Escritas

Lista de Poemas

Grama

da janela
vejo um homem com um
poderoso cortador de grama
os sons de seu trabalho correm como
moscas e abelhas
no papel de parede,
é como um fogo reconfortante, e
é melhor que comer um bife,
e a grama é verde o suficiente
e o sol é sol o suficiente
e o que resta de minha vida
fica ali
conferindo os lampejos voadores do verde;
trata-se de um gigantesco desnudar do
cuidado, um tropeço na lógica do
trabalho.
de súbito entendo
os antigos homens feito morcegos
nas cavernas do Colorado
pequenos piolhos se arrastando
para dentro dos olhos de pássaros mortos.
de lá para cá
ele segue o som de sua
gasolina. é
interessante o suficiente,
com
as ruas
estendidas sobre suas costas primaveris
e sorridentes.
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Como Uma Violeta Na Neve

na primeira ocasião possível
na tarde de um supremo azul
telegrafarei para você
uma
mão ossuda
decorada com
pele de tubarão
um
menino grande com
dentes amarelos e um pai
epilético
vai trazê-lo
até sua
porta
sorria
e
aceite
isto é melhor do que
a outra
alternativa
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Nenhuma Lady Godiva

ela chegou bêbada a minha casa
montada num veado rampante em frente à varanda:
tantas mulheres querem salvar o mundo
mas não são capazes de cuidar das próprias cozinhas,
mas de mim...
entramos e então acendi três velas
vermelhas
servi o vinho e tomei algumas notas sobre
ela:
latitude atrás,
longitude na
frente. e o
resto. fantás-
tico. uma mulher assim
poderia encontrar
uma zínia em Hot Springs
Arkansas.
comemos carne de veado por três semanas.
então ela dormiu com o senhorio para ajudar a pagar
o aluguel.
então arrumei um emprego para ela como garçonete.
eu dormia o dia inteiro e quando ela chegava em casa
eu estava cheio daquela brilhante conversação que ela
tanto
adorava.
certa noite ela morreu de um jeito rápido deixando o mundo
bastante parecido com o que sempre
fora.
agora eu me levanto cedo e
desço até o setor de cargas e espero por
repolhos
laranjas
batatas
caírem dos caminhões ou serem
descartados.
à tarde já comi alguma coisa e acabo dormindo
sonhando em pagar o aluguel
com pedaços numerados de plástico
emitidos por um mundo
melhor.
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Sobre Sair Para Apanhar a Correspondência

o ridículo meio-dia
quando esquadrões de minhocas surgem nuas
como dançarinas
para serem estupradas por melros.
eu saio
e ao longo de toda a rua
os exércitos verdes disparam cores
como um 4 de julho eterno,
e eu também pareço me inflamar por dentro
um tipo de explosão desconhecida, uma
sensação, talvez, de que não há nenhum
inimigo
em nenhum lugar.
e eu enfio a mão na caixa
e não há
nada – nem sequer uma
carta da cia. de gás dizendo que irão
cortar mais uma vez
o fornecimento.
nem mesmo um bilhete da minha ex-mulher
se pavoneando de sua atual
felicidade.
minha mão vasculha a caixa de correspondência
numa espécie de descrença mesmo depois da cabeça há muito
já ter desistido.
não havia nem mesmo uma mosca morta
lá dentro.
sou um idiota, penso, eu deveria saber que
assim são as coisas.
entro enquanto todas as flores se projetam no espaço para
me agradar.
alguma coisa? a mulher
pergunta.
nada, respondo, o que tem para o
café da manhã?
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Vegas

havia uma árvore congelada que eu queria pintar
mas as bombas caíram
e em Vegas olhando através de uma persiana verde
às 3:30 da manhã,
morri sem pregos, sem um exemplar da Atlantic Monthly,
as janelas gritavam feito pombas lamentando o bombardeio de Milão
e eu saí para viver com os ratos
mas as luzes eram muito fortes
e pensei que talvez fosse melhor retornar e tomar assento em uma
aula de poesia:
uma maravilhosa descrição de uma gazela
é o inferno;
a cruz repousa feito uma mosca em minha janela,
a respiração de minha mãe agita pequenas folhas
em minha mente;
e eu peguei uma carona de volta a L.A. em meio a nuvens de ressaca
e puxei uma carta do meu bolso e a li
e o motorista do caminhão disse, o que é isso?
e eu respondi, tem uma garota lá no norte que costumava
dormir com Pound, ela está tentando me dizer que H.D.[1]
é nossa maior escriba: bem, Hilda nos deu alguns deuses
gregos e rosados em uma vasilha de porcelana, mas depois de lê-la
continuo tendo 140 pontas de gelo pendendo de meus ossos.
não seguirei direto até L.A., disse o motorista.
não tem problema, eu disse, os copos-de-leite assentem para nossas mentes
e algum dia todos iremos juntos para
casa.
de fato, ele disse, a nossa viagem juntos
termina aqui.
deixei ele ter o que queria; velha e ressecada puta do tempo
seus seios têm o gosto do creme azedo dos sonhos...
ele me desembarcou
no meio do deserto;
morrer é morrer é morrer,
velhos fonógrafos nos porões,
joe di maggio,
revistas em comunhão com cebolas...
um velho Ford me apanhou
45 minutos depois
e, desta vez,
mantive minha boca
calada.
[1] Hilda Doolittle, cujo nome literário foi H.D., teve importante papel no movimento modernista da poesia americana, em especial por sua associação ao Imagismo de Pound. Em sua poesia há frequentes referências à mitologia grega. (N.T.)
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7O Páreo Quando Os Anjos Balançam Lentos E Queimados

eu olhava o painel de apostas e o 6 caiu para 9
depois de um primeiro lampejo de 18 numa linha de partida
de 12... dois minutos para apostar e um gordão
seguia me empurrando pelas costas, mas consegui,
apostei 20 na vitória e me afastei em direção à plataforma
olhando meu programa:
quartos púrpuras e cereja, mangas cor de cereja
e boné; b.f.3, Vermelho Indiano – Impetuoso, de Alta Linhagem,
e as pessoas seguiam caminhando em minha direção
ainda que não houvesse nenhum lugar para ir,
estavam alinhando os cavalos no portão
e as pessoas seguiam caminhando como formigas sobre açúcar
derramado,
a máquina os havia engolido em suas engrenagens
e eles seguiam cegos para a morte,
e agora à altura do 7o páreo
irrompia medonho o cheiro fedido de suor
perfurante
impossível retornar ao caminho do sonho,
e os cavalos partiram pelo portão
e eu procurei por minhas cores –
eu as vi, e o jóquei parecia montar meio de lado
conduzia o cavalo por dentro e lhe puxava a cabeça
em direção à guarda externa,
e eu podia dizer pelo modo como o cavalo avançava
que ele estava fora;
a ação havia sido totalmente equivocada
e caminhei em direção ao bar
enquanto os vencedores seguiam para a chegada
e eles faziam as últimas apostas enquanto eu pedia minha bebida,
e eu me debrucei ali pensando
certa vez eu conhecia lugares que gritavam com doçura
suas vozes das paredes
onde os espelhos me mostravam o acaso,
certa vez eu me entristecia quando um entardecer se tornava
finalmente uma noite para mergulhar no sono
– o atendente do bar disse, ouvi dizer que eles vão colocar
o cavalo 7 no próximo.
certa vez eu cantei óperas e acendi velas
num lugar que se fazia sagrado por nada além de mim
e o que quer que lá estivesse.
– nunca aposto em éguas no verão,
eu lhe disse.
então a multidão entrou
reclamando
explicando
garganteando
pensando em suicídio ou bebedeira ou sexo,
e eu dei uma olhada em volta
como um homem que acorda na cadeia
e o que quer que lá estivesse
assim ficou,
e eu terminei minha bebida
e saí dali.
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Uma Tarde Agradável Na Cama

verões vermelhos e cetim negro
carvão e sangue
circundando os lençóis
enquanto lesmas são pisoteadas
e mariposas se agitam
tentando acender os olhos
das lâmpadas em
cidades artificiais;
acendo o cigarro dela
e ela expele um plasma
de relaxamento
para provar que nós dois fomos
bons amantes –
branco no preto, e no preto;
e seus dedos derrubam negras
intersecções
em meus lençóis pesados
ela diz, aquele cara do elevador...
você conhece ele?
eu digo sim.
um canalha... bate na mulher.
coloco minha mão
estendida sobre a superfície
onde a curva desce.
diabos para um VELHO,
você realmente gosta de brincar!
me estendo e apanho
a garrafa, seco-a
deitado de costas,
a espuma como sabão
engasgando-me com sons
abafados, e ela ouvindo,
os olhos rodando
como câmeras de um telejornal,
e de repente me vem uma risada,
ejeto um jorro como o das costas de uma baleia
feito de espuma e líquido
majestaticamente contra o papel de parede
sem saber por quê,
e ela ri
olhando para minha loucura estirada,
ela ri
segurando o cigarro
alto no espaço
com um dos braços
a fumaça se desfazendo
ignorada
e estamos juntos na cama
rindo
e não damos a mínima
para nada
e é muito
muito engraçado.
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Alguma Coisa Para Os Especuladores, Para As Freiras, Para Os Atendentes do Mercado E Para Você...

nós temos tudo e não temos nada
e alguns homens resolvem as coisas em igrejas
e outros homens resolvem as coisas partindo borboletas
ao meio
e alguns homens resolvem as coisas em Palm Springs
enfiando-as em loiras amanteigadas
com almas de Cadillac
nada e tudo,
o rosto derretendo até a última baforada
num porão em Corpus Christi
há alguma coisa para os especuladores, para as freiras,
para os atendentes do mercado e para você...
alguma coisa às 8 da manhã, alguma coisa na biblioteca
alguma coisa no rio,
tudo e nada,
no matadouro essa coisa vem correndo ao longo
do teto presa a um gancho, e você a balança –
um
dois
três
e então você consegue, $200 de carne
morta, os ossos contra os seus
alguma coisa e nada.
é sempre cedo demais para morrer e
ao mesmo tempo tarde demais,
e o sangue extraído na bacia branca
nada lhe revela de fato
e os coveiros jogando pôquer além
das 5 da manhã, esperando que o gramado
se liberte da geada...
eles não lhe revelam nada de nada.
nós temos tudo e não temos nada –
dias com arestas de vidro e o fedor insuportável
de musgos do rio – pior do que merda;
dias de tabuleiro de movimentos e contramovimentos,
o interesse gasto, tendo a derrota ou a vitória o mesmo
sentido; dias lentos como mulas
a carregá-los estilhaçados e tristes e endurecidos pelo sol
por uma estrada onde um louco aguarda sentado entre
passarinhos azuis e cambaxirras aprisionados e sugados até um cinza
quebradiço.
bons dias também de vinho e gritaria, brigas
em becos, pernas gordas de mulheres lutando ao redor
de suas entranhas enterradas em gemidos,
os sinais nas arenas como diamantes gritando
Mãe Capri, violetas rasgando o chão
dizendo para você que se esqueça dos exércitos mortos e dos amores
que lhe roubaram.
dias em que as crianças dizem coisas engraçadas e brilhantes
como selvagens tentando lhe mandar uma mensagem através
de seus corpos enquanto seus corpos ainda
têm vida o suficiente para transmitir e sentir e correr para lá
e para cá sem amarras e contracheques e
ideais e posses e opiniões
de girino.
dias em que você pode chorar o dia inteiro num
quarto verde com a porta trancada, dias
em que você pode rir na cara do entregador de pães
porque as pernas dele são muito longas, dias
de olhar para cercas...
e nada, e nada. dias de
chefes, de homens amarelos
com mau hálito e pés grandes, homens
que parecem sapos, hienas, homens que caminham
como se a melodia jamais tivesse sido inventada, homens
que pensam que é inteligente contratar e demitir e
lucrar, homens com mulheres caras que eles possuem
como 60 acres de solo a ser perfurado
ou a serem exibidas ou postas a segura distância
dos incompetentes, homens capazes de matar você
porque eles são loucos e o justificam porque
esta é a lei, homens que se plantam em frente a
janelas com 9 metros de extensão e não veem nada,
homens com iates de luxo capazes de dar a volta
ao mundo e ainda assim jamais saírem dos bolsos de seus
coletes, homens como caracóis, homens como enguias, homens
como lesmas, e não tão bons quanto...
e nada, recebendo seu último salário
num porto, numa fábrica, num hospital, numa
fábrica de aviões, em fliperamas, numa
barbearia, num emprego que você não pode
tolerar.
imposto de renda, doença, servidão, braços
quebrados, cabeças quebradas – o enchimento todo
saltando para fora como de um velho travesseiro.
nós temos tudo e não temos nada.
alguns se viram bem por algum tempo e
depois desistem. a fama os pega ou a repulsa
ou a idade ou a falta de uma dieta adequada ou a tinta
nos olhos ou crianças nas faculdades
ou carros novos ou costas lesionadas ao esquiar
na Suíça ou novos políticos ou novas esposas
ou apenas a mudança natural e a decadência –
o homem que você conheceu ontem dando ganchos
durante dez assaltos ou bebendo por três dias e
três noites nas montanhas Sawtooth agora
apenas alguma coisa debaixo de um lençol ou de uma cruz
ou de uma pedra ou debaixo de uma fácil desilusão,
ou carregando uma bíblia ou uma sacola de golfe ou uma
valise: como eles vão, como eles vão! – todos
aqueles que você jamais pensou que iriam.
dias como este. como o seu dia hoje.
talvez a chuva na janela tentando
atravessar e chegar até você. o que você está vendo?
o que é? onde você está? os melhores
dias são às vezes os primeiros, às vezes
os intermediários e até mesmo por vezes os derradeiros.
as vagas vazias não estão mal, as igrejas nos
postais da Europa não estão mal. as pessoas
nos museus de cera congeladas em sua melhor esterilidade
não estão mal, horríveis mas não mal. o
canhão, pense no canhão. e a torrada no
café da manhã o café quente a ponto de você
saber que sua língua continua aí. três
gerânios do lado de fora da janela, tentando ser
vermelhos e tentando ser cor-de-rosa e tentando ser
gerânios. não é de espantar que às vezes as mulheres
chorem, não é de espantar que as mulas não queiram
subir as colinas. você está num quarto de hotel
em Detroit atrás de um cigarro? mais um dia
dos bons. um pedacinho dele. e enquanto isso
as enfermeiras saem do prédio depois
de seu turno, tendo tido o bastante, oito enfermeiras
com diferentes nomes e lugares diferentes
para ir – atravessando o gramado, algumas delas
querem chocolate quente e um jornal, algumas delas querem um
banho quente, algumas delas querem um homem, algumas
delas dificilmente pensam em qualquer coisa. o que basta
e o que não basta. arcos e peregrinos, sarjetas
laranjas, samambaias, anticorpos, caixas de
lenços de papel.
no sol por vezes mais decente
há o sentimento levemente esfumaçado das urnas
e o som enlatado de velhos aviões de guerra
e se você entrar e correr seu dedo
pelo peitoril da janela você encontrará
sujeira, talvez até mesmo um pouco de terra.
e se você olhar através da janela
o dia chegará, e quando
ficar mais velho você seguirá olhando
seguirá olhando
chupando a língua de leve
ah ah não não talvez
alguns o fazem de modo natural
alguns de maneira obscena
em toda a parte.
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Eles, Todos Eles, Sabem

pergunte aos pintores de calçada em Paris
pergunte ao raio de sol sobre um cão adormecido
pergunte aos 3 porquinhos
pergunte ao menino que entrega jornais
pergunte à música de Donizetti
pergunte ao barbeiro
pergunte ao assassino
pergunte ao homem escorado no muro
pergunte ao pastor
pergunte ao marceneiro
pergunte ao batedor de carteiras ou ao
dono da loja de penhores ou ao soprador de vidro
ou ao vendedor de estrume ou
ao dentista
pergunte ao revolucionário
pergunte ao homem que enfia a cabeça na
boca de um leão
pergunte ao homem que vai disparar a próxima
bomba atômica
pergunte ao homem que pensa ser Cristo
pergunte ao azulão que volta para casa
à noite
pergunte ao bisbilhoteiro
pergunte ao homem tomado pelo câncer
pergunte ao homem que precisa de um banho
pergunte ao perneta
pergunte ao cego
pergunte ao homem com língua presa
pergunte ao comedor de ópio
pergunte ao cirurgião vítima de tremores
pergunte às folhas que você pisoteia
pergunte a um estuprador ou a
um motorneiro ou a um velho
arrancando as ervas de seu jardim
pergunte à sanguessuga
pergunte a um treinador de pulgas
pergunte a um engolidor de fogo
pergunte ao mais miserável homem que você
puder encontrar em seu mais
miserável momento
pergunte a um mestre de judô
pergunte a um condutor de elefantes
pergunte a um leproso, a um condenado à prisão perpétua, a um lenhador
pergunte a um professor de história
pergunte ao homem que jamais limpa as
unhas
pergunte a um palhaço ou ao primeiro rosto que você vir
à luz do dia
pergunte a seu pai
pergunte a seu filho e
e ao que ainda virá a ser
pergunte a mim
pergunte a uma lâmpada queimada dentro de um saco de papel
pergunte aos fracos de vontade, aos malditos, aos tolos
aos insolentes, aos escravizadores
pergunte aos construtores de templos
pergunte ao homem que nunca gastou os sapatos
pergunte a Jesus
pergunte à lua
pergunte às sombras dentro do armário
pergunte à mariposa, ao monge, ao louco
pergunte ao homem que faz as tiras para
The New Yorker
pergunte a um peixinho dourado
pergunte a uma samambaia balançando como uma dança sensual
pergunte ao mapa da Índia
pergunte a um rosto gentil
pergunte ao homem escondido debaixo da sua cama
pergunte ao homem que você mais odeia na face da
terra
pergunte ao homem que bebia com Dylan Thomas
pergunte ao homem que amarrava as luvas de Jack Sharkey
pergunte ao homem de cara triste bebendo café
pergunte ao encanador
pergunte ao homem que sonha com avestruzes todas as
noites
pergunte ao bilheteiro em um show de horrores
pergunte ao falsário
pergunte ao homem dormindo em um beco sob
folhas de jornal
pergunte aos conquistadores das nações e planetas
pergunte ao homem que acaba de decepar o dedo
pergunte a uma passagem da bíblia
pergunte às gotas d’água pingando de uma torneira
enquanto toca o telefone
pergunte a quem perjura
pergunte à pintura de azul profundo
pergunte ao paraquedista
pergunte ao homem com dor de barriga
pergunte ao olho divino tão astuto e flutuante
pergunte ao garoto de calças justas na
faculdade cara
pergunte ao homem que escorregou na banheira
pergunte ao homem mastigado pelo tubarão
pergunte ao cara que me vendeu as luvas
sem pares
pergunte a esses e a todos aqueles que deixei de fora
pergunte ao fogo do fogo do fogo –
pergunte até para os mentirosos
pergunte a quem você quiser a qualquer momento
que quiser em qualquer dia que quiser
faça chuva ou esteja
nevando ou mesmo que
você esteja avançando pela varanda
amarelada pelo calor
pergunte isto pergunte aquilo
pergunte ao homem com merda de passarinho no cabelo
pergunte ao torturador de animais
pergunte ao homem que assistiu a touradas demais
na Espanha
pergunte aos donos de Cadillacs novos em folha
pergunte aos famosos
pergunte ao tímido
pergunte ao albino
e ao estadista
pergunte aos senhorios e aos jogadores de sinuca
pergunte aos farsantes
pergunte aos assassinos de aluguel
pergunte aos carecas e aos gordos
e aos caras altos e aos
nanicos
pergunte aos caolhos, aos
homens que treparam demais ou de menos
pergunte aos homens que leem todos os
editoriais
pergunte aos homens que cultivam rosas
pergunte aos homens quase incapazes de sentir dor
pergunte aos moribundos
pergunte aos cortadores de grama e aos espectadores
dos jogos de futebol
pergunte a qualquer um desses ou a todos esses
pergunte pergunte pergunte e
todos responderão a você:
uma esposa grunhindo no corrimão da escada é mais
do que um homem pode suportar.
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O Dia Em Que Choveu No Museu do Condado de Los Angeles

o judeu se curvou e
morreu. 99 metralhadoras
foram embarcadas para a França. alguém ganhou o 3o páreo
enquanto eu inspecionava
a hélice de um antigo monoplano
um homem se aproximou com uma faixa sobre o olho. começou a
chover. choveu e choveu e as ambulâncias seguiam
juntas
pelas ruas, e ainda que
tudo fosse apropriadamente monótono
curti o momento
como a temporada em Nova Orleans
vivendo de barras de chocolate
e observando os pombos
em uma ruela com nome francês
enquanto às minhas costas o rio se tornava
um golfo
e as nuvens se moviam enfermas por
um céu já morto
por volta da época em que César fora apunhalado,
e prometi a mim mesmo que
algum dia eu lembraria daquilo
tal qual aconteceu.
um homem se aproximou e tossiu.
será que para de chover? ele disse.
não respondi. toquei a
velha hélice e escutei as
formigas no teto dispararem apressadas
em direção ao fim do mundo. saia daqui, eu disse,
saia daqui ou chamarei
o guarda.
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Mário Quintana
Mário Quintana
2025-02-15

Mário Quintana