Escritas

Lista de Poemas

Soneto do amor imperfeito

Território de flores. Chão de plumas
o plano do lençol. A cachoeira
dos sedosos cabelos. Como a esteira
do barco do prazer. Penumbra. Algumas

murmurações, sussuros, numa feira
segunda. No país das grandes brumas.
O bom vinho de múltiplas espumas
e o amor do amor e a festa costumeira.

Não subimos o monte. Ao rés da terra
ficamos. Sob a paz. Não houve a guerra.
As legiões cansadas, fria a clava.

Mas houve Ela. E a carícia desmedida.
Cada instante mais bela. Colorida
na pintura dos beijos que eu lhe devo.
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Soneto ao boi

A grande voz das longas avenidas
não consegue abafar esse murmúrio
(sussurro de papoulas tenras, gritos
de agapantos azuis como a ternura)

derramado no chão. 0 campo cresce
na direta razão da nossa mágoa
com sorrisos de mágicas quermesses
multiplicando passos pela estrada.

A carne dos açougues, ainda viva,
se nutre desse verde, à luz da tarde,
os ossos dos botões passeiam tristes

protegidos no couro dos sapatos.
Alonga o olhar ao campo que perdemos
o boi que existe em nós, porque o comemos.
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Recado ao eleitor

A mão que lavra esta terra
de carinho e de perdão,
a mão que levanta as casas
do barro duro do chão,
a mão que pega do lápis
e que faz planos em vão,
a mão ferida da agulha,
a mão da repartição,
a mão suja do operário
(do operário em construção)
a mão que aprende na escola
a fugir da escravidão,
a mão que tece nos fusos
os fios que vêm e vão,
a mão que trabalha e sofre,
que é irmã de nossa mão,
a mão que se eleva à boca
que cospe aos pés do vilão,
a mão como a mão de Cristo
na sua crucifixão,
a mão que não vende o voto
(se o voto é revolução)
irá votar na certeza
contra as coisas como estão,
dizendo ao Povo que “sim”,
dizendo ao Dinheiro: “não”!
Para a alvorada dos dias
plenos de paz que virão.
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Canção amarga

A pompa e a circunstância não me tentam.
Sei dos males do mundo, da humildade
que devem ter os que andam pelo Vale.
Se a vida é breve e vã, como sabermos,
se vamos, se não vamos para a morte?
A morte ê a companheira cotidiana.
A segurança ê um mito, a rosa esconde
o novelo das línguas bipartidas
das áspides que estão sob a folhagem.
A traição é o Nome, a permanência
nestes tempos de coisas provisórias,
o uisque das garrafas é tão falso
quanto a moeda com que foi comprado.

0 mar da mágoa é vivo e vai tragando
o escuro barco nosso, que desaba.
Náufrago. Exista, pois, essa coragem
de assim reconhecer, porque é preciso.
0 resto é a noite, a noite imensa, a noite,
a noite dos mais trágicos fantasmas,
onde vêm ecoar risos convulsos
da convulsa histeria onipresente,
a circunstância e a pompa que a outros tentam.
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O planetóide

Herdei um planetóide
de um parente distante
que deixou aos demais
parentes o que tinha
de bens de uso terreno
de valor declarado
nas confissões da renda.

A mim um planetóide
como único legado.

Talvez por esse jeito
distraído, que eu tenho,
quem sabe pelo agrado
com que o olho e considero
as coisas mais inúteis.
Pela velha mania
que eu trouxe do passado
(dos Países de Infância),
que ainda hoje conservo
de andar constantemente
olhando para cima.

Iria tomar posse
da rara prenda herdada
em qualquer destes dias.
Mas falta-me o dinheiro
do combustível caro,
e a minha espaçonave
na falta dessa essência,
se enferruja e corrompe,
poleiro de galinhas,
no quintal lá de casa.

Na vida há certas coisas
que possuímos inúteis,
que jamais usaremos,
mas que nos dão prazer
ou certa segurança
no apenas possuí-las.

Assim o planetóide
Que corre pelo espaço
seguindo essa derrota
milenar como elíptica,
ignorando no sono
e na paz mineral,
que o tenho entre os meus bens,
que é minha propriedade.
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Que criança é esta?...

Que criança é esta criança
coberta de palha e luz,
dormindo tranquilamente
entre o barulho dos tiros,
entre o rugido das feras,
entre o pânico dos homens?

Que criança é esta criança
que dorme entre o burro e o boi
mas dorme tão docemente
(entre o pânico dos homens)
que não percebe que a estrela
dos magos da lenda antiga
se encontra agora mudada
no céu que cobre o presépio
por um satélite plástico?

Por que não vêm reis modernos,
reis do aço, reis do petróleo,
nos seus carros de mansinho
olhar de perto o menino?
Também como os reis do oriente
eis que seriam tocados
por essa paz que o menino
por sobre o mundo irradia.

Nós também, ah, se nós fôramos
repetição do menino,
mesmo no mundo da angústia,
no mundo do desamor,
entre o pânico dos homens
dormiríamos tranquilos
um sono como esse sono.

Ó vós que olhais o presépio
pelos olhos da ternura
e tendes amor e paz,
neste mundo amargo e frio
que tudo a nada reduz
olhai os filhos dos pobres.

Que foi um filho de pobres
nosso menino de luz.
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Soneto quase erótico

Queimaremos os barcos, bem defronte
dos países do amor desesperado,
para que nada seja relembrado
além da linha azul desse horizonte.

Ultrapassados campos, lagos, monte,
seja o reino do sempre inesperado,
que Amor vive do novo renovado
que sempre se renova, eterna fonte.

Sobre lençóis de chamas, cada dia
Jogaremos os jogos, e o secreto
jogo do fogo e mágica alegria.

Destroçados os cintos do passado
dar-vos-emos, Senhora, o amor completo:
o prazer do prazer então negado.
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Ichitus

O peixe, o abismo, o mar das incertezas.
A forma hidrodinâmica desliza
nos limites do susto. À forma escura
nos países da sombra. À forma clara
nos domínios da luz. O mimetismo
é o seguro da vida.
                              Pensa o peixe
o conteúdo aético existente
na lei do mais dotado? A injusta regra -
seleção natural - esse o seu nome.
E o direito do fraco? Imune à culpa
de ser fraco, onde fica esse direito?
Desliza o peixe em mares de perigos
aproveitando o instante, até que chegue
o do monstro voraz que vive a espreita.

Noutro mar, outros seres também sabem
a incerteza da vida, a grande rede
das traições, e procuram pelo peixe
sinal do bom caminho, nas estradas.

Entanto seja o forte o irmão do fraco.
Posta de lado a crença no milagre
difícil de aceitar frente à razão,
sem conteúdo mágico, sem ritos,
mas tão só pela luz do Ensinamento:
Iesous CHristos, THeou, Uios, Soter.
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Oferta para a amiga estrangeira

Dar-te-ei a água morna destes mares,
o verde e o azul das ondas desatadas,
a doçura das canas orvalhadas,
praias como não há noutros lugares,

e estes rios de luzes, e os cantares
dos pássaros, soando nas quebradas,
os bosques de onde vem, nas madrugadas,
o terral, de fragrâncias singulares.

Terás o amor que damos por costume.
Quente e vivo, contendo o mesmo lume
da lua em chamas sobre antigas tabas.

É as primícias da terra generosa:
a açucena, o Jasmim, o cravo, a rosa,
mangas, cajás, cajus, limões, mangabas.
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É fortuna do mar o que nós somos

É fortuna do mar o que nós somos
em seguida ao naufrágio. Nada resta
senão a solidão do abismo. Nesta
noite feita de esperas e de assomos.

Noite global. A angústia nos empresta
uma luz que recorda antigos cromos.
Onde o aroma provém de cinamomos
e sugere outro clima. De floresta.

O naufrágio sem mar. A queda enorme
sobre o abismo interior. Enquanto dorme
qualquer som de esperança e de conforto.

Barco à deriva. Após quebrado o leme,
que se parte e estraçalha, e chora e geme,
perdido para sempre o antigo porto.
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Comentários (3)

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cintya_arruda1
2021-03-30

Mas um orgulho para sua bisneta??

arletemarques
2021-03-30

Parabéns pela iniciativa. Lindos trabalhos. Grade sensibilidade e de profunda inteligência

camillo
2021-03-30

Querido primo. Um dos homens mais inteligentes que conheci na vida até hoje. Meu primeiro Mestre, aprendi muito com ele. Gratidão !