Escritas

Lista de Poemas

PRIMEIRA VOZ: Que forma velada

Que forma velada
        Que oculto esplendor
        De longe me agrada?
        Nem forma, nem cor...
        Só o vago palor
        De chama azulada

        Quem diz que não seja
        A forma o que tem,
        O que só se deseja
        E nunca se obtém...
        A sombra do bem
        Que em sonhos se almeja?

        Oh, paira distante,
        Sê sempre ilusão
        Teu vulto levante
        Minha dor do chão
        E o meu coração
        Não mais desencante!

        Oh paira distante
        E incerto, flutuante,
        Ondeia fragrante
        Teu vulto, visão,
        O meu coração
        Não mais desencante!

                SEGUNDA [voz]:

Quem fez pairar por sobre a vida
A aura alada, névoa incerta
Que dá a dor esperança e à vida
A brisa, a (...) e a aberta?

        Nunca eu te conheça,
        Incerteza, afago...
        Silêncio, começa
        Onde eu me embriago.

        Nunca eu te adivinhe
        Anseio, visão,
        Sonho que acarinhe
        O meu coração.

        Mar alto, não deixes
        O barco voltar...
        Meus olhos não feches
        Deixa-me sonhar
👁️ 1 427

EPIGRAMS - I

And so they whisper about us -
About me and about you?
And so they whisper about us?
Let us give them reason to!
👁️ 1 238

PITY? NO!

Pity? No! I wish not pity.
That were but a bitterer scorn,
Disdain ruthlessly made witty
With a serious look to strain
Its awful joke. No; let me mourn
In peace. Pity me not again!

Pity? No! Let more scorn come,
More indifference, more disdain:
These are the conforts of my home.
To change their look to pity were too far
To make me feel a direr pain.
Pretend not good: it cannot be.
Let evils all seem as they are.
To mask them were a mockery
Heartless and evilly rare.
👁️ 1 351

Não é o vago

Não é o vago
Epicurismo de sentir a vida
Deslizar e passar que me apavora;
É a íntima alma deste deslizar
A qual fitando negramente me entrega
A pavor  (...)
👁️ 1 389

BE IT SO!

Be it so; we are sundered for ever­ -
        I and life's happy and sane.
My nature and theirs did us sever;
        Nought can unite us again.

Again? We were never unparted,
        Differently destined and born­ -
They born to be light and stout‑hearted,
        I to be pained and worn.

Be it so; we for ever are sundered!
        What would the normal with me?
My own inner reason hath wondered
        Trembling at its misery.

I give me all over to terror
        All unto madness and woe;
I yield up my thoughts unto error.
        'Twas to be so; be it so!

Of my thoughts I no longer am master,
        Ceasing is now all control.
My mind doth decay: take your pasture
        Ravings, ye worms of the soul!
👁️ 1 172

Tudo é mistério e o mistério é tudo.

Tudo é mais que ilusão; o próprio sonho
Do universo transcende-se a si mesmo
E a compreensão, ao penetrar
Escuramente a essência da ilusão,
Fica sempre aquém mesmo do ver bem
O quanto tudo é ilusão o sonho,
E quanto o próprio pensamento fundo
Se ilude na desilusão falaz
E no desiludir-se dele mesmo.
👁️ 847

Dos montes, dos vales,

Dos montes, dos vales,
Das luzes, das flores
O prazer vem;
Que importa, pois, Tempo, que te resvales?
Riamos, que amores pra outros amores,
        São o Além!

Há risos e beijos
E olhares e abraços
        De amor,

E risos e olhares acendem desejos,
E dizem matar-me em corpos e braços
        Num estertor.

E como a verdade
E a existência
É o prazer nu,
Dancemos
👁️ 1 376

Dois horrores

Dois horrores
Me esmagam, cada um dos quais parece
O maior dos horrores que há maiores:
Um, o horror da morte, outro, o horror
De não poder evitar encontrar
Esse horror — ter que morrer. Dois...
Dois só horrores? Não. À roda destes
Giram milhares, interpenetrantes,
Complexos, uns dos outros produzidos
E nessa treva hedionda, nesse inferno
Que me tem lugar n'alma o pensamento
E o sentimento, horrorosamente
Conscientes e agudos cambaleiam,
Mergulham, desvariam, gritam, sangram,
Mas sempre claros, sempre conscientes,
Sempre em cada parcela desse horror,
Medindo todo o horror e descobrindo
Os outros e os outros e os outros
E assim sempre, assim sempre, sem parar,
Arrasto, em agonia inconcebida
De qualquer agonia imaginante
Doutros homens, a vida torturada,
Esta vida que a dor me faz eterna
E o horror da morte fugidia e mínima
Em toda a parte, todo o mundo, o horror.
👁️ 1 365

MOMENTS - IV

IV

The boy and the girl did kiss
And the world looked on with joy
At that pure touch of early bliss,
Chaste in its childly stainlessness
        Given by the girl to the boy.
'T was the first kiss of youth, and used
The world is to those words abused ­-
«Purity», «love», «free from stain.»
Strange doctor who hath e'er confused
The medulla and the brain!
👁️ 1 164

Do horror do mistério são talvez

Do horror do mistério são talvez
Símbolos grosseiros esses horrendos
Gorgona e Demogórgon fabulosos,
Fatais um pelo aspecto outro no nome.
Neles se vê a ávida ansiedade
De dar em concepção que torturasse
De terror, isso que de vago e estranho,
Atravessando como um arrepio
Do pensamento a solidão, integra
Em luz parcial  (...)  a negra lucidez
Do mistério supremo. É conhecer,
O erguer desses ídolos de horror,
A existência daquilo que, pensado
A fundo, redemoínha o pensamento
Por loucos vãos, declives de loucura
Despenhadeiros de aflição, confusos
Torturamentos, e o que mais d'angústia
E pavor não se exprime sem que falhe
Na própria concepção o conceber.

É o horror dos horrores esse horror
De haver d'alma um estado, aquele estado
Em que o mistério lhe penetra o abismo,
E não haver palavras ou ideias
Que atinjam esse estado ou comuniquem
D'ideias a ideias o que passa
De vago e horroroso. Do mistério
O pavor é duplo — é o horror em si
O horror que sentimos ao senti-lo.
Este que torna alegre e descuidosa
A loucura, ao seu lado, que ligeiro
Faz parecer tudo que de pavor
Confrange, ou (...), enlouquece,
Esta vacuidade angustiosa
Do pensamento prenhe — quando tento
Lembrar-me que a uma Cousa, Ser real
Corresponde — só essa ideia possível
Me gela a consciência de existir
E me entupe de pavor o fundo
Sentimento do mundo e de mim mesmo.
👁️ 1 250

Comentários (17)

Iniciar sessão ToPostComment
Gabriel
Gabriel
2025-09-17

What?

ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2025-07-27

Simplesmente um pensador ( tão grande) pois todos nós temos máscaras, nossos sentimentos são todos ocultos na nossa eterna alma. fantástico este texto para sua época vivida.

rodrigl
rodrigl
2023-12-01

cmt

tomaslopes
tomaslopes
2023-06-23

O maior e mais pensador poeta para a sua antiga época. O maior e mais revolucionista da literatura portuguesa, com os seus poemas e textos que enchem a alma de pensamentos. Tem um forma única de se expressar e ditar o que vem da sua alma, como ele dizia " Quem tem alma não tem calma".

mcegonha
mcegonha
2023-04-21

O profeta dos poetas!