Charles Bukowski

Charles Bukowski

1920–1994 · viveu 73 anos DE DE

Charles Bukowski foi um poeta e escritor alemão-americano, conhecido por sua obra crua, visceral e autobiográfica. Sua escrita, frequentemente associada à chamada "geração beat" e à contracultura, retrata a vida marginal, os vícios, a pobreza, o sexo e a alienação com uma linguagem direta e sem rodeios. Bukowski celebrou o submundo e os desajustados, tornando-se um ícone para muitos que se sentiam à margem da sociedade.

n. 1920-08-16, Andernach · m. 1994-03-09, San Pedro

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Acenos E Mais Acenos de Adeus

paguei suas despesas ao longo de todo o trajeto entre
[Houston
e São Francisco
depois voei pare encontrá-la na casa do irmão dela
e acabei bêbado
e falei a noite inteira sobre uma ruiva, e
ela disse por fim, “você dorme ali em cima”,
e eu subi a escada
do beliche e ela dormiu
na cama de baixo.

no dia seguinte eles me levaram até o aeroporto
e eu voei de volta, pensando, bem,
ainda restou a ruiva e assim que cheguei
liguei para ela e disse, “voltei, baby,
peguei um avião para ver essa mulher e falei
sobre você a noite inteira, então aqui estou eu de volta...”

“bem, por que você não volta lá e termina
o serviço?” ela disse e desligou.

então enchi a cara e o telefone tocou
e elas se apresentaram como
duas garotas alemãs que queriam
me ver.

então elas apareceram e uma delas tinha 20 e a
outra 22. contei-lhes que meu coração
havia sido esmigalhado pela última vez e
que eu estava desistindo desse negócio de mulher. elas riram
de mim e nós bebemos e fumamos e fomos
juntos para a cama.

eu tinha essa cena diante de mim e
primeiro agarrei uma e depois agarrei a
outra.

finalmente fiquei com a de 22 e
a devorei.

elas ficaram 2 dias e 2 noites
mas nunca fui com a de 20,
ela estava menstruada.

finalmente as levei para Sherman Oaks
e elas ficaram junto ao pé de uma longa
passagem
acenos e mais acenos de adeus enquanto eu dava a ré
no meu fusca.

quando voltei havia uma carta de uma
mulher de Eureka. dizia que queria que eu
a fodesse até que ela não pudesse
mais caminhar.

me deitei e puxei uma
pensando na garotinha que eu tinha visto
uma semana atrás em sua bicicleta vermelha.

depois tomei um banho e vesti meu robe
verde e felpudo bem a tempo de pegar as lutas
na tevê diretamente do Olympic.

havia um negro e um chicano.
isso sempre dava uma boa luta.

e era também uma boa ideia:
ponha os dois no ringue e deixe que
se matem.

assisti a todo o combate
sem deixar de pensar na ruiva uma vez sequer.

acho que o chicano venceu
mas não tenho certeza.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Heinrich Karl "Hank" Bukowski Jr. foi um poeta, contista e romancista alemão-americano. Nasceu em Andernach, na Alemanha, em 16 de agosto de 1920, e faleceu em San Pedro, Califórnia, Estados Unidos, em 9 de março de 1994. É uma figura proeminente da literatura marginal e da contracultura americana. Filho de pais alemães, mudou-se com a família para os Estados Unidos quando tinha três anos.

Infância e formação

Bukowski teve uma infância difícil marcada pela pobreza e por um relacionamento abusivo com o pai. Aos três anos, a família emigrou para os Estados Unidos, estabelecendo-se em Los Angeles. Sua adolescência foi rebelde e problemática. Frequentou a Los Angeles High School, mas abandonou os estudos precocemente. Aos 17 anos, saiu de casa. Sua formação foi autodidata, moldada por leituras intensas, pela experiência de vida nas ruas e pelos trabalhos precários que desempenhou ao longo de décadas.

Percurso literário

Bukowski começou a escrever poesia e contos ainda jovem, mas demorou décadas para ser reconhecido. Trabalhou em empregos manuais e braçais, como carteiro e em fábricas, em grande parte de sua vida adulta, muitas vezes lutando contra o alcoolismo. Publicou esporadicamente em pequenas revistas literárias underground nas décadas de 1940 e 1950. Sua carreira literária ganhou impulso a partir da década de 1960, quando se dedicou integralmente à escrita após receber uma herança que lhe permitiu deixar o emprego nos correios. Seu primeiro livro de poemas, "Flower, Fist, and Bestial Wail", foi publicado em 1960. A partir daí, produziu uma vasta obra em poesia, contos e romances.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras mais conhecidas de Bukowski incluem coleções de poemas como "Love Is a Dog from Hell" (1977), "Crimson Tears" (1978), e "The Most Beautiful Woman in Town" (1986), além de romances como "Factotum" (1975), "Women" (1978) e "Post Office" (1971). Seus temas centrais são a vida marginal, a pobreza, o alcoolismo, o sexo, a solidão, a alienação, a crítica social e a busca por sentido em um mundo caótico. Seu estilo é caracterizado por uma linguagem direta, coloquial, sem adornos, muitas vezes obscena e chocante, mas também capaz de uma profunda sensibilidade e honestidade. Ele utilizava o verso livre de forma contundente, com frases curtas e ritmo muitas vezes quebrado. Sua voz poética é confessional, crua e irónica, refletindo suas experiências de vida de forma implacável. Bukowski é considerado um renovador da poesia americana pela sua abordagem realista e pela sua capacidade de dar voz aos desvalidos.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Bukowski emergiu como uma voz dissonante em meio ao otimismo pós-guerra e ao surgimento da contracultura nos EUA. Sua obra, muitas vezes associada à Geração Beat, como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, embora com um estilo mais sombrio e menos místico, capturou o desencanto e a rebeldia de uma parcela da sociedade que se sentia marginalizada. Ele escreveu em um período de profundas mudanças sociais e políticas nos Estados Unidos, como a Guerra do Vietnã e os movimentos pelos direitos civis, temas que, embora não diretamente abordados, permeiam o pano de fundo de sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Bukowski foi marcada pela luta contra o alcoolismo, por relacionamentos tumultuados e por uma série de empregos precários. Teve casamentos e relacionamentos significativos, incluindo com as poetisas Jane Cooney Baker e Linda King, e mais tarde com Linda Lee Beighle, que se tornou sua esposa e figura importante em sua vida. Sua obra é profundamente autobiográfica, sendo difícil separar o homem do escritor. Suas experiências com a pobreza e a boemia foram a matéria-prima de sua escrita. Suas crenças eram pragmáticas e cínicas, desconfiando de instituições e ideologias.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Bukowski obteve um reconhecimento tardio e muitas vezes controverso. Enquanto era idolatrado por muitos como um autêntico "escritor do povo" e um rebelde contra o sistema, era criticado por outros por seu estilo considerado vulgar ou amoral. Sua popularidade cresceu exponencialmente após sua morte, tornando-se um autor cultuado em todo o mundo, especialmente entre jovens e leitores que se identificam com sua honestidade brutal e sua visão de mundo sem filtros.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Bukowski foi influenciado por escritores como Ernest Hemingway, John Fante, D.H. Lawrence e por autores da Geração Beat. Seu legado é o de ter dado voz aos marginalizados, de ter mostrado que a literatura pode emergir de experiências de vida difíceis e de ter desafiado as convenções literárias estabelecidas. Inspirou inúmeros poetas e escritores que buscam uma linguagem autêntica e um retrato sem maquiagem da realidade. Sua obra continua a ser uma referência para a literatura underground e alternativa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Bukowski é frequentemente analisada sob a ótica da literatura marginal, da crítica social e da representação da experiência humana em suas formas mais cruas. Os debates centram-se na sua genialidade como cronista da vida urbana e da alienação, e na sua capacidade de extrair poesia do feio e do sórdido.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Bukowski era conhecido por seu humor negro e seu cinismo. Ele tinha uma coleção de centenas de cartas de amor recebidas de fãs em todo o mundo. Passou um período em um hospital psiquiátrico em sua juventude, uma experiência que o marcou profundamente. Sua relação com os cachorros era notória. Era um observador atento da natureza humana, registrando suas observações em cadernos.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Charles Bukowski faleceu em 9 de março de 1994, em San Pedro, Califórnia, aos 73 anos, vítima de leucemia. Sua morte foi recebida com pesar por seus admiradores. Suas cinzas foram espalhadas em um de seus locais favoritos na Califórnia. Sua obra continua a ser publicada e a ser redescoberta por novas gerações, solidificando sua posição como um dos autores mais singulares e influentes da literatura americana.

Poemas

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Agora

eu tinha bolhas do tamanho de tomates
me cobrindo todo
eles me enfiaram cânulas
lá no hospital do condado,
e
tão logo o sol se punha
a cada dia
havia um homem no leito ao lado
que começava a urrar por seu amigo Joe.
JOE! ele urrava, Ô, JOE! JOE! J O E!
VENHA ME BUSCAR, JOE!
Joe nunca apareceu.
nunca tinha escutado lamentos como
esses.
Joe devia estar em cima de um
rabo qualquer ou
tentando completar umas palavras cruzadas.
eu sempre disse
se você quer descobrir quem são seus amigos
vá parar no hospício ou na
cadeia.
e se você quiser descobrir onde o amor não está
seja um perpétuo
perdedor.
tive bastante sorte com minhas bolhas
sendo perfurado e torturado
contra o pano de fundo das montanhas de Sierra Madre
enquanto aquele sol se punha;
enquanto aquele sol se punha eu sabia o que eu viria a fazer
quando finalmente tivesse aquela cânula em minhas mãos
como acontece
agora.
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Um Poema Para a Velha Dente-Podre

conheço uma mulher
que segue comprando quebra-cabeças
quebra-cabeças
chineses
blocos
arames
peças que finalmente se encaixam
numa espécie de ordem.
ela se dedica à questão
de modo matemático
resolve todos os seus
quebra-cabeças
vive perto do mar
põe açúcar para as formigas lá fora
e acredita
definitivamente
num mundo melhor.
seu cabelo é branco
raramente o penteia
seus dentes são podres
e ela veste macacões frouxos
e amorfos sobre um corpo que a maioria
das mulheres desejaria ter.
ao longo de muitos anos ela me irritou
com o que eu considerava suas
excentricidades:
como mergulhar conchas na água
(para que ao regar as plantas elas
recebessem cálcio).
mas finalmente quando penso na sua
vida
e a comparo a outras vidas
mais deslumbrantes, originais
e belas
percebo que ela machucou menos
gente do que qualquer outra pessoa que conheço
(e com machucar quero dizer simplesmente machucar).
ela enfrentou alguns momentos terríveis,
momentos em que talvez eu devesse tê-la
ajudado mais
porque era a mãe da minha única
filha
e uma vez fôramos grandes amantes,
mas ela havia superado essas dificuldades
como eu disse
das pessoas que conheço ela foi a que machucou
menos gente,
e se você olhar para isso pelo que isso significa,
bem,
ela criou um mundo melhor.
ela venceu.
Frances, este poema é pra
você.

Encontrava Sara a cada três ou quatro dias, na casa dela ou na minha. Dormíamos juntos, mas não transávamos. Chegávamos perto, mas nunca às vias de fato. Os preceitos de Drayer Baba eram inabaláveis.
Decidimos passar os feriados de final de ano juntos aqui em casa, o Natal e o Ano-Novo.
Sara chegou por volta do meio-dia, no dia 24, em sua Kombi. Fiquei olhando-a estacionar, depois saí em seu encontro. Trazia várias ripas de madeira amarradas sobre o teto da Kombi. Era meu presente de Natal: ela faria uma cama para mim. Minha cama era uma piada: um simples box de mola com o interior saltando para fora do colchão. Sara também trouxe um peru orgânico, mais os acompanhamentos. Eu tinha ficado de pagar essas compras mais o vinho branco. Além disso, havia umas lembrancinhas que iríamos trocar.
Carregamos as ripas de madeira e o peru e as outras coisas. Coloquei o box, o colchão e a guarda da cama do lado de fora e coloquei um cartaz: “Grátis”. A guarda foi primeiro, o box em seguida, e finalmente alguém levou o colchão. Era uma vizinhança pobre.
Eu tinha visto a cama de Sara na casa dela, dormira nela, e tinha gostado. Nunca tinha gostado dos colchões comuns, ao menos dos que eu podia comprar. Eu havia passado mais da metade da minha vida em camas que serviriam melhor a alguém que tivesse o corpo na forma de uma minhoca.
Sara havia construído a própria cama e ela iria construir outra igual para mim. Uma plataforma sólida de madeira, suportada por sete pés quádruplos (o sétimo colocado diretamente no meio), coberta por uma camada de espuma firme de dez centímetros. Sara tinha umas boas ideias. Eu segurava as tábuas, e Sara assentava os pregos. Era boa com o martelo. Pesava apenas 52 quilos, mas mandava ver nos pregos. A cama ficaria ótima.
Não levou muito para que Sara terminasse.
Então testamos a cama – não sexualmente – sob o sorriso auspicioso de Drayer Baba.
Saímos de carro em busca de uma árvore de Natal. Não estava muito a fim de encontrá-la (o Natal sempre havia sido uma época infeliz na minha infância), e, quando vimos todos os canteiros vazios, não ter uma árvore não foi algo que me incomodou. Enquanto voltávamos, Sara ficou triste. Mas depois de entrarmos e de alguns copos de vinho ela recuperou a alegria e começou a pendurar os arranjos de natal, lampadinhas, purpurina, por toda parte, inclusive nos meus cabelos.
Tinha lido em algum lugar que mais pessoas cometiam suicídio no Natal e na noite do Ano-Novo do que em qualquer outra época. Aparentemente, este feriado nada tinha a ver com o Nascimento de Cristo.
As músicas no rádio eram de dar engulhos no estomago e na tevê a coisa era ainda pior, então desligamos tudo e ela ligou para a mãe no Maine. Falei com a mamãe também, e ela não era das piores.
– No começo – disse Sara –, pensei em ajeitar as coisas entre você e mamãe, mas ela é mais velha do que você.
– Esqueça.
– Ela tem ótimas pernas.
– Esqueça.
– Você tem preconceito contra pessoas mais velhas?
– Sim, contra todos os velhos exceto eu.
– Você age como se fosse uma estrela de cinema. Você sempre teve mulheres 20 ou 30 anos mais novas que você?
– Não quando estava na casa dos vinte.
– Tudo bem. Você já teve alguma mulher que fosse mais velha que você, quero dizer, chegou a viver com ela?
– Claro, quando eu tinha 25 vivi com uma mulher de 35.
– E como foi?
– Uma desgraça. Eu me apaixonei por ela.
– E isso é uma desgraça?
– Ela me fez ir pra faculdade.
– E isso é uma desgraça?
– Não era o tipo de faculdade que você está pensando. Ela era a faculdade, e eu o jovem estudante.
– O que aconteceu com ela?
– Acabei tendo que enterrá-la.
– Com as devidas honras? Você a matou?
– O trago a matou.
– Feliz Natal.
– Claro. Me fale de você.
– Passo.
– Muitas histórias?
– Muitas, e ao mesmo tempo tão poucas.
Trinta ou quarenta minutos depois alguém bateu à porta. Sara se levantou e foi abrir. Um símbolo sexual entrou. Na véspera de Natal. Não sabia quem ela era. Usava uma roupa preta e seus peitos enormes pareciam prestes a saltar para fora do vestido. Aquilo era magnífico. Nunca tinha visto peitos como aqueles, expostos dessa maneira, a não ser em filmes.
– Oi, Hank!
Ela me conhecia.
– Sou Edie. Você me conheceu na casa do Bobby numa noite dessas.
– Sério?
– Estava bêbado demais pra lembrar?
– Olá, Edie. Esta é Sara.
– Estou atrás do Bobby. Pensei que ele pudesse estar por aqui.
– Sente-se e beba alguma coisa.
Edie se sentou numa cadeira à minha direita, bem próxima a mim. Devia ter uns 25. Acendeu um cigarro e tomou um gole de sua bebida. Cada vez que ela se inclinava para frente sobre a mesinha de centro eu tinha certeza de que aconteceria, que os peitos saltariam para fora. E eu tinha medo do que faria caso isso acontecesse. Simplesmente não conseguia entender nada. Nunca tinha sido um homem ligado em peitos, sempre fui chegado em pernas. Mas Edie sabia mesmo explorar o que possuía. Eu estava com medo e olhava de canto para seus peitos sem saber se queria que eles saltassem para fora ou que ficassem onde estavam.
– Você conheceu o Manny – ela me disse – lá na casa do Bobby?
– Claro.
– Tive que lhe dar um pé na bunda. O cara era muito ciumento. Chegou a contratar um detetive particular pra me seguir! Imagine só! O cara é um retardado de merda!
– Claro.
– Odeio homens que ficam mendigando atenção. Odeio gente mesquinha!
– É difícil encontrar um homem bom nos dias de hoje – eu disse. – É uma canção. Dos tempos da Segunda Guerra. Também tinha uma outra: “Não sente debaixo de uma macieira com outra pessoa que não seja eu”.
– Hank, você está gaguejando... – disse Sara.
– Tome outro drinque, Edie – eu disse, servindo-lhe mais uma dose.
– Os homens não passam de uns merdas! – continuou. – Entrei num bar dia desses. Estava com quatro caras, amigos do peito. Sentamos por ali, virando umas canecas de chope, estávamos rindo, sabe, curtindo o momento, não estávamos incomodando ninguém. Então me veio a ideia de jogar uma partidinha de bilhar. Gosto de jogar bilhar. Acho que quando uma mulher joga bilhar ela mostra se tem classe ou não.
– Não sei jogar bilhar – eu disse. – Sempre rasgo o feltro, e nem preciso ter classe.
– Seja o que for, fui até a mesa e lá estava um cara jogando bilhar sozinho. Cheguei nele e disse: “Escute, você já está nessa mesa há um tempão. Eu e meus amigos queremos jogar um pouquinho. Você se importa de liberar a mesa por um momento?” Ele se virou e olhou pra mim. Ficou ali parado. Por fim, fez uma cara enjoada e disse: “Tudo bem”.
Edie se animou e se mexia toda ao falar. Eu só espiando aquelas maravilhas.
– Voltei atrás dos meus amigos. “Conseguimos a mesa.” Finalmente o cara estava apenas com uma bola na mesa. Foi quando chegou um amigo dele e disse: “Ei, Ernie, soube que você vai sair da mesa”. E vocês sabem o que ele disse para o outro? Disse: “Sim, vou deixar a mesa nas mãos daquela piranha!” Escutei aquilo e vi tudo ficar VERMELHO! O cara já se inclinava sobre a mesa pra bater na última bola. Apanhei um taco e enquanto ele estava naquela posição acertei sua cabeça com toda a força que pude. O cara caiu sobre a mesa como se estivesse morto. Era conhecido no bar, e então os seus amigos, em grupo, correram na minha direção, mas, ao mesmo tempo, os meus parceiros também se aproximaram. Rapaz, que quebra-pau! Garrafas espatifando, espelhos quebrados... Não sei como saímos de lá, mas saímos. Ei, você tem erva aí?
– Sim, mas não sei fechar muito bem.
– Deixa que eu cuido disso.
Edie fechou um baseado fininho, obra de mestre. Deu um pega, tragando-o com um chiado, e então passou para mim.
– Então, na noite seguinte, eu voltei lá sozinha. O dono, que atendia no bar, me reconheceu. Seu nome é Claude. “Claude”, eu lhe disse, “sinto muito por ontem à noite, mas o cara na mesa era um otário de merda. Ele me chamou de piranha.”
Servi mais uma rodada. Mais alguns minutos e seus seios estariam à mostra.
– O dono disse: “Tudo bem, esqueça”. Ele parecia um cara legal. “O que você gosta de beber?”, ele me perguntou. Fiquei ali pelo bar, tomei duas ou três bebidas de graça, e então ele disse: “Sabe, estou pensando em trocar de garçonete”.
Edie deu um pega no baseado e continuou.
– Ele me falou dos problemas com a outra garçonete. “Ela atrai os homens até, mas causa muita confusão. Joga um cara contra o outro. Está sempre debaixo dos holofotes. Então descobri que ela estava fazendo uma graninha por fora. Usava o MEU bar pra faturar com sua buceta!”
– Sério? – perguntou Sara.
– Foi o que ele disse. De todo modo, me ofereceu a vaga de garçonete. E ele disse: “Nada de querer faturar um extra!” Disse pra ele parar com essa bobagem, eu não era dessa laia. Pensei, então, que talvez pudesse guardar algum dinheiro e ir pra UCLA, para me formar em química e estudar francês, que foi o que sempre planejei. Então ele disse: “Venha até aqui, quero lhe mostrar onde estocamos as mercadorias e tenho inclusive um uniforme que quero que você experimente. Nunca foi usado e acho que é do seu tamanho.” Então fui com ele até esse quartinho escuro e ele tentou me agarrar. Dei um empurrão nele. Então ele disse: “Me dá só um beijinho”. “Vai se foder!”, eu disse. Ele era gordo e careca e baixinho e usava dentadura e tinha verrugas pretas nas bochechas, com pelos saindo delas. Ele me prensou e agarrou a minha bunda com uma das mãos e com a outra um dos meus peitos, tentando me dar um beijo. Empurrei ele outra vez. “Eu sou casado”, ele disse, “amo a minha mulher, não se preocupe!” Voltou a me prensar e eu lhe dei um joelhaço você-sabe-onde. Acho que ele não tinha nada por ali, não chegou nem a se encolher. “Eu lhe dou dinheiro”, ele disse, “vou ser legal com você!” Disse pra ele enfiar o dinheiro no cu. E assim perdi mais um emprego.
– É uma história triste – eu disse.
– Escute – disse Edie –, tenho que ir. Feliz Natal. Obrigada pelas bebidas.
Ela se levantou e a acompanhei até a porta, abrindo-a. Ela saiu e atravessou o pátio. Voltei e me sentei.
– Seu filho da puta – disse Sara.
– O que foi?
– Se eu não estivesse aqui você teria trepado com ela.
– Eu mal conheço essa mulher.
– Aqueles peitos! Você estava petrificado! Você não tinha coragem nem de olhar pra ela!
– O que será que ela fazia por aí, vagando na véspera de Natal?
– Por que você não vai lá e pergunta pra ela?
– Ela disse que estava atrás do Bobby.
– Se eu não estivesse aqui você teria trepado com ela.
– Não sei. Não tenho como saber...
Então Sara se levantou e começou a gritar. E começou a soluçar e foi para o quarto. Me servi mais um drinque. As lampadinhas nas paredes não paravam de piscar.
Sara preparava o recheio do peru, e eu fiquei na cozinha com ela, conversando. Tomávamos um vinho branco.
O telefone tocou. Fui atender. Era Debra.
– Queria apenas desejar pra você um feliz Natal, seu macarrão molhado.
– Obrigado, Debra. E um bom Papai Noel pra você
Conversamos um pouco, depois voltei e me sentei.
– Quem era?
– Debra.
– Como ela está?
– Bem, eu acho.
– O que ela queria?
– Desejar feliz Natal.
– Você vai gostar desse peru orgânico, e o recheio também é bom. As pessoas comem veneno, veneno puro. A América é um dos poucos países onde o câncer de colón é predominante.
– Pois é, meu cu coça um monte, mas são só as minhas hemorroidas. Operei uma vez. Antes de operar eles enfiam essa cobra no seu intestino, com uma luzinha na ponta e eles olham dentro de você, pra ver se encontram algum câncer. Essa cobra é muito cumprida. Eles apenas pegam e enfiam a coisa dentro de você!
O telefone voltou a tocar. Fui lá atender. Era Cassie.
– Como vai você?
– Sara e eu estamos preparando um peru.
– Sinto sua falta.
– Feliz Natal pra você também. Como vai o trabalho?
– Tudo bem. Estou de folga até o dia 2 de janeiro.
– Feliz Ano-Novo, Cassie!
– Que diabos há com você?
– Estou um pouco aéreo. Não estou acostumado a beber vinho branco a essa hora.
– Me liga qualquer hora dessas.
– Claro.
Retornei à cozinha.
– Era a Cassie. As pessoas ligam no Natal. Talvez Drayer Baba ligue.
– Não vai ligar.
– Por quê?
– Nunca falou em voz alta. Nunca falou e também nunca tocou em dinheiro.
– Mas que beleza. Deixa eu provar um pouco desse recheio.
– Ok.
– Vamos ver... Nada mal!
O telefone tocou mais uma vez. Era assim que o negócio funcionava. Uma vez que começasse a tocar, não parava mais. Fui até o quarto e atendi.
– Alô – eu disse. – Quem está falando?
– Seu filho da puta. Não sabe quem é?
– Não, não sei mesmo.
Era uma mulher bêbada.
– Adivinha.
– Espera. Já sei! É Iris!
– Sim, Iris. E estou grávida!
– Sabe quem é o pai?
– Que diferença isso faz?
– É, acho que você está certa. Como estão as coisas em Vancouver?
– Tudo bem. Tchau.
– Tchau.
Voltei mais uma vez para a cozinha.
– Era aquela canadense, dançarina do ventre – eu disse a Sara.
– Como ela está?
– Empanturrada pela alegria natalina.
Sara colocou o peru no forno e fomos para a sala. Ficamos falando bobagem por algum tempo. O telefone tocou outra vez.
– Alô – eu disse.
– Você é Henry Chinaski? – A voz era de um jovem.
– Sim.
– Você é mesmo Henry Chinaski, o escritor?
– Sim.
– De verdade?
– Claro.
– Bem, nós somos uma galera de Bel Air e nós realmente achamos do caralho o que você escreve, cara! Gostamos tanto da porra dos seus textos que queremos recompensá-lo, cara!
– É mesmo?
– Sim, vamos pintar aí com umas cevas e tal.
– Enfie a cerveja no cu.
– O quê?
– Eu disse: “Enfie a cerveja no cu!”
Desliguei.
– Quem era? – perguntou Sara.
– Acabo de perder três ou quatro leitores em Bel Air. Mas valeu a pena.
O peru ficou pronto e eu o tirei do forno, coloquei-o numa travessa, tirei a máquina de escrever e todos os meus papéis de cima da mesa da cozinha, e ajeitei o peru ali. Comecei a destrinchá-lo enquanto Sara trazia os vegetais. Sentamos. Enchi meu prato, Sara, o dela. Era uma visão bonita.
– Espero que aquela peituda não resolva voltar – disse Sara. Parecia bastante incomodada diante da possibilidade.
– Se ela aparecer, ofereço um pedaço.
– O quê?
Apontei para o peru.
– Eu disse que “se ela aparecer, ofereço um pedaço”. Espere pra ver se não faço isso.
Sara gritou. Ficou de pé. Tremia. Correu até o quarto. Olhei para meu peru. Não conseguiria comê-lo. Mais uma vez, apertara o botão errado. Fui até a sala com meu drinque e me sentei. Esperei 15 minutos e então coloquei o peru e os vegetais na geladeira.
Sara voltou para a sua casa no dia seguinte, e eu fiz um sanduíche de peru frio por volta das três. Por volta das cinco, houve uma pancada terrível na porta. Abri. Eram Tammie e Arlene. Estavam totalmente emboletadas. Entraram e começaram a aloprar, as duas falando ao mesmo tempo.
– Tem alguma coisa pra beber?
– Caralho, Hank, tem alguma porra pra beber?
– Como foi a merda do seu Natal?
– É. Como foi a merda do seu Natal, cara?
– Tem cerveja e vinho na frigidaire – eu lhes disse.
(É fácil reconhecer um coroa: ele chama geladeira de frigidaire.)
Entraram dançando na cozinha e abriram a frigidaire.
– Ei, tem um peru aqui!
– Estamos com fome, Hank! Podemos comer um pouco de peru?
– Claro.
Tammie voltou com uma coxa e deu uma mordida.
– Ei, que peru horrível! Precisa temperar!
Arlene voltou com fatias de carne nas mãos.
– É, precisa pôr tempero. Está totalmente insosso! Você tem temperos?
– No armário – eu disse.
Voltaram aos pulos para a cozinha e começaram a pôr os temperos.
– Aí! Bem melhor!
– É, agora tem gosto de alguma coisa!
– Peru orgânico, que bela merda!
– Merda pura!
– Quero mais um pedaço!
– Eu também. Mas tem que temperar.
Tammie voltou e se sentou. Ela recém terminara a coxa. Então pegou o osso, partiu-o ao meio, e começou a mastigá-lo. Fiquei pasmo. Ela estava comendo o osso da coxa, cuspindo umas lasquinhas no tapete.
– Ei, você está comendo o osso!
– Sim, é uma delícia!
Tammie voltou correndo à cozinha para pegar mais.
Logo as duas apareceram, cada uma com uma garrafa de cerveja.
– Obrigada, Hank.
– É, obrigada, cara.
Elas sentaram, mamando as cervejas.
– Bem – disse Tammie –, está na nossa hora.
– É, vamos estuprar alguns garotinhos do ensino médio!
– É isso aí!
As duas se levantaram num salto e saíram porta afora. Fui até a cozinha e olhei dentro da geladeira. O peru parecia ter sido atacado por um tigre – a carcaça havia sido simplesmente dilacerada. Chegava a ser obsceno.
Sara apareceu na noite seguinte.
– Que tal o peru? – ela perguntou.
– Bom.
Ela foi até a cozinha e abriu a porta da geladeira. Gritou. Então voltou correndo.
– Meu deus, o que aconteceu?
– Tammie e Arlene deram uma passada aqui. Acho que não comiam há uma semana.
– Ai, que nojo. É de partir o coração!
– Me desculpe. Eu devia ter impedido as duas. Estavam emboletadas.
– Bem, só resta uma coisa a fazer.
– O quê?
– Posso fazer um ensopado de peru. Vou comprar alguns vegetais.
– Tudo bem.
Dei-lhe uma nota de vinte.
Sara preparou a sopa naquela noite. Estava deliciosa. Ao ir embora pela manhã, deixou-me as instruções sobre como aquecê-la.
Tammie bateu à porta por volta das quatro horas. Deixei-a entrar e ela foi direto até a cozinha. A porta da geladeira se abriu.
– Olha só, sopa, então?
– Sim.
– Está boa?
– Sim.
– Você se importa se eu tomar um pouquinho?
– Não.
Pude ouvi-la levar a sopa ao fogão. Depois o som de uma colherada.
– Deus! Esse negócio não tem gosto de nada! Precisa de tempero!
Escutei-a mexer nos temperos. Então ela voltou a experimentar.
– Ah, outra coisa! Mas ainda é pouco! Sou de origem italiana, você sabe. Agora... Sim... Está bem melhor! Agora é só deixar esquentar. Posso tomar uma cerveja?
– Tudo bem.
Voltou com uma garrafa e se sentou.
– Sentiu minha falta? – perguntou.
– Você nunca saberá.
– Acho que vou recuperar meu emprego no Play Pen.
– Ótimo.
– Lá rola umas boas gorjetas. Um cara aí me dava cinco dólares de gorjeta por noite. Estava apaixonado por mim. Mas nunca me convidou pra sair. Ficava apenas me olhando com uns olhos cheios de ternura. Era um tipo estranho. Era cirurgião retal e às vezes se masturbava me vendo caminhar de um lado pro outro. Dava pra sentir o cheiro de porra, sabe.
– Bem, você deixou o cara nesse estado...
– Acho que a sopa está pronta. Quer um pouco?
– Não, obrigado.
Tammie entrou na cozinha e dava para ouvi-la servindo a sopa no prato. Ficou lá por um longo tempo. Então retornou.
– Tem como me emprestar cinco paus até sexta-feira?
– Não.
– Então dois paus.
– Não.
– Então me descola um dólar mesmo.
Dei a Tammie um punhado de moedas. Totalizavam um dólar e 37 centavos.
– Obrigada – ela disse.
– Tudo bem.
Depois disso, ela se foi.
Sara apareceu na noite seguinte. Raramente vinha assim tão seguido, devia ter algo a ver com o feriado de final de ano, todo mundo se sente perdido, meio louco, assustado. O vinho branco estava preparado e servi dois copos.
– Como vão as coisas na Pousada? – perguntei.
– Ter um negócio é uma merda. Mal dá pra pagar as despesas.
– Onde estão os hóspedes?
– Estão todos fora da cidade; foram todos pra algum lugar.
– Todos os nossos esquemas têm seus furos.
– Nem todos. Algumas pessoas simplesmente não erram nunca, seguem sempre em frente.
– Verdade.
– E a sopa?
– Quase no fim.
– Gostou?
– Não cheguei a tomar muito.
Sara foi até a cozinha e abriu a porta da geladeira.
– O que aconteceu com a sopa? Está com uma cara estranha.
Escutei o som que ela fez ao prová-la. E então como correu até a pia e cuspiu o que estava na boca.
–Jesus, a sopa está envenenada! O que aconteceu? Tammie e Arlene voltaram para tomar a sopa também?
– Só a Tammie.
Sara não gritou. Apenas virou o que sobrara da sopa na pia e acionou o triturador de lixo. Podia escutar seus soluços mal disfarçados. Aquele pobre peru orgânico tinha passado um Natal dos diabos.
– Mulheres
2 333

Prece Debaixo de Mau Tempo

por Deus, não sei o que
fazer.
elas são tão legais de se ter por perto.
elas têm um jeito de tocar
as bolas
e olhar para o pau muito
seriamente
virando-o
puxando-o
examinando cada parte
enquanto seus longos cabelos caem
sobre a sua barriga.
não é apenas o foder e o chupar
que alcançam o interior do homem
e o amaciam, são os extras,
está tudo nos extras.
agora é noite e está chovendo
e não há ninguém
estão todas em outros lugares
examinando coisas
em novos quartos
com novos humores
mesmo que em velhos
quartos.
seja o que for, é noite e está chovendo,
uma chuva torrencial, maldita e
pesada...
muito pouco a fazer.
já li o jornal
paguei a conta do gás
a conta de luz
a conta do telefone.
continua chovendo.
elas amaciam um homem
e então o deixam a nadar
em seu próprio suco.
preciso de uma vagabunda no velho estilo
batendo à porta esta noite
fechando seu guarda-chuva verde,
gotas de chuva enluarada sobre
sua bolsa, dizendo, “merda, cara,
não consegue achar uma música melhor do que
essa no seu rádio?
e aumente o aquecimento...”
é sempre quando um homem está tomado
de amor e tudo
mais
que continua chovendo
alagadoura
encharcante
chuva
boa para as árvores e para a
grama e para o ar...
boa para coisas que
vivem sozinhas.
eu daria qualquer coisa
pela mão de uma fêmea em mim
esta noite.
elas amaciam um homem e
depois o deixam
escutando a chuva.
1 047

Cometi Um Erro

me estiquei até a última prateleira do armário
e puxei de lá uma calcinha azul
e mostrei a ela e
perguntei “é sua?”
e ela olhou e disse,
“não, devem ser da cadela”.
depois disso ela se foi e não a vi
desde então. não está na sua casa.
continuo passando por lá, enfiando bilhetes
debaixo da porta. volto ali e os bilhetes
continuam intocados. arranco a cruz de Malta
do retrovisor do meu carro e a amarro
com um cadarço à sua maçaneta, deixo
um livro de poemas.
ao retornar na noite seguinte tudo
continua ali.
continuo rondando as ruas em busca
daquele encouraçado cor-de-vinho que ela dirige
com uma bateria fraca, e as portas
pendendo das dobradiças estropiadas.
circulo pelas ruas
a um passo de chorar,
envergonhado de meu sentimentalismo e
possível amor.
um homem velho e confuso dirigindo na chuva
perguntando-se onde a boa sorte foi
parar.
1 078

Morda-Se de Raiva

vim até aqui, ela diz, para lhe falar
que está tudo acabado. não estou de brincadeira,
acabou. ficamos assim.
sento no sofá olhando ela ajeitar
seus cabelos longos e ruivos em frente ao espelho
do meu quarto.
ela ergue os cabelos e
faz um coque no topo da cabeça –
ela deixa que seus olhos encontrem
os meus –
então ela solta os cabelos e
deixa que eles lhe cubram o rosto.
vamos para a cama e eu a seguro
de costas sem dizer uma palavra
meu braço em volta de seu pescoço
toco seus pulsos e mãos
sinto-a até chegar
aos cotovelos
mas não além.
ela se levanta.
está tudo acabado, ela diz,
morda-se de raiva. você
tem alguma borrachinha?
não sei.
achei uma, ela diz,
vai servir. bem,
vou indo.
me levanto e a levo
até a porta
logo ao sair
ela diz,
quero que você me compre
um sapato de salto alto
salto agulha
sapatos pretos de salto.
não, quero um par
vermelho.
vejo ela seguir pela passagem de cimento
debaixo das árvores
ela caminha direitinho e
enquanto as poinsétias gotejam ao sol
eu fecho a porta.
1 050

Metamorfose

uma namorada chegou
me construiu uma cama
esfregou e encerou o chão da cozinha
esfregou as paredes
aspirou o pó
limpou a patente
a banheira
esfregou o chão do banheiro
e cortou minhas unhas e
meus cabelos.
então
naquele mesmo dia
o encanador veio e consertou a torneira da cozinha
e a patente
e o homem do gás consertou o aquecedor
e o homem do telefone, o telefone.
agora me sento aqui em meio a tanta perfeição.
tudo está tranquilo.
rompi com as minhas 3 namoradas.
me sinto melhor quando tudo está
bagunçado.
vai levar alguns meses até que as coisas voltem ao
normal:
não consigo encontrar sequer uma barata para viver em comunhão.
perdi meu ritmo.
não consigo dormir.
não consigo comer.
roubaram-me
minha sujeira.
1 119

O Principal

aí vem a cabeça de peixe cantante
aí vem a batata assada em sua roupa bizarra
aí vem nada para fazer o dia todo
aí vem outra noite sem conciliar o sono
aí vem o telefone e sua campainha errada
aí vem um cupim com um banjo
aí vem um mastro com olhos vazios
aí vem um gato e um cachorro usando meias de náilon
aí vem uma metralhadora em cantoria
aí vem o bacon numa frigideira
aí vem uma voz dizendo qualquer coisa tola
aí vem um jornal recheado com pequenos pássaros vermelhos
com bicos marrons e retos
aí vem uma buceta carregando uma tocha
uma granada
um amor fatal
aí vem a vitória carregando
um balde de sangue
e tropeçando num arbusto
e os lençóis pendurados nas janelas
e os bombardeiros em direção a leste oeste norte sul
se perdem
se reviram como salada
enquanto todos os peixes no mar se alinham em fila
única
uma longa fila
muito longa e fina
a linha mais longa que você puder imaginar
e nós nos perdemos
cruzando montanhas púrpuras
caminhamos a esmo
por fim nus como a faca
tendo desistido
tendo posto tudo pra fora como uma inesperada semente de azeitona
enquanto a garota da central telefônica
grita ao telefone:
“não retorne a ligação! você parece um cretino!”
1 067

Liberdade

ela estava sentada na janela
do quarto 1010 no Chelsea
em Nova York,
o antigo quarto de Janis Joplin.
fazia 40 graus
e ela estava alterada
e tinha uma perna para fora
do peitoril,
e se inclinava para fora e dizia,
“Deus isso é ótimo!”
e então ela escorregou
e quase caiu lá embaixo,
agarrando-se no momento final.
foi por pouco.
voltou para dentro e se esticou
na cama.
já perdi um bocado de mulheres
de um bocado de modos diferentes
mas teria sido
a primeira vez
desse modo.
então ela rolou da cama
caindo de costas
e quando me aproximei
ela estava dormindo.
ela passara o dia todo querendo
ver a Estátua da Liberdade.
agora por um tempo ela não me incomodaria
com isso.
1 181

Um Poema Para o Engraxate

o equilíbrio é preservado pelas lesmas que escalam os
rochedos de Santa Mônica;
a sorte está em descer a Western Avenue
enquanto as garotas numa casa de
massagem gritam para você, “Alô, Doçura!”
o milagre é ter 5 mulheres apaixonadas
por você aos 55 anos,
e o melhor de tudo isso é que você só é capaz
de amar uma delas.
a bênção é ter uma filha mais delicada
do que você, cuja risada é mais leve
que a sua.
a paz vem de dirigir um
Fusca 67 azul pelas ruas como um
adolescente, o rádio sintonizado em O Seu Apresentador
Preferido, sentindo o sol, sentindo o sólido roncar
do motor retificado
enquanto você costura o tráfego.
a graça está na capacidade de gostar de rock,
música clássica, jazz...
tudo o que contenha a energia original do
gozo.
e a probabilidade que retorna
é a tristeza profunda
debaixo de você estendida sobre você
entre as paredes de guilhotina
furioso com o som do telefone
ou com os passos de alguém que passa;
mas a outra probabilidade –
a cadência animada que sempre se segue –
faz com que a garota do caixa no
supermercado se pareça com a
Marilyn
com a Jackie antes que levassem seu amante de Harvard
com a garota do ensino médio que sempre
seguíamos até em casa.
lá está a criatura que nos ajuda a acreditar
em alguma coisa além da morte:
alguém num carro que se aproxima
numa rua muito estreita,
e ele ou ela se afasta para que possamos
passar, ou o velho lutador Beau Jack[17]
engraxando sapatos
após ter queimado todo seu dinheiro
em festas
mulheres
parasitas
bufando, respirando junto ao couro,
dando um trato com a flanela
os olhos erguidos para dizer:
“mas que diabos, por um momento
tive tudo. isso compensa todo o
resto.”
às vezes sou amargo
mas no geral o sabor tem sido
doce. é apenas que tenho
medo de dizê-lo. é como
quando sua mulher diz,
“fala que me ama”, e
você não consegue.
se você me vir sorridente
em meu Fusca azul
aproveitando o sinal amarelo
dirigindo firme em direção ao sol
estarei mergulhado nos
braços de uma
vida insana
pensando em trapezistas de circo
em anões com enormes charutos
num inverno na Rússia no início dos anos 40
em Chopin com seu saco de terra polaca
numa velha garçonete que me traz uma xícara
extra de café com um sorriso
nos lábios.
o melhor de você
me agrada mais do que pode imaginar.
os outros não importam
excetuado o fato de que eles têm dedos e cabeças
e alguns deles olhos
e a maioria deles pernas
e todos eles
sonhos e pesadelos
e uma estrada a seguir.
a justiça está em toda parte e não descansa
e as metralhadoras e os coldres e
as cercas vão lhe dar prova
disso.
1 169

Dr. Nazi

Bem, sou um homem com muitos problemas e suponho que em sua maioria sejam criados por mim mesmo. Estou falando de problemas com mulheres, jogo, hostilidade contra grupos de pessoas, e, quanto maior o grupo, maior a hostilidade. Dizem que sou negativo, sombrio e taciturno.
Sempre me lembro da mulher que me gritou assim:
– Você é tão negativo, porra! A vida pode ser bonita!
Suponho que possa e especialmente com menos gritaria. Mas quero falar de meu médico. Não vou a psiquiatras. Psiquiatras não valem nada e estão muito satisfeitos consigo mesmos. Mas um bom médico está sempre de saco cheio e/ou louco, e, portanto, muito mais interessante.
Fui ao consultório do dr. Kiepenheur porque era o mais perto. Minhas mãos estavam estourando com pequenas bolhas brancas... um sinal, imaginei, da minha ansiedade presente ou possivelmente câncer. Eu usava luvas grossas para que as pessoas não ficassem olhando. E minhas mãos ardiam dentro das luvas, enquanto eu fumava dois maços de cigarro por dia.
Entrei no consultório do doutor. Minha consulta era a primeira. Sendo o homem ansioso que eu era, estava trinta minutos adiantado, pensando no câncer. Caminhei pela sala de espera, olhando para o escritório. Ali estava uma enfermeira-recepcionista agachada no chão com o seu uniforme branco e justo, seu vestido subira quase até os quadris, coxas grossas e potentes apareciam através da meia-calça de náilon apertada. Esqueci completamente do câncer. Ela não me ouvira, e eu olhava suas pernas e coxas desveladas, apreciava aquela bunda deliciosa com meus olhos. Ela estava secando água do chão, a privada havia transbordado e ela dizia palavrões, de modo passional, e ela era rosa e marrom e cheia de vida e desvelada e eu a encarava.
Ela olhou para cima.
– Sim?
– Vá em frente – eu disse –, não deixe que eu a atrapalhe.
– É a privada – ela disse –, vive transbordando.
Ela continuou secando e eu continuei olhando por cima da revista Life. Finalmente ela se levantou. Caminhei até o sofá e me sentei. Ela revisou a agenda de consultas.
– Você é o sr. Chinaski?
– Sim.
– Por que não tira as luvas? Está quente aqui.
– Prefiro não tirá-las, se não se importa.
– O dr. Kiepenheuer logo estará aqui.
– Tudo bem. Posso esperar.
– Qual é o seu problema?
– Câncer.
– Câncer?
– Sim.
A enfermeira desapareceu, e eu li a Life e depois outro exemplar da Life e então uma Sports Illustrated e em seguida fiquei sentado, olhando as pinturas de paisagens marítimas e terrestres pregadas na parede. Logo uma música de saxofone surgiu de algum lugar. Então, subitamente, todas as luzes piscaram, então mais uma vez, e imaginei se haveria alguma maneira de estuprar a enfermeira e não ser preso, quando o médico entrou. Ignorei-o, e ele me ignorou, de modo que ficamos quites.
Ele me chamou para seu escritório. Estava sentado em um banquinho e me olhou. Tinha uma cara amarela e cabelos amarelados e seus olhos eram opacos. Ele estava morrendo. Devia ter uns 42 anos. Vi-o e lhe dei seis meses de vida.
– Por que as luvas? – ele perguntou.
– Sou um homem sensível, doutor.
– É?
– Sim.
– Então devo lhe informar que eu já fui nazista.
– Tudo bem.
– Não se importa de eu já ter sido nazista?
– Não, não me importo.
– Fui capturado. Eles me levaram pela França em um vagão de trem com as portas abertas, e as pessoas ficavam ao longo do caminho e atiravam bombas de fedor e pedras e todo tipo de lixo em nós... ossos de peixe, plantas mortas, excremento, tudo o que se possa imaginar.
Então o doutor me falou de sua esposa. Ela estava tentando lhe arrancar o couro. Uma tremenda cadela. Queria toda a grana dele. A casa. O jardim. A casa de verão. O jardineiro também, provavelmente, se já não o tinha. E o carro. E uma pensão. Além de uma grande quantia em dinheiro. Mulher horrível. Ele trabalhava tão duro. Cinquenta pacientes por dia a dez dólares por cabeça. Quase impossível sobreviver. E aquela mulher. Mulher. Sim, mulher. Ele decompôs a palavra para mim. Não lembro se ele disse mulher ou fêmea ou outra coisa, mas ele decompôs a palavra para mim em latim e a dividiu para me mostrar qual era a raiz... em latim: mulheres eram basicamente insanas.
Enquanto ele falava sobre a insanidade das mulheres, comecei a me sentir bem com o doutor. Minha cabeça sinalizava em concordância.
Subitamente ele me mandou para a balança, me pesou, então auscultou meu coração e meu peito. Tirou rudemente as minhas luvas, lavou minhas mãos com algum tipo de merda e abriu as bolhas com uma lâmina, ainda falando sobre o rancor e a vingança que todas as mulheres carregavam em seus corações. Era glandular. As mulheres eram comandadas por suas glândulas; os homens, por seus corações. Era por isso que apenas os homens sofriam.
Disse que eu deveria lavar as mãos regularmente e jogar as malditas luvas fora. Falou um pouco mais sobre as mulheres e sua esposa e então fui embora.
O problema seguinte foram vertigens que me causavam desmaios. Mas só me acontecia quando eu estava em pé em alguma fila. Comecei a ficar aterrorizado de ter que ficar em qualquer fila. Era insuportável.
Descobri que na América e provavelmente em todos os outros lugares, tudo se resumia a ficar na fila. Fazíamos isso em toda parte. Carteira de motorista: três ou quatro filas. Hipódromo: filas. Cinema: filas. Mercado: filas. Eu odiava filas. Senti que devia haver uma maneira de evitar as filas. Então a resposta me iluminou. Ter mais atendentes. Sim, essa era a solução. Dois atendentes para cada pessoa. Três atendentes. Deixem os atendentes fazerem fila.
Sabia que as filas estavam me matando. Não podia aceitá-las, mas todo mundo aceitava. Todo mundo era normal. A vida era bela para eles. Podiam ficar na fila sem sentir dor. Podiam ficar na fila para sempre. Eles até mesmo gostavam de ficar na fila. Conversavam e se mostravam os dentes e sorriam e flertavam uns com os outros. Não tinham mais nada para fazer. Não conseguiam pensar em mais nada para fazer. E eu tinha que olhar para suas orelhas e bocas e pescoços e pernas e bundas e narinas, tudo aquilo. Podia sentir raios de morte emanando de seus corpos, como vapores e, ouvindo suas conversas, eu sentia vontade de gritar:
– Jesus Cristo, alguém me ajude! Tenho que sofrer desta forma só para comprar um quilo de hambúrger e um pedaço de pão de centeio?
A tontura vinha, e eu espichava e afastava minhas pernas para evitar cair no chão, o supermercado girava e também as caras dos atendentes do supermercado com seus bigodes dourados e marrons, seus olhos alegres e espertos, todos chegarão a gerentes de supermercado um dia, com suas caras esfoliadas e contentes, comprando casas em Arcádia e trepando à noite com suas esposas loiras, pálidas e graciosas.
Marquei novamente uma consulta com o doutor. Recebi o primeiro horário. Cheguei meia hora mais cedo e a privada estava consertada. A enfermeira estava tirando o pó do escritório. Ela se curvou e se endireitou e se curvou um pouco e então se curvava para a direita e então se curvava para a esquerda e virou a bunda para mim e se curvou. O uniforme branco se contraía e subia, escalava, se erguia; aqui estava um joelho com covinhas, lá uma coxa, aqui um quadril, lá o corpo inteiro. Sentei e abri um exemplar da Life.
Ela parou de tirar o pó e pôs a cabeça para fora e me sorriu:
– Livrou-se das luvas, sr. Chinaski.
– Sim.
O doutor entrou, parecendo estar um pouco mais perto da morte, acenou com a cabeça, levantei e o segui para seu consultório.
Ele sentou em seu banco.
– Chinaski, como vai?
– Bem, doutor...
– Problema com as mulheres?
– Bem, é claro, mas...
Ele não me deixava terminar minhas frases. Tinha perdido mais cabelo. Seus dedos se contraíam. Parecia não ter mais fôlego. Mais magro. Era um homem desesperado.
Sua esposa o estava esfolando. Tinham ido ao tribunal. Ela lhe deu um tapa no tribunal. Ele gostou disso. Ajudou no caso. Eles viram quem era aquela cadela. De qualquer forma, não se saiu tão mal. Ela lhe deixara alguma coisa. É claro, sabe quanto custam os advogados. Desgraçados. Já reparou nos advogados? Quase sempre gordos. Especialmente ao redor do rosto.
– De qualquer forma, caralho, ela me ferrou. Mas tenho um pouco guardado. Quer saber quanto custa uma tesoura como essa? Olha bem. Latão com um parafuso. Dezoito e cinquenta. Meu Deus, e eles odiavam os nazistas. O que é um nazista comparado a isso?
– Não sei, doutor. Já disse que sou um homem confuso.
– Já tentou um psiquiatra?
– Não adianta. São idiotas, sem imaginação. Não preciso de psiquiatras. Ouvi dizer que eles acabam molestando sexualmente suas pacientes. Eu gostaria de ser um psiquiatra, se eu pudesse foder todas as mulheres. Fora isso, o trabalho deles é inútil.
Meu doutor se endireitou no seu banco. Ele amarelou e acinzentou um pouco mais. Um gigantesco espasmo percorreu seu corpo. Estava quase acabado. Um bom camarada, apesar de tudo.
– Bem, me livrei da minha esposa – ele disse. – Está acabado.
– Bom – eu disse –, me conte de quando você era nazista.
– Bem, não tínhamos muita escolha. Eles simplesmente nos faziam entrar. Eu era jovem. Quero dizer, porra, o que se pode fazer? Só se pode viver em um país por vez. Vai-se à guerra e, se não acaba morrendo, acaba em um vagão aberto com pessoas atirando merda em você...
Perguntei-lhe se ele trepava com sua enfermeira gostosa. Ele sorriu gentilmente. O sorriso era um sim. Então me disse que desde o divórcio, bem, vinha se encontrando com uma de suas pacientes e ele sabia que não era ético fazer isso com pacientes...
– Não, acho que está tudo bem, doutor.
– É uma mulher muito inteligente. Casei com ela.
– Tudo bem.
– Agora estou feliz... mas...
Então ele esticou suas mãos abertas, lado a lado, com as palmas para cima...
Contei-lhe sobre o meu medo de filas. Ele me deu uma receita de Librium.
Então fui atacado por uma furunculose na minha bunda. Estava em agonia. Amarraram-me com tiras de couro, esses sujeitos podem fazer o que quiserem com você, me deram uma anestesia local e me abriram o cu. Virei minha cabeça e olhei para o meu doutor e disse:
– Há alguma possibilidade de que eu mude de ideia?
Três rostos me olhavam de cima. O do médico e outros dois. Ele para cortar. Ela para as bandagens. Um terceiro metendo agulhas.
– Você não pode mudar de ideia – disse o doutor e esfregou suas mãos e arreganhou os dentes e começou...
A última vez que o vi foi por causa de algo relacionado à cera em meus ouvidos. Eu podia ver seus lábios se mexendo, tentei entender, mas não podia ouvir. Eu sabia, por seus olhos e por sua cara, que eram tempos difíceis para ele outra vez e assenti com a cabeça.
Fazia calor. Eu estava um pouco tonto e pensei, bem, sim, ele é um bom camarada, mas por que não me deixa falar sobre os meus problemas, isso não é justo, também tenho problemas e tenho que pagá-lo.
Por fim, meu doutor se deu conta de que eu não estava ouvindo nada. Pegou algo que parecia com um extintor de incêndio e meteu em meus ouvidos. Mais tarde me mostrou grandes pedaços de cera... era a cera, ele disse. E apontou para um balde. Parecia realmente com feijões requentados.
Levantei da mesa, paguei-o e me fui. Ainda não podia ouvir nada. Não me sentia particularmente mal nem bem e imaginei que doença eu lhe traria da próxima vez, o que ele faria a respeito disso, o que ele faria com respeito à sua filha de dezessete anos que estava apaixonada por outra mulher e que iria casar com ela e me ocorreu que todo mundo sofria continuamente, incluindo aqueles que fingiam não sofrer. Parecia-me que essa era uma boa descoberta. Olhei para o garoto que vendia jornal e pensei, hummmm, hummmm, e olhei para a próxima pessoa que passou e pensei hummmm, hummmm, hummmmmm, e no semáforo perto do hospital, um carro novo e preto dobrou a esquina e atropelou uma bela garota que vestia um minivestido azul, e ela era loira e tinha faixas azuis no cabelo e se sentou na rua, ao sol, e um filete escarlate correu de seu nariz.
– Ao sul de lugar nenhum
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Mário Quintana
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