Escritas

Lista de Poemas

A rapariga inglesa, uma loura, tão jovem, tão boa

A rapariga inglesa, uma loura, tão jovem, tão boa
Que queria casar comigo...
Que pena eu não ter casado com ela...
Teria sido feliz
Mas como é que eu sei se teria sido feliz?
Como é que eu sei qualquer coisa a respeito do que teria sido
Do que teria sido, que é o que nunca foi?

Hoje arrependo-me de não ter casado com ela,
Mas antes que até a hipótese de me poder arrepender de ter casado com ela.
E assim é tudo arrependimento,
E o arrependimento é pura abstracção.
Dá um certo desconforto
Mas também dá um certo sonho...

Sim, aquela rapariga foi uma oportunidade da minha alma.
Hoje o arrependimento é que é afastado da minha alma.
Santo Deus! que complicação por não ter casado com uma inglesa que já me deve ter esquecido!...
Mas se não me esqueceu?
Se (porque há disso) me lembra ainda e é constante
(Escuso de me achar feio, porque os feios também são amados
E às vezes por mulheres!)
Se não me esqueceu, ainda me lembra.
Isto, realmente, é já outra espécie de arrependimento.
E fazer sofrer alguém não tem esquecimento.

Mas, afinal, isto são conjecturas da vaidade.
Bem se há-de ela lembrar de mim, com o quarto filho nos braços,
Debruçada sobre o Daily Mirror a ver a Pussy Maria.

Pelo menos é melhor pensar que é assim.
É um quadro de casa suburbana inglesa,
É uma boa paisagem íntima de cabelos louros,
E os remorsos são sombras...
Em todo o caso, se assim é, fica um bocado de ciúme.
O quarto filho do outro, o Daily Mirror na outra casa.
O que podia ter sido...
Sim, sempre o abstracto, o impossível, o irreal mas perverso —
O que podia ter sido.
Comem marmelade ao pequeno almoço em Inglaterra...
Vingo-me em toda a linguagem inglesa de ser um parvo português.

Ah, mas ainda vejo
O teu olhar realmente tão sincero como azul
A olhar como uma outra criança para mim...
E não é com piadas de sal do verso que te apago da imagem
Que tens no meu coração;
Não te disfarço, meu único amor, e não quero nada da vida.
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NOCTURNO DE DIA

NOCTURNO DE DIA

...Não: o que tenho é sono.
O quê? Tanto cansaço por causa das responsabilidades,
Tanta amargura por causa de talvez se não ser célebre
Tanto desenvolvimento de opiniões sobre a imortalidade...
O que tenho é sono, meu velho, sono...
Deixem-me ao menos ter sono; quem sabe que mais terei?
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Há entre mim e a humanidade um golfo,

Há entre mim e a humanidade um golfo,
E esse golfo está dentro do meu ser.

Quer solitário, quer com outros, eu
Estou sempre só, nem a mim mesmo faço
A companhia de sentir. Navego,
Desabitada nau no mar da vida,
Mais só que a solidão. Sou um estranho
Ao que em mim pensa. Sou de qualquer modo
Dois, para que, quando passageira
Alegria do esforço de pensar (
A única alegria que me resta (
Me (...), eu tenha a consciência dela
Como vazia, como o prazer todo.
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Estou cheio de tédio, de nada. Em cima da cama

Estou cheio de tédio, de nada. Em cima da cama
Leio, com uma minuciosidade atómica,
Lentamente, com uma atenção sem chama,
A Nova Enciclopédia Maçónica.

Penso no que fui (não me escapam as entrelinhas),
E o que a minha alma quis e a minha vida fez.
Coube-me, como a uma senhora um carrinho de linhas,
No meio do Grau 32 do Rito Escocês.

O que quis do passado por brisas se esfolha,
O que pude de oculto teve a tempo medo;
E olho a sorrir o título no alto da folha:
Sublime Príncipe do Real Segredo...
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Onde a serenata?

Onde a serenata?
Dormem os arvoredos.
Há mosqueiros de prata,
Luar em rastos e enredos...

Cantam que vozes suaves?
Enche-se a alma de querer
Ter qualquer coisa das aves
Para a poder entender...

Oh, sombras longas, levai-me
Até a quem vós cantais...
Na vossa música dai-me
Melhor dor que a dos meus ais...

Vinde buscar-me ao desejo,
Despi-me da ilusão...
Vosso murmúrio não vejo…
Não ouço a vossa canção...

Mas na cor oca do luar,
No lago alado da brisa,
Há vozes indo a cantar
Pela floresta indecisa…

E em serenata levantam
Os seus suspiros ao céu,
Qual é a mágoa que contam
Que é melhor que o gozo meu?

O que é [que] buscam que qu'rê-lo
Vale mais que em nós ter?
Que olhos tem, que cabelo,
Essa invisível mulher?
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Horror! Não sei ser inconsciente

Horror! Não sei ser inconsciente
E tenho para tudo, do que é bom
À inconsciência, o pensamento aberto,
Tornando-o impossível.

O amor causa-me horror é abandono,
Intimidade, mostrar       (...)       do ser

E eu tenho do alto orgulho a timidez
E sinto horror a abrir o ser a alguém,
A confiar n'alguém. Horror eu sinto
A que prescrute alguém, ou levemente
Ou não, quaisquer recantos do meu ser.
Abandonar-me em braços nus e belos
(Inda que deles o amor viesse)
No conceber de tudo me horroriza;
Seria violar meu ser profundo,
Aproximar-me muito doutros homens;
Uma nudez qualquer — espírito ou corpo (
Confrange-me: acostumei-me cedo
Aos despimentos do meu ser,
A fixar olhos púdicos, conscientes
Demais. Pensar em dizer «amo-te»
E «amo-te» só — só isto me angustia...
Pensar que ao rir (e mesmo que o não seja)
Exponho uma íntima parte de mim,
Para poder amar eu precisava
Esquecer que sou Fausto o pensador.
Eu queria era dormir, dormi, dormir,
Longo dormir, meio sentindo em sono,
E dormir sempre, sem consciência ter
Do tempo, só do sono sonolento
E da vacuidade do meu ser;
Dormir sem vir a morte, nem sonhar
Mas dormir só dormir, sempre dormir.
Que hoje já de dormir desaprendi.
Cansado de pensar, a pensar fico,
E as noites longas, longas, longas, longas,
E o pálido raiar de inda doutro dia...
Inda outro dia que trará ainda
Uma outra noite e essa mais dias, mais...
Insone sentir isto, e o deslizar
Suave e horroroso do tempo.
Cai então sobre mim todo o horror claro
E nítido e visível do mistério,
E eu tal fico em abalo e em comoção
Que durmo — sim que durmo de pesar-me
Tudo de mais p'ra mais poder sentir.
Então durmo... e antes eu não dormisse
Porque desordenadas incoerências
Mas não visões, só abstracções terríveis
(...)
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BLIND EAGLE

What is thy name? and is it true that thou
A land unknown of men inhabitest?
What pain obscure is figured on thy brow?
What cares upon thy heart contrive their nest?

Of human things the purest and the best
No constant beauty doth thy soul allow;
And through the world thou bear'st thy deep unrest
Lock'd in a smile thine eyes do disavow.

Being of wild and weird imaginings,
Whose thoughts are greater than mere things can bind,
What is the thing thou seekest within things?

What is that thought thy thinking cannot find?
For what high air has thy strong spirit wings?
To what high vision aches it to be blind?
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O bêbado caía de bêbado

O bêbado caía de bêbado
        E eu, que passava,
Não o ajudei, pois caía de bêbado,
        E eu só passava.
O bêbado caiu de bêbado
        No meio da rua.
E eu não me voltei, mas ouvi. Eu bêbado
        E a sua queda na rua.
O bêbado caiu de bêbado
        Na rua da vida.
Meu Deus! Eu também caí de bêbado
        Deus (...)
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GOD’S WORK

«God's work ‑ how great his power!» said he
As we gazed out upon the sea
Beating the beach tumultuously
        Round the land-head.

The vessel then strikes with a crash,
Over her deck the waters rash
Make horror deep in rent and gash.
        «God's work» , I said.
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Cá estamos no píncaro — nós dois

Cá estamos no píncaro — nós dois.
Nós dois e Homero? Não sabemos. Esse está mais abaixo.
Estendemos a mão e cada qual ainda que cego chega a Deus (ele não)
O quê — você não chega? Então você desaparece? — ou não chegou.

Sou míope e português
Se houver troca de louros
(...)

P'ra Apolo falta-me a beleza
Mas também falta só isso.
[...]
[...]

Camarada Will, qualquer de nós
Vale o resto, excepto o outro

Ave, poema mudo de verso (poema diverso)
Verso mudo de frases
Mesmo (ó diabo!) mudo de mim
Não importa. Feliz encontro
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Comentários (17)

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Gabriel
Gabriel
2025-09-17

What?

ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2025-07-27

Simplesmente um pensador ( tão grande) pois todos nós temos máscaras, nossos sentimentos são todos ocultos na nossa eterna alma. fantástico este texto para sua época vivida.

rodrigl
rodrigl
2023-12-01

cmt

tomaslopes
tomaslopes
2023-06-23

O maior e mais pensador poeta para a sua antiga época. O maior e mais revolucionista da literatura portuguesa, com os seus poemas e textos que enchem a alma de pensamentos. Tem um forma única de se expressar e ditar o que vem da sua alma, como ele dizia " Quem tem alma não tem calma".

mcegonha
mcegonha
2023-04-21

O profeta dos poetas!