Escritas

Lista de Poemas

Um Qualquer

deus eu tinha os olhos azuis mais tristes,
esta mulher se sentou por ali e
disse
você é mesmo Charles
Bukowski?
e eu disse
esqueça isso
não me sinto bem
a tristeza mais triste me domina
tudo o que eu quero é
comer você
e ela riu
e achou que eu estava sendo
espirituoso
e Ó eu apenas acompanhei a amplitude de suas pernas finas e celestiais
vi seu fígado e seu intestino fremente
vi Cristo ali dentro
saltando para um folk-rock
todas as longas linhagens de fome absoluta dentro de mim
se ergueram
e eu me aproximei
e a agarrei no sofá
e eu fiz seu vestido em pedaços ao redor de sua face
e não dei a mínima
estupro ou o fim do mundo
mais uma vez
estar ali
em qualquer lugar
real
sim
sua calcinha estava no
chão
e meu pau entrou
meu pau meu deus meu pau lá dentro
eu era um Charles
qualquer.
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Dança do Cachorro Branco

Henry pegou o travesseiro, embolou-o atrás da cabeça e ficou esperando. Louise entrou com as torradas, geleia e café. A torrada com manteiga.
– Tem certeza de que não quer dois ovos cozidos? – ela perguntou.
– Não, tudo bem. Está ótimo.
– Devia comer dois ovos cozidos.
– Tudo bem, então.
Louise saiu do quarto. Ele se levantara antes para ir ao banheiro e notara que suas roupas tinham sido penduradas. Coisa que Lita jamais fazia. E Louise era uma foda excelente. Sem filhos. Ele adorava o modo como ela fazia tudo, suavemente, cuidadosamente. Lita estava sempre no ataque – só arestas. Quando Louise voltou com os ovos cozidos, ele perguntou-lhe:
– Que é isso?
– Que é o quê?
– Você até descascou os ovos. Quer dizer, por que seu marido se divorciou de você?
– Ah, espere – ela disse –, o café está fervendo!
E saiu correndo do quarto.
Ele ouvia música clássica com ela. Ela tocava piano. Tinha livros: O Deus selvagem, de Alvarez; A vida de Picasso, de E. B. White; e. e. cummings; T. S. Eliot; Pound; Ibsen; e por aí afora. Tinha até nove livros dele mesmo. Talvez isso fosse o melhor.
Louise voltou e meteu-se na cama, o prato no colo.
– Que foi que deu errado no seu casamento?
– Qual deles? Foram cinco!
– O último. Lita.
– Ah. Bem, a menos que estivesse em movimento, Lita achava que nada estava acontecendo. Gostava de danças e festas, toda a vida dela girava em torno de danças e festas. Gostava do que chamava de “ficar ligadona”. O que significa homens. Dizia que eu restringia os “baratos” dela. Dizia que eu era ciumento.
– Você reprimia ela?
– Acho que sim, mas tentava não fazer isso. Na última festa, saí para o quintal com minha cerveja e deixei ela mandar ver. A casa estava cheia de homens, eu ouvia ela lá dentro berrando “Iá–rru!Iá Ru! Iá Ru!” Acho que era só uma garota do interior desinibida.
– Você podia dançar também.
– Acho que sim. Às vezes dançava. Mas ligam o estéreo tão alto que a gente não consegue nem pensar. Eu saía para o quintal. Voltava pra pegar mais cerveja, e lá estava um cara beijando ela debaixo da escada. Eu saía até eles acabarem, depois voltava de novo pra pegar a cerveja. Estava escuro, mas eu achava que tinha sido um amigo, e depois perguntava a ele o que fazia lá embaixo da escada.
– Ela amava você?
– Dizia que sim.
– Sabe, dançar e beijar não é tão mal assim.
– Acho que não. Mas você tinha de ver ela. Tinha uma maneira de dançar como se estivesse se oferecendo em sacrifício. Para estupro. Funcionava muito. Os homens adoravam. Ela tinha 33 anos e dois filhos.
– Ela não entendia que você era um solitário. Os homens têm naturezas diferentes.
– Ela nunca levou em conta minha natureza. Como eu disse, se não estivesse em movimento, ela achava que nada acontecia. Fora isso, vivia de saco cheio. “Oh, isso me enche, aquilo me enche. Tomar o café da manhã com você me enche. Ver você escrever me enche. Preciso de desafios.”
– Isso não me parece inteiramente errado.
– Acho que não. Mas você sabe, só pessoas que enchem o saco ficam de saco cheio. Têm de viver se cutucando continuamente pra se sentir vivas.
– Como sua bebida, por exemplo?
– É, como minha bebida. Também não posso encarar a vida de frente.
– O problema era só esse?
– Não, ela era ninfomaníaca mas não sabia. Dizia que eu satisfazia ela sexualmente, mas duvido que eu satisfizesse a ninfomania espiritual. Foi a segunda ninfo com quem vivi. Tinha ótimas qualidades fora isso, mas a ninfomania era um vexame. Tanto para mim quanto pra meus amigos. Eles me puxavam para um lado e diziam: “Que diabos deu nela?” E eu respondia: “Nada, é só uma garota do interior.”
– E era?
– Era. Mas a outra coisa era um vexame.
– Mais torrada?
– Não, esta está bem.
– O que era um vexame?
– O comportamento dela. Se tivesse outro homem na sala, ela se sentava tão perto dele quanto possível. Ele se curvava pra apagar o cigarro no cinzeiro no chão, ela se curvava também. Ele virava a cabeça pra olhar alguma coisa, ela virava também.
– Era coincidência?
– Eu pensava assim. Mas acontecia vezes demais. O homem se levantava para atravessar a sala, ela se levantava e ia ao lado dele. Quando ele atravessava a sala de volta, lá vinha ela ao lado dele. Os incidentes eram contínuos e numerosos e, como eu disse, vexatórios tanto pra mim quanto pra meus amigos. E no entanto tenho certeza de que ela não sabia o que fazia, vinha tudo do subconsciente.
– Quando eu era mocinha, tinha uma mulher no bairro com uma filha de quinze anos. A filha era incontrolável. A mãe mandava ela comprar pão, ela voltava oito horas depois com o pão, mas nesse tempo tinha fodido com seis homens.
– Acho que a mãe devia fazer seu próprio pão.
– Acho que sim. A garota não se continha. Assim que via um homem, começava a se rebolar toda. A mãe acabou mandando castrar ela.
– E podem fazer isso?
– Podem, mas é preciso passar por tudo que é processo legal. Não se podia fazer mais nada com ela. Tinha passado a vida grávida.
– Você tem alguma coisa contra a dança? – continuou Louise.
– A maioria das pessoas dança por prazer, pra se sentir bem. Ela passava pra sacanagem. Uma das danças favoritas dela era a Dança do Cachorro Branco. O cara trançava uma das pernas dela entre as dele e mexia pra frente e pra trás como um cachorro com tesão. Outra favorita era a Dança do Bêbado. Ela e o parceiro acabavam no chão, rolando um por cima do outro.
– Ela dizia que você tinha ciúmes da dança dela?
– Era a palavra que ela usava a maioria das vezes: ciúmes.
– Eu dançava no ginásio.
– É? Escuta, obrigado pelo café.
– Tudo bem. Eu tinha um parceiro no ginásio. A gente era os melhores dançarinos da escola. Ele tinha três bagos; eu achava isso um sinal de masculinidade.
– Três bagos?
– É, três bagos. Como eu ia dizendo, a gente sabia mesmo dançar. Eu dava o sinal tocando o pulso dele, e aí a gente saltava e virava em pleno ar, muito alto, e caía de pé. Uma vez, a gente estava dançando, e eu toquei o pulso dele e dei meu salto e virada, mas não caí de pé. Caí de bunda. Ele pôs a mão na boca, ficou me olhando e disse: “Ó, meu deus do céu!” e se mandou. Não me levantou. Era homossexual. Nunca mais dançamos juntos.
– Tem alguma coisa contra homossexuais de três bagos?
– Não, mas nunca mais dançamos.
– Lita era verdadeiramente obcecada pela dança. Entrava em bares desconhecidos e convidava os homens a dançarem com ela. Claro que eles iam. Achavam ela uma foda fácil. Eu não sei se ela fodia ou não. Acho que às vezes fodia. O problema dos homens que dançam ou vivem em bares é que têm uma visão igual à de uma tênia.
– Como sabe disso?
– Eles são apanhados no ritual.
– Que ritual?
– O ritual da energia mal dirigida.
Henry levantou-se e começou a vestir-se.
– Garota, eu tenho de ir.
– Que é isso?
– Tenho de terminar um trabalho. Eu sou, supostamente, um escritor.
– Tem uma peça de Ibsen na TV hoje de noite. Oito e meia. Você vem?
– Claro. Deixei aquele uísque. Não beba todo.
Henry enfiou as roupas, desceu a escada, entrou no carro e dirigiu para casa e sua máquina de escrever. Segundo andar, fundos. Todo dia, enquanto ele batia à máquina, a mulher de baixo batia no teto com a vassoura. Ele escrevia da maneira difícil, sempre tinha sido da maneira difícil: A Dança do Cachorro Branco...
Louise ligou às cinco e meia da tarde. Atacara o uísque. Estava bêbada. Embolava as palavras. Não dizia coisa com coisa. A leitora de Thomas Chatterton e D. H. Lawrence. A leitora de nove dos livros dele.
– Henry?
– Sim?
– Oh, aconteceu uma coisa maravilhosa.
– Sim?
– Um rapaz negro veio me visitar. É lindo! Mais lindo que você...
– Claro.
– ...mais lindo que você e eu juntos.
– Sim.
– Me deixou tão excitada! Estou a ponto de perder a cabeça!
– Sim.
– Você não liga?
– Não.
– Sabe como passamos a tarde?
– Não.
– Lendo seus poemas!
– Oh?
– E sabe o que ele disse?
– Não.
– Disse que seus poemas são sensacionais!
– Tudo bem.
– Escuta, ele me deixou muito excitada. Não sei o que fazer. Você não vem? Agora? Quero ver você agora...
– Louise, estou trabalhando...
– Escuta, você tem alguma coisa contra negros?
– Não.
– Eu conheço esse garoto há dez anos. Ele trabalhava pra mim quando eu era rica.
– Quer dizer, quando você ainda vivia com seu marido rico.
– Vou ver você depois? Ibsen é às oito e meia.
– Eu lhe informo.
– Por que aquele sacana apareceu? Eu estava bem, e aí ele aparece. Nossa. Estou tão excitada que preciso ver você. Estou ficando maluca. Ele era tão lindo.
– Estou trabalhando, Louise. O problema aqui é “Aluguel”. Tente entender.
Louise desligou. Tornou a ligar às oito e vinte. Henry disse que continuava trabalhando. E continuava. Depois começou a beber e ficou simplesmente sentado na cadeira, simplesmente sentado na cadeira. Às dez para as dez, ouviu uma batida na porta. Era Booboo Meltzer, o astro de rock número 1 da década de 1970, atualmente desempregado, ainda vivendo de direitos autorais.
– Oi, garoto – disse Henry.
Meltzer entrou e sentou-se.
– Cara – disse –, você é um velho e belo gato. Eu não aguento.
– Calma, garoto, gato está fora de moda, o quente agora é cachorro.
– Tenho um palpite de que você precisa de ajuda, coroa.
– Garoto, nunca foi de outro jeito.
Henry foi à cozinha, pegou duas cervejas, abriu-as e voltou.
– Estou sem xoxota, garoto, o que pra mim é o mesmo que estar sem amor. Não consigo separar as duas coisas. Não sou tão vivo assim.
– Nenhum de nós é vivo, Vovô. Todos precisamos de ajuda.
– É...
Meltzer tinha um tubinho de celuloide. Cuidadosamente, despejou dois montinhos brancos na mesa de café.
– Isso é cocaína, Vovô, cocaína...
– Ah, ha.
Meltzer meteu a mão no bolso, puxou uma nota de cinquenta dólares, fez um canudo bem comprimido e enfiou-o no nariz. Apertando a outra narina com um dedo, curvou-se sobre uma das manchas brancas na mesa de café e inalou-a. Depois enfiou a nota de cinquenta dólares na outra narina e cafungou a segunda mancha.
– Neve – disse Meltzer.
– É Natal. Muito apropriado – disse Henry.
Meltzer bateu mais duas manchas e passou os cinquenta. Henry disse:
– Guenta aí, eu uso a minha.
E pegou uma nota de um dólar e cafungou. Uma para cada narina.
– Que acha de A Dança do Cachorro Branco? – perguntou Henry.
– Isto aqui é que é “A Dança do Cachorro Branco” – disse Meltzer, batendo mais duas carreiras.
– Nossa – disse Henry. – Acho que nunca mais vou ficar de saco cheio. Você não está cheio de mim, está?
– De jeito nenhum – disse Meltzer, cafungando através da nota de cinquenta dólares com toda a força. – Vovô, de jeito nenhum...
– Numa Fria
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Quem, Diabos, É Tom Jones?

por duas semanas
estive dormindo com uma
garota de 24 anos de
Nova York – na época
em que ocorria a greve dos
lixeiros, e certa noite
minha antiga mulher de 34 anos
chegou e disse, “quero ver
minha rival”. foi o que ela fez
e então disse, “ó, você
é a coisinha mais querida!”
depois disso reparei que houve uma
gritaria de gatas selvagens –
urros e unhadas,
lamentos de animal ferido,
sangue e mijo...
eu estava bêbado e só de
calção. tentei
separar as duas e caí,
torcendo o joelho. então
atravessaram a porta e
avançaram rua
afora.
chegaram viaturas cheias
de policiais. um helicóptero da
polícia sobrevoou o local.
fiquei no banheiro
e sorri para o espelho.
não é comum que coisas
tão esplêndidas assim
aconteçam aos 55 anos.
muito melhor do que os distúrbios em
Watts[15].
a de 34 retornou
para dentro. estava toda
mijada e sua roupa
transformada em farrapos e era
seguida por dois policiais que
queriam saber a razão daquilo tudo.
erguendo meus calções
eu tentava explicar.
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Um Dia de Trabalho

Joe Mayer era escritor freelance. Estava de ressaca e o telefone acordou-o às nove horas da manhã. Ele levantou-se e atendeu.
– Alô?
– Oi, Joe. Como vai indo?
– Oh, lindo.
– Lindo, é?
– É.
– Vicki e eu acabamos de nos mudar pra nossa nova casa. Ainda não temos telefone. Mas posso lhe dar o endereço. Tem uma caneta à mão?
– Só um minuto.
Joe tomou o endereço.
– Não gostei daquele conto seu em Anjo Quente.
– Tudo bem – disse Joe.
– Não quero dizer que não gostei, quero dizer que não gostei em comparação com a maioria das outras coisas suas. A propósito, sabe onde anda Buddy Edwards? Griff Martin, que editava Histórias Quentes, está procurando ele. Achei que talvez você soubesse.
– Não sei onde ele está.
– Acho que talvez esteja no México.
– Pode ser.
– Bem, escuta, passo aí pra ver você em breve.
– Claro.
Joe desligou. Pôs dois ovos numa panela d’água, pôs a água do café para ferver e tomou um alka-seltzer. E voltou para a cama.
O telefone tornou a tocar. Ele se levantou e atendeu.
– Joe?
– Sim?
– Aqui é Eddie Greer.
– Ah, sim.
– Queremos que você faça um recital beneficente...
– Que é?
– Pro I.R.A.
– Escuta, Eddie, eu não me ligo em política nem religião, nem seja lá no que for. Realmente não sei o que está acontecendo por lá. Não tenho TV, não leio jornais... nada disso. Não sei quem está certo ou errado, se é que isso existe.
– A Inglaterra está errada, cara.
– Não posso fazer recital pro I.R.A., Eddie.
– Tudo bem então...
Os ovos estavam prontos. Ele se sentou, descascou-os, pôs pão na torradeira e diluiu o Sanka com água quente. Comeu os ovos e a torrada e tomou dois cafés. Depois voltou para a cama.
Já ia dormir quando o telefone tornou a tocar. Levantou-se e atendeu.
– Sr. Mayer?
– Sim?
– Eu me chamo Mike Haven, sou amigo de Stuart Irving. Nós publicamos juntos em Mula de Pedra, quando Mula de Pedra era editada em Salt Lake City.
– Sim?
– Eu cheguei de Montana e fico aqui uma semana. Estou no Hotel Sheraton na cidade. Gostaria de fazer uma visita e conversar com você.
– Hoje é um mau dia, Mike.
– Bem, talvez eu possa passar depois, esta semana.
– É, por que não liga depois?
– Sabe, Joe, eu escrevo como você, poesia e prosa. Quero levar alguns trabalhos meus e ler pra você. Você vai ficar surpreso. Meu material é realmente forte.
– Ah, é?
– Você vai ver.
Depois foi o carteiro. Uma carta. Joe leu-a:
Caro sr. Mayer:
Peguei seu endereço com Sylvia, a quem o senhor escrevia, para Paris, há muitos anos. Sylvia ainda está viva em San Francisco e ainda escreve seus poemas doidos, proféticos e angelicais. Estou morando em Los Angeles agora e adoraria ir visitar o senhor! Por favor, diga-me quando estaria bem para o senhor.
amor, Diana.
Ele despiu o roupão e vestiu-se. O telefone tornou a tocar. Ele foi até lá, olhou-o e não atendeu. Saiu, entrou no carro e dirigiu-se a Santa Anita. Dirigia devagar. Ligou o rádio e sintonizou uma música sinfônica. Não estava muito nublado. Desceu o Sunset, pegou o atalho favorito, subiu o morro em direção a Chinatown, passando pelo Anexo, pelo Little Joe, Chinatown, e pegou o trecho tranquilo ao lado dos pátios da ferrovia, olhando os vagões marrons lá embaixo. Se soubesse pintar, gostaria de pegar aquilo. Talvez os pintasse mesmo assim. Subiu a Broadway e pegou Huntington Drive para ir ao hipódromo. Comprou um sanduíche de carne em conserva e um café, abriu o programa das corridas e sentou-se. Parecia uma boa cartada.
Pegou Rosalina no primeiro a 10,80 dólares, Wife’s Objection no segundo a 9,20 e cravou-os na dupla diária por 48,40. Teve um ganho de 25 dólares em Rosalina e de cinco em Wife’s Objection, e assim faturou 73,20. Perdeu em Sweetott, ficou em segundo com Harbor Point, segundo com Pitch Out, segundo com Brannan, todas apostas na cabeça, e estava com um lucro de 48,20 quando teve um ganho de 20 dólares em Southern Cream, que o levou de volta a 73,20.
Não estava ruim no hipódromo. Só encontrou três conhecidos. Operários de fábrica. Negros. Dos velhos tempos.
A oitava corrida foi o problema. Cougar, que estava pagando 128, corria contra Unconscious, pagando 123. Joe não considerou os outros na corrida. Não conseguia decidir-se. Cougar estava 3 a 5, e Unconscious, 7 a 2. Estando com um ganho de 73,20, ele achou que podia se dar ao luxo de apostar no 3 a 5. Apostou 30 dólares. Cougar partiu mole, como se corresse numa vala. Quando chegou na metade da primeira volta, estava dezessete corpos atrás do cavalo da frente. Joe sabia que pegara um perdedor. No fim, seu 3 a 5 ficou cinco corpos atrás e a corrida acabou.
Ele pôs 10 e 10 em Barbizon Jr. e Lost at Sea no nono, perdeu e saiu com 23,20. Era mais fácil colher tomates. Entrou em seu velho carro e voltou devagar...
Quando entrava na banheira, a campainha da porta tocou. Ele se enxugou e enfiou a camisa e as calças. Era Max Billinghouse. Max tinha vinte e poucos anos, não tinha dentes, era ruivo. Trabalhava como faxineiro e sempre usava blue jeans e uma camiseta branca suja. Sentou-se numa cadeira e cruzou as pernas.
– Bem, Mayer, que é que há?
– Que quer dizer?
– Quero dizer: está sobrevivendo com sua literatura?
– No momento.
– Tem alguma novidade?
– Não desde que você esteve aqui na semana passada.
– Como foi seu recital de poesia?
– Foi tudo bem.
– A turma que vai a recital de poesia é bem falsa.
– A maioria das turmas é.
– Tem algum doce? – perguntou Max.
– Doce?
– É, eu tenho mania de doces. Tenho mania de doces.
– Não tenho nenhum doce.
Max levantou-se e foi até a cozinha. Voltou com um tomate e duas fatias de pão. Sentou-se.
– Nossa, você não tem nada pra comer por aqui.
– Vou ter de ir ao supermercado.
– Sabe – disse Max –, se eu tivesse de ler diante de uma multidão, na verdade insultava eles, ia ferir os sentimentos deles.
– Podia.
– Mas eu não sei escrever. Acho que vou andar por aí com um gravador. Às vezes converso comigo mesmo quando estou trabalhando. Depois posso escrever o que digo e fazer um conto.
Max era homem de hora e meia. Servia para uma hora e meia. Jamais ouvia, só falava. Após uma hora e meia, levantou-se.
– Bem, tenho de ir andando.
– Tudo bem, Max.
Max saiu. Sempre falava das mesmas coisas. Que insultara pessoas num ônibus. Que uma vez se encontrara com Charles Manson. Que um homem estava mais bem servido com uma prostituta que com uma mulher honesta. Tinha sexo na cabeça. Não precisava de roupas novas, de carro novo. Era um solitário. Não precisava das pessoas.
Joe foi à cozinha, pegou uma lata de atum e fez três sanduíches. Pegou a garrafa de uísque que vinha poupando e serviu uma boa dose com água. Ligou o rádio na estação de clássicos. “Danúbio Azul”. Desligou-o. Acabaram os sanduíches. A campainha tocou. Joe foi até a porta e abriu-a. Era Hymie. Hymie tinha um emprego mole em algum lugar de algum governo municipal perto de Los Angeles. Era poeta.
– Escuta – ele disse –, aquele livro que estava pensando, Antologia de poetas de Los Angeles, vamos esquecer.
– Tudo bem.
Hymie sentou-se.
– Precisamos de um novo título. Acho que eu tenho. Perdão aos fomentadores da guerra. Pense nisso.
– Acho que gosto – disse Joe.
– E podemos dizer: “Este livro é para Franco, Lee Harvey Oswald e Adolf Hitler”. Ora, eu sou judeu, logo isso exige alguma coragem. Que acha?
– Parece bom.
Hymie levantou-se e fez sua imitação de um judeu gordo típico dos velhos tempos, um judeu muito gordo. Deu uma cuspida e sentou-se. Era muito engraçado. Era o homem mais engraçado que Hymie conhecia. Servia por uma hora. Após uma hora, levantou-se e foi embora. Sempre falava das mesmas coisas. Que a maioria dos poetas era ruim. Que era trágico, tão trágico que tinha graça. Que se ia fazer?
Joe tomou outro bom uísque com água e foi para a máquina de escrever. Bateu duas linhas, e o telefone tocou. Era Dunning no hospital. Dunning bebia muita cerveja. Cumprira seus vinte anos no exército. O pai de Dunning tinha sido editor de uma revistinha famosa. Morrera em junho. A esposa de Dunning era ambiciosa. Pressionara-o para ser médico, muito. Ele conseguira ser quiropaxista. E trabalhava como enfermeiro tentando economizar oito ou dez mil dólares para uma máquina de raios x.
– Que tal eu aparecer pra tomar umas cervejas com você? – perguntou Dunning.
– Escuta, podemos adiar isso? – perguntou Joe.
– Que é que há? Está escrevendo?
– Mal comecei.
– Tudo bem, eu espero.
– Obrigado, Dunning.
Joe sentou-se à máquina de escrever. Não estava mal. Chegou ao meio da página, quando ouviu passos. Depois uma batida. Abriu a porta.
Eram dois rapazinhos. Um de barba negra, o outro barbeado.
O rapaz de barba disse:
– Vi você em seu último recital.
– Entre – disse Joe.
Entraram. Tinham seis garrafas de cerveja importada, casco verde.
– Vou pegar um abridor – disse Joe.
Ficaram ali sentados mamando a cerveja.
– Foi um bom recital – disse o rapaz de barba.
– Quem foi sua maior influência? – perguntou o sem barba.
– Jeffers. Poemas mais longos. Tamar. Garanhão Ruão. Por aí.
– Alguma coisa nova em literatura que lhe interesse?
– Não.
– Dizem que você está saindo da marginalidade, que faz parte do establishment . Que acha disso?
– Nada.
Houve outras perguntas do mesmo tipo. Os rapazes não aguentavam mais do que uma cerveja por cabeça. Joe cuidou das outras quatro. Eles partiram em 45 minutos.
Mas o sem barba disse, quando saíam:
– A gente volta.
Joe tornou a sentar-se à máquina de escrever com uma nova bebida. Não conseguia bater. Levantou-se e foi ao telefone.
Discou. E esperou. Ela estava em casa. Respondeu.
– Escuta – disse Joe –, me deixa sair daqui. Me deixa ir aí dar uma foda.
– Quer dizer que pretende passar a noite?
– É.
– De novo?
– É, de novo.
– Tudo bem.
Joe foi até o canto da varanda e desceu a rampa da garagem. Ela morava três ou quatro casas abaixo. Ele bateu. Lu deixou-o entrar.
Luzes apagadas. Ela estava só de calcinha e levou-o para a cama.
– Deus – ele gemeu.
– Que foi?
– Bem, é tudo inexplicável de certa forma, ou quase inexplicável.
– E só tirar a roupa e vir pra cama.
Joe fez isso. Deitou-se. A princípio não sabia se ia funcionar de novo. Tantas noites seguidas. Mas o corpo dela estava ali e era jovem. E os lábios abertos e concretos. Joe flutuava. Era bom estar no escuro. Ele malhou-a bem. Chegou a baixar lá embaixo e meter a língua na xoxota. Depois, quando montou, após quatro ou cinco estocadas, ouviu uma voz...
– Mayer... estou procurando um certo Joe Mayer... – Ouviu a voz do senhorio. O senhorio estava bêbado.
– Bem, se ele não está nesse apartamento de frente, verifique aquele de trás. Ele está num ou noutro.
Joe deu quatro ou cinco estocadas até começarem as batidas na porta. Ele escorregou para fora e, nu, foi à porta. Abriu uma janela lateral.
– Sim?
– Ei, Joe! Oi, que anda fazendo, Joe?
– Nada.
– Bem, que tal uma cervejinha, Joe?
– Não – disse Joe.
Bateu a janela lateral e voltou para a cama.
– Quem era? – ela perguntou.
– Não sei. Não reconheci o rosto.
– Me beija, Joe. Não fique aí deitado.
Ele beijou-a, enquanto a lua do sul da Califórnia atravessava as cortinas do sul da Califórnia. Era Joe Mayer. Escritor freelance.
Conseguiu.
– Numa fria
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Prece Debaixo de Mau Tempo

por Deus, não sei o que
fazer.
elas são tão legais de se ter por perto.
elas têm um jeito de tocar
as bolas
e olhar para o pau muito
seriamente
virando-o
puxando-o
examinando cada parte
enquanto seus longos cabelos caem
sobre a sua barriga.
não é apenas o foder e o chupar
que alcançam o interior do homem
e o amaciam, são os extras,
está tudo nos extras.
agora é noite e está chovendo
e não há ninguém
estão todas em outros lugares
examinando coisas
em novos quartos
com novos humores
mesmo que em velhos
quartos.
seja o que for, é noite e está chovendo,
uma chuva torrencial, maldita e
pesada...
muito pouco a fazer.
já li o jornal
paguei a conta do gás
a conta de luz
a conta do telefone.
continua chovendo.
elas amaciam um homem
e então o deixam a nadar
em seu próprio suco.
preciso de uma vagabunda no velho estilo
batendo à porta esta noite
fechando seu guarda-chuva verde,
gotas de chuva enluarada sobre
sua bolsa, dizendo, “merda, cara,
não consegue achar uma música melhor do que
essa no seu rádio?
e aumente o aquecimento...”
é sempre quando um homem está tomado
de amor e tudo
mais
que continua chovendo
alagadoura
encharcante
chuva
boa para as árvores e para a
grama e para o ar...
boa para coisas que
vivem sozinhas.
eu daria qualquer coisa
pela mão de uma fêmea em mim
esta noite.
elas amaciam um homem e
depois o deixam
escutando a chuva.
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Para Jane: Com Todo Amor Que Tive, Que Não Foi Suficiente: –

recolho a saia,
recolho as luminosas contas negras
do colar,
esta coisa que uma vez se moveu
em torno da carne,
e chamo Deus de mentiroso,
digo que qualquer coisa que
como esta
tenha se movido
ou conhecido
meu nome
jamais poderia morrer
na verdade comum da morte,
e eu recolho
seu vestido
amado,
esvaziado do amor que dela emanava,
e falo
com todos os deuses,
deuses judeus, deuses cristãos,
pedacinhos de coisas brilhantes
ídolos, pílulas, pão,
compreensões, riscos,
renúncias conscientes,
ratos na complacência de dois que foram às raias da loucura
sem qualquer chance,
consciência de colibri, sorte de colibri
apoio-me nisso,
apoio-me em tudo isso
e sei:
seu vestido sobre meus braços:
mas
ninguém irá
devolvê-la para mim.
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Dow Jones: Em Queda

como podemos resistir?
como podemos falar de rosas
ou de Verlaine?
este é um bando faminto
que gosta de trabalhar e contar
e conhece as leis especiais,
que gosta de sentar nos parques
pensando em nada que preste.
é ali que a porca torce o rabo
sobre os montes rochosos
onde os rostos enlouquecem como violetas calcinadas pelo sol
onde falham as vassouras e as cordas e as tochas,
sombras em apuros...
onde as paredes caem em massa.
amanhã os banqueiros ditarão o tempo
de fechar os portões contra nossa inundação
e prevaricarão com as águas;
martelando, martelando o tempo,
lembre-se já
as flores estão abertas ao vento
e isso não faz nenhuma diferença afinal
exceto como um estremecimento na nuca
quando já de volta à nossa terra aberta
mortos outra vez
caminhamos entre os mortos.
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Um Casal Adorável

eu tinha que dar uma cagada
mas em vez disso fui
até essa loja para
fazer uma chave.
a mulher usava um vestido
de algodão e cheirava
a rato almiscarado.
“Ralph”, ela urrou
e, seu marido,
um porco velho numa
camisa florida
calçando um sapato 39
apareceu e ela disse,
“esse homem quer
uma chave”.
ele começou a afiá-la
como se realmente não quisesse
fazer aquilo.
havia sombras
furtivas e urina
no ar.
segui ao longo do
balcão de vidro,
apontei e chamei a
mulher,
“ei, eu quero este
aqui”.
ela me alcançou o
objeto: um canivete
num estojo de um púrpura
claro.
US$ 6,50 mais as taxas.
a chave custou
praticamente
nada.
peguei o troco e
saí em direção
à rua.
algumas vezes você precisa
de gente desse tipo.

Depois de três anos fui “efetivado”. Isso significava receber pelos dias de feriado (os estagiários não recebiam) e uma jornada semanal de quarenta horas com dois dias de folga. O Stone também foi obrigado a me designar como substituto para cinco rotas diferentes no máximo. Isso era tudo o que me cabia: cinco rotas diferentes. Com o tempo, aprenderia onde estavam as caixas de correio, além dos atalhos e armadilhas de cada rota. Cada dia seria mais fácil. Poderia começar a cultivar aquele ar de tranquilidade.
De algum modo, porém, não me sentia muito feliz. Eu não era do tipo que procura deliberadamente por sofrimento, o trabalho ainda tinha lá sua variedade, mas aquele velho glamour dos dias de estagiário fazia falta – aquele não-ter-a-mais-vaga-ideia do que poderia acontecer depois.
Alguns dos funcionários de carreira se aproximaram para me cumprimentar.
– Parabéns – diziam.
– É isso aí – eu disse.
Parabéns pelo quê? Eu não tinha feito nada. Agora era um membro do clube. Era um dos caras. Eu poderia estar ali pelos próximos anos, chegar, inclusive, a pleitear minha própria rota. Comprar presentes de Natal para a família. E quando eu ligasse dizendo estar doente, diriam para um dos pobres estagiários, “Onde está o carteiro de sempre? Ele nunca se atrasa.”
Então lá estava eu. Depois disso foi emitido um boletim dizendo que nenhum quepe ou equipamento deveria ser posto sobre a caixa do carteiro. A maioria dos rapazes colocava seus quepes ali. Aquilo não fazia mal nenhum e economizava uma viagem até o vestiário. Agora, depois de três anos pondo meu quepe ali em cima, recebia uma ordem para não fazê-lo.
Bem, eu continuava chegando de ressaca e não podia me ocupar de coisas tão banais quanto o lugar onde pôr o quepe. De modo que meu quepe continuou onde sempre esteve, mesmo no dia posterior à expedição da ordem.
O Stone veio correndo com uma advertência. Dizia que era contra as regras e o regulamento manter qualquer tipo de objeto sobre a caixa. Pus a advertência no bolso e segui distribuindo as cartas. O Stone se sentou, girando em sua cadeira, sem deixar de me observar. Todos os outros carteiros tinham posto os quepes em seus armários. A exceção era eu – e um certo Marty. E o Stone tinha se aproximado do Marty e dito:
– Muito bem, Marty, você leu a ordem. Seu quepe não deveria estar sobre a caixa.
– Oh, sinto muito, senhor. É o hábito, sabe. Sinto muito. – Marty tirou seu quepe de cima da caixa e subiu as escadas para guardá-lo no armário.
Na manhã seguinte, esqueci outra vez da regra. O Stone apareceu com sua advertência.
O texto dizia que era contra as regras e o regulamento manter qualquer tipo de objeto sobre a caixa.
Pus a advertência no bolso e segui distribuindo as cartas.
Na manhã seguinte, assim que entrei, pude ver que o Stone estava à minha espreita. Não fazia nenhuma questão de esconder que me vigiava. Esperava para ver o que eu faria com meu quepe. Deixei-o esperar por um momento. Então retirei o quepe da cabeça e o coloquei sobre a caixa.
O Stone veio correndo com sua advertência.
Não a li. Joguei-a na cesta de lixo, deixei meu quepe ali e segui distribuindo as cartas.
Dava para ouvir o Stone à sua máquina. O próprio som das teclas era raivoso.
Me perguntava como ele teria aprendido a datilografar.
Ele retornou. Estendeu-me uma segunda advertência.
Olhei para ele.
– Não preciso ler esse negócio. Sei o que está escrito. Diz que eu não li a primeira advertência.
Joguei a segunda advertência no lixo.
O Stone voltou correndo para sua máquina.
Apresentou-me uma terceira advertência.
– Veja só – eu disse –, sei o que está escrito nessas folhas. Na primeira dizia que não era para eu pôr meu quepe sobre a caixa. Na segunda, que eu não havia lido a primeira. A terceira é por não ter lido nem a primeira, nem a segunda.
Olhei-o, e depois deixei a advertência cair no lixo, sem lê-la.
– Agora posso jogá-las fora tão rápido quanto você é capaz de datilografá-las. Isso pode seguir por horas e horas, e logo um de nós estará fazendo papel de ridículo. Você decide.
O Stone retornou para sua cadeira e se sentou. Não datilografou mais nada. Ficou apenas olhando para mim.
Não apareci no dia seguinte. Dormi até a hora do almoço. Sequer telefonei para avisar. Então fui até o Escritório Central. Disse-lhes a que vinha. Colocaram-me em frente a uma mesa com uma mulher velha e magra. Seus cabelos eram grisalhos e seu pescoço muito fino, um pescoço que subitamente se inclinava na metade de sua extensão. Isso fazia com que a cabeça se projetasse para frente e que ela me olhasse por sobre os óculos.
– Sim.
– Quero pedir demissão.
– Demissão?
– Sim, demissão.
– E o senhor é um carteiro efetivo?
– Sim – eu disse.
– Tsc, tsc, tsc, tsc, tsc, tsc, tsc – seguiu, produzindo este som com seus lábios secos.
Passou-me os papéis necessários e eu fiquei ali a preenchê-los.
– Há quanto tempo trabalha nos Correios?
– Três anos e meio.
– Tsc, tsc, tsc, tsc, tsc, tsc, tsc, tsc – ela seguiu –, tsc, tsc, tsc, tsc.
E isso foi tudo. Voltei para casa e para Betty e nós tiramos o selo da garrafa.
Mal eu sabia que em dois anos eu estaria de volta como escrevente e que lá eu ficaria, encolhido sobre meu assento, por quase doze anos.
– Cartas na rua
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O Chuveiro

gostamos de um banho depois da função
(gosto da água mais quente do que ela)
e seu rosto está sempre suave e pacífico
e ela me lavará primeiro
espalhará sabonete sobre minhas bolas
erguerá as bolas
as esfregará
depois lavará meu pau:
“ei, essa coisa ainda está dura!”
então pegará nos pelos lá embaixo –
na barriga, nas costas, no pescoço, nas pernas,
eu sorrio, sorrio, sorrio,
e então eu a lavarei...
primeiro a buceta
ficarei atrás dela, meu pau entre sua bunda
ensaboarei com gentileza seus pentelhos,
lavarei tudo ali com movimentos sutis,
uma demora talvez mais longa que o necessário,
então a parte de trás das suas coxas, seu rabo,
as costas, o pescoço, para depois virá-la, beijá-la,
ensaboar os seios, tomando-os e depois a barriga, o pescoço,
a parte da frente das pernas, os tornozelos, os pés,
e então a buceta, mais uma vez, para a boa sorte...
mais um beijo, e ela sairá primeiro,
enxugando-se, algumas vezes cantando enquanto eu permaneço lá dentro
abrindo ainda mais a torneira quente
sentindo a bonança do milagre do amor
para só depois sair...
isto ocorre normalmente no meio da tarde e tudo está tranquilo,
e ao nos vestirmos falamos sobre o que ainda há
para ser feito
mas por estarmos juntos quase tudo está resolvido,
de fato, tudo está resolvido,
e pelo tempo em que essas coisas estiverem resolvidas
na história da mulher e
do homem, será diferente para cada um
melhor e pior para cada um –
para mim, é esplêndido o suficiente para lembrar
superando os exércitos que marcham
os cavalos que cruzam as ruas lá fora
superando as memórias da dor e da derrota e da infelicidade:
Linda, você trouxe isso pra mim,
quando me for tirá-lo
faça-o bem devagar e de mansinho
faça-o como se eu estivesse morrendo entre sonhos e não de
olhos abertos, amém.

Dee Dee tinha uma casa em Hollywood Hills. Dividia o lugar com uma amiga, também uma executiva, chamada Bianca. Bianca morava no andar de cima, Dee Dee, no de baixo. Toquei a campainha. Eram oito e meia quando ela abriu a porta. Dee Dee tinha uns quarenta anos, cabelo preto, batido, era judia, descolada, estranha. Estava voltada para Nova York, conhecia todos os nomes: os bons editores, os melhores poetas, os cartunistas mais talentosos, os grandes revolucionários, qualquer um, todo mundo. Fumava maconha sem parar e agia como se estivesse no início dos anos 1960 e em plena vigência do Paz e Amor, quando ela fora razoavelmente famosa e muito mais bonita.
Uma longa série de complicados casos amorosos liquidou-a. Agora, lá estava eu à sua porta. Seu corpo ainda dava para o gasto. Ela era pequena, mas tinha um aspecto saudável e muitas garotas gostariam de ter o seu físico.
Entrei atrás dela.
– Então a Lydia se mandou? – perguntou Dee Dee.
– Acho que ela foi para Utah. O baile do Quatro de Julho em Muleshead está chegando. Ela nunca perde.
Sentei junto à mesa da cozinha enquanto Dee Dee abria uma garrafa de vinho tinto.
– Está com saudades dela?
– Claro que sim. Tenho vontade de chorar. Estou com um nó aqui dentro. Acho que não vou me recuperar.
– Vai sim. Vamos dar um jeito de superar Lydia. Tudo passa.
– Então você sabe como estou me sentindo?
– Já aconteceu com todos nós algumas vezes.
– A cadela nunca ligou a mínima para mim.
– Bobagem. Ela ainda liga sim.
Decidi que era melhor estar ali, no casarão de Dee Dee em Hollywood Hills, do que sozinho em meu apartamento ruminando.
– Deve ser porque eu não sou bom para as mulheres – eu disse.
– Você é bom o bastante com as mulheres – disse Dee Dee. – Além de ser um puta escritor.
– Preferia me dar bem com as mulheres.
Dee Dee estava acendendo um cigarro. Esperei-a terminar, me inclinei sobre a mesa e lhe dei um beijo.
– Você me faz sentir bem. Lydia estava sempre na ofensiva.
– Isso não significa o que você acha que significa.
– Mas pode se tornar bastante desagradável.
– Certamente, um inferno.
– Você já encontrou um namorado?
– Ainda não.
– Gosto desse lugar. Mas como consegue manter tudo tão limpo e arrumado?
– Temos uma empregada.
– Ah, é?
– Você vai gostar dela. Ela é uma negra bem grande e trabalha a toda velocidade assim que eu saio, para acabar logo o serviço. Então vai para a minha cama e fica vendo tevê e comendo biscoito. Todas as noites encontro farelo de biscoito na cama. Vou pedir pra ela preparar um café da manhã pra você, antes de eu sair amanhã de manhã.
– Beleza.
– Não, espere. Amanhã é domingo. Não trabalho aos domingos. Vamos comer fora. Conheço um lugar. Você vai gostar.
– Beleza.
– Sabe, acho que sempre fui apaixonada por você.
– O que?
– Há anos. Sabe, quando eu costumava visitar você, primeiro com Bernie, depois com Jack, eu já o desejava. Mas você nunca me notou. Estava sempre mamando numa lata de cerveja, ou então obcecado por alguma coisa.
– Demência – eu acho –, demência total. Chamam de demência do serviço postal. Desculpe eu não ter notado você.
– Pode começar a se recuperar agora.
Dee Dee serviu mais uma taça de vinho. Coisa fina. Eu gostava dela. Era bom ter um lugar para onde ir quando tudo mais dava errado. Me lembrei de antigamente, quando as coisas ficavam feias e eu não tinha para onde ir. Talvez isso até tenha sido bom para mim. Naquela época. Mas agora não queria saber do que tinha sido bom ou mau. Importava o momento, o que estava sentindo e o que fazer para parar de me sentir mal quando as coisas dessem errado. Como voltar a me sentir bem.
– Não quero jogar com seus sentimentos, Dee Dee – eu disse. – Nem sempre sou bom para as mulheres.
– Já disse que te amo.
– Não faça isso. Não me ame.
– Está bem – ela disse –, não vou te amar. Vai ser um quase amor. Que tal?
– É uma proposta muito melhor que a anterior.
Acabamos nosso vinho e fomos para cama...
– Mulheres
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A Vida Feliz Dos Cansados

nitidamente em sintonia com
a canção de um prisioneiro
fico de pé na cozinha
a meio caminho da loucura
sonhando com a Espanha de
Hemingway.
é um mormaço, como dizem,
mal consigo respirar,
já dei uma cagada e
li as páginas de esporte,
abri a geladeira
olhei para um pedaço púrpuro de
carne,
deixei-o por
ali.
o lugar para se achar o centro
está na margem
que golpeando o céu
é como um encanamento
vibrando.
coisas terríveis se arrastam
pelas paredes; flores cancerígenas crescem
na varanda; meu gato branco teve
um olho arrancado
e há apenas 7 dias
de corrida para o fim da
temporada de verão.
a dançarina nunca chegou do
Club Normandy
e Jimmy não trouxe a
puta,
mas há um cartão postal do
Arkansas
e um folheto do Food King:
10 pacotes de férias no Havaí,
e tudo o que eu preciso fazer é
preencher o formulário.
mas eu não quero ir pro
Havaí.
quero a puta com olhos de pelicano
umbigo de latão
e
coração de marfim.
tirei da geladeira o pedaço de carne
púrpura
larguei-o na
frigideira.
então o telefone tocou.
dobrei-me sobre um dos joelhos e rolei para debaixo
da mesa. fiquei ali até que
o telefone parasse de
tocar.
então me levantei e
liguei o
rádio.
não por acaso Hemingway enchia
a cara, a Espanha que se foda,
não poderia mesmo
suportá-la.
é puro
mormaço.
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Mário Quintana
Mário Quintana
2025-02-15

Mário Quintana