Escritas

Lista de Poemas

Conversa às Três e Meia da Madrugada

às três e meia da madrugada
a porta se abre
e há passos na entrada
que trazem um corpo,
e uma batida
e você repousa a cerveja
e vai ver quem é.

com os diabos, ela diz, você não dorme nunca?

e ela entra
com o cabelo nos rolinhos e num robe de seda
estampado de coelho e passarinho
e ela trouxe a sua própria garrafa
à qual você gloriosamente acrescenta
2 copos,
o marido, ela diz, está na Flórida
e a irmã manda dinheiro e vestidos para ela,
e ela tem estado procurando emprego
nos últimos 32 dias.

você diz a ela
que é um cambista de jóquei e
um compositor de jazz e canções românticas,
e depois de uns dois copos
ela não se preocupa com cobrir
as pernas
com a beira do robe que está sempre caindo.

não são pernas nada feias,
na verdade são pernas ótimas,
e logo você está beijando uma
cabeça cheia de rolinhos,

e os coelhos estão começando a
piscar, e a Flórida é longe, e ela diz
que não somos realmente estranhos
porque ela tem me visto na entrada.

e finalmente
há muito pouca coisa
para dizer.
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Um Poema de Amor

todas as mulheres 
todos os beijos delas as
formas variadas como amam e
falam e carecem.

suas orelhas elas todas têm
orelhas e
gargantas e vestidos
e sapatos e
automóveis e ex-
maridos.

principalmente
as mulheres são muito
quentes elas me lembram a
torrada amanteigada com a manteiga
derretida
nela.

há uma aparência
no olho: elas foram
tomadas, foram
enganadas. não sei mesmo o que
fazer por
elas.

sou
um bom cozinheiro, um bom
ouvinte
mas nunca aprendi a
dançar - eu estava ocupado
com coisas maiores.

mas gostei das camas variadas
lá delas
fumar um cigarro
olhando pro teto. não fui nocivo nem
desonesto. só
um aprendiz.

sei que todas têm pés e cruzam
descalças pelo assoalho
enquanto observo suas tímidas bundas na
penumbra sei que gostam de mim algumas até 
me amam
mas eu amo só umas
poucas.

algumas me dão laranjas e pílulas de vitaminas,
outras falam mansamente da
infância e pais e
paisagens, algumas são quase
malucas mas nenhuma delas é
desprovida de sentido, algumas amam
bem, outras nem
tanto, as melhores no sexo nem sempre
são as melhores em
outras coisas, todas têm limites como eu tenho
limites e nos aprendemos
rapidamente.

todas as mulheres todas as
mulheres todos os
quartos de dormir
os tapetes as
fotos as
cortinas, tudo mais ou menos
como uma igreja só
raramente se ouve
uma risada.

essas orelhas esses
braços esses
cotovelos esses olhos
olhando, o afeto e a
carência me
sustentaram, me
sustentaram.
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Sapatos

quando você é jovem
um par de
sapatos de salto alto
femininos
simplesmente parados
sozinhos
no armário
podem incendiar os seus
ossos;
quando você é velho
é só
um par de sapatos
sem
ninguém
dentro
e
dá no
mesmo.
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Eulogia

com carros velhos, sobretudo quando você os compra
usados e os dirige por muitos anos,
um caso de amor tem início:
você memorizou cada cabo no motor
painel e tudo mais,
você tem a máxima intimidade com o
carburador
as velas
o braço de aceleração
outras peças
diversas.
você aprendeu todos os truques para
manter o negócio em funcionamento,
você sabe até mesmo como bater o porta-luvas de modo que
ele permaneça fechado,
como estapear os faróis com a palma da mão aberta
a fim de obter
luz,
e você sabe quantas vezes deve pisar no acelerador
e quanto tempo deve esperar
para dar partida no motor,
e você conhece cada buraco no
estofamento
e o formato de cada mola
despontando pra fora;
o carro já foi apreendido e liberado
pela polícia,
foi multado por várias
avarias:
limpadores quebrados na chuva,
nada de pisca-pisca à noite, nada
de luzes de freio, luzes traseiras quebradas, freios
ruins, escapamento
excessivo e assim por diante...
mas apesar de tudo isso
você o conhecia tão bem
que nunca houve um acidente, o
velho carro transportava você de um lugar para
outro,
quase fielmente
– milagre de homem pobre.
e quando chega aquele último colapso,
quando as válvulas entregam os pontos,
quando os cansados braços do pistão se esgotam e
quebram, ou o eixo de manivela cai fora e
você precisa vender o carro como
sucata
– vê-lo sendo guinchado
embora
pendurado ali
despachado
como se ele não tivesse
alma ou
significado,
os pneus traseiros carecas
e o para-brisa traseiro
a placa retorcida
são as últimas coisas que você
vê, e isso
machuca
como se algum humano que você amou
muito
e com quem viveu
dia após dia
tivesse morrido
e você fosse a única
pessoa
a ter conhecido
a música
a mágica
a inacreditável
galantaria.
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A Costureira

minha primeira esposa fazia seus próprios vestidos,
e eu achava isso legal.
eu a via com frequência sentada diante de sua
máquina de costura
montando um novo vestido.
estávamos ambos trabalhando e eu achava
ótimo que ela encontrasse tempo
para montar seu
guarda-roupa.
então certa noite cheguei em casa e
ela estava chorando.
ela me contou que um cara no trabalho
lhe dissera que ela tinha mau
gosto em seus artigos
de vestuário,
falando que ela parecia
“cafona”.
“você acha que eu me visto de um jeito cafona?”,
ela perguntou.
“claro que não.
quem é esse cara?
eu vou arrebentar a cara dele!”
“você não pode, ele é homossexual.”
“que droga!”
ela chorou um pouco mais naquela
noite.
tentei reconfortá-la e ela
por fim parou.
depois disso, porém, passou a comprar
seus vestidos.
eles não lhe caíam nem de longe tão bem
mas ela me contou que o sujeito
havia elogiado sua nova
elegância.
bem, contanto que ela parasse de
chorar.
então um dia ela me perguntou: “como
você gosta mais de mim, nos vestidos velhos ou
nos novos?”
“você fica bem de qualquer jeito”,
eu respondi.
“não, mas o que você prefere?
os vestidos velhos ou os novos?”
“os velhos”, eu lhe falei.
então ela começou a chorar de novo.
ocorreram problemas semelhantes em outros
aspectos do nosso
casamento.
quando ela se divorciou de mim, ainda estava
usando vestidos
comprados em loja.
mas levou consigo
a máquina de costura
e uma mala cheia com os velhos
vestidos.
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Amor Esmagado Como Mosca Morta

em muitos sentidos
eu tinha topado com uma época de sorte
mas ainda estava vivendo nesta
quadra devastada por bomba da
avenida.
eu batalhara meu caminho atravessando
várias camadas de
adversidade:
sendo um homem sem educação
com
sonhos loucos e desvairados –
alguns deles haviam
evoluído (quer dizer, se
você vai ficar aqui,
você pode muito bem lutar
pelo milagre).
mas
de uma hora pra outra
como acontece nesses assuntos –
a mulher que eu amava
se largou
e começou a
trepar
pelos arredores
com
estranhos
imbecis
e provavelmente alguns tipos razoavelmente
bons
mas
como acontece nesses assuntos –
foi sem
aviso
e acompanhado da
lastimável e maçante languidez da
descrença
e
daquele doloroso e descerebrado
engalfinhamento.
e também
na mudança das
marés
eu me saí
com um furúnculo imenso
quase
do tamanho de uma maçã, bem, meia
maçã pequena
mas mesmo assim
uma monstruosidade de
horror.
tirei o telefone
da parede
tranquei a porta
fechei as cortinas e
bebi
só pra passar o tempo
dia e noite, fiquei
louco, provavelmente,
mas
num sentido
delicioso e
estranho.
encontrei um disco antigo
botei pra tocar
repetidas vezes –
com certo trecho ribombante da
tonalidade
se encaixando perfeitamente na minha
gaiola
meu lugar
meu
desencanto –
amor morto como uma mosca
esmagada,
eu remexia o passado e
especulava por entre minha
idiotice, constatando que enquanto
ser
eu poderia ter sido
melhor –
não com ela
mas com
o balconista da mercearia
o jornaleiro da esquina
o gato de rua
o bartender
e/ou
etc.
continuamos ficando
aquém e
mais aquém
mas
em última análise
não somos tão terríveis
assim, então
arranjamos uma namorada que
sai trepando
pelos arredores
e
um furúnculo quase com tamanho de
maçã.
recordando então
as chances
recusadas,
algumas de criaturas
adoráveis (naquele
momento)
não muitas
mas algumas
trepadas
recusadas
em honra
dela.
ah, redenção e
remorso!
e a garrafa
e o disco
tocando repetidas
vezes –
babaca, babaca, ba-
baca, seja duro como o
mundo,
prepare-se para
a desintegração –
que disco era aquele
enquanto você esbarrava na cerveja e
nas garrafas de uísque
os calções
as camisas
as memórias
estupeficadas pelo
quarto.
você despertou daquilo
duas semanas depois
para encontrá-la
na soleira da sua porta
às 9 horas
da manhã
cabelo cuidadosamente
arrumado,
sorrindo
como se todos os acontecimentos
tivessem sido
apagados.
ela era só
uma vadia
burra
jogadora
tendo experimentado os
outros e
os considerado (de
uma forma ou de
outra)
insuficientes
ela estava
de volta (ela
pensava)
enquanto você lhe servia uma
cerveja e
entornava o scotch
no seu copo
anterior
recordando
precisamente e para sempre
os sons daquele disco
escutado sem
parar:
a dádiva dela
terminara, novos
fracassos estavam prestes a
começar
enquanto ela cruzava suas longas
pernas
fazia aquele sorriso
sorrir
e perguntava,
alegre, “bem, o que você
andou
fazendo?”
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A Geração Falida

era muito mais fácil ser gênio nos anos 20, havia
apenas três ou quatro revistas literárias e se você publicasse nelas
umas quatro ou cinco vezes podia terminar no salão de Gertie,
você podia provavelmente encontrar Picasso para um copo de vinho, ou
talvez apenas Miró.

e sim, se você mandasse sua papelada com carimbo postal de Paris
as chances de publicação eram muito maiores.
muitos escritores encerravam seus manuscritos com a palavra "Paris" e a data.

tendo um patrono, havia tempo para
escrever, comer, beber e dar uns passeios pela Itália e até pela
Grécia
era bom ser fotografado com outros do seu time

era bom parecer asseado, enigmático e magro.
foto na praia era ótimo.

e sim, você podia escrever cartas para os 15 ou 20
outros
resmungando sobre uma coisa ou outra.

você podia receber uma carta de Ezra ou de Hem, Ezra gostava
de dar orientações e Hem gostava de praticar a escrita
nas cartas, quando não podia praticar a outra.

era um grande jogo romântico então, cheio da fúria
da descoberta.

agora

agora somos tantos, são centenas de revistas literárias,
centenas de editoras, milhares de títulos.

quem vai sobreviver desse monturo?
perguntar é quase uma grossura.

volto atrás, leio livros sobre as vidas dos meninos
e meninas lá dos 20.
se eles foram a Geração Perdida, como você chamaria a gente?
vendo a gente sentada aqui no meio das ogivas
com nossas máquinas de escrever elétricas?

a Geração Falida?

eu preferia estar na Perdida a estar na Falida, mas quando leio livros sobre
eles
sinto delicadeza e generosidade

e quando leio sobre o suicídio de Harry Crosby em seu quarto de hotel
com sua prostituta
a coisa me parece tão real como a torneira que está pingando agora
na pia do meu banheiro.

gosto de ler sobre eles: Joyce cego e zanzando
pelas livrarias como uma tarântula, como diziam.
Dos Passos com seus recortes de notícias usando uma
máquina de escrever com fita vermelha.

D.H. tarado e de porre, H.D. sabida o bastante para usar
suas iniciais que pareciam muito mais literárias do que Hilda Doolittle.

G. B. Shaw, firmado há muito tempo, nobre e
estúpido como a realeza, carne e cérebro virando mármore. um saco.

Huxley passeando seu cérebro com grande alegria, discutindo com Lawrence que a coisa não era na barriga nem nos colhões,
que a glória estava era no crânio.

e aquele matuto do Sinclair Lewis despontando.

enquanto isso,
com a revolução terminada, os russos estavam libertos e morrendo.
Gorki, sem ter nada por que lutar, sentado numa sala, tentando
achar frases para elogiar o governo.
muitos outros falidos na vitória,

agora

agora há tantos de nós
mas devíamos estar agradecidos, porque em cem anos
se o mundo não estiver destruído, pense bem, quanto ficará de tudo isso:
ninguém realmente capaz de falhar ou de vencer - só algum mérito relativo, ainda mais diminuído pela nossa superioridade numérica.
estaremos todos catalogados e arquivados.
está certo...

se você ainda tem dúvidas sobre aqueles outros
anos dourados
veja que há outras criaturas curiosas: Richard
Aldington, Teddy Dreiser, F. Scott, Hart Crane, Wyndham Lewis, a
Black Sun Press.

mas para mim, os anos 20 estavam centrados principalmente em Hemingway
saindo da guerra e começando a datilografar.

era tudo tão simples, tão deliciosamente calmo

agora

há tantos de nós.

Ernie, você não imaginava como era bom
quatro décadas atrás quando vocês metiam o cérebro no
suco de laranja

embora

-posso garantir
não fosse isto o melhor de vocês.
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Um Mágico Desaparecido

eles vão um por um e conforme vão indo isso chega mais perto
de mim e
não me importo muito, é
só que não consigo ser prático quanto à
matemática que leva outros
ao ponto de fuga.
sábado passado
um dos maiores ases da corrida de arreios
morreu – o pequeno Joe O’Brien.
eu o vira ganhar inúmeras
corridas. ele
tinha um peculiar movimento balanceado
ele estalava as rédeas
e balançava o corpo pra trás e
pra frente. ele
aplicava esse movimento
durante a reta final e
era algo bastante dramático e
efetivo...
ele era tão pequeno que não conseguia
golpear o chicote com a mesma força dos
outros
então
ele balançava e balançava
na charrete
e o cavalo sentia o relâmpago
de sua excitação
aquele balanço ritmado e louco era
transferido do homem para o
animal...
o negócio todo dava a sensação de um
jogador de dados invocando os
deuses, e os deuses
respondiam com tamanha frequência...
eu vi Joe O’Brien vencer
incontáveis fotos de linha de chegada
várias por um
nariz.
ele pegava um cavalo
que outro condutor não conseguia
fazer correr
e Joe lhe dava seu
toque
e o animal quase
sempre respondia com
uma enxurrada de energia selvagem.
Joe O’Brien era o melhor corredor de arreios
que eu já tinha visto
e eu tinha visto vários ao longo das
décadas.
ninguém conseguia mimar e adular
um trotador ou marchador
como o pequeno Joe
ninguém conseguia fazer a magia funcionar
como Joe.
eles vão um por um
presidentes
lixeiros
assassinos
atores
batedores de carteiras
pugilistas
pistoleiros
bailarinos
pescadores
médicos
fritadores
bem
assim
mas Joe O’Brien
vai ser difícil
difícil
encontrar um substituto para
o pequeno Joe
e
na cerimônia
realizada para ele
na pista esta noite
(Los Alamitos 10-1-84)
enquanto os condutores se reuniam num
círculo
em seus uniformes
na linha de chegada
eu precisei dar minhas costas
à multidão
e subir os degraus da
arquibancada superior
rumo ao muro
para que as pessoas não
me vissem
chorar.
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Os Cisnes Passeiam por Meu Cérebro em Abril Chove

você quer que eu descasque uma laranja e
fale do Saavedra (Miguel de) Cervantes?
cai fora! você é como aquela mosca na
cortina.

não gostam de mim no supermercado.
eu não dou risinhos para as crianças.
não me interesso pelo que fazem
os funcionários.
eu uso os bebedouros até que os meus olhos
saltem para fora como morangos maduros.
eu tenho mau cheiro e não dou brilho
nos sapatos.
eu não possuo nada.

nada entendo além
de estar fora da cravação.
só entendo o horror e
mais horror.

não sei rimar.
estou cansado demais para
roubar.
eu ouço Segovia
sorrir.
eu olho para uma cabeça de porco
e logo estou
apaixonado.

eu ando eu ando
uma himenotomia de
homem - ó
coisas suaves deste tempo,
onde estão vocês?
vocês precisam me encontrar agora, porque
eu estou horrorizado com o que
vejo!

a prisão varre o passado iluminado por
olhos, olhos? magma!
entro numa loja e compro bebida a um
homem morto
depois saio sob um céu transbordante
de pus. os caçadores tossem
nos bancos do parque.

eu sigo...
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Falando a Minha Caixa de Correio...

menino, não venha me dizendo que você
não pode impedir, que
estão batendo embaixo e dentro e duro, que
estão conspirando contra você,
que tudo que você quer é uma chance, mas que eles
não vão lhe dar
uma chance.

menino, o problema é que você não está fazendo
o que quer, ou
se está, não está fazendo
bem.

menino, eu concordo:
não há muitas oportunidades, e há alguns
no topo que não estão trabalhando
lá muito melhor do que
você
mas
você está é gastando energia brigando e
resmungando.

menino, eu não estou aconselhando, estou apenas sugerindo que
em vez de me mandar seus poemas
com suas cartas
queixosas
você devia entrar na
arena -
mandar seus trabalhos para os editores,
isso vai reforçar sua espinha dorsal e sua
versatilidade.

menino, quero lhe agradecer
os elogios a alguns dos meus
trabalhos publicados,
mas isso
não tem nada a ver com
nada e não ajuda
merda nenhuma, você tem que
aprender a bater embaixo
e dentro e duro.

isso é uma espécie de carta
que eu mando pra quase todo mundo, mas
espero que você receba como
uma coisa pessoal,
homem.
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Mário Quintana
Mário Quintana
2025-02-15

Mário Quintana