À cadelinha navegante do espaço

Acontece que a terra é fria, escura,
habitação de angústia e de incerteza.
É preciso vencer o espaço
acima.

Deixando a relação na esfera
abaixo
nas estruturas do metal polido
subir
aos planos nunca maculados
pelo voo das aves.

Subir, de vez que o ar da superfície
das terras e das águas, o sentimos
um ar irrespirável, saturado
do aroma das guerras frias.

Há que a audácia dos homens quase sempre
repousa na degola de inocentes.
Eis porque foste tu sacrificada
ao sonho que toma corpo.
Deram-te glória então, teu nome logo
entrou nos linotipos, microfones
disseram do teu nome. Nenhum disse
da provável ternura dos teus olhos.

Pois aos homens valias quanto carne
e reações, nada entanto como vida
nem como os sentimentos que por certo
habitam toda carne
como um sopro.

Que eras dócil disseram, resistente
como os gelos da pátria, como a pátria,
e a morte é sempre o preço da doçura
cobrado pelas mãos da crueldade.

Mas nunca foste só no teu caminho.

Os que sabem bondade neste Vale
padeceram contigo a tua angústia,
eras um coração que palpitava
no silêncio sem fim da espaçonave.

Destino deste mundo, a glória nunca
vale aquilo que custa em sacrifício.
Antes tivesses sido (em vez de tanto)
apenas a alegria de um menino.
Fonte de risos, poço de ternuras,
apenas a alegria de um menino.

Em vez do quanto foste, quando falta
a ciência maior que as leis da física,
essa que diz da paz, da temperança,
e ensina o que nos salta aos olhos mortos.
Mais vale o sofrimento de um ser vivo
que as conquistas da espécie, que não valem
planetas, nebulosas, o universo,
se padece de fome o semelhante.
Não vale dominar a terra, o espaço,
ouvir a melodia das esferas,
quando não haja amor (e paz) cantando
no amargo coração da humanidade.
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