Lista de Poemas
Segunda infância
o dia começa e o corpo nos renasce
Regresso recém-nascido ao teu regaço
minha mais funda infância meu paul
Voltam de novo as folhas para as árvores
e nunca as lágrimas deixaram os olhos
Nem houve céus forrados sobre as horas
nem míseras ideias de cotim
despovoaram alegres tardes de pássaros
O sol continua a ser o único
acontecimento importante da rua
Eu passo mas não peço às árvores
coração para além dos frutos
Tu és ainda o maior dos mares
e embrulho-me na voz com que desdobras
o inumerável número dos dias
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 29 | Editorial Presença Lda., 1984
Terra à vista
à roda dos homens que foram nascendo
e depois morrendo na cidade
Nas casas os homens procriaram reinaram
Todos os dias se abriam uma a uma as janelas
de todas as casas que há na cidade
janelas fechadas todas elas à noite
As casas caíam mas logo as erguiam
A chuva descia sobre a cidade
e os homens pintavam as casas
Tanta gente de pé na cidade
tão sólidos tácteis tantos pés sobre a terra
pés tão mal acabados como os dos animais
(os olhos dos homens é que não se parecem
com todos os olhos dos demais animais
tenho passado a vida a olhá-los
e é realmente outra coisa)
À volta de toda a cidade há o cerco da terra
A terra invade as ruas as casas recebe
como tributo
tão belos monumentos de carne
Em todas as casas tem havido mortos
Os mortos estendem os pés e dão
uma nova dimensão à família
Os mortos partem com intervalos regulares:
assim ao menos terão todos lugar
na capa das principais revistas
Que bom! Sábado à tarde não morre
ninguém na cidade:
a agência funerária faz semana inglesa
Anda comigo meu irmão
podemos passear tranquilamente
Que suave desliza toda esta gente
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 44 | Editorial Presença Lda., 1984
Acontecimento
amor inventado numa indústria de lábios
que mordem o tempo sempre cá
E o coração acontece-nos
como uma dádiva de folhas nupciais
nos nossos ombros de outono
Caiam agora pálpebras
o sacrifício que em nossos gestos há
de sermos diários por fora
Caiam agora que o amor chegou
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 30 | Editorial Presença Lda., 1984
À chegada dos dias grandes
a minha mão procura a primavera
Nas pétalas não poisa já geada
e o dia é já maior que ontem era
Não temo mesmo aquilo que temera
se antes viesse: chuva ou trovoada
é este o Deus que o meu peito venera
Sinto-me ser eu que não era nada
A primavera é o meu país
Saio à rua sento-me no chão
e abro os braços e deito raiz
E dá flores até a minha mão
Sei que foi isto que sem querer quis
e reconheço a minha condição.
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 172 | Editorial Presença Lda., 1984
Soneto superdesenvolvido
consola tanto a alma de quem os tem
que as boas acções são inesquecíveis momentos
e é um prazer fazer bem
Por isso se no verão se chega a uma esplanada
sabe melhor dar esmola que beber a laranjada
Consola mais viver assim no meio de muitos pobres
que conviver com gente a quem não falta nada
E ao fim de tantos anos a dar do que é seu
independentemente da maneira como se alcançou
ainda por cima se tem lugar garantido no céu
gozo acrescido ao muito que se gozou
Teria este (se não tivesse outro sentido)
ser natural de um país subdesenvolvido
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 145 e 146 | Editorial Presença Lda., 1984
Do sono da desperta Grécia
se dirigira ainda aos homens do futuro
quando da acrópole de atenas péricles hierático
falou: «ainda que o declínio as coisas
todas humanas ameace sabei vós ó vindouros
que nós aqui erguemos a mais célebre e feliz cidade»
Eram palavras novas sob a mesma
abóbada celeste outrora aberta em estrelas
sobre a cabeça do emissário de argos
que aguardava o sinal da rendição de tróia
e sobre o dramaturgo sófocles roubando
aos dias desse tempo intemporais conflitos
chegados até nós na força do teatro
Apoiada na sua longilínea lança
a deusa atenas pensa ainda para nós
Pela primeira vez o homem se interroga
sem livro algum sagrado sob a sua inteligência
e a tragédia a arte o pensamento
desvendam o destino a divindade o universo
Em busca da verdade o homem chega
às noções de justiça e liberdade
Após quatro milénios de uma sujeição servil
o homem olha os deuses face a face
e desafia a força do tirano
E nós ainda hoje nos interrogamos
a interrogação define a nossa livre condição
O desafio de antígona e de prometeu
é hoje ainda o nosso desafio
embora como um rio o tempo haja corrido
«Diz em lacedemónia ó estrangeiro
que morremos aqui para servir a lei»
«E se esta noite é uma noite do destino
bendita seja ela pois é condição da aurora»
Palavras seculares vivas ainda agora
Uma grécia secreta dorme em cada coração
na noite que precede a inevitável manhã
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 2, págs. 47 e 48 | Editorial Presença Lda., 1981
Fundação de Roma
o espaço em ti de um domingo
para as folhas caírem
Talvez até
com o gládio do espírito eu possa
rasgar à tua volta um areal de silêncio
onde o sol ilumine os cristais dos meus dias
Jerusalém é o teu nome de cidade
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 49 | Editorial Presença Lda., 1984
Aos homens do cais
ao alto ergueis os vossos troncos nus
e o fruto que produz a vossa mão
vem do trabalho e transparece à luz
Nenhum passado vale o dia-a-dia
Sonho só o que vós me consentis
Verdade a que de vós só irradia
- Portugal não é pátria mas país
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 146 | Editorial Presença Lda., 1984
Através da chuva e da névoa
longe de aqui há muito já
ó meu amor o teu olhar
o meu olhar o teu amor
Mais tarde olhei-te e nem te conhecia
Agora aqui relembro e pergunto:
Qual é a relidade de tudo isto?
Afinal onde é que as coisas continuam
e como continuam se é que continuam?
Apenas deixarei atrás de mim tubos de comprimidos
a casa povoada o nome no registo
uma menção no livro das primeiras letras?
Chovia e vi-te entrar no mar
ó meu amor o teu olhar
o meu olhar e o teu amor
Que importa que algures continues?
Tudo morreu : tu esse tempo esse lugar
Que posso eu fazer por tudo isso agora?
Talvez dizer apenas
Chovia e vi-te entrar no mar
E aceitar a irremediável morte para tudo e todos
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 175 e 176 | Editorial Presença Lda., 1984
Saudades de Melquisedeque
um grande passeio àquela praia
onde ontem por sinal passei o dia
É difícil a vida dos homens senhor
Os anjos tinham outras possibilidades
e alguns deles foi o que tu sabes
Esta terra não está feita para nós
Mesmo que ela fosse diferente
nós quereríamos talvez outra terra
talvez esta de que agora dispomos
Não achas meu senhor que temos braços a mais
dias a mais complicações a mais?
Pra nascer e morrer seria necessário tanto?
Falhamos tantas vezes (Como os judeus que juraram
não comer nem beber até matar paulo
e apesar disso não o mataram)
É difícil a vida difícil a morte.
Por vezes os homens juntam-se todos
ou quase todos e organizam
grandes manifestações. Mas nada disso os dispensa
da grande solidão da morte
de termos de morrer cada um por nossa conta
Todos tivemos pai e mãe
nenhum de nós que eu saiba veio de salém
Comentários (3)
Muito obrigado. Muito obrigado
Amei darling
tambem
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Poeta e ensaísta português, natural de São João da Ribeira, Rio Maior. Licenciado em Filologia Românica e em Direito pela Universidade de Lisboa, obteve o grau de doutor em Direito Canónico pela Universidade Gregoriana de Roma, com uma tese intitulada «Ficção Literária e Censura Eclesiástica». Exerceu, ainda que brevemente, um cargo de director-adjunto no então ministério da Educação Nacional, mas o seu relacionamento com opositores ao regime da época, a participação na greve académica de 1962 e a sua candidatura a deputado, em 1969, pelas listas da Comissão Eleitural de Unidade Democrática, levaram a que as suas actividades fossem vigiadas e condicionadas. Ocupou, ainda, um lugar de leitor de Português na Universidade de Madrid (1971-1977). Regressado, então, a Portugal, foi-lhe recusada a possibilidade de leccionar na Faculdade de Letras de Lisboa, dando aulas na Escola Técnica do Cacém, no ensino nocturno. Em 1991 foi condecorado, a título póstumo, com o grau de Grande Oficial da Ordem Militar de Sant'iago da Espada. Tendo sido, na sua passagem pela imprensa, director literário da Editorial Aster e chefe de redacção da revista Rumo, os seus primeiros livros de poesia foram Aquele Grande Rio Eufrates (1961) e O Problema da Habitação (1962). Às colectâneas de ensaios Poesia Nova (1961) e Na Senda da Poesia (1969), seguiram-se obras cuja temática se prende ao religioso e ao metafísico, sob a forma de interrogações acerca da existência. É o caso de Boca Bilingue (1966), Homem de Palavras(s) (1969), País Possível (1973, antologia), Transporte no Tempo (1973), A Margem da Alegria (1974), Toda a Terra (1976) e Despeço-me da Terra da Alegria (1977). O versilibrismo dos seus poemas conjuga-se com um domínio das técnicas poéticas tradicionais. A sua obra, organizada em três volumes sob o título Obra Poética de Ruy Belo, em 1981, foi, entretanto, alvo de revisitação crítica, sendo considerada uma das obras cimeiras, apesar da brevidade da vida do poeta, da poesia portuguesa contemporânea. Apesar do curto período de actividade literária, Ruy Belo tornou-se um dos maiores poetas portugueses da segunda metade deste século, tendo as suas obras sido reeditadas diversas vezes. Destacou-se ainda pela tradução de autores como Antoine de Saint-Exupéry, Montesquieu, Jorge Luís Borges e Federico García Lorca. Em 2001, publica-se Todos os Poemas
Ruy Belo foi um dos mais importantes poetas e ensaístas portugueses do pós-guerra, nascido a 27 de fevereiro de 1933 na cidade de São João da Ribeira, Rio Maior, morrendo repentina e demasiado prematuramente na cidade de Queluz, a 8 de agosto de 1978, com apenas 45 anos.
Estudou direito na Universidade de Coimbra, concluindo o curso em Lisboa em 1956, quando partiu para Roma, doutorando-se em direito canônico pela Universidade S. Tomás de Aquino (Angelicum), com uma tese intitulada "Ficção Literária e Censura Eclesiástica".
Retornou a Portugal e em 1961 ingressou na Faculdade de Letras de Lisboa, recebendo uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian para pesquisa acadêmica, tornando-se ainda professor de Língua e Literatura Portuguesas em Madri entre 1971 e 1977.
Mais tarde, ainda que tenha trabalhado no então Ministério da Educação Nacional, sua oposição ao regime de Salazar, a participação em uma greve acadêmica de 1962 e a sua candidatura a deputado, em 1969, pela Comissão Eleitoral de Unidade Democrática, tornaram-no perigoso demais para a conjuntura política do país, levando-o a ser vigiado pelo governo e à recusa de sua candidatura a lecionar na Faculdade de Letras de Lisboa.
Foi diretor da Editorial Aster e chefe de redação da revistaRumo, estreando em livro com os volumesAquele Grande Rio Eufrates (1961) eO Problema da Habitação (1962), assim como a coletânea de ensaiosPoesia Nova (1961), seguida deNa Senda da Poesia (1969). Publicou aindaBoca Bilingue (1966),Homem de Palavra(s) (1969),Transporte no Tempo (1973),País Possível (1973),A Margem da Alegria (1974),Toda a Terra (1976) eDespeço-me da Terra da Alegria (1978). Traduziu Antoine de Saint-Exupéry, Montesquieu, Jorge Luís Borges e Federico García Lorca.
A reunião de seus poemas, organizada em três volumes sob o títuloObra Poética de Ruy Belo, foi lançada em 1981, três anos após sua morte, e aos poucos passou a firmar-se criticamente como uma das obras mais importantes da poesia portuguesa contemporânea.
No Brasil, o poeta é praticamente desconhecido, publicado apenas esparsamente. Um esforço recente de divulgação foi empreendido pela revistaInimigo Rumor, dirigida à época no Brasil por Carlito Azevedo e em Portugal por Osvaldo Manuel Silvestre, dedicando seu número 15 à obra do português, com um dossiê que trazia ensaios de Manuel Gusmão, Gustavo Rubim, Vítor Mendes e Pedro Serra, além de textos de poetas brasileiros e portugueses a partir de poemas de Ruy Belo, incluindo os autores Nuno Júdice, Eucanaã Ferraz, Vasco Graça Moura, Tarso de Melo, A. M. Pires Cabral, Luís Quintais, Fernando Guerreiro, Heitor Ferraz ou Gastão Cruz, entre outros.
Surgida em Portugal no fim da década de 50 e início dos 60, quando no Brasil vociferava o debate entre os poetas do Grupo de 45 e das neovanguardas brasileiras, com as pesquisas e reviravoltas críticas empreendidas pelo Grupo Noigandres em São Paulo, o Grupo Neoconcreto no Rio de Janeiro, além da Poesia Práxis de Mário Chamie e os trabalhos dos poetas em torno do Poema Processo, entende-se como a poesia lírica e sálmica de Ruy Belo poderia ter acolhida difícil no País naquele momento. Mas, agora que tais dicotomias em luta por hegemonia começam a arrefecer, e em vista da parca mas clara acolhida e valorização no Brasil do trabalho de poetas como Herberto Helder, Hilda Hilst ou Roberto Piva, é espantoso que o trabalho de Ruy Belo não tenha ainda se tornado referência maciça entre os poetas contemporâneos brasileiros, com algumas exceções. "A margem da alegria" parece-me um dos grandes poemas longos do pós-guerra em língua portuguesa, e seus pequenos poemas líricos são cristais de clareza estonteante. No Brasil, creio que seu trabalho poderia entrar em diálogo com textos como asCinco elegias (1943), de Vinícius de Moraes (1913 - 1980), assim como a poesia lírica de Joaquim Cardozo (1897 - 1978), Hilda Hilst (1930 - 2004) e Leonardo Fróes (n. 1943). São aproximações sem qualquer referência genética ou hierárquica.
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