Zarak Krumfort

Zarak Krumfort é escritor independente. Sua escrita percorre o silêncio, a escuta e as margens do humano. Escreve em terceira pessoa, com linguagem direta, explorando conflitos internos, identidade e aquilo que raramente é dito. Publica em português e outros idiomas. Escute o silêncio — ele fala mais alto que as palavras.

1957-12-01 Brasil
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Alguns Poemas

A Dor de Estar Vivo

O ser humano só aprende sofrendo. Tudo nesse mundo é dolorido, nascemos causando dor, vivemos cheios de dores, física, psicológicas, espirituais, sociais… essa é a dimensão da dor e ninguém que passe por aqui consegue seguir sem sofrer ou causar sofrimento em alguém. A dor é quase um “pedágio” da existência — ninguém atravessa a vida sem pagar por ele, de um jeito ou de outro. Mas há uma distinção importante: Nem todo sofrimento ensina. Mas todo aprendizado profundo tem uma dose de dor.

Quando algo nos sacode, quando o mundo não responde como esperamos, quando perdemos, falhamos, somos abandonados ou obrigados a recomeçar… é ali que a consciência desperta pro fato de que a dor é a força que: desmonta ilusões, revela limites, obriga mudança, constrói maturidade. 
 Sem ela, ficaríamos estagnados, presos na primeira versão de nós mesmos.

”Ninguém passa por essa vida sem sofrer ou causar sofrimento”

E isso acontece porque viver significa tocar nas pessoas — e todo toque deixa marca.
 Às vezes cura, às vezes fere. Mas o contrário disso seria viver isolado, distante de tudo — o que também dói. Se existe alguma beleza nisso tudo, talvez seja esta: A dor não é a razão da vida. Mas é o que nos empurra para encontrar uma razão.

A dor nos força a buscar o que nos faria bem. Sem ela, nunca descobriremos quem somos — nem quem podemos ser.

Ainda não aprendi se o importante é aprender a sofrer e talvez seja justamente isso que me faz continuar caminhando — a busca pelo que é verdadeiro.
 Se um dia tudo ficasse claro, sem dúvida, sem mistério… a vida deixaria de ter movimento. Enquanto existe pergunta, existe caminho. Enquanto existe ferida, existe transformação.
 Enquanto existe silêncio que incomoda, existe algo querendo nascer.

Talvez o verdadeiro não seja uma resposta única, definitiva.Talvez seja aquilo que permanece quando tudo o resto muda — o que resiste dentro de nós, mesmo depois da dor, das perdas, dos equívocos ainda continuamos escrevendo esse “verdadeiro” em nós mesmos.
 Não importa o quanto tentemos ignorar a passagem do tempo, o quanto fingimos que ainda temos todas as chances do mundo… a morte caminha na mesma estrada que a vida, só alguns passos atrás. Ela não corre, não força a porta, não assusta. Apenas segue.

Ela sabe que um dia a gente cansa de fugir de nós mesmos. Sabe que um dia paramos de inventar desculpas. Sabe que um dia o silêncio pesa mais do que o corpo aguenta. E quando esse dia chega, ela não chega para tirar nada — chega para perguntar: O que você fez com o tempo que te deram? O que aprendeu com o amor que recebeu — e com o que faltou? O que fez com as dores que te ensinaram? A morte não cobra.
 Quem está vivo ainda tem escolhas.

A morte não cobra. Ela confere.

Travessia

As pessoas atravessam a rua o tempo todo.
Sem aviso, sem olhar pra trás, sem explicação.

Às vezes é o semáforo.
Às vezes é o sol batendo forte demais.
Às vezes é só costume — o corpo vai antes da decisão.

Porque, às vezes, atravessar é só reflexo: só seguir o fluxo, sem pensar muito.

Porque o lado de cá dói, sufoca, humilha, entedia.

A cidade ensina cedo essa paranoia silenciosa:
todo mundo acha que está seguindo,
quando na verdade todo mundo só está evitando alguma coisa —
um pensamento, um encontro, um espelho inesperado.

Ninguém atravessa a rua para fugir de alguém.
As pessoas atravessam porque não sabem ficar.
Nem do lado de cá.
Nem do lado de lá. 

Ninguém está escolhendo lados.
Cada um só está tentando chegar em algum lugar sem tropeçar nos próprios pensamentos.

No fundo, talvez não seja “por que as pessoas atravessam a rua?”, mas “por que ninguém atravessa a rua por mim?” ou “por que eu ainda não atravessei?”. A resposta é cruel: cada um mede o risco e o ganho da travessia a partir da própria solidão, do próprio medo ou da própria loucura.

Ou quem sabe, toda travessia seja só um jeito educado de continuar andando
sem ter que explicar o peso que carregamos por dentro.

A Busca não é por um destino, mas simplesmente por não ter que ficar parado no mesmo lugar consigo mesmo. A travessia, no fim, é apenas um "continuar andando" – o menor gesto para manter a ilusão de que se está indo a algum lugar, quando talvez o único lugar verdadeiro seja a própria solidão que nos acompanha em todos os cruzamentos.

Se alguém atravessa a rua, não significa “eu não quero ficar aquí”.
Na maioria das vezes significa só:
“eu não sei nem direito pra onde estou indo”.
#Literatura #Ficção #Psicologia #Existência

A Mulher do Canto do Bar

Ninguém sabia exatamente quando ela chegava.
Só percebiam quando o bar ficava mais quieto.

A porta rangia, o sino batia uma vez só, e pronto — o clima mudava. Não era medo. Era… respeito misturado com cautela. Aquele tipo de pessoa que não precisa levantar a voz pra impor presença. Bastava o olhar.

Ela entrava sem cumprimentar ninguém. Escolhia sempre a mesa do canto, de onde podia ver tudo e todos, mas ninguém podia chegar perto sem permissão. Sentava, cruzava as pernas e ficava ali, observando, como quem avalia o mundo inteiro em silêncio.

Não gostava de conversa fiada.
Não gostava de toque.
Não gostava de intimidade não autorizada.

Se alguém ousasse puxar papo demais, vinha o olhar. Curto. Seco. Final.
E o sujeito entendia na hora que tinha ultrapassado um limite invisível.

Ela não sorria.
Não pedia desculpa.
Não explicava nada.

Mas bebia o que queria, na hora que queria.
E pagava a conta sem dever a ninguém.

Os frequentadores do bar diziam que ela era intragável.
Outros diziam que era difícil.
Alguns a chamavam de antipática.

Mas todos — absolutamente todos — respiravam aliviados quando ela ia embora.

Porque, apesar de tudo, havia algo reconfortante naquela presença dura.
Uma honestidade bruta.
Uma recusa em fingir simpatia só pra agradar.

Ela não queria amor.
Queria espaço.

E quando saía, sem deixar gorjeta, o bar voltava a respirar…
mas ficava, por alguns segundos, um silêncio estranho — como se algo importante tivesse acabado de sair pela porta. Porque todo mundo sente, mesmo sem saber explicar,
que ali passou alguém que já entendeu demais da vida.

"Além das Penas".

Tem gente que olha, mas não vê.

Assiste, mas não compreende.

Consome, mas não interpreta.

Porque falta o essencial: leitura simbólica.

Não é ignorância — é outra coisa:
 é incapacidade de ir além do literal.
 É olhar sem repertório.
 É viver tudo na superfície.

Muita gente: quer mensagem explicada,
 quer sentido óbvio, quer validação rápida,
 quer emoção sem reflexão.

O problema nunca foi a obra.

É a incapacidade de perceber o que não vem mastigado, é uma recusa ativa ao diálogo com o que é complexo.
 

Qualquer coisa que exija silêncio, interpretação ou camadas vira “viagem”, “exagero” ou “nada demais”.

Não porque a obra é rasa — mas porque o olhar é. 

A arte não dá respostas, ela provoca perguntas — mas só para quem aceita fazer a pergunta.

É o mesmo tipo de gente que olha para um quadro e diz que “qualquer um faria”. Que lê um texto e diz que “não viu nada demais”. Que assiste a uma peça e resume tudo a um gesto mal compreendido.

E talvez seja por isso que a arte canse, a política empobreça e o silêncio assuste.

Porque entender dá trabalho.

E nem todo mundo quer trabalhar.”

Tem gente que vai assistir no teatro a peça “O Lago dos Cisnes” e volta pra casa dizendo: ah! Era apenas uma mulher imitando um pássaro, reduzindo  Tchaikovsky, a coreografia.

É como dizer que Dom Quixote é "um velho batendo em moinhos".

O cisne não está ali para ser imitado. Está ali para ser compreendido.

Talvez o mundo esteja cheio demais de gente que só enxerga penas, mas nunca o voo.

E assim seguimos, cercados de gente que confunde profundidade com complicação, sensibilidade com exagero, e reflexão com perda de tempo.

No fim, não é a arte que falha.
 É o olhar que nunca aprendeu a ir além das penas.

Zarak Krumfort é escritor independente e autor de uma obra marcada pelo silêncio, pela escuta e pelas margens. Nasceu na Bahia, Brasil e atualmente vive no Reino Unido. Escreve sobre pessoas comuns, vidas invisíveis e aquilo que raramente encontra espaço no discurso apressado do cotidiano: a solidão, a culpa, a lucidez tardia, o peso das escolhas e o que permanece não dito.

Sua escrita rejeita fórmulas, tendências e promessas fáceis. Não busca agradar algoritmos nem disputar vitrines. Prefere o leitor atento ao leitor impulsivo — aquele que encontra um livro como quem encontra algo esquecido, mas necessário. Seus textos transitam entre a prosa reflexiva e a narrativa literária, sempre em terceira pessoa, com linguagem direta, sem ornamentos desnecessários.

Zarak publica em português e em outros idiomas, com obras distribuídas internacionalmente, alcançando leitores fora do circuito tradicional. Sua produção literária é consistente e extensa, atravessando temas como identidade, fé, decadência urbana, memória, envelhecimento, liberdade e contradições humanas.

Mais do que contar histórias, sua escrita observa. Não oferece respostas prontas — propõe perguntas. Escreve para quem aceita o desconforto de pensar, sentir e permanecer um pouco mais em silêncio diante da própria vida.

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