Escritas

Lista de Poemas

A Consciência de existir, a raiz

A Consciência de existir, a raiz
Do ilimitado, omnímodo mistério
Que tem tronco de Ser, folhas de vida
Flores de sentimento e sofrimento
E frutos do pensar, podres depressa.

A Consciência de existir, tormento
Primeiro e último do raciocínio
Que, porém, filho dela, a não atinge.
A Consciência de existir me esmaga
Com todo o seu mistério e a sua força
De compreendida incompreensão profunda,
Irreparavelmente circunscrita.
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PASSAGEM DAS HORAS [c]

PASSAGEM DAS HORAS

Vivo todos os dias todas as esquinas de todas as ruas,
E sempre que estou pensando numa coisa, estou pensando noutra.
Não me subordino senão por atavismo,
E há sempre razões para emigrar para quem não está de cama.

Das terrasses de todos os cafés de todas as cidades
Acessíveis à imaginação
Reparo para a vida que passa, sigo-a sem me mexer,
Pertenço-lhe sem tirar um gesto da algibeira,
Nem tomar nota do que vi para depois fingir que o vi.

No automóvel amarelo a mulher definitiva de alguém passa,
Vou ao lado dela sem ela saber.
No trottoir imediato eles encontram-se por um acaso combinado,
Mas antes do encontro deles lá estar já eu estava com eles lá.
Não há maneira de se esquivarem a encontrar-me, não há modo de eu não estar em toda a parte.
O meu privilégio é tudo
(Brevetée, Sans Garantie de Dieu, a minh'Alma).

Assisto a tudo e definitivamente.
Não há jóia para mulher que não seja comprada por mim e para mim,
Não há intenção de estar esperando que não seja minha de qualquer maneira
Não há resultado de conversa que não seja meu por acaso
Não há toque de sino em Lisboa há trinta anos, noite de S. Carlos há cinquenta
Que não seja para mim por uma galanteria deposta.

Fui educado pela Imaginação,
Viajei pela mão dela sempre,
Amei, odiei, falei, pensei sempre por isso,
E todos os dias têm essa janela por diante,
E todas as horas parecem minhas dessa maneira.
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FAUSTO: (aos soldados)

Nobres amigos, camaradas meus
(Deixem que assim lhes chame)
                TODOS:
                                        É assim mesmo
Nem nós de outra maneira o desejamos.
                UM:
Não grite tanto.
                FAUSTO:
                                Então eu grito?
                UM:
Ou está gritando ou estou eu com sono.
                VÁRIOS:
Cala-te aí, sendeiro! Deixa ouvir.
                UM:
Nem eu...
                VÁRIOS:
                A besta não se calará?!
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FAUSTO— Viva a vida! Te digo, amigo, viva!

Viva a vida! Te digo, amigo, viva!
Viva a vida, que é tudo, e mais não há!
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Dá-nos a Tua paz,

Dá-nos a Tua paz,
Deus Cristão falso, mas consolador, porque todos
Nascem para a emoção rezada a ti;
Deus anti-científico mas que a nossa mãe ensina;
Deus absurdo da verdade absurda, mas que tem a verdade das lágrimas
Nas horas de fraqueza em que sentimos que passamos
Como o fumo e a nuvem, mas a emoção não o quer,
Como o rasto na terra, mas a alma é sensível...

Dá-nos a Tua paz, ainda que não existisses nunca,
A Tua paz no mundo que julgas Teu,
A Tua paz impossível tão possível à Terra,
À grande mãe pagã, cristã em nós a esta hora
E que deve ser humana em tudo quanto é humano em nós.

Dá-nos a paz como uma brisa saindo
Ou a chuva para a qual há preces nas províncias,
E chove por leis naturais tranquilizadoramente.

Dá-nos a paz, porque por ela siga, e regresse
O nosso espírito cansado ao quarto de arrumações e coser
Onde ao canto está o berço inútil, mas não a mãe que embala,
Onde na cómoda velha está a roupa da infância, despida
Com o poder iludir a vida com o sonho...

Dá-nos a tua paz.
O mundo é incerto e confuso,
O pensamento não chega a parte nenhuma da Terra,
O braço não alcança mais do que a mão pode conter,
O olhar não atravessa os muros da sombra,
O coração não sabe desejar o que deseja
A vida erra constantemente o caminho para a Vida.
Dá-nos, Senhor, a paz, Cristo ou Buda que sejas,
Dá-nos a paz e admite
Nos vales esquecidos dos pastores ignotos
Nos píncaros de gelo dos eremitas perdidos,
Nas ruas transversais dos bairros afastados das cidades,
A paz que é dos que não conhecem e esquecem sem querer.

Materna paz que adormeça a terra,
Dormente à lareira sem filosofias,
Memória dos contos de fadas sem a vida lá fora,
A canção do berço revivida através do menino sem futuro,
O calor, a ama, o menino,
O menino que se vai deitar
E o sentido inútil da vida,
O coveiro antigo das coisas,
A dor sem fundo da terra, dos homens, dos destinos
Do mundo...
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O resto da minha alma anda disperso

O resto da minha alma anda disperso
Pelos gritos e a luz desta oca orgia
Em estilhaços de conciência, ocupo
O (...) a mim (...)
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Cena da Taberna

— Doutor Fausto?
                FAUSTO:
                                       Sim.
—                                             O Doutor Fausto?
                FAUSTO:  
O Doutor Fausto, sim: o que há em sê-lo?
— Nada, confesso-o a rir e acreditara-o
Pois o não vira, mas de vós diziam
Serdes versado em artes e matérias
Do mágico e (...) horror (...)
A rir o digo que vos vejo aqui
Entre nós e bebendo como nós.
                FAUSTO:  
Sim, assim é; quem como eu vivia
Aparte logra sempre a negra fama
De bruxo... Há em mim cousa que mostre
Conhecimento d'artes vis e negras
Ou sacerdócio escuro de Satan?
— Nada; olhando bem em vós só vejo
Algo de triste que não é tristeza
No vosso rosto e no vosso olhar
Há uma causa a menos ou a mais
Que em outro... Isto vejo, ou me parece.
Perguntastes-me e rindo respondi.
                FAUSTO:
Agradeço-vos; traçastes-me retrato
Tão completo de bruxo
Que começo a ter medo de mim mesmo.
— Canta, oh Frederico
Aquela canção doida de beber
Chamada «O Bebedor» ou coisa assim.
                FRED:
A do «Bom Bebedor».
                OUTRO:
                                        É essa mesmo.
                TODOS:
Venha, venha a canção.
                FRED:
Lá vai amigos
                                (e depois)
E oxalá que, ao cantá-la, esquecer possa
Ou antes, não lembrar onde a aprendi.
Criança então era feliz. Lá vai:

Bom bebedor, bebe-me bem
Bebe-me, bom bebedor.
Só uma cousa boa esta vida tem
É o vinho: mira-lh’ a cor!

                CORO

A vida é um dia e a morte um horror
Bebe-me, bebe-me, bom bebedor.

Que morra de fome mulher e mãe
Haja vinho, que é o melhor!

                CORO

A vida é um dia e a morte um horror
Bebe-me, bebe-me bom bebedor.

Deixe a guela o vinho lá quando vem
Em lugar dele o estertor.

                CORO

A vida é um dia e a morte um horror
Bebe-me, bebe-me bom bebedor.
A vida sem vinho é um triste horror
Bebe-me, bebe-me bom bebedor.

O, leite, da parra é melhor que o amor
Bebe-me, bebe-me bom bebedor

                CORO

Bom bebedor bebe-lhe bem
Bebe-lhe bom bebedor

Que faz que a mulher ande à gandaia
E a filha seja pior
E a puta da neta levante a saia
Até ao quintal do prior?
O vinho é o mesmo e da mesma cor
Bebe-lhe, bebe-lhe, bom bebedor

                CORO

Bom bebedor, bebe-lhe bem
Bebe-lhe bom bebedor.
Bom bebedor, bebe-lhe rijo
Bom bebedor, bebe-lhe bem;

O vinho que dá? Alegria e mijo,
E a vida não vale melhor
E se a vida é isto e a cova um horror
Bebe-lhe, bebe-lhe, bom bebedor.

                TODOS:
Bravo! Bravo!
                FAUSTO:(saudando)
A quem escreveu essa canção.
Não foi o camarada?
                FRED:
                                        Versos, eu?
Nada aprendi-a, e há o tempo. É pouca coisa,
Uma maneira qualquer de berrar.
                FAUSTO:
Eu sinto-me irrequieto.
                FRED:
                                            Isso é do vinho!
                FAUSTO:
Do vinho?
                FRED:
                Olá se é. A uns dá-lhe assim
A outros doutra maneira. Isso é confuso.
Um velho tio meu que não fazia
Senão beber...
                OUTRO:
                                Fazia bem...
               FRED:
                                                   Pois esse
Dizia ser indício de saúde
Dar o vinho p'ra bulhas e contendas
«Estar irrequieto» como este lhe chama.
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THE ACURSED POET

Here the accursed poet lies,
Hid far from the pure blue skies;
Mixed with mud filth he lies
At the bottom of the stream.
He dreamed many a strange dream.
He loved mankind but he did nought
For mankind's good. Vain was his thought.
He would be loved and he was not.
The sun in morn or evening glow
Can reach him not where deep he lies
With mud and filth far from the skies.
He ached to feel, he ached to know.
He did aspire to what should last
Beyond the time that did it show.
Full of the giant city's waste
The river over him doth flow.
Dark over him flows the river.
Down to him no light can go.
        Damn'd be he for ever!
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Não é em mim o menor horror

Não é em mim o menor horror
A consciência da minha inconsciência
Do automatismo sobrenatural
Que eu sou, círculo, de (...) sensações
Rodando sempre, sempre equidistante
Do centro inatingível do meu ser.
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ODE MARCIAL [e]

ODE MARCIAL

O que quer que seja que cria e mantém este mundo,
Se é gente, que sinta como gente, tenha piedade da gente!
E se não é nada, que o acaso, guiado ou vivo antes,
O esboroe na terra e acabe com esta dolorosa função.
A pensar em tudo, eu quero que tudo (...),

Pensar em tudo isto é doer-me a alma angustiadamente
E o ver isso é vermos melhor o que fazer ou poder.
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Comentários (17)

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Gabriel
Gabriel
2025-09-17

What?

ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2025-07-27

Simplesmente um pensador ( tão grande) pois todos nós temos máscaras, nossos sentimentos são todos ocultos na nossa eterna alma. fantástico este texto para sua época vivida.

rodrigl
rodrigl
2023-12-01

cmt

tomaslopes
tomaslopes
2023-06-23

O maior e mais pensador poeta para a sua antiga época. O maior e mais revolucionista da literatura portuguesa, com os seus poemas e textos que enchem a alma de pensamentos. Tem um forma única de se expressar e ditar o que vem da sua alma, como ele dizia " Quem tem alma não tem calma".

mcegonha
mcegonha
2023-04-21

O profeta dos poetas!