do tempo que nĂŁo volta, que nĂŁo passa,
Olho o luar, chorando de saudade
De teus olhos claros cheios de graça!...

Oceanos de luz que procurando
O seu leito d’amor, andam sonhando
Por esta noite linda de luar...

Talvez o perfumado, o brando leito
Que procurais, Ăł olhos, no meu peito
Esteja à vossa espera a soluçar...

Carta Para Longe

O tempo vai um encanto,
A Primavera ’stá linda,
Voltaram as andorinhas...
E tu nĂŁo voltaste ainda!...

Porque me fazes sofrer?
Porque te demoras tanto?
A Primavera ’stá linda...
O tempo vai um encanto...

Tu nĂŁo sabes, meu amor,
Que, quem ’spera, desespera?
O tempo estĂĄ um encanto...
E vai linda a Primavera...

HĂĄ imensas andorinhas;
Cobrem a terra e o céu!
Elas voltaram aos ninhos...
Volta também para o teu!...

Adeus. Saudades do sol,
Da madressilva e da hera;
Respeitosos cumprimentos
Do tempo e da Primavera.

Mil beijos da tua q’rida,
Que Ă© tua por toda a vida.

Confissão

Aborreço-te muito. Em ti hå qualquer cousa
De frio e de gelado, de pérfido e cruel,
Como um orvalho frio no tampo duma lousa,
Como em doirada taça algum amargo fel.

Odeio-te também. O teu olhar ideal
O teu perfil suave, a tua boca linda,
São belas expressÔes de todo o humano mal
Que inunda o mar e o céu e toda a terra infinda.

Desprezo-te também. Quando te ris e falas,
Eu fico-me a pensar no mal que tu calas
Dizendo que me queres em Ă­ntimo fervor!

Odeio-te e desprezo-te. Aqui toda a minh’alma
Confessa-to a rir, muito serena e calma!
...................................................................
Ah, como eu te adoro, como eu te quero, amor!...

Desdém

Andas dum lado pro outro
Pela rua passeando;
Finges que nĂŁo queres ver
Mas sempre me vais olhando.

É um olhar fugidio,
Olhar que dura um instante,
Mas deixa um rasto de estrelas
O doce olhar saltitante...

É esse rasto bendito
Que atraiçoa o teu olhar,
Pois Ă© tĂŁo leve e fugaz
Que eu nem o sinto passar!

Quem tem uns olhos assim
E quer fingir o desdém,
NĂŁo pode nem um instante
Olhar os olhos d’alguĂ©m...

Por isso vai caminhando...
E se queres a muita gente
Demonstrar que me desprezas
Olha os meus olhos de frente!...

Desejo

Quero-te ao pé de mim na hora de morrer.
Quero, ao partir, levar-te, todo suavidade,
Ó doce olhar de sonho, ó vida dum viver
Amortalhado sempre Ă  luz duma saudade!

Quero-te junto a mim quando o meu rosto branco
Se ungir da palidez sinistra do nĂŁo ser,
E quero ainda, amor, no meu supremo arranco
Sentir junto ao meu seio teu coração bater!

Que seja a tua mĂŁo tĂŁo branda como a neve
Que feche o meu olhar numa carĂ­cia leve
Em doce perpassar de pétala de lis...

Que seja a tua boca rubra como o sangue
Que feche a minha boca, a minha boca exangue!
.....................................................................
Ah, venha a morte jĂĄ que eu morrerei feliz!...

Doce Certeza

Por essa vida fora hĂĄs de adorar
Lindas mulheres, talvez; em Ăąnsia louca,
Em infinito anseio hĂĄs de beijar
Estrelas d’oiro fulgindo em muita boca!

HĂĄs de guardar em cofre perfumado
Cabelos d’oiro e risos de mulher,
Muito beijo d’amor apaixonado;
E nĂŁo te lembrarĂĄs de mim sequer!..

HĂĄs de tecer uns sonhos delicados...
HĂŁo de por muitos olhos magoados,
Os teus olhos de luz andar imersos!...

Mas nunca encontrarás p’la vida fora,
Amor assim como este amor que chora
Neste beijo d’amor que são meus versos!

Doce Milagre

O dia chora. Agonizo
Com ele meu doce amor.
Nem a sombra dum sorriso,
Na Natureza diviso,
A dar-lhe vida e frescor!

A triste bruma, pesada,
Parece, detrĂĄs da serra
Fina renda, esfarrapada,
De Malines, desdobrada
Em mil voltas pela terra!

(O dia parece um réu.
Bate a chuva nas vidraças.)

As avezitas, coitadas,
’Squeceram hoje o cantar.
As flores pendem, fanadas
Nas finas hastes, cansadas
De tanto e tanto chorar...

O dia parece um réu.
Bate a chuva nas vidraças.
É tudo um imenso vĂ©u.
Nem a terra nem o céu
Se distingue. Mas tu passas...

...E o sol doirado aparece.
O dia Ă© uma gargalhada.
A Natureza endoidece
A cantar. Tudo enternece
A minh’alma angustiada!

Rasgam-se todos os véus
As flores abrem, sorrindo.
Pois se eu vejo os olhos teus
A fitarem-se nos meus,
NĂŁo hĂĄ de tudo ser lindo?!

Se eles sĂŁo prodigiosos
Esses teus olhos suaves!
Basta fitĂĄ-los, mimosos,
Em dias assim chuvosos,
Para ouvir cantar as aves!

A Natureza, zangada,
NĂŁo quer os dias risonhos?...
Tu passas... e uma alvorada
Pra mim abre perfumada,
Enche-me o peito de sonhos!

Escreve-Me..

Escreve-me! Ainda que seja sĂł
Uma palavra, uma palavra apenas,
Suave como o teu nome e casta
Como um perfume casto d’açucenas!

Escreve-me! HĂĄ tanto, hĂĄ tanto tempo
Que te não vejo, amor! Meu coração
Morreu jĂĄ, e no mundo aos pobres mortos
NinguĂ©m nega uma frase d’oração!

“Amo-te!” Cinco letras pequeninas,
Folhas leves e tenras de boninas,
Um poema d’amor e felicidade!

NĂŁo queres mandar-me esta palavra apenas?
Olha, manda entĂŁo... brandas... serenas...
Cinco pétalas roxas de saudade...

Escuta...

À Beatriz Carvalho

Escuta, amor, escuta a voz que ao teu ouvido
Te canta uma canção na rua em que morei,
Essa soturna voz hĂĄ de contar-te, amigo
Por essa rua minha os sonhos que sonhei!

Fala d’amor a voz em tom enternecido,
Escuta-a com bondade. O muito que te amei
Anda pairando aĂ­ em sonho comovido
A envolver-te em oiro!... Assim s’envolve um rei!

Num nimbo de saudade e doce como a asa
Recorta-se no céu a minha humilde casa
Onde ficou minh’alma assim como penada

A arrastar grilhÔes como um fantasma triste.
É dela a voz que fala, Ă© dela a voz que existe
Na rua em que morei... Anda crucificada!

Estrela Cadente

Traço de luz... lå vai! Lå vai! Morreu.
Do nosso amor me lembra a suavidade...
Da estrela não ficou nada no céu
Do nosso sonho em ti nem a saudade!

Pra onde iria a ’strela? Flor fugida
Ao ramalhete atado no infinito...
Que ilusĂŁo seguiria entontecida
A linda estrela de fulgir bendito?...

Aonde iria, aonde iria a flor?
(Talvez, quem sabe?... ai quem soubesse,
[amor!)Se tu o vires minha bendita estrela

Alguma noite... Deves conhecĂȘ-lo!
Falo-te tanto nele!... Pois ao vĂȘ-lo
Dize-lhe assim: “Por que não pensas nela?...”

Humildade

Toda a terra que pisas, eu q’ria, ajoelhada,
Beijar terna e humilde em lĂąnguido fervor;
Q’ria poisar fervente a boca apaixonada
Em cada passo teu, Ăł meu bendito amor!

De cada beijo meu, havia de nascer
Uma sangrenta flor! Ébria de luz, ardente!
No colo purpurino havia de trazer
Desfeito no perfume o mist’rioso Oriente!

Q’ria depois colher essas flores reais,
Essas flores de sonho, estranhas, sensuais,
E lançar-tas aos pés em perfumados molhos.

Bem paga ficaria, Ăł meu cruel amante!
Se, sobre elas, eu visse apenas um instante
Cair como um orvalho os teus divinos olhos!

Junquilhos...

Nessa tarde mimosa de saudade
Em que eu te vi partir, Ăł meu amor,
Levaste-me a minh’alma apaixonada
Nas folhas perfumadas duma flor.

E como a alma, dessa florzita,
Que Ă© a minha, por ti palpita amante!
Oh alma doce, pequenina e branca,
Conserva o teu perfume estonteante!

Quando fores velha, emurchecida e triste,
Recorda ao meu amor, com teu perfume
A paixão que deixou e qu’inda existe...

Ai, dize-lhe que se lembre dessa tarde,
Que venha aquecer-se ao brando lume
Dos meus olhos que morrem de saudade!

Mentiras

“Ai quem me dera
uma feliz mentira,
Que fosse uma verdade para mim!”
J. Dantas

Tu julgas que eu nĂŁo sei que tu me mentes
Quando o teu doce olhar poisa no meu?
Pois julgas que eu nĂŁo sei o que tu sentes?
Qual a imagem que alberga o peito teu?

Ai, se o sei, meu amor! Eu bem distingo
O bom sonho da feroz realidade...
Não palpita d’amor, um coração
Que anda vogando em ondas de saudade!

Embora mintas bem, nĂŁo te acredito;
Perpassa nos teus olhos desleais,
O gelo do teu peito de granito...

Mas finjo-me enganada, meu encanto,
Que um engano feliz vale bem mais
Que um desengano que nos custa tanto!

Mistério D’Amor

Um mistério que trago dentro em mim
Ajuda-me, minh’alma a descobrir...
É um mistĂ©rio de sonho e de luar
Que ora me faz chorar, ora sorrir!

Viemos tanto tempo tĂŁo amigos!
E sem que o teu olhar puro toldasse
A pureza do meu. E sem que um beijo
As nossas bocas rubras desfolhasse!

Mas um dia, uma tarde... houve um fulgor,
Um olhar que brilhou... e mansamente...
Ai, dize Ăł meu encanto, meu amor:

Porque foi que somente nessa tarde
Nos olhamos assim tĂŁo docemente
Num grande olhar d’amor e de saudade?!

O Teu Olhar

Quando fito o teu olhar,
Duma tristeza fatal,
Dum tĂŁo Ă­ntimo sonhar,
Penso logo no luar
Bendito de Portugal!

O mesmo tom de tristeza,
O mesmo vago sonhar,
Que me traz a alma presa
Às festas da Natureza
E Ă  doce luz desse olhar!

Se algum dia, por meu mal,
A doce luz me faltar
Desse teu olhar ideal,
Não se esqueça Portugal
De dizer ao seu luar

Que Ă  noite, me vĂĄ depor
Na campa em que eu dormitar,
Essa tristeza, essa dor,
Essa amargura, esse amor,
Que eu lia no teu olhar!

O Teu Segredo

O mundo diz-te alegre porque o riso
Desabrocha em tua boca, docemente
Como uma flor de luz! Meigo sorriso
Que na tua boca poisa alegremente!

Chama-te o mundo alegre. Ai, meu amor,
SĂł eu inda li bem nessa alegria!...
Também parece alegre a triste cor
Do sol, Ă  tarde, ao despedir-se o dia!...

És triste; eu sei. Toda suavidade
TĂŁo roxa, como Ă© roxa uma saudade
É a tua alma, amor, cheia de mágoa.

Eu sei que és triste, sei. O meu olhar
Descobriu o segredo, que a cantar
Repoisa nos teus olhos rasos d’água! ...

O Triste Passeio

Vou pela estrada, sozinha.
Não me acompanha ninguém.
– Num atalho, em voz mansinha:
“Como está ele? Está bem?”

É a toutinegra curiosa;
HĂĄ em mim um doce enleio...
Nisto pergunta uma rosa:
“Então ele? Inda não veio?”

Sinto-me triste, doente...
E nem me deixam esquecĂȘ-lo!...
Nisto o sol impertinente:
“Sou um fio do seu cabelo...”

Ainda bem. É noitinha.
Enfim jĂĄ posso pensar!
Ai, jĂĄ me deixam sozinha!
De repente, oiço o luar:

“Que imensa mágoa me invade,
Que dor o meu peito sente!
Tenho uma enorme saudade!
De ver o teu doce ausente!”

Volto a casa. Que tristeza!
Inda Ă© maior minha dor...
Vem depressa. A natureza
SĂł fala de ti, amor!

Os Meus Versos

Leste os meus versos? Leste? E adivinhaste
O encanto supremo que os ditou?
Acaso, quando os leste, imaginaste
Que era o teu esse olhar que os inspirou?

Adivinhaste? Eu nĂŁo posso acreditar
Que adivinhasses, vĂȘs? E atĂ©, sorrindo,
Tu disseste para ti: “Por um olhar
Somente, embora fosse assim tĂŁo lindo,

Ficar amando um homem!... Que loucura!”
– Pois foi o teu olhar; a noite escura,
– (Eu só a ti digo, e muito a medo...)

Que inspirou esses versos! Teu olhar
Que eu trago dentro d’alma a soluçar!
.............................................................
Ai nĂŁo descubras nunca o meu segredo!

Quem Sabe?!...


Eu sigo-te e tu foges. É este o meu destino:
Beber o fel amargo em luminosa taça,
Chorar amargamente um beijo teu, divino,
E rir olhando o vulto altivo da desgraça!

Tu foges-me, e eu sigo o teu olhar bendito;
Por mais que fujas sempre, um sonho hå de alcançar-te
Se um sonho pode andar por todo o infinito,
De que serve fugir se um sonho hĂĄ de encontrar-te?!

Demais, nem eu talvez, perceba se o amor
É este perseguir de raiva, de furor,
Com que eu te sigo assim como os rafeiros leais.

Ou se Ă© entĂŁo a fuga eterna, misteriosa,
Com que me foges sempre, Ăł noite tenebrosa!
......................................................................
Por me fugires, sim, talvez me queiras mais!

Rústica

Eu q’ria ser camponesa;
Ir esperar-te Ă  tardinha
Quando Ă© doce a Natureza
No silĂȘncio da devesa,
E sĂł voltar Ă  noitinha...

Levar o cĂąntaro Ă  fonte
DeixĂĄ-lo devagarinho,
E correndo pela ponte
Que fica detrĂĄs do monte
Ir encontrar-te sozinho...

E depois quando o luar
Andasse pelas estradas,
D’olhos cheios do teu olhar
Eu voltaria a sonhar,
P’los caminhos de mãos dadas.

E depois se toda a gente
Perguntasse: “Que encarnada,
Rapariga! Estás doente?”
Eu diria: “É do poente,
Que assim me fez encarnada!”

E fitando ao longe a ponte,
Com meu olhar cheio do teu,
Diria a sorrir pro monte:
“O cant’ro ficou na fonte
Mas os beijos trouxe-os eu...”

Sol Posto

Sol posto. O sino ao longe dĂĄ Trindades
Nas ravinas do monte andam cantando
As cigarras dolentes... E saudades
Nos atalhos parecem dormitando...

É esta a hora em que a suave imagem
Do bem que jĂĄ foi nosso nos tortura
O coração no peito, em que a paisagem
Nos faz chorar de dor e d’amargura...

É a hora tambĂ©m em que cantando
As andorinhas vão p’lo meio das ruas
Para os ninhos, contentes, chilreando...

Quem me dera também, amor, que fosse
Esta a hora de todas a mais doce
Em que eu unisse as minhas mĂŁos Ă s tuas!...

Sonhando...

É noite pura e linda. Abro a minha janela
E olho suspirando o infinito céu,
Fico a sonhar de leve em muita coisa bela
Fico a pensar em ti e neste amor que Ă© teu!

D’olhos fechados sonho. A noite Ă© uma elegia
Cantando brandamente um sonho todo d’alma
E enquanto a lua branca o linho bom desfia
Eu sinto almas passar na noite linda e calma.

LĂĄ vem a tua agora... Numa carreira louca
TĂŁo perto que passou, tĂŁo perto Ă  minha boca
Nessa carreira doida, estranha e caprichosa,

Que a minh’alma cativa estremece, esvoaça
Para seguir a tua, como a folha de rosa
Segue a brisa que a beija... e a tua alma passa!...

Sonho Morto

Nosso sonho morreu. Devagarinho,
Rezemos uma prece doce e triste
Por alma desse sonho! VĂĄ... baixinho...
Por esse sonho, amor, que nĂŁo existe!

Vamos encher-lhe o seu caixĂŁo dolente
De roxas violetas; triste cor!
Triste como ele, nascido ao sol poente,
O nosso sonho... ai!... reza baixo... amor...

Foste tu que o mataste! E foi sorrindo,
Foi sorrindo e cantando alegremente,
Que tu mataste o nosso sonho lindo!

Nosso sonho morreu... Reza mansinho...
Ai, talvez que rezando, docemente,
O nosso sonho acorde... mais baixinho...

Súplica

A prece que eu murmuro, a soluçar
Ao Deus todo bondade e todo amor,
É rezada de rastos no altar
Onde a tristeza reza com a dor!

A minha boca reza-a comovida,
Chora-a meus olhos, beija-a o meu peito,
Sonha-a minh’alma sempre enternecida
Ao ver-te rir, Ăł meu Amor Perfeito...

Que o Deus do céu atenda a minha prece,
Embora eu saiba nesta desventura
Que Deus sĂł ouve aquele que o merece!

Mas vou pedindo ao Deus de piedade,
Que te conceda anos de ventura,
Como dias a mim de inf’licidade!...

Versos

Versos! Versos! Sei lĂĄ o que sĂŁo versos...
Pedaços de sorriso, branca espuma,
Gargalhadas de luz, cantos dispersos,
Ou pétalas que caem uma a uma...

Versos!... Sei lĂĄ! Um verso Ă© teu olhar,
Um verso Ă© teu sorriso e os de Dante
Eram o seu amor a soluçar
Aos pés da sua estremecida amante!

Meus versos!... Sei eu lå também que são...
Sei lå! Sei lå!... Meu pobre coração
Partido em mil pedaços são talvez...

Versos! Versos! Sei lĂĄ o que sĂŁo versos...
Meus soluços de dor que andam dispersos
Por este grande amor em que nĂŁo crĂȘs!...