Escritas

Lista de Poemas

Soneto quase social

E eu tomei porque noite se fazia
as subnutridas mãos dos meus amigos,
saímos a um país de ventania,
os sentimentos falhos quando antigos.

A nós não nos falassem de perigos
que era inútil que mais por sempre havia,
não valendo dizer quanto a castigos
quando há fome e onde a voz se faz por fria.

Éramos magros como Dom Quixotes
foragidos de livros e dialéticas,
guardando a Lua em bolsos carcomidos.

Qual fazíamos antes meninotes
num tempo de repouso e de patéticas
cantigas que ainda o são junto aos ouvidos.
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soneto XVI - Cais da China

E estando nós vestidos de amarelo
veio o cais certo dia ao mar fendido,
vago e leve, de aspecto indefinido,
tão quase nós de tímido e singelo.

E ao céu de desembarque e de atropelo
em sangue e quase pássaro ferido,
uma canção havíamos pedido,
um som qualquer, de flauta ou violoncelo.

Nós gostamos de música e de dança,
vivemos de canções e de esperança
se não dormidos de ópio e de morfina.

E era de ver, os bonzos de mãos dadas
com limpa-chaminés, em mascaradas,
nos ângulos sem luz de um cais da China.
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soneto XIII - Partiu a ave esperança

Nos soluços enfermos desta noite
as enlutadas vozes falam claro,
e há tormento, Senhor, e entre o tormento
desejo inconfessável de suicídio.

Asas curvas, partiu a ave esperança
entre um sopro de vento, envolta em nuvens,
e restou-nos a nós somente a bruma
desencanto que vem dos sonhos poucos.

Lembrança de outras vozes, sosseqadas,
rir deus flautas de outrora, nunca ouvidas
no silêncio da noite onipresente.

Sugestões de abandono se refletem
do abafamento enorme dos sentidos
nesta noite maior que sai dos olhos.
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Cantiga del rey

Que em palavras del rey, senhora mia,
per vontade e a sahendas vos confesso,
e a bem do vosso bem suplico e peço
que o nam considereis de aleivosia.

Antes de puro amor, que em noute fria
e em vãos prometimentos fez-se apresso,
de apartado de vós, sem culpa, meço,
feito per fogo em pó mais nam seria.

Que nam cabem açoutes em quem ama
per baraço e pregão que empece e infama
dá-se mostrança publica nest’hora.

Posto que sendo assi vosso cahello
que o tenha, mesmo que morra por ello,
per o meu proprio moto e mal, senhora
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soneto XIV - Um mundo como o nosso

A caravana estranha, grave e estranha,
dos limpa-chaminés, dos desgraçados,
aves já quase não de tão cansados,
as sombras deste bairro morto assanha.

Seguem. E a angústia mórbida acompanha
aqueles a seus olhos bem-amados,
que sonham meigos risos sufocados
que a lua faz de antigos quando banha.

Os limpa-chaminés só têm a rua
onde tombam de sono, a luz da lua
e essas canções que são de um mundo louco,

leves, vazias, feitas de tão pouco.
Canções que repetir tento e não posso
porque não são de um mundo como o nosso.
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Segundo soneto da estrela

Joguei o amor na távola das cartas
e a túnica inconsútil foi lembrança
cansadas de malogro as falas fartas
foram silêncio e gestos de esquivança.

E se olhos visto e ouvidos não conservo
nas vertentes do sonho me dissolvo,
e, quando noite, a noite sinto e observo
olhos que são tentáculos de polvo.

Por isso a sombra é ingrata e traz venenos.
Negado à intimidade o teu sorriso
os imprevistos fazem-se pequenos
e tudo veste a roupa do impreciso.

Somente, à superfície, antigas mágoas
e a estrela, estranha flor, á flor das águas.
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Pela paz de maio e junho

Posto que estava maio, e resolvido
que nos idos, em grupo, tornaríamos
às fáculas antigas, quando estavam
quanto mais velhas tanto mais acesas,
assim fomos e vimos. Era o tempo
doutra luz, essa que se tem mais forte,
presa na carne e no osso e resguardada
pelas fronteiras rígidas da sombra.

Nas citadas planícies nos perdemos
e era mais que do tato um só caminho
para este externo mundo que nos guarda.
Por elas compreendemos do sentido.
E soubemos que apenas tênues rosas
têm fundações mais fortes do que pedra,
que mais que pedras vale, compreendemos,
a força enclausurada nas raízes

Então fomos ficados neste campo
de teto e espaço e fumo que nos cobre,
porquanto que o soubemos mais seguro
e que os mundos alheios valem menos
visto que em muito grandes são fundados
em brancos alicerces de fumaça.

Considerado o mar, nós nos despimos
do marítimo traje com que estavam
corpos ao sol e à chuva resguardados.
Se era o mar fabricado em movimento
que lhe dá toda a essência e qualidade,
para restarmos todos sobre o verde
e o vermelho do chão que nos ampara.

Que a nossa inconsistência será sempre
o mais caro de nós, ficamos crendo.
Repousa um tédio imenso na certeza.
E então faz-se de bem que a não tenhamos
senão essa de pouca com que temos
que o vermelho do piso, mais o verde,
nos serão toda a paz ambicionada

Que as fáculas não faltem, de resina,
e os limites da sombra estejam longe,
para que seja a paz feita possível
longe das rosas flácidas de estanho,
que essas não têm raízes, e repousa
nas raízes a força do que vive,
ou se têm, ai, são brancas, ai, são tênues,
visto serem construídas de fumaça.

- Seremos vegetais em verde e rubro
nas calendas de junho que vem vindo.
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soneto IV - Carnaval de ilusões

Fantasias de luas esquecidas
entre o enigma da morte e a rosa clara
que em vinho de manhãs se enfeitiçara
e em luz que inspira as ânsias incontidas.

Carnaval de ilusões, que a luz mais rara
fez descer sobre as sombras recolhidas,
que fez brotar do sangue das feridas
uma tímida flor que não brotara.

Busca sem fim da imagem tão somente,
fugida a nosso amor contido e ardente
no adeus que não consola e não compensa.

E entre murmurações de tédio e sono,
mesmo que reste o leito no abandono
o desejo que pede a só presença.
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soneto XXXII - São catorze

Há príncipes deitados sobre a areia,
olhares tristes, bocas ofegantes.
São catorze, buscando a noite feia,
e deixando a chorar catorze amantes.

Loucos são, mais que loucos, inconstantes,
por trocarem castelos por aldeia,
até que tragam ventos navegantes
o barco de marfim da lua cheia.

O vento traz sabores de invernada,
e os príncipes, deitados sobre a estrada,
banham-se em frustração que os acompanha.

Pois vestindo-se em múltipla importância
não puderam reter a antiga infância
e perderam-se um dia, ante a montanha.
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Soneto feudal

Aos fâmulos dissemos que era tarde
e em muito noite ser se fossem todos,
que ali nos restaríamos pesar de
vir a sombra afogando os densos Iodos

dos pântanos vizinhos do castelo
onde dormem os pássaros do sono,
que era conosco o cão, molosso e belo
sempre por nós que os cães são pelo dono.

Éramos nós, na sombra interna e amiga,
longe do escuro externo que é suspeito,
com mesa, e vinho, e livro, até cantiga
de cuna, a bem dizer, ao pé do leito.

Que já desce o silêncio, lento e lento,
sobre o nosso enganoso entendimento.
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Comentários (3)

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cintya_arruda1
2021-03-30

Mas um orgulho para sua bisneta??

arletemarques
2021-03-30

Parabéns pela iniciativa. Lindos trabalhos. Grade sensibilidade e de profunda inteligência

camillo
2021-03-30

Querido primo. Um dos homens mais inteligentes que conheci na vida até hoje. Meu primeiro Mestre, aprendi muito com ele. Gratidão !