Escritas

Lista de Poemas

Canción de los que se van a Sierra Morena.

A Sierra Morena iremos
aünque tarde ya sea,
a llorar entre las yedras
ausências de Dulcinea;
se ya nos comen, nos matan,
heridas de mucho amor,
a Sierra Morena iremos
a ofrecer nuestro dolor.

Cubierta de panos tristes
la vieja y triste figura
que quiere vivir la vida
(lo que tiene de aventura)
se rinde a amor encendido
que de amor no tiene ayuda,
vestida de medio arriba
de medio abajo desnuda.

Entonces, en la distancia,
bajo la dulce armonía,
cuando la noche se llegue
o mientras se llegue el dia,
sepa de nuestra locura
la voz lejana dei viento,
nuestro amor, nuestra memória,
deseos de atrevimiento.

Y en penitencia, senora
de no turbada hermosura,
de frente clara de diosa,
ojos de bella pintura,
sea luz, presencia en sueno
reposada em nuestra mono,
sonrisa de suave aliento
tornando al enfermo en sano.

Mejor que la Pena Pobre
Sierra Morena nos es,
duerme la amada lejana
el mundo todo a sus pies,
nosotros em pobre sierra,
en singular penitencia
porque la lucha se acabe,
después se acabe la ausência.

Pues Sierra Morena tenga
nuestros pies de noche y lana,
que a Sierra Morena iremos
manana, por la manana;
en la distancia se oyen
viejas condones de cuna.

Nuestros alas ya se mueren
tintas de sangre y de luna.
👁️ 792

Lição de abismo

A árvore. Onde estará?
Em que lote, em que terreno,
em que bosque, em que floresta,
terá crescido, e sugado
a vida do pó da terra?

Será que ainda existe a árvore?
a copa de passarinhos
verde e viva, verdejando,
uma sombra ao pé da estrada?

Ou será que está cortada,
desfeita em pranchas polidas,
empilhadas, empoeiradas,
madeira de serraria?

0 ferro. Em que mina o ferro
simples minério repousa
a sua paz mineral?
Será que já foi colhido
por negros braços mineiros
e trazido à luz do sol?

Será que já soube a forja
o fogo, o malho, a bigorna,
onde depois de batido
será composto em martelo?

Estará pronto o martelo?
O cabo talvez tirado
dos rijos galhos cortados
da planta desfeita em pranchas?

Os pregos. Já serão pregos
já maquinofaturados
talvez desse mesmo ferro
de que foi feito o martelo?

A mão. Que estará fazendo
a mão, neste exato instante?
Será jovem, será velha
a mão, será negra ou branca?

E assim, já composto o quadro,
quando estarão todos juntos,
a mão, o martelo, os pregos,
a madeira (e o seu destino),
para que, juntos, componham
meu caixão, meu ataúde?

Talvez a mão distraída,
pregando os pregos não sinta
que a boca do mesmo corpo
trauteia a canção da vida,
um canto simples de amor.

Talvez tudo esteja pronto,
o trabalho esteja feito,
e já se veja o ataúde
brilhando no mostruário.

E só não tenha chegado,
para o final da comédia,
o momento que não tarda
que vem por certo em caminho.
👁️ 589

Flautas e mar

Que noite pode ser, conquanto dia
se veja de aparência e circunstância
e se faça um perfume de distância
quando o perto que está se não queria.

Que em fumo se transforme rosa fria
fulminada nos gelos a fragrância,
e em países distantes como a Infância
à sombra saiba a luz, de fugidia.

Mas ainda há ternura em nossos dedos,
há pedaços de infância nos brinquedos
a par de ouvida música de mágoas.

Sempre há flautas e mar, diante do muro,
e ê possível se grite contra o escuro
que os poetas se nutrem dessas águas.
👁️ 499

A mascarada

Senhora, se do amor a mascarada
os olhos meus me cega e me angústia,
que sejam vossos olhos alegria
àqueles onde a mágoa está guardada

Que   sejam como a    luz da chama pura
do sol, que às vezes cega a vista humana,
mas que ê da mesma e sempre soberana
se a prefere ao sabor da noite escura.

Que sejam o horizonte manifesto
que a promessa de vida revigora,
expresso ou por um riso ou por um gesto

de natural calor, gentil senhora
Dizendo ao céu e ao mar e à chuva e ao vento
que todo mal de amor tem valimento .
👁️ 705

Soneto de Arquiduques

Arquiduques de um reino soterrado
na planície de cal que nada altera,
bebamos essa luz de primavera
que desponta e que cresce a nosso lado.

Arquiduques sem fâmulos a espera,
sem a paz que respira o arquiducado,
residentes no sono prolongado
onde atua a mais lúcida atmosfera.

De um reino de glicínias arquiduques
não sorrimos às flores que são truques
de ébrios e maus prestidigitadores,

como as vossas, terrestres ou submersas,
nas terras e nas águas são diversas
das que estão sob a cal preciosas flores.
👁️ 614

Didaktikós

Não se diz em Recife,
de Recife, a Recife.
Só se diz no Recife,
do Recife, ao Recife.
Como nunca se disse
de Bahia ou de Rio,
ou em Rio e em Bahia.
A regra ê simples, viva
como as coisas mais vivas,
nome comum eleito
para a coisa mais própria.

Também porque o Recife
é cidade-varão,
infante condestável,
o Defensor Perpétuo
das coisas do Brasil.
Leão do Norte bravo
Leão da Pátria sempre
sangue dos velhos índios
dos negros dos Palmares
dos brancos conjurados
contra o sangue invasor,
dos heróis que forjaram
a nacionalidade
no Morro das Tabocas
nos Montes Guararapes.

Por questões de linguagem
e por questões de sexo
se diga no Recife
e se diga o Recife.

Onde nasceram frevo
e fado. E capoeira
dança dos quilombolas
no fundo arte marcial.
Onde soam na sombra
os lamentos dolentes
dos seus maracatus,
que a poesia e a ternura
para quem saiba e veja
nunca serão fraqueza
antes signo de força.

Assim que se confirme
a sempre afirmativa:
que é possível ser terno
- consoante já foi dito -
sem que seja preciso
renunciar à dureza.

0 Recife, se diga.
Sempre o nosso Recife.
👁️ 656

Elegia aos céus de Maralinga

Outrora em Maralinga as águas mansas
e o manso azul dos tempos de alegria.
Animais. Cada qual com sua cria
pastando um verde pasto de esperanças.

Outrora. Eis quando o aroma das matanças
rompeu a face intemporal do dia.
Fez-se unânime o escuro que existia
pousado sobre a fronte das crianças.

Ah, Maralinga (e o nome se prestara
a uma terra de amor) distante, rara,
que o passo das cidades nunca asfalte,

bem haja um dia aquela desejada
onde habite o rumor da madrugada.
Não tendo o nome teu lhe amor não falte.
👁️ 614

Palafitas do Capibaribe

Muito nos custarão as águas baixas,
baniremos a Lua, por cautela.

Asas no espaço, rio, além das águas
uma essência de sombras se condensa
na espessura da tarde sem cantigas.
Rio, contém as águas na vazante
que entre o rumor das sombras que se empurram
estranhas residências se levantam
do teu leito de lama e de agonia.

Rio, contém as águas na vazante,
que homens, mulheres, velhos e crianças,
compartilham da lama do teu leito
enquanto ao lado os príncipes sorriem.
Águas noturnas, rio, eterna noite,
sobretudo as crianças, quanto sofrem
na completa ignorância do conforto.
(Mas o Reino de Deus é das crianças,
mesmo as pagãs, mais puras porque livres
da impureza das mãos de quem batiza).
A lama sairá quando lavadas
pelas águas do céu, como elas puras,
mas  nem assim foi justo se lhes dessem
essa infância de lama em que vegetam.

E os infantes dourados, no acalanto
das alcovas de prata sabem riso,
e na altura das pontes, sobre o asfalto,
cresce o reino das luzes coloridas.
Nada comove as pontes. E no entanto
a agonia se esconde ao lado delas,
sob os tetos de zinco, na fumaça
negra dos lampiões de querosene,
se eles são agonia ao pé da lama,
madeira podre, som de desespero,
porque as cores de trópico se casam
frequentemente às cores da miséria.

Ah, serpente bicéfala, cidade
de esplendor e miséria inenarráveis,
o teu poeta sofre ao magro choro
das crianças de lama que cultivas.
👁️ 671

Onde se põe na lua as mágoas íntimas


Quando as asas do espanto, desfolhadas
sobre os muros do sono e do silêncio
foscas de tanto musgo que as invade
imergirem das pétalas do tempo,
noite, profunda e vasta como o sono,
como a névoa do chão, vasta e profunda,
se alongue sobre a prata dessas ondas
que guardam nossa fronte e nosso mundo.
E os sentimentos mudos, no silêncio,
tornando para o frêmito das salas,
sejam novos por fim, quando os idênticos
forem mortos da tanta antiguidade.
Noite de vozes roucas, precipícios
disfarçados no chão que não se espera,
onde deverá haver leve carícia
e mãos de carne em vez de mãos de pedra.

A luz resvala e é pouca, das esquinas
vem um vento sem cores e sem ritmos,
o junco nos espera e nós não vamos
quando nada nos prende à nossa cama.
Das nossas mãos, inermes da procura,
o sentido do tempo se desprende,
das viagens não viajadas por descuido
vêm tímidos fantasmas nesse vento,
e em tudo noite, e vasta e sem limite,
sem piscina e sem Lua e sem cantiga,
que o sentido do tempo se desprende
quando faltam sussurro e confidência.

Quando fosse vedado dizer Lua
nós diríamos Lua, com veemência,
que em mundo de aparência a face pura
(nos lagos em que dorme o nosso sangue)
Lua será na treva, sobre as águas,
o refúgio do parco pensamento,
cansado da suposta eternidade
que não resiste ao sopro inconsistente.
👁️ 714

Fabulosos

De fabulosos céus, e fabulosas
noites de fabulosos incidentes,
de mãos crispadas não, de asas doentes
repousando em jardins de antigas rosas.

Das  outras      mãos        tornadas   vaporosas,
quanto mais longe tanto mais presentes
às carícias dos braços abstinentes,
de nossas mãos também, por mais nervosas.

Mariposas sonâmbulas espargem
das asas cinza em risos de outra margem
negada a quem ficado em porto sujo.

Quem de gestos noturnos se consome
despido de passado e antigo nome
entre risos de concha e caramujo.
👁️ 721

Comentários (3)

Iniciar sessão para publicar um comentário.
cintya_arruda1
2021-03-30

Mas um orgulho para sua bisneta??

arletemarques
2021-03-30

Parabéns pela iniciativa. Lindos trabalhos. Grade sensibilidade e de profunda inteligência

camillo
2021-03-30

Querido primo. Um dos homens mais inteligentes que conheci na vida até hoje. Meu primeiro Mestre, aprendi muito com ele. Gratidão !