Escritas

Lista de Poemas

II - A Guerra!

II

A Guerra!
Desfilam diante de mim as civilizações guerreiras...
As civilizações guerreiras de todos os tempos e lugares...
Num panorama confuso e lúcido,
Em quadras misturadas e não misturadas, separadas e compactas, mas só quando
Em desfile sucessivo e apesar disso ao mesmo tempo,
Passam...
Passam e eu, eu que estou estendido na erva
E vi os carros passarem, passarem — cessarem depois para nós mesmos
Vejo-os e o meu espanto nem é muito calmo nem interessado
Nem os vê nem os deixa de ver,
E eles passam por mim como um pó ou leve vento sobe pelos ares.
Ah a pompa antiga, e a pompa moderna, os uniformes dos engenhos de guerra,
A fúria terna e [...] dos combates
Os mortos sempre a mesma misteriosa vida — o corpo no chão (e o que é o mundo, afinal, e aonde?)
A ferida [...]
E o céu, o eterno céu insensível sobre isso tudo!
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III - Só quem puder obter a estupidez

III

Só quem puder obter a estupidez
Ou a loucura pode ser feliz.
Buscar, querer, amar... tudo isto diz
Perder, chorar, sofrer, vez após vez.

A estupidez achou sempre o que quis
Do círculo banal — da sua avidez;
Nunca aos loucos o engano se desfez
Com quem um falso mundo seu condiz.

Há dois males: verdade e aspiração,
E há uma forma só de os saber males:
É conhecê-los bem, saber que são

Um o horror real, o outro o vazio —
Horror não menos — dois como que vales
Duma montanha que ninguém subiu.
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Um verso repete

Um verso repete
Uma brisa fresca,
O verão nas ervas,
E vazio sofre ao sol
O átrio abandonado.

Ou, no inverno, ao longe
Os cimos de neve,
À lareira toadas
Dos contos herdados,
E um verso a dizê-lo.

Os deuses concedem
Poucos mais prazeres
Que estes, que são nada.
Mas também concedem
Não querermos outros.
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Barcos pesados vindo para as melancólicas sombras

Barcos pesados vindo para as melancólicas sombras
Dos grandes olhos incompletos dos arcos das pontes
Enormes escaladas medievais dos altos muros do castelo
(Luzem como escamas os aços dos elmos e das couraças)
E os escudos deitados [clamam?] como goelas fumegantes dos que assaltam
E o súbito desabrochar aéreo das grandes flores amarelas e violentas das granadas.
(Onde o teu cavalo pôs a pata, Átila, torna a crescer erva
E tudo renasce e a vida da natureza cobre
O que fica das conquistas)
Antenas de ferro — capacetes em bico — de Bismarck
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Quer com amor, que sem amor, senesces

Quer com amor, que sem amor, senesces
Antes senescer tendo perdido que não tendo tido.
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Todos os dias que passam

Todos os dias que passam
Sem passares por aqui
São dias que me desgraçam
Por me privarem de ti.
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Não sei que grande tristeza

Não sei que grande tristeza
Me fez só gostar de ti
Quando já tinha a certeza
De te amar porque te vi.
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Saudades, só portugueses

Saudades, só portugueses
Conseguem senti-las bem,
Porque têm essa palavra
Para dizer que as têm.
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Pia número SEIS

Pia número SEIS,
Para quem se penteia com bolos-reis.

Pia número SETE,
Para quem canta até que o telhado se derrete.

Pia número OITO,
Para quem parte nozes quando é afoito.

Pia número NOVE,
Para quem se parece com uma couve.

Pia número DEZ
Para quem cola selos nas unhas dos pés.

E, como as mãos já não estão frias,
Tampa nas pias!
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Vendi-me de graça aos casuais do encontro.

Vendi-me de graça aos casuais do encontro.
Amei onde achei, um pouco por esquecimento.
Fui saltando de intervalo em intervalo
E assim cheguei a onde cheguei na vida.

Hoje, recordando o passado
Não encontro nele senão quem não Fui...
A criança inconsciente na casa que cessaria,
A criança maior errante na casa das tias já mortas,
O adolescente inconsciente ao cuidado do primo padre tratado por tio,
O adolescente maior enviado para o estrangeiro (mania do tutor novo).
O jovem inconsciente estudando na Escócia, estudando na Escócia...
O jovem inconsciente já homem cansado de estudar na Escócia.
O homem inconsciente tão diverso e tão estúpido de depois...
Não tendo nada de comum com o que foi,
Não tendo nada de igual com o que penso,
Não tendo nada de comum com o que poderia ter sido.
Eu...
Vendi-me de graça e deram-me feijões por troco
Os feijões dos jogos de mesa da minha infância varrida.
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Comentários (17)

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Gabriel
Gabriel
2025-09-17

What?

ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2025-07-27

Simplesmente um pensador ( tão grande) pois todos nós temos máscaras, nossos sentimentos são todos ocultos na nossa eterna alma. fantástico este texto para sua época vivida.

rodrigl
rodrigl
2023-12-01

cmt

tomaslopes
tomaslopes
2023-06-23

O maior e mais pensador poeta para a sua antiga época. O maior e mais revolucionista da literatura portuguesa, com os seus poemas e textos que enchem a alma de pensamentos. Tem um forma única de se expressar e ditar o que vem da sua alma, como ele dizia " Quem tem alma não tem calma".

mcegonha
mcegonha
2023-04-21

O profeta dos poetas!