Canção de Amor Invertida
eu poderia desmanchar 90 montanhas aos berros
até torná-las menos que pó
se apenas um ser humano tivesse olhos na cabeça
e coração no corpo,
mas não há chance,
meu deus,
nenhuma chance.
rato com rato cão com cão porco com porco,
ouça o piano bêbado,
perceba o mito da misericórdia
fique quieto
pois até a voz de uma criança rosna
e nós não fomos enganados,
foi só porque quisemos acreditar.
Café da Manhã
acordando em uma daquelas manhãs no depósito de bêbados,
lábio inferior arrebentado, dentes soltos, miolos nadando em
uma cacofonia que não é sua, com
todos aqueles outros estranhos enrolados em farrapos, agora
barulhentos em seu sono louco, com nada para lhe fazer
companhia a não ser uma privada entupida,
um assoalho frio e duro
e a lei de outra
pessoa.
e sempre havia uma voz matinal, uma voz alta:
"CAFÉ DA MANHÃ!"
você normalmente não iria querer aquilo
mas se você quisesse
antes que pudesse pôr em ordem seus pensamentos
e ficar em pé
a porta da cela batia
e se fechava.
agora cada manhã é como um lento sonho
de satisfação. encontro meus chinelos, eu os calço,
vou ao banheiro, então desço a
escada com um turbilhão de corpos peludos, sou
o provedor, o deus, limpo as tigelas dos gatos, abro
as latas e converso com eles e eles se animam e
fazem seus sons ansiosos.
coloco as tigelas no chão enquanto cada gato vai para a sua
própria tigela, então reabasteço o pires com água
e olho todos os cinco comendo
em paz.
volto pela escada até o quarto
onde minha mulher ainda dorme, rastejo sob
as cobertas com ela, viro minhas costas para o sol
e logo estou dormindo de novo.
você tem que morrer algumas vezes antes de poder realmente
viver.
O Anão com um Soco
isto foi muitos anos depois
e ainda não consigo entender direito
mas foi em Nova York
e Nova York tem suas próprias leis e
de qualquer modo eu estava à toa em um daqueles
lugares
com muitas mesas redondas
com seus cavaleiros fortes e terríveis;
eu não me sinto tão bem assim, como de costume,
nem forte nem terrível,
apenas podre,
e eu estou sentado com alguma mulher
com alguma espécie de capuz sobre a cabeça,
ela é meio maluca
mas isso não importa.
ela tem um nome, Fay,
eu acho,
e ficamos bebendo, indo de um lugar a
outro, e entramos lá,
e parecia terrivelmente
animado
pois havia um anão com cerca de um
metro de altura
e o anão estava circulando
bêbado
e ele parava em uma mesa
e olhava para um homem
e dizia,
"bem, o que VOCÊ tem para dizer?"
e depois o anão lhe acertava uma na boca
só que o anão tinha mãos muito boas e
um soco infernal
então todo mundo dava risada e o anão
seguia para o bar
para mais um drinque.
"mantenha-o longe de mim, Fay!", eu lhe disse.
"ah? o quê? quem?"
"mantenha-o longe de mim!"
"quê? o que é? longe?"
o anão mandou a mão em outro sujeito
e todo mundo riu,
até eu ri. o anão sabia socar.
ele tinha muita
prática.
ele dançou no bar
estilo pé de valsa
então ele reparou em um marinheiro
muito loiro e jovem e
amedrontado.
o garoto mijava nas calças
e sorria para O
anão.
o anão lhe mandou a mão
para valer;
seu sorriso seguinte foi um tanto
sangrento.
então o anão deu-lhe outra no queixo
jogando o marinheiro para trás
sobre sua cadeira, duro
e teso.
nocaute! todos saudaram
o campeão!
aí o anão me
viu. o homem da mesa
ao fundo.
"mantenha-o longe de mim, Fay!"
eu disse.
"vamo tomá outro drinque Pp? ela disse.
(estava com um copo cheio na frente dela)
ele veio para cima de mim
em todo o um metro da sua
glória.
"muito bem, o que VOCÊ tem para dizer?"
eu não respondi. eu não tinha nada para dizer
que ele pudesse entender.
"nada, hein?"
eu fiz que sim. ele veio. eu senti minha cadeira rodar, depois
parar de novo sobre seus pés. jorros de luz vermelha e amarela e
azul vieram em seguida, depois risadas.
sentado ali
eu revidei.
seu pobre um metro deslizou pelo chão como um
boneco de trapos
e então estavam em cima de mim
parecia uma dúzia de homens
(mas podiam ter sido 3 ou 4)
e tomei mais algumas
porradas.
então fui jogado para fora
eu me levantei
e achei um lenço
e tentei parar
o pior do sangue
e Fay estava lá,
"seu covarde, você bateu naquele
homenzinho!?"
eu desci pela rua
mas ela ficou lá junto comigo
e fomos ao bar mais próximo
e eu olhei ao redor
e, vendo que todo mundo tinha mais de 1 metro e 30,
mandei vir mais 2
drinques.
Os Elefantes do Vietnã
primeiro eles costumavam, ele me contou,
atirar e jogar bombas nos elefantes,
dava para ouvir seus gritos sobre todos os outros sons;
mas você voava alto para bombardear o povo,
você nunca o enxergava,
só um pequeno clarão de lá de cima
mas com os elefantes
você podia olhar aquilo acontecendo
e ouvir como gritavam;
eu dizia a meus companheiros, ouçam, caras,
parem com isso,
mas eles se limitavam a rir
enquanto os elefantes se dispersavam
erguendo a tromba (se não tivesse sido estourada)
abrindo a boca
bem grande e
tropeçando nas pernas grossas e desajeitadas
enquanto o sangue escorria dos grandes buracos na barriga.
então voaríamos de volta,
missão cumprida.
acertávamos qualquer coisa:
comboios, depósitos, pontes, gente, elefantes e
todo o resto.
ele me contou mais tarde, eu
me senti mal pelos
elefantes.
Salty Dogs
fui cedo à pista para estudar as chances e aí
vem esse homem chegando e
limpando o pó dos bancos. ele prossegue em seu trabalho, tirando o pó,
muito
provavelmente contente por ter seu trabalho simples.
eu sou daqueles que não veem muita diferença
entre um cientista atômico e um homem que limpa os assentos
exceto pela sorte na jogada -
pais com dinheiro suficiente para dirigi-lo com segurança para uma
vida mais generosa.
"como é que vai?", perguntei-lhe enquanto ele ia tirando o pó.
"tudo bem, e como vai você?", ele perguntou.
"eu até que acerto com os cavalos. é com as mulheres que eu perco."
ele riu. "é, um homem tem duas ou três experiências ruins,
isso realmente o derruba."
"eu não ligo para duas ou três," eu lhe disse, "eu ligo para
11 ou 12."
"cara, você deve conhecer muita coisa nessa altura. qual você prefere
para o
primeiro?"
eu lhe disse que Salty Dog estava dando 4 para 1 e deveria chegar
em primeiro ou segundo. (45 minutos depois ele o fez.) mas ainda não
eram 45
minutos depois. o homem continuou a tirar o pó e eu pensei em todos os
meus empregos podres e como eu estava contente por tê-los. por um
tempo. depois era questão de largar ou ser demitido.
ambos me faziam sentir bem.
é quando você vive com uma mulher por mais de dois
anos que você sabe o que poderá acontecer só que você não sabe
exatamente por quê. não está no horóscopo. está no desempenho
passado,
não no horóscopo.
meu amigo, limpando o pó dos assentos, ele também não sabia
exatamente por quê.
saí para tomar um café. a garota magra atrás do
balcão era uma morena com uma pequena flor azul no cabelo,
belos olhos, belo sorriso. paguei meu café.
"boa sorte", ela disse.
"para você também", eu disse.
levei o café para meu assento, o vento vinha do oeste,
tomei um gole e esperei pela ação, pensando em
muitas coisas, coisas demais. a cena dissolveu-se em grama e
árvores e a pista suja de corridas, e me lembrei de cortinas sujas em
quartos sujos de pensão esvoaçando para a frente e para trás em um
vento leve,
e pensei em tropas sujas saqueando algum vilarejo novo,
e em minhas antigas namoradas infelizes novamente com seus novos
homens.
eu me sentei e tomei meu café e esperei pelo primeiro
páreo.
Quanto Mais Você Tenta
o desperdício de palavras
continua com uma espantosa
persistência
enquanto o garçom passa correndo com a bandeja
lotada
para todos aqueles garotos espertos que riem
de nós.
pouco importa. pouco importa.
enquanto os cadarços dos seus sapatos estiverem amarrados e
ninguém chegar perto demais
por trás.
só ser capaz de lixar-se e
ser indiferente já é vitória
o bastante.
essas mentes constipadas que buscam
sentidos mais amplos
serão despachadas com o resto
do lixo.
para fora.
se houver luz
ela o
encontrará.
dois
cuidado com mulheres
envelhecidas
que nunca foram
nada a não ser
jovens.
Guerra e Paz
experimentar a
verdadeira agonia
é
algo
duro
de escrever a respeito,
impossível
de entender
quando o
pega:
você fica
amedrontado
até a
medula,
não pode parar
quieto,
mexer-se
ou até
ficar
louco
decentemente.
e então
quando sua compostura
finalmente
retorna
e você
consegue
avaliar
a
experiência
é quase
como se
tivesse acontecido
a
outra
pessoa
pois
veja
você
agora:
calmo
desligado
por exemplo
limpando suas
unhas
procurando em
uma
gaveta
por
selos
passando
graxa
em seus
sapatos
ou
pagando a
conta
da luz.
a vida é
e não é
uma
delicada
chatice.
Olhos Sem Cérebro
na manhã amarga
rosas altas crescem
e os sapos comemoram
vitória.
no balão vazio da noite
nada cresce;
a noite
mastiga e arrota
e a vitória só é comemorada
por senhoras indecentes
com as pernas abertas
e olhos sem cérebro.
ao meio-dia,
por exemplo ao meio-dia,
algo acontece
finalmente.
o farol muda
o tráfego passa.
a própria vida não é o milagre.
que a dor seja tão constante,
esse é o milagre -
aquele martelar da coisa
quando você não pode nem gritar nem chorar
e tudo fica em cima de você
olhando nos seus olhos
comendo sua carne.
manhã noite e meio-dia
o tráfego passa
e o assassinato e a traição
de amigos e amantes
e toda a gente
passa através de você.
dor é a alegria de saber
a menos generosa verdade
que chega sem
avisar.
a vida é estar só.
a morte é estar só.
até os loucos choram
manhã noite e meio-dia.
Chega Desses Rapazes
meu primeiro marido, Retzel, ela disse,
voava em paragliders. ele tinha só uma das mãos.
ele nunca me chupou, nem uma vez só.
ele quer conhecê-lo, ele mora em
Redondo Beach.
Redondo Beach, eu disse, Redondo Beach.
meu marido seguinte,
Craft, tomava comprimidos e tocava piano o dia todo.
depois ele precisou operar um dos dedos da mão.
uma verruga. ele foi cruel comigo. agora ele sabe
o quanto foi cruel comigo.
onde ele está agora?
África. ele ainda está na África.
eu rodei pela África toda. circulei por lá
de barco. conheci um homem que tinha um
leopardo. ele costumava levar seu leopardo para
passear todo dia preso a uma corrente.
um dia ele não apareceu. seu leopardo o havia
comido.
essa é uma história engraçada.
eu também acho. você entende
as coisas. para mim chega desses rapazes,
desses corpos duros. eu quero você. você está no controle
de tudo.
eu estou?
sim, meu marido seguinte,
Larry, certa vez cobriu meu corpo com
pétalas de rosa. todas aquelas flores! foi
adorável, mas ele não fez amor comigo
outra vez por 2 anos. ele foi tão ruim como
amante. você é um grande
amante.
eu sou?
sim, você não gostaria de ir à Holanda?
não.
a Paris?
não.
à África?
não.
Redondo Beach?
não.
você é esquisito. não gosta de
viajar?
estou cheio disso.
você devia ter-me visto voar no paraglider de Retzel!
eu era boa naquele paraglider.
mas ele nunca me
chupava.
Retzel?
sim, agora ele é publicitário. ganha um bom
dinheiro.
algum dia eu vou lhe contar sobre minhas
mulheres.
não quero saber de suas
mulheres. não quero saber de
nenhuma
delas.
ela se virou na cama
oferecendo-me suas costas e seu
rabo.
garota, eu disse, conte-me mais sobre
Retzel.
ela se virou em minha
direção. você realmente quer
ouvir?
com certeza.
então ficamos deitados de costas
e ela me contou sobre Retzel
e eu ouvi.
Todas as Garotinhas
foi lá no norte da Califórnia
e ele estava em pé no púlpito
e estava lendo há algum tempo
estava lendo muitos poemas sobre
a Mãe Natureza e a bondade inerente
ao homem.
ele acreditava que tudo estava
certo com o mundo.
e não dava para reclamar dele:
era um professor de carreira que nunca havia
estado na cadeia ou em um puteiro;
cujo carro usado nunca morreu
na autoestrada; que
nunca havia precisado de mais do que
três drinques durante a mais louca
das suas noitadas;
que nunca havia sido fichado, execrado ou
levado porrada;
que nunca havia sido mordido por um cachorro;
que recebia regularmente cartas cordiais de Gary
Snyder, e cujo rosto era
amável, sem marcas e
carinhoso. finalmente,
sua mulher nunca o havia traído
muito menos sua sorte.
ele disse: "só vou ler
mais três poemas e depois vou
descer daqui e deixar
Chinaski ler".
"ah, não", disseram todas as
garotinhas em seus vestidos rosados e azuis
e brancos e cor de laranja
e lilases. "ah, não,
leia mais alguns, leia mais
alguns!"
ele leu mais um poema e então disse,
"este é o último poema que
vou ler".
"ah, não", disseram todas as
garotinhas em seus vestidos meio transparentes
vermelhos e verdes. "ah, não", disseram
todas as garotinhas em seus jeans
apertados com corações costurados neles.
"ah, não", disseram todas as garotinhas,
"por favor, leia
mais poemas!"
mas ele cumpriu sua palavra.
recolheu os poemas e desceu e
desapareceu em algum lugar. quando levantei-me para ler
as garotinhas deram risadinhas em
seus assentos e uma delas assobiou e
algumas delas fizeram observações interessantes dirigidas a mim
que usarei em um poema em alguma data futura
pois este maldito poema em particular
tem que terminar em algum lugar.
de qualquer modo, foi duas ou três semanas depois
que recebi essa carta do poeta William
dizendo que ele havia apreciado minha leitura.
ele era um verdadeiro cavalheiro.
eu estava de cama com uma
ressaca de três dias. perdi o envelope
mas peguei a carta e a dobrei em
um desses aviõezinhos de papel
que eu havia aprendido a fazer na
escola. navegou ao redor do quarto
e aterrissou entre um velho boletim de corridas de cavalo
e um par de shorts puídos.
não nos correspondemos desde então.