Zarak Krumfort

Zarak Krumfort é escritor independente. Sua escrita percorre o silêncio, a escuta e as margens do humano. Escreve em terceira pessoa, com linguagem direta, explorando conflitos internos, identidade e aquilo que raramente é dito. Publica em português e outros idiomas. Escute o silêncio — ele fala mais alto que as palavras.

1957-12-01 Brasil
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O Elevador Que Nunca Vem

O botão é apertado várias vezes, mesmo sabendo que isso não muda nada. O elevador do prédio 312 é lento, barulhento e imprevisível. Às vezes para entre andares, às vezes não para. Quem mora ali aprende a conviver com a espera — ou com as escadas. Ela, que mora no oitavo, sempre desce andando. Vai com calma, segurando no corrimão, sapatos gastos, sacola de pano no ombro. Diz que não tem pressa, mas a verdade é que perdeu a fé no elevador faz tempo. Outros ainda arriscam esperar, olhando fixamente para o número vermelho que demora a mudar, como se em algum momento a máquina resolvesse ser justa. O elevador é quase uma metáfora: promessas que demoram demais, ajudas que não chegam, mudanças que emperram no meio do caminho. Quem espera muito por ele, se cansa. Quem insiste, se decepciona. Quem depende, se atrasa. Há um bilhete colado com fita no térreo: “Em manutenção”. Está lá há meses. Já não é aviso, virou parte da paisagem. Ninguém mais repara. É como se a cidade dissesse: se vira. E eles se viram. Sobem com sacolas, descem com crianças, respiram fundo a cada degrau. Alguns riem da situação, outros reclamam baixinho. Mas todos, no fundo, sabem: Na cidade grande, até o elevador ensina que confiar demais pode ser perigoso. 

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