Zarak Krumfort

Zarak Krumfort é escritor independente. Sua escrita percorre o silêncio, a escuta e as margens do humano. Escreve em terceira pessoa, com linguagem direta, explorando conflitos internos, identidade e aquilo que raramente é dito. Publica em português e outros idiomas. Escute o silêncio — ele fala mais alto que as palavras.

1957-12-01 Brasil
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Travessia

As pessoas atravessam a rua o tempo todo.
Sem aviso, sem olhar pra trás, sem explicação.

Às vezes é o semáforo.
Às vezes é o sol batendo forte demais.
Às vezes é só costume — o corpo vai antes da decisão.

Porque, às vezes, atravessar é só reflexo: só seguir o fluxo, sem pensar muito.

Porque o lado de cá dói, sufoca, humilha, entedia.

A cidade ensina cedo essa paranoia silenciosa:
todo mundo acha que está seguindo,
quando na verdade todo mundo só está evitando alguma coisa —
um pensamento, um encontro, um espelho inesperado.

Ninguém atravessa a rua para fugir de alguém.
As pessoas atravessam porque não sabem ficar.
Nem do lado de cá.
Nem do lado de lá. 

Ninguém está escolhendo lados.
Cada um só está tentando chegar em algum lugar sem tropeçar nos próprios pensamentos.

No fundo, talvez não seja “por que as pessoas atravessam a rua?”, mas “por que ninguém atravessa a rua por mim?” ou “por que eu ainda não atravessei?”. A resposta é cruel: cada um mede o risco e o ganho da travessia a partir da própria solidão, do próprio medo ou da própria loucura.

Ou quem sabe, toda travessia seja só um jeito educado de continuar andando
sem ter que explicar o peso que carregamos por dentro.

A Busca não é por um destino, mas simplesmente por não ter que ficar parado no mesmo lugar consigo mesmo. A travessia, no fim, é apenas um "continuar andando" – o menor gesto para manter a ilusão de que se está indo a algum lugar, quando talvez o único lugar verdadeiro seja a própria solidão que nos acompanha em todos os cruzamentos.

Se alguém atravessa a rua, não significa “eu não quero ficar aquí”.
Na maioria das vezes significa só:
“eu não sei nem direito pra onde estou indo”.
#Literatura #Ficção #Psicologia #Existência

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