Escritas

Lista de Poemas

Saudades de Melquisedeque

Esta manhã gostaria de ter dado ontem
um grande passeio àquela praia
onde ontem por sinal passei o dia
É difícil a vida dos homens senhor
Os anjos tinham outras possibilidades
e alguns deles foi o que tu sabes
Esta terra não está feita para nós
Mesmo que ela fosse diferente
nós quereríamos talvez outra terra
talvez esta de que agora dispomos
Não achas meu senhor que temos braços a mais
dias a mais complicações a mais?
Pra nascer e morrer seria necessário tanto?
Falhamos tantas vezes (Como os judeus que juraram
não comer nem beber até matar paulo
e apesar disso não o mataram)
É difícil a vida difícil a morte.
Por vezes os homens juntam-se todos
ou quase todos e organizam
grandes manifestações. Mas nada disso os dispensa
da grande solidão da morte
de termos de morrer cada um por nossa conta
Todos tivemos pai e mãe
nenhum de nós que eu saiba veio de salém
👁️ 3 806

Poema quotidiano

É tão depressa noite neste bairro
Nenhum outro porém senhor administrador
goza de tão eficiente serviço de sol
Ainda não há muito ele parecia
domiciliado e residente ao fim da rua
O senhor não calcula todo o dia
que festa de luz proporcionou a todos
Nunca vi e já tenho os meus anos
lavar a gente as mãos no sol como hoje
Donas de casa vieram encher de sol
cântaros alguidares e mais vasos domésticos
Nunca em tantos pés
assim humildemente brilhou
Orientou diz-se até os olhos das crianças
para a escola e pôs reflexos novos
nas míseras vidraças lá do fundo

Há quem diga que o sol foi longe demais
Algum dos pobres desta freguesia
apanhou-o na faca misturou-o no pão
Chegaram a tratá-lo por vizinho
Por este andar... Foi uma autêntica loucura
O astro-rei tornado acessível a todos
ele que ninguém habitualmente saudava
Sempre o mesmo indiferente
espectáculo de luz sobre os nossos cuidados
Íamos vínhamos entrávamos não víamos
aquela persistência rubra. Ousaria
alguém deixar um só daqueles raios
atravessar-lhe a vida iluminar-lhe as penas?

Mas hoje o sol
morreu como qualquer de nós
Ficou tão triste a gente destes sítios
Nunca foi tão depressa noite neste bairro
👁️ 4 807

A charneca e a praia

Num dia vagamente de Natal fechado pelo frio
um positivo pássaro assegura a vida
na pedra a ocidente mais perdida
e sobranceira à água que passa no rio

Mas onde, anima naturaliter christiana,
encontrará qualquer contentamento
aquele que semana após semana
sobrecarrega o próprio pensamento?

Dizes que um verão completamente abandonado jaz
junto da placa enferrujada onde já mão nenhuma faz
parar a camioneta para a praia
Que a tarde aí é tão horizontal como uma estrada

tão ampla e tão possível como antigamente
Trémula passa mente muita gente: olhai-a
todo o seu ser é ser assim olhada
E o mar vindo da primeira solidão
entre futuras árvores de súbito evidente
está mais perto de ti que a minha mão

Alheia a estes dias perguntas-me que faço
Deito-me levanto-me estendo as mãos e esqueço
que entre tantas pequeninas coisas uma árvore de pé
transmite as estações reúne para mim teu verde rosto esparso
aonde com desgosto às vezes sem esperar tropeço
E então sou quem fui na areia mais deserta
onde houve passos risos e regressos
antes de tudo quanto o tempo depois disso trouxe
Escrevo corro e era outro o autocarro
cerrou-se apenas sobre si o mais original abraço
Perguntas-me que faço: sei apenas que esqueço
estendo braços e conheço casos tristes
tenho voltas a dar e vou à minha vida
e tudo onde passo lembra outra coisa

Ou volto a esses campos onde Deus é necessário,
à vida regulada pelo vento pelo sol e pelo sino,
aos nomes crus na cal das cruzes dos caminhos
onde às vezes na noite crescem passos enxertados primitivos
que põem frente os olhos de dois homens
Volto como quem volta ao local do seu crime
e nem a morte me afastará disto

Eu faço e aconteço eu esqueço
Tenho um nome e sorrio e sou vist…

  

Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 139 e 140 | Círculo de Leitores, Dez 2000
👁️ 1 203

O último inimigo

A pêra após a pêra entretanto amadurece
a uva após a uva após o figo o figo
E eu que canto? Canto talvez a lua vagabunda e os eclipses do sol
ou a rota do âmbar escalando os entrepostos do mar Báltico
talvez o fim (ou o princípio) dos homens e dos seres

Talvez eu espere simplesmente um amigo que de longe venha
ao peso de todos os anos que teriam
os mortos se houvessem morrido
Nenhuma outra idade lhe convém
e distraidamente eu o convoco
por cada criança que perdeu a inocência
E dir-me-à: "Esquece o teu nome a casa dos teus pais
pelo que não é teu terás um nome novo
Também Pilur
outrora recebeu o nome de Nilur"

Alguém - Febe, Cloé, Ápia, Lídia, Priscila... quem? -
se move repentinamente nas derramadas casas
aonde é mais real a sucessão das estações
e nem o filho pródigo nos vem já redimir
de tudo quanto tem uma cidade que se preza
se não nos esquecermos da carreta funerária
por cada voz extinta na garganta da cidade
O corpo é superior a vítimas e oblações
Não vem à flor do sonho o símbolo mulher
e há um ramo de oliveira e luz e campos entre dois ou vários rostos
e o fumo em que se esvaem tantos dias
e as crianças e as árvores e o mar
Como haveremos de salgar o sal?
Eu sempre fui estrangeiro nesta terra
eu não fiz mal a Deus por nada deste mundo
Só vi cair as árvores em julho
e conheci também a extrema solidão do vento
cravada como um escrúpulo na carne

A muitos anos-luz da infância inverosímil
enquanto nada acabou de todo ainda
nem no solo de Tróia cresce a sombra de uma lança
preparo cuidadosamente a minha morte
seguindo a linha norte-sul do litoral do medo
e acompanhando a progressiva imposição de línguas mais que indo-europeias
a noroeste das penínsulas do sonho
Volto-me para a morte e chamo como só Deus se chama
A morte é um vizinho que se ama

Não és ainda tu
Nunca nenhum de nós
É que não há ninguém
Deus é distante como o vento ou a vida
e no cúmulo da sede nenhuma fonte nasce
Naqueles que morreram confiávamos
mas não mais se erguerão no dia a dia desta terra
onde se colhe em cada rosto a flor imperecível do instante
Afunde então a melhor mão na mais profunda dor
entre as convulsas caravelas do teu pranto
e não mais saberás onde a haverás de pôr
Eu digo-te que é Jonas o único sinal
e Argos afinal a cidade onde devíamos voltar
levando em cada mão as tácteis flores de Santa Maria
para vivermos lá como dez anos antes
Não choraremos com as filhas de Jerusalém?

Permanecer sentados tantos dias sem nenhuma ideia
ou distraído olhar para a mosca de súbito importante
à frente um simples prato Moscavide e a manhã
sereno mundo líquido num copo
contrário desacordo com o corpo
e as árvores de pé como um insulto
ou na areia de qualquer perdida e pequenina praia ousar o gesto de imolar
às planas e quebradas mãos do mar a flor do que sabemos
e assim à líquida embaixada ensinar a soletrar
a orla do país que nesse instante fomos
talvez a ocidente do melhor que somos
- que as palavras remirão estes ou outros movimentos do olvido?

O inverno veio e não o recebemos
havia tanta coisa a receber
talvez nem fosse propriamente o inverno
mas tu, o grande distraído, que nos ouves
Quare ergo rubra vestimenta tua,
vindo de vestes rubras desde Bosra
na sempre repetida impiedade de Jacob?
Generationem eius quis narrabit?
A tua face, ó meu amigo, é alta como as coisas que se perdem
e demoramos nela os nossos melhores olhos
Aonde estás, Emmanuel, aonde?
Eu tive-te na boca e não te conhecia
e desejava ter aquilo que mais tinha
no próprio acto de o ter (e de o perder),
ó alegria inerente ao começo das coisas
Como desceste, ó desejado, das colinas eternas
para quebrares as pernas contra tantas portas fechadas sobre ti?
Que vieste fazer a Elsenor?
Perder-te nos passinhos insistentes miudinhos
usados nos caminhos das modernas praias
entre risos e lágrimas locais?
Ó grande distraído, que fizeste esta manhã?

Alguma coisa é a casa mais séria da vida
Não mais outras palavras que punhais
cravados como rios no flanco do mar
lá onde for mais íntimo o abraço
que gera o horizonte e sacrifica o espaço
Curae non ipsa in morte relinquimus
O homem é ainda o maior erro
e que melhor vingança que estender
a sua ausência toda sobre a terra devastada
O homem é um homem derrotado
um ser para chorar e nunca assaz chorado
um ser para cair excessivamente levantado
e Roma continua sobre as veias de Lucano

A morte é a verdade e a verdade é a morte
Ao homem não foi dado nenhum outro dia
e a vida é qualquer coisa como nunca mais chegar
É humano nascer
é humano tomar e apodrecer
oculta e lentamente
qualquer pedra última pedra
duobus duabus crianças diabos
pequeno almoço grande belt pequeno lord
o túnel Dante pace este relógio não anda
Coimbra onde é inumerável pedra
O homem Adão vindo do chão é um animal doente
ser permanentemente moribundo
coisa para esconder sob um pouco de terra
- em que lar faltará esta mulher? -
e vale a pena chorar


Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 120 a 123 | Círculo de Leitores, Dez 2000
👁️ 1 168

Prince Caspian

Quantas vezes subimos para ele se porventura é ele como a raiz da terra sequiosa?
Quantas vezes descemos nós do sóbrio tronco ou provámos a água
que de uns primeiros olhos para nós se erguia
sobre o rugir oceânico das árvores despertas
e as lágrimas na face das palavras primitivas?

As insistentes chuvas repetiram-nos os passos
do círculo dos braços escapou-se-nos a vida
nas dálias de um jardim deixámos resumida a infância
com ínfimos objectos convivemos
perdemos gestos lentos nos cabelos misturados
trocaram-nos os pais e mesmo os mais longínquos membros da família
caíram-nos ao lado as folhas e as vestes e os braços e as casas uma a uma
e os touros de Basã a cássia o aloés a mirra
e ao fim tudo Deus, ó comedores de Deus, sobre os nossos cuidados

Por um tempo por uns tempos por mais tempo
ainda as mesmas chuvas molharão o velo
e as estudadas mãos repousarão num vaso etrusco
longe do verão muito longe do quarto
e as palavras de algum modo servirão
A árvore que tomba para o sul ou para o norte
fica deitada no lugar onde caiu
imóvel como à tarde o sol de agosto
e ao fim os doze mil assinalados a traqueia os que não
dobraram o joelho para o acto descomposto do amor.

Dispões de um corpo e mesmo de um passado
conheces sombras e quadrados ávidos da noite
são tuas as crianças do quintal vizinho
experimentas anos de saudade pelos mortos
o mais pequeno sol na rua a própria ausência é também tua
podes ler o jornal (no autocarro) do senhor ao lado
ajudar a subir uma gentil senhora da obra das mães
subscreves listas prestas homenagens
procuras respeitar as mais municipais posturas
és o bónus pater famílias contemplado pelos códigos
administras até um património de brilhantes qualidades
respiras estás de pé ocupas algum espaço embora a título precário
podes talvez contar com uma privativa morte natural

Mas são tantas as riquezas que tu tens
quem ao reino dos céus conseguirá levar-te?
Inútil ir pedir conselho ao rio
Cai na cidade a ríspida sirene há fogo alguém morreu
mas sempre em todos mais que todos o morto sou eu
Há em mim um castelo a derruir
Alguma operação de coração a promover
dizer talvez à noite adeus ao vento
que há tantas gerações preenche as árvores
A passagem dos dias faz suceder em mim
Diversos tons na estátua do jardim
E o amor pelas coisas que se perdem numa tarde

E começo a cantar
como quem do poema se esqueceu
e sente viva em si a natureza que só em si viveu
A poesia é uma loucura de palavras
espectáculo de folhas o poema
Sinto vizinho a mim o mar
e respirar é como finalmente entrar aonde não o sei
Sou tudo nad sou nada mereço
além do ombro público da morte
e choro as mais antigas lágrimas do mundo,
ó memória, inimiga mortal do meu descanso.

Ó Deus imóvel só por nossa boca fala
através de palavras que como a água correm
canta coração justificado
canta mais um bocado
Dizer “eu telefono eu vou em direcção a casa” ou
“sete anos de ausência são uma criança
crescida e de trança a correr pelas ruas”
seriam outras formas de cantar

Eu quero ser, ó efémera beleza de Cremona,
ó ente do passado submetido a estes mesmos dias, teu amigo
Assim eu saiba cultivar os gestos que te tragam
de então à nossa forma de hoje aceitar ou recusar a vida,
nós os menos repelentes animais
as coisas menos tácteis ou portáteis

Mas quem é esse que me traz no andar algum amigo?
Um verdadeiro amigo repovoa uma cidade
um templo o coração o último jardim

Tal como o camponês que ao norte vai por entre o milho
e é filho das estevas e do vento
segundo a melhor mitologia,
tu, ó mais jovem de toda a nossa estirpe,
inocente das nossas mais secretas manhas,
passas na rua só tua e do sol
de um lado e doutro é o comércio das palavras
mas vais como mais uma entre as demais crianças
como elas abres sob os passos inimaginável um caminho
Só no teu rosto linha alguma falta
és da raça das árvores imóveis
sabes como dizer-lhes: ver cair o dia
(em Patmos nessa aldeia ou naquela inesquecível cidadela)
será possivelmente a única atitude ponderável
E quando à tarde
teu indisciplinado coração enfim regressa
da certeza de seres outra pessoa que não eu
e momentaneamente a vida se perfaz
após o dia que já teve o seu cuidado
tens um pátio de sombra
a primavera levemente reclinada
as vozes e as luzes e as ondas
e os ralos e as rãs e um paul
um cheiro a malva ou malmequer à tua espera
Que calma nessa alma ouvir cair a hora
que como outrora nela tem lugar
Arrastas para casa o sol atrás de ti
e entre as tuas coisas está Deus,
ó cidadão de longe e de ninguém
  

Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 109 a 112 | Círculo de Leitores, Dez 2000

👁️ 1 266

Laboratório (2)

Não foi aquela a cara a quem a morte
deu de beber do cântaro mais cheio
de sóis e anéis azuis? Tão pura sorte
noutro céu se cumpriu que não no meio-

dia do pão partido no recreio?
Ou outrem conheceu o súbito transporte
do convívio dos dias para alheio
olhar os gestos de que foi suporte?

Envólucro quebrado contra a crista
do antigo cipreste, ó fantástica festa
das coisas que se tocam pela vista

esta daquela como aquela desta
E há país aonde Deus assista
a hora entreaberta como esta?

 

Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 135 e 136 | Círculo de Leitores, Dez 2000
👁️ 957

No tumulo de sardanapalo

Umas dezenas de anos boa idade
para se reformar da vida um homem
e à terra devolver a responsável cara
com que os outros por fora o viam dia a dia
e onde a espaços reviam as próprias mas passadas alegrias
Cara levantada ou caída coitada condoída
excessivamente olhada e tão difícil de esconder
por brilhos e por sombras alternadamente percorrida
cara em que o sonho chegou talvez alguma vez a ter
a insubsistente forma de mulher
cara dos olhos finalmente firmes feitos terra
e plenamente disponíveis para olhar
quando enfim decisivamente olhar valer a pena
e os olhos estiverem em qualquer lugar

Vem uma vaga música da vida
problemátique mer des alentours
viemos tarde e a poesia é velha
Audaciosas serras entre nós projectam grandes sombras
e multiplica o mar múltiplas ondas
Orientam-se os olhos para antigos portos
e bate o coração em direcção à mais remota pátria dos agudos ventos
mas crescem-nos uns pés pesados sobre a terra,
ao nascimento e morte da redonda aurora mais sujeitos
do que todos aqueles a quem a desolada deusa se afeiçoa
Alexandre venceu Dario e depois todos os reis da terra e o mundo emudeceu
que tinha de morrer
“Como terá usado o morto as meias?”
“Viandante, come e bebe e goza a vida”
“Julgámos que era eterno mas morreu”
E nós comprámos o jornal já nem o lemos
porque grande só era a mínima notícia que da morte nos viera
Expusemos vagamente entre paredes
Faibles projects d’un coeur trop plein de ce qu’il aime
e ninguém chora agora na empresa de o lembrar
Num negócio de morte recrutados
nem nos seria lícito pousar
na palavra inventada a cabeça cansada
Há um choro para a morte e um choro para a vida
quem julga estar de pé olhe não caia
Algum país ruiu algum país
ou folha ou casa ou alegria havia

Se não amas o Deus que tu não vês
como hás-de – pois o vês – amar o homem teu irmão?
Factores verbi simus non auditores tantum
Nunca ceder à incisiva operação dos membros
não mastigar jamais o junco original
na cor azul de pássaros do céu
voltar a contemplar as coisas como novas
delimitar perfeitamente o riso oposto ao tempo
ou isolar a face unicamente imperecível
repudiar a fácil metáfora mulher
(não convém ao poeta menos solidão)
ir e voltar na mão que nos prolonga
o próprio olhar deixar desaguar no olhar alheio como um veio de água
entrar no tempo como quem é devorado
vestir todo o temor que pode haver num homem
comprometer na morte a mais erecta posição
e olhá-la de frente sem voltar a coisa alguma as costas
lá nas terras pequenas onde o homem morre mais
- eis alguns ou nenhuns dos gestos que anunciam
a presença entre nós do servo inútil
Somos de longe e temos de voltar,
Levine, antes de a noite vir
A única circuncisão é a do coração
Oh! como é inatingível a brancura da toalha
e quantas vezes nela não limpámos já algumas mãos
das muitas que tivemos na primeira comunhão
e na mera administração dos dias demorámos
Não há tempo ou lugar onde habitar  

Os que com a tormenta se perderam, quanto a esses não mais foram
nem vistos nem achados entre nós de pé
Também o verão passou por Dom Afonso Henriques
e em suas mãos os dias e os cuidados conviveram
E alguém disse: “É deste sol que sou aqui é que nasci
eu sou da terra e falo-vos da terra
quando a noite vier sabereis que morri”
É à chuva e ao sol que se tomam é fácil achar quem
renegue Deus ainda nas segundas gerações
A nova primavera traz-nos no regaço a ave mas
Verborum vetus interit aetas
e a  palavra, essa, não voltará mais
Não nos morreu ninguém e ficamos mais sós
e a gora é impossível regressar
Todos os males contigo nos vieram, poesia,
Afasta-te de nós até melhores dias
E deixa ver o que por trás da poesia está
Ó manhãs de domingo estradas para a vida aragem nos cabelos
garagem que se abre alguém na rua
A vida estava toda nesse olhar
capaz de orientar os hesitantes passos dos melhores do nosso povo
agora que o perdeste aonde irás?
ó clandestino seguidor de Deus?
Por amor deste século cantar
Não há mais folha ou casa ou alegria onde habitar
 

Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 113 a 115 | Círculo de Leitores, Dez 2000
👁️ 1 254

Tempora nubila

Chove há muito no mundo sobre o homem
Empurram-no as ondas como horas para a praia da manhã
lá onde a ponta mais ocidental dos dedos já percorre
as mais agrestes árvores do sonho
O homem nada sabe sem queimar os pés no fogo
As luzes brilham cedo certos anos o Natal não vem
e é opinião comum de todos os doutores
que a culpa pode ser secreta e primitiva
pois a ninguém cabe servir a dois
muito menos a mais e mesmo muito mais que dois senhores
Morremos todos da maneira mais mortal possível
mas todas as crianças se conhecem e reconhecem
na praia que talvez – quem sabe? – alguma outra praia encubra
Essa é na verdade a mais pequena de todas as sementes

Talvez eu espere simplesmente um amigo que de longe venha,
ó tecelão de outonos nos cabelos

Em teus intensos braços onde em certos dias
o puro cheiro do lilás ascende
e os toldados lírios outra vez almejam
e abrem no bosque sempre outras estradas
e rompem as raízes das mais brancas flores,
nesses teus braços desmedidamente abertos
na mesa onde se cruza a vária luz das horas
e sõ tão económicas as nossas ambições
que não vão muito além das mil evoluções das moscas,
nesses braços os únicos capazes
de nos fazer sair da nossa pobre situação
deponho finalmente o que o que dos dias me viera
Ó homem verdadeiramente unânime, ó incapaz de astúcia,
perdoa eu não ser mais do que um homem
e cruzo o guarda-chuva atrás das costas
Pela variedade de todas estas faces obrigado
Por ti há tantos séculos morremos
és para perseguir sem encontrar
para exaltar onde caíste mais
Às flores imóveis vou no vento irrequieto
e regresso a um rosto onde nunca estou
mas passou entretanto tanto tempo
que quando à minha mesa volto não sou já quem dela se ausentou
Deixa-me cultivar o dia apenas o meu dia
doméstico modesto ameaçado ajardinado
e só depois então depois morrer
com toda a atenção que o gosto principal requer
Havia árvores talvez ciprestes nos teus sonhos
prometeste-me o rio solidão submersa
a quem – se me não queres – irei?
Eu peço o teu passado para a minha história
e ergo contra ti todo o meu rosto
o verde é meu mas é teu o vermelho
e escondes-te no côncavo da pedra
Mas o mais doloroso é ser eu eu próprio
e tudo me ocorrer precisamente a mim
A ninguém nesta vida propriamente chamei pai
todo eu fui calcado como o feno
e esqueci-me mesmo de comer o pão
Decerto é impossível o antigo adro e mesmo o mais recente cedro
e a alma é como as águas vastamente entregues a si próprias
que inocentes se agitam que crescem e que matam
e alheias a si mesmas tudo cobrem
e multiplicam lisas mãos na já serena superfície
Ainda distingo vagamente os anos mas
a onda molha já os meus primeiros pés
Chegou o tempo de chorar Sião
non amplius memoretur nomen eius
São imensos os olhos que no mundo cansam
o vento restitui-me  a ida para a escola
há uma grande morte só a Deus devida
E o sol o grande ausente dos meus dedos

Por vezes é inverno ou canta em nós
a esteira de perfume o cargo oficial a madrugada
aberta para o mundo. Noutro oásis (ou montanha)
levanta já a tenda o viandante
(não seriam de mais mesmo três tendas)

E o assunto é de morte é de morte que eu falo
Extremamente discretos são os mortos
que já nenhuma chuva ousa molhar
Que fácil para eles é ter vivido
Por exemplo morreu
mais um vizinho meu
casado e até feliz
um novo nome inútil na lista telefónica
E nada mais já pode acontecer
àquele a quem a morte veio
os vários e domésticos problemas resolver
Ele tinha
o caminho contado
como as crianças
Vestia camisola pisou terra mas morreu
sem conseguir nadar correctamente o crawl
sem tempo de dizer sequer a frase célebre
tão insignificante o viram ingressar na morte
Ah, eu não sei
a posição agora desse homem
que morreu mais aqui que noutro lado
sei apenas que nos olhos com que via nunca houve
imagem que os enchesse e os bebesse tanto como agora
Morreu e habita hoje entre o seu povo
Mas aonde se nunca mais é visto
contra este mesmo persistente céu que nos esmaga a fronte?
Ele morreu começo a acreditar na morte nessa morte
que tão perto de mim e tão mortal se deu

Também tu hás-de ser a secretária abandonada
mãos inertes tarefa interrompida
Então virão lá das origens visitar-te serão três serão três mil
Tu tens porém ainda de comprar a grande jóia
precisas ter na mão um pau (de giz)
precisas de servir as plantas pagar alguma quota
e seres – como passou? – muito feliz
É preciso consolar a actriz
é preciso morrer
oxalá não te vás esquecer
de tudo isto que tens que fazer
Licenciado conceituado benemérito
excelência reverência senhoria
pai de filhos ou marido e mulher
entre esta terra estes homens estas árvores
já despes vestes que envergaste um dia
 

Ruy Belo, “Todos os poemas”, págs. 115 a 118 | Círculo de Leitores, Dez 2000
👁️ 1 237

Laboratório (1)

Não era aquela casa a quem a morte
deu de beber do cântaro mais cheio
de sóis e anéis azuis? Quem de tal sorte
quebrou tão puramente pelo meio-

-dia das correrias no recreio?
Ou de lua que lívida a transporte
alguma vez algum olhar nos veio
que tamanha criança assim suporte?

Envólucro quebrado contra a aresta
do antigo cipreste, ó fantástica festa
de quem consigo mesmo pela frente

se encontra e reencontra finalmente
E hora entreaberta como esta
em que país do sul Deus nos consente?

  

Ruy Belo, “Todos os poemas”, pág. 135 | Círculo de Leitores, Dez 2000
👁️ 486

Guide Bleu

Haverá vento ainda haverá vento?
O ramo do salgueiro à noite sobre o Sena
acena-me que sim
E neste extremo de ilha à dor posterior
por momentos esqueço-me de mim
A noite existe e a vida vale este momento
Verdes colinas de África jardins ó vida que se quer
mistério de mulher como a possível estrada
aberta à dor intransmissível de não dar
a confusa cabeça à prometida madrugada
Nascer morrer por dentro o que se for por fora
A hora é decisiva como um sacramento
Cão de verdade à ponta do nariz
eu cumpro o meu dever de conhecer Paris
e cada verso meu imola uma pessoa
👁️ 1 213

Comentários (3)

Iniciar sessão ToPostComment
Lourenço Mutarelli
Lourenço Mutarelli
2022-01-19

Muito obrigado. Muito obrigado

Cigana
Cigana
2020-11-09

Amei darling

adad
adad
2019-05-24

tambem