Escritas

Lista de Poemas

Do sal aos tabuleiros de xadrez

Percamo-nos no sal que o sal nos vest
e há nos levar ao reino das janelas
onde os brinquedos pendem do cipreste
nascido sobre as manchas amarelas.

E onde os ventos que sopram de nordeste
fazem-se mãos e ritmos como aquelas
mãos que teceram fio azul-celeste
levando ao mar as mais que nossas velas.

Mas não houve, e houve volta a essas vulgares
coisas, que não de vento e não de mares,
de quartos e silêncios prolongados.

Quando as damas e os bispos preto e branco
seguiam mais o rei que esse era manco
peões que eram de chumbo e eram soldados
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Soneto com jeito de chegança

Ventos do mar que não peninsulares
trouxeram nossas vozes de chegança,
navegantes de barcos de esperança
na roupa das cantigas seculares.

Lembrávamos Lisboa, os mansos lares,
as cachopas pousadas na lembrança,
as vagas que nem sempre de bonança,
na saudade da copla e dos cantares.

Outros, os capitães-de-mar-e-guerra,
tristes de ver o barco agora em terra
descem do rito náutico aos lamentos.

Sem curva de marés nos decompomos
porquanto marinheiros já não somos
mas o gesto e a canção dos movimentos.
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Soneto de natal

Das árvores de vidro tomam forma
três de barba na fé de seus oráculos,
os três de antigos mitos sustentáculos,
os três de antiga fé brocardo e norma.

De calcinada luz que a lenda informa
trouxe-os aos três a estrela em seus tentáculos,
e por de estrela nunca os houve obstáculos
que a mago e rei limite não conforma.

Mas não saber de ventre que era novo
trazendo, à luz da noite, a noite e a povo
a rosa que era fim de rosas trágicas.

Se não gera a magia os olhos régios
nada ficava a vir de sortilégios
porque eram vida então maiores mágicas.
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soneto XXXI - Sem fuga

Já não quero um paquete como outrora,
(hoje a ideia de fuga está cansada!)
o promontório é longe, a chuva chora,
as flores sem o amor tombam na estrada.

Mas por fim a certeza hoje ê chegada
de que é contigo que essa noite mora,
noite sabor de noite inesperada,
noite antecipação, previnda à aurora.

Dizem que anjos são machos, nós não cremos.
Acreditamos toquem nossos remos
compassos leves da sonata escusa.

Mas não fogem, sepultam-se no ventre,
e dissolvem-se em sangue e sombras, entre
luzes comuns e risos de medusa.
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soneto XXXV - A rua do vento norte

Servos do rei, tomemos nossa barca,
(pena que tem as velas muito escuras!)
que é mandado busquemos aventuras
longe dos claros céus desta comarca.

E a noite não será das formas puras,
contracanto a canção jamais que parca,
tornará, para o rosto, a antiga marca
do sono, e as sugestões das desventuras.

Dirão que não me vá que a sombra é densa,
mas serei quando o mar vista a presença
a ausência que não quero e outra não posso,

e na rua onde o Vento Norte dança
somente uma canção, mas leve e mansa,
naquele Carnaval privado e nosso.
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Os esquecidos azuis de cobalto

No horizonte de sono das palavras
os sete monges magros pontificam.
E a voz das pregações que sempre cantam
não sabe compreensão nem ressonância,
se nas terras de inverno e areia morta
os que guardam de ouvidos não residem.
Porém silêncio, em dobras incontáveis,
onde repousam árvores de pedra
de longos braços nus dependurados
sobre o solo de pedra em que se ergueram.
Cujas sementes sete magos vesgos
fabricaram na sombra dos escombros
e as entregaram presto aos ventos loucos
que em danças de loucura as sacudiram
nas planícies de pedra e de silêncio.

É pois perdido o canto de ternura
que havíamos composto, (no intervalo
dessas horas de sangue e sacrifício),
que o uníssono das vozes cantaria
quando os nobres cansados da nobreza
sentindo-se descalços se sorrissem.

Pois os pastores bêbedos e os magos
tão bêbedos também quanto os pastores,
uns contra os outros lutam nas esquinas
e engendram cogumelos, do cobalto
que a nós nos pertencia, e era guardado
para fazer o azul quanto alimenta.
E cortam nossa voz que sabem fraca
se guardam ferro e fogo e nós só temos
um canteiro de rosas desmanchadas,
a noite e os seus mastins de pelo negro.

Mas eis que a noite já não nos pertence.
A noite, que era nossa, se ressente
da invasão das risadas dos estranhos
que vestem roupa preta e andam de noite
sem que o amor da poesia os leve à sombra.
Mas que buscam no escuro a integração
dos seus corpos vazios nesse escuro
quando a luz os ofusca e os entontece
e esses não são de bem que os incomodem.

Não nos importam nossas cinco chagas
se os espinhos da rosa que as fizeram
nas nossas frágeis mãos foram perfume.
Mas dói-nos quando o mal que nos atinja
não traga o seu perfume entre o cinzento.
Pois outrora era o amor, e de cobalto
se preparava azul, enquanto agora
são feitos cogumelos de cobalto
e as tintas do cinzento se difundem.

Daí o desamor que nos atinge
a nós que só de amor temos vivido,
o horrível desespero que nos ronda
a pouquíssima chama que nos mostra
que deve haver num ponto além do espaço
a ilha de esperança que buscamos.

Nessa ilha de ternura, quando a achemos,
a laranjeira exista e frutifique,
que em torno todos nós semearemos
os azuis de cobalto que tivermos.
Que em país de laranjas e outros pomos
poremos nosso reino incipiente,
e às bordas do seu mar descansaremos
deitados sobre a face do impossível.
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A bailarina dos sapatinhos de Andersen

De rua ou palco em sombras surge a imagem
que à festa das imagens comparece,
ao passo que por trás aranha tece
a teia complemento a essa paisagem

distante. Após, nos fumos, aparece
vestindo a prata e o cinza o estranho pajem
que a nós nos pareceu quase selvagem
se os sapatos vermelhos oferece.

E houve dança e houve morte, e morte e dança!
Enfim uma apatia suave e mansa
resposta a impulso de invisíveis molas.

E nós que fomos olhos, nunca passos,
desfizemos calores e cansaços
nos leques vegetais das castanholas.
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Galope sobre as águas

E fomos todos nós à beira d´água
lançar para a corrente as nossas flautas,
olhos de febre ardendo, e angústia quase,
como se morta fora entre os cansaços

a vida, antes presente nas sonatas
compostas sob a luz dos candelabros
antigos, que luziam sobre as magras
faces de sofrimento, ante os pecados

presentes, quando mares, quando vagas
enfeitam de evidência madrugadas,
vestem o mundo sublimar de prata,

ou quando as puras intuições nos trazem
demônios indormidos, em cavalos
que galopam farrapos sobre as águas.
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Galope à beira mar

Na beira do verde, do imenso, do eterno
rebanho das ondas na noite tranqüila,
estávamos todos, montados, em fila,
sentindo cada um que fugira do inferno,
sentindo também cada qual o seu terno
carinho de irmão a outro irmão estreitar.
Que lutas estavam por já terminar,
que reino desfeito de angústia e de pranto!
Eis todos unidos nas vozes do canto
cantando o galope na beira do mar.

Os olhos de espanto dos bêbados lentos,
das magras crianças, das grávidas mães,
diziam ternuras pousados nas cãs
das nossas cabeças batidas dos ventos.
Já nada lembrando de antigos tormentos
brilhavam de júbilo à luz do luar
(estranha alegria de quase a chorar)
de ver cavaleiros cansados, mas guapos,
pesar de vestidos tão só de farrapos
em pleno galope na beira do mar.

Os vagos fantasmas que a morte colhera
no pleno da luta, presentes estão,
felizes agora que sabem que o chão
que os guarda éjá nosso (o que cada um quisera).
Passados horrores de um tempo de espera
chegado o de rir, do futuro saudar,
libertos os servos, tornados ao lar,
sorrindo o sorriso das novas floradas,
pusemos silêncio nas vozes armadas
saindo a galope na beira do mar.

Em pleno galope, na noite mais pura
que ê a noite presente, que é a noite da paz,
da paz com justiça, a justiça que faz
quem soube a injustiça e o seu fel de amargura.
Quem soube da infância a porção de ternura
no canto mais fundo do peito guardar,
e agora que sente que o sol vai brilhar
e a mão já retira do copo da espada,
cavalga no encontro da grande alvorada
cantando o galope na beira do mar.

                                                                          Recife. 1954.
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Pedra do navio

Duro barco de pedra
perdido na paisagem,
macegas verdes ondas,
mar vermelho de barro,
o pedestal de pedra
plataforma abissal
lançada ao sol do trópico,
o duro leviatã
também petrificado
montando guarda à proa
(a carranca amputada).

Mas porquê, como e quando?

Por quê petrificado
o antigo leve barco?
Como? no agreste duro
e seco e impenetrável?
Quando? o naufrágio rude
longe do plano líquido?

O bom jardim do lado
não sabe o sortilégio.

Barco de fria pedra?
Pedra em forma de barco?
(que importa o quanto seja
se é belo, e existe, e espera?)

Somente o engenho humano
Empresta à coisa o seu
verdadeiro sentido.
O barco é um vero barco
e nas noites de escuro,
se ruge a tempestade,
se reaviva e se anima.

Os antigos marujos
já mortos e dispersos
surgem da sombra e voltam.
velhas cadernais
rangem ruidosamente,
correm cansadas cordas,
as velas reaparecem
nuvens que se condensam,
e o navio navega
sobre as vagas da névoa.

Leve e livre navega
e ninguém nunca sabe
a que deve a leveza.
Os cantos marinheiros,
melopéias malditas,
à distância se escutam
vindos de várias vozes.

0 monstro o segue como
ao tubarão a rêmora,
e o cortejo espantoso
se desenha nos céus.

Negra, a nave navega.

Quando se cansa volta
ao ponto de partida,
as vozes silenciam,
mastros e velas ficam
novamente invisíveis,
dispersam-se os fantasmas,
desfaz-se o sortilégio,
amaina a tempestade.

Bom Jardim dorme ao lado,
não suspeitou de nada.

Que vê, de madrugada?

Duro o barco de pedra
perdido na paisagem,
macegas verdes ondas,
mar vermelho de barro,
o pedestal de pedra
plataforma abissal
lançada ao sol do trópico,
o duro leviatã,
também petrificado
montando guarda à proa
a carranca amputada.
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Comentários (3)

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cintya_arruda1
2021-03-30

Mas um orgulho para sua bisneta??

arletemarques
2021-03-30

Parabéns pela iniciativa. Lindos trabalhos. Grade sensibilidade e de profunda inteligência

camillo
2021-03-30

Querido primo. Um dos homens mais inteligentes que conheci na vida até hoje. Meu primeiro Mestre, aprendi muito com ele. Gratidão !