Morte
Poemas neste tema
Fernando Pessoa
Quando, com razão ou sem,
Quando, com razão ou sem,
Sobre o medo amplo da alma
A sombra da morte vem,
É que o espírito vê bem,
Com clareza mas sem calma,
Que sombra é a vida que passa,
Que mágoa é a vida que cessa,
E ama a vida mais.
10/02/1933
Sobre o medo amplo da alma
A sombra da morte vem,
É que o espírito vê bem,
Com clareza mas sem calma,
Que sombra é a vida que passa,
Que mágoa é a vida que cessa,
E ama a vida mais.
10/02/1933
3 940
Fernando Pessoa
Na noite em que não durmo
Na noite em que não durmo
Não dorme
O relógio também.
Pus na alma esvurmo.
É enorme
O que a treva contém.
Podridão da alma, moribundo
Do que me julguei ser,
Ouço o mundo.
É um vento surdo e fundo,
Que do abismo profundo
Vela o meu morrer.
Indiferente assisto
Ao cadaverizar
Do que sou.
Em que alma ou corpo existo?
Vou dormir ou despertar?
Onde estou se não estou?
Nada. É na treva onde fala
O relógio fatal,
Uma grande, anónima sala,
Uma grande treva onde se cala,
Um grande bem que sabe a mal,
Uma vida que se desiguala,
Uma morte que não sabe a que é igual.
13/03/1933
Não dorme
O relógio também.
Pus na alma esvurmo.
É enorme
O que a treva contém.
Podridão da alma, moribundo
Do que me julguei ser,
Ouço o mundo.
É um vento surdo e fundo,
Que do abismo profundo
Vela o meu morrer.
Indiferente assisto
Ao cadaverizar
Do que sou.
Em que alma ou corpo existo?
Vou dormir ou despertar?
Onde estou se não estou?
Nada. É na treva onde fala
O relógio fatal,
Uma grande, anónima sala,
Uma grande treva onde se cala,
Um grande bem que sabe a mal,
Uma vida que se desiguala,
Uma morte que não sabe a que é igual.
13/03/1933
4 225
Fernando Pessoa
Falhei. Os astros seguem seu caminho.
Falhei. Os astros seguem seu caminho.
Minha alma, outrora um universo meu,
É hoje, sei, um lúgubre escaninho
De consciência sob a morte e o céu.
Falhei. Quem sou vivi só de supô-lo.
O que tive por meu ou por haver
Fica sempre entre um pólo e o outro pólo
Do que me nunca há-de pertencer.
Falhei. Enfim! Consegui ser quem sou,
O que é já nada, com a lenha velha
Onde, pois valho só quanto me dou,
Pegarei facilmente uma centelha.
01/02/1933
Minha alma, outrora um universo meu,
É hoje, sei, um lúgubre escaninho
De consciência sob a morte e o céu.
Falhei. Quem sou vivi só de supô-lo.
O que tive por meu ou por haver
Fica sempre entre um pólo e o outro pólo
Do que me nunca há-de pertencer.
Falhei. Enfim! Consegui ser quem sou,
O que é já nada, com a lenha velha
Onde, pois valho só quanto me dou,
Pegarei facilmente uma centelha.
01/02/1933
4 122
Fernando Pessoa
Vão breves passando
Vão breves passando
Os dias que tenho.
Depois de passarem
Já não os apanho.
De aqui a tão pouco
Ainda acabou.
Vou ser um cadáver
Por quem se rezou.
E entre hoje e esse dia
Farei o que fiz:
Ser qual quero eu ser,
Feliz ou infeliz.
28/03/1931
Os dias que tenho.
Depois de passarem
Já não os apanho.
De aqui a tão pouco
Ainda acabou.
Vou ser um cadáver
Por quem se rezou.
E entre hoje e esse dia
Farei o que fiz:
Ser qual quero eu ser,
Feliz ou infeliz.
28/03/1931
4 052
Fernando Pessoa
Desperto sempre antes que raie o dia
Desperto sempre antes que raie o dia
E escrevo com o sono que perdi.
Depois, neste torpor em que a alma é fria,
Aguardo a aurora, que já tantas vi.
Fito-a sem atenção, cinzento verde
Que se azula de galos a cantar.
Que mau é não dormir? A gente perde
O que a morte nos dá pra começar.
Oh, Primavera quietada, aurora,
Ensina ao meu torpor, em que a alma é fria,
O que é que na alma lívida a colora
Com o que vai acontecer no dia.
14/11/1931
E escrevo com o sono que perdi.
Depois, neste torpor em que a alma é fria,
Aguardo a aurora, que já tantas vi.
Fito-a sem atenção, cinzento verde
Que se azula de galos a cantar.
Que mau é não dormir? A gente perde
O que a morte nos dá pra começar.
Oh, Primavera quietada, aurora,
Ensina ao meu torpor, em que a alma é fria,
O que é que na alma lívida a colora
Com o que vai acontecer no dia.
14/11/1931
4 437
Fernando Pessoa
O ruído vário da rua
O ruído vário da rua
Passa alto por mim que sigo.
Vejo: cada coisa é sua.
Oiço: cada som é consigo.
Sou como a praia a que invade
um mar que torna a descer.
Ah, nisto tudo a verdade
É só eu ter que morrer.
Depois de eu cessar, o ruído.
Não, não ajusto nada
Ao meu conceito perdido
Como uma flor na estrada.
21/02/1931
Passa alto por mim que sigo.
Vejo: cada coisa é sua.
Oiço: cada som é consigo.
Sou como a praia a que invade
um mar que torna a descer.
Ah, nisto tudo a verdade
É só eu ter que morrer.
Depois de eu cessar, o ruído.
Não, não ajusto nada
Ao meu conceito perdido
Como uma flor na estrada.
21/02/1931
4 630
Fernando Pessoa
Ó ervas frescas que cobris
Ó ervas frescas que cobris
As sepulturas,
Vosso verde tem cores vis
A meus olhos, já servis
De conjecturas.
Sabemos bem de quem viveis
Ervas do chão,
Que sossego é esse que fazeis
Verde na forma que trazeis
Sem compaixão.
Ó verdes ervas, como o azul medo
Do céu sem Ser,
Cunhado como entre segredo
Da vida viva, e outro degredo
Do infindo haver.
Tenho um terror com todo eu
Do verde chão...
Ó Sol, não baixes já no céu,
Quero um momento ainda meu
Como um perdão.
14/06/1930
As sepulturas,
Vosso verde tem cores vis
A meus olhos, já servis
De conjecturas.
Sabemos bem de quem viveis
Ervas do chão,
Que sossego é esse que fazeis
Verde na forma que trazeis
Sem compaixão.
Ó verdes ervas, como o azul medo
Do céu sem Ser,
Cunhado como entre segredo
Da vida viva, e outro degredo
Do infindo haver.
Tenho um terror com todo eu
Do verde chão...
Ó Sol, não baixes já no céu,
Quero um momento ainda meu
Como um perdão.
14/06/1930
4 293
Fernando Pessoa
INICIAÇÃO
Não dormes sob os ciprestes
Pois não há sono no mundo.
..........................
O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo.
Vem a noite, que é a morte,
E a sombra acabou sem ser,
Vais na noite só recorte,
Igual a ti sem querer.
Mas na Estalagem do Assombro
Tiram-te os Anjos a capa.
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.
Então Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu.
Não tens vestes, não tens nada:
Tens só teu corpo, que és tu.
Por fim, na funda caverna,
Os Deuses despem-te mais.
Teu corpo cessa, alma externa,
Mas vês que são teus iguais.
.........................
A sombra das tuas vestes
Ficou entre nós na Sorte.
Não estás morto, entre ciprestes.
.........................
Neófito, não há morte.
(Presença, nº 35, Maio de 1932)
Pois não há sono no mundo.
..........................
O corpo é a sombra das vestes
Que encobrem teu ser profundo.
Vem a noite, que é a morte,
E a sombra acabou sem ser,
Vais na noite só recorte,
Igual a ti sem querer.
Mas na Estalagem do Assombro
Tiram-te os Anjos a capa.
Segues sem capa no ombro,
Com o pouco que te tapa.
Então Arcanjos da Estrada
Despem-te e deixam-te nu.
Não tens vestes, não tens nada:
Tens só teu corpo, que és tu.
Por fim, na funda caverna,
Os Deuses despem-te mais.
Teu corpo cessa, alma externa,
Mas vês que são teus iguais.
.........................
A sombra das tuas vestes
Ficou entre nós na Sorte.
Não estás morto, entre ciprestes.
.........................
Neófito, não há morte.
(Presença, nº 35, Maio de 1932)
4 537
Fernando Pessoa
À NOITE
À NOITE
O silêncio é teu gémeo no Infinito.
Quem te conhece, sabe não buscar.
Morte visível, vens dessedentar
O vago mundo, o mundo estreito e aflito.
Se os teus abismos constelados fito,
Não sei quem sou ou qual o fim a dar
A tanta dor, a tanta ânsia par
Do sonho, e a tanto incerto em que medito.
Que vislumbre escondido de melhores
Dias ou horas no teu campo cabe?
Véu nupcial do fim de fins e dores.
Nem sei a angústia que vens consolar-me.
Deixa que eu durma, deixa que eu acabe
E que a luz nunca venha despertar-me!
14/09/1919
O silêncio é teu gémeo no Infinito.
Quem te conhece, sabe não buscar.
Morte visível, vens dessedentar
O vago mundo, o mundo estreito e aflito.
Se os teus abismos constelados fito,
Não sei quem sou ou qual o fim a dar
A tanta dor, a tanta ânsia par
Do sonho, e a tanto incerto em que medito.
Que vislumbre escondido de melhores
Dias ou horas no teu campo cabe?
Véu nupcial do fim de fins e dores.
Nem sei a angústia que vens consolar-me.
Deixa que eu durma, deixa que eu acabe
E que a luz nunca venha despertar-me!
14/09/1919
6 826
Fernando Pessoa
Porque vivo, quem sou, o que sou, quem me leva?
Porque vivo, quem sou, o que sou, quem me leva?
Que serei para a morte? Para a vida o que sou?
A morte no mundo é a treva na terra.
Nada posso. Choro, gemo, cerro os olhos e vou.
Cerca-me o mistério, a ilusão e a descrença
Da possibilidade de ser tudo real.
Ó meu pavor de ser, nada há que te vença!
A vida como a morte é o mesmo Mal!
1919
Que serei para a morte? Para a vida o que sou?
A morte no mundo é a treva na terra.
Nada posso. Choro, gemo, cerro os olhos e vou.
Cerca-me o mistério, a ilusão e a descrença
Da possibilidade de ser tudo real.
Ó meu pavor de ser, nada há que te vença!
A vida como a morte é o mesmo Mal!
1919
4 164
Fernando Pessoa
Ó curva do horizonte, quem te passa,
Ó curva do horizonte, quem te passa,
Passa da vista, vão de ser ou estar.
Seta, que o peito enorme me transpassa.
Não doas, que morrer é continuar.
Não vejo mais esse a quem quis. A taça,
De ouro, não se partiu. Caída ao mar
Sumiu-se, mas no fundo é a mesma graça
Oculta para nós, mas sem mudar.
Ó curva do horizonte, eu me aproximo,
Para quem deixo, um dia cessarei
Da vista do último no último cimo,
Mas para mim o mesmo eterno irei
Na curva, até que o tempo a espera
E aonde estive um dia voltarei.
13/08/1921
Passa da vista, vão de ser ou estar.
Seta, que o peito enorme me transpassa.
Não doas, que morrer é continuar.
Não vejo mais esse a quem quis. A taça,
De ouro, não se partiu. Caída ao mar
Sumiu-se, mas no fundo é a mesma graça
Oculta para nós, mas sem mudar.
Ó curva do horizonte, eu me aproximo,
Para quem deixo, um dia cessarei
Da vista do último no último cimo,
Mas para mim o mesmo eterno irei
Na curva, até que o tempo a espera
E aonde estive um dia voltarei.
13/08/1921
4 121
Fernando Pessoa
A mão invisível do vento
A mão invisível do vento roça por cima das ervas.
Quando se solta, saltam nos intervalos do verde
Papoilas rubras, amarelos malmequeres juntos,
E outras pequenas flores azuis que se não vêem logo.
Não tenho quem ame, ou vida que queira, ou morte que roube
Por mim, como pelas ervas um vento que só as dobra
Para as deixar voltar àquilo que foram, passa.
Também por mim um desejo inutilmente bafeja
As hastes das intenções, as flores do que imagino,
E tudo volta ao que era sem nada que acontecesse.
30/01/1921
Quando se solta, saltam nos intervalos do verde
Papoilas rubras, amarelos malmequeres juntos,
E outras pequenas flores azuis que se não vêem logo.
Não tenho quem ame, ou vida que queira, ou morte que roube
Por mim, como pelas ervas um vento que só as dobra
Para as deixar voltar àquilo que foram, passa.
Também por mim um desejo inutilmente bafeja
As hastes das intenções, as flores do que imagino,
E tudo volta ao que era sem nada que acontecesse.
30/01/1921
4 240
Fernando Pessoa
No alto da tua sombra, a prumo sobre
No alto da tua sombra, a prumo sobre
A inconstância irreal de vida e dias,
Achei-me só e vi que as agonias
Da vida, o tédio as finda e a morte as cobre.
Ali, no alto de ser, sentir é nobre,
Despido de ilusões e de ironias.
Não sinto as mãos unidas, que estão frias,
Não sei de mim, o que fui era pobre.
Mas mesmo nessa altura de mistério
E abismo de ascensão, não encontrei
Paragem, conclusão ou refrigério.
Deixei atrás o acaso de viver,
O ser sempre outrem, a escondida lei,
Caos de existirmos, névoa de o saber.
14/09/1919
A inconstância irreal de vida e dias,
Achei-me só e vi que as agonias
Da vida, o tédio as finda e a morte as cobre.
Ali, no alto de ser, sentir é nobre,
Despido de ilusões e de ironias.
Não sinto as mãos unidas, que estão frias,
Não sei de mim, o que fui era pobre.
Mas mesmo nessa altura de mistério
E abismo de ascensão, não encontrei
Paragem, conclusão ou refrigério.
Deixei atrás o acaso de viver,
O ser sempre outrem, a escondida lei,
Caos de existirmos, névoa de o saber.
14/09/1919
4 102
Fernando Pessoa
Hoje, neste ócio incerto
Hoje, neste ócio incerto
Sem prazer nem razão,
Como a um túmulo aberto
Fecho meu coração.
Na inútil consciência
De ser inútil tudo,
Fecho-o, contra a violência
Do mundo duro e rudo.
Mas que mal sofre um morto?
Contra que defendê-lo?
Fecho-o, em fechá-lo absorto,
E sem querer sabê-lo.
09/02/1923
Sem prazer nem razão,
Como a um túmulo aberto
Fecho meu coração.
Na inútil consciência
De ser inútil tudo,
Fecho-o, contra a violência
Do mundo duro e rudo.
Mas que mal sofre um morto?
Contra que defendê-lo?
Fecho-o, em fechá-lo absorto,
E sem querer sabê-lo.
09/02/1923
3 734
Fernando Pessoa
SACADURA CABRAL
SACADURA CABRAL
No frio mar do alheio Norte,
Morto quedou,
Servo da Sorte infiel que a Sorte
Deu e tirou.
Brilha alto a chama que se apaga.
A noite o encheu.
De estranho mar que estranha plaga,
Nosso, o acolheu?
Floriu, murchou na extrema haste;
Jóia do ousar,
Que teve por eterno engaste
O céu e o mar.
(Athena, vol. I, nº 3, Dezembro de 1924)
No frio mar do alheio Norte,
Morto quedou,
Servo da Sorte infiel que a Sorte
Deu e tirou.
Brilha alto a chama que se apaga.
A noite o encheu.
De estranho mar que estranha plaga,
Nosso, o acolheu?
Floriu, murchou na extrema haste;
Jóia do ousar,
Que teve por eterno engaste
O céu e o mar.
(Athena, vol. I, nº 3, Dezembro de 1924)
4 168
Fernando Pessoa
Uns, com os olhos postos no passado,
Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem; outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.
Porque tão longe ir pôr o que está perto –
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.
Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.
28/08/1933
Vêem o que não vêem; outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.
Porque tão longe ir pôr o que está perto –
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.
Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.
28/08/1933
2 661
Fernando Pessoa
O sono é bom pois despertamos dele
O sono é bom pois despertamos dele
Para saber que é bom. Se a morte é sono
Despertaremos dela;
Se não, e não é sono,
Conquanto em nós é nosso a refusemos
Enquanto em nossos corpos condenados
Dura, do carcereiro,
A licença indecisa.
Lídia, a vida mais vil antes que a morte,
Que desconheço, quero; e as Dores colho
Que te entrego, votivas
De um pequeno destino.
19/11/1927
Para saber que é bom. Se a morte é sono
Despertaremos dela;
Se não, e não é sono,
Conquanto em nós é nosso a refusemos
Enquanto em nossos corpos condenados
Dura, do carcereiro,
A licença indecisa.
Lídia, a vida mais vil antes que a morte,
Que desconheço, quero; e as Dores colho
Que te entrego, votivas
De um pequeno destino.
19/11/1927
2 723
Fernando Pessoa
À MEMÓRIA DO PRESIDENTE-REI SIDÓNIO PAIS
À MEMÓRIA DO PRESIDENTE-REI SIDÓNIO PAIS
Longe da fama e das espadas
Alheio às turbas ele dorme.
Em torno há claustros ou arcadas?
Só a noite enorme.
Porque para ele, já virado
Para o lado onde está só Deus,
São mais que Sombra e que Passado
A terra e os céus.
Ali o gesto, a astúcia, a lida,
São para ele, sem as ver,
Vácuo de acção sombra perdida,
Sopro sem ser.
Só com sua alma e com a treva,
A alma gentil que nos amou
Inda esse amor e ardor conserva?
Tudo acabou?
No mistério onde a Morte some
Aquilo a que a alma chama a vida.
Que resta dele a nós – só o nome
E a fé perdida?
Se Deus o havia de levar,
Para que foi que no-lo trouxe –
Cavaleiro leal, do olhar
Altivo e doce?
Soldado-rei que oculta sorte
Como em braços da Pátria ergueu,
E passou como o vento norte
Sob o ermo céu.
Mas a alma acesa não aceita
Essa morte absoluta, o nada
De quem foi Pátria, e fé eleita,
E ungida espada.
Se o amor crê que a Morte mente
Quando a quem quer leva de novo
Quão mais crê o Rei ainda existente
O amor de um povo!
Quem ele foi sabe-o a Sorte.
Sabe-o o Mistério e a sua lei.
A Vida fê-lo herói, e a Morte
O sagrou Rei!
Não é com fé que nós não cremos
Que ele não morra inteiramente.
Ah, sobrevive! Inda o teremos
Em nossa frente.
No oculto para o nosso olhar,
No visível à nossa alma,
Inda sorri com o antigo ar
De força calma.
Ainda de longe nos anima,
Indo na alma nos conduz –
Gládio de fé erguido acima
Da nossa cruz!
Nada sabemos do que oculta
O véu igual de noite e dia.
Mesmo ante a Morte a Fé exulta:
Chora e confia.
Apraz no que em nós quer que seja
Qual Deus quis nosso querer tosco.
Crer que ele vela, benfazeja
Sombra connosco.
Não sai da nossa alma a fé
De que, alhures que o mundo e o fado,
Ele inda pensa em nós e é
O bem-amado.
Tenhamos fé, porque ele foi.
Deus não quer mal a quem o deu.
Não passa como o vento o herói
Sob o ermo céu.
E amanhã, quando queira a Sorte,
Quando findar a expiação,
Ressurrecto da falsa morte,
Ele já não.
Mas a ânsia nossa que encarnara,
A alma de nós de que foi braço,
Tornará, nova forma clara,
Ao tempo e ao espaço.
Tornará feito qualquer outro,
Qualquer coisa de nós com ele;
Porque o nome do herói morto
Inda compele;
Inda comanda, e a armada ida
Para os campos da Redenção,
Às vezes leva à frente, erguida
Spada, a Ilusão.
E um raio só do ardente amor,
Que emana só do nome seu,
Dê sangue a um braço vingador,
Se esmoreceu.
Com mais armas que com Verdade
Combate a alma por quem amo.
É lenha só a Realidade:
A fé é a chama.
Mas ai, que a fé já não tem forma
Na matéria e na cor da Vida.
E, pensada, em dor se transforma
A fé perdida!
Pra que deu Deus a confiança
A quem não ia dar o bem?
Morgado da nossa esperança,
A Morte o tem!
Mas basta o nome e basta a glória
Para ele estar connosco, e ser
Carnal presença de memória
A amanhecer;
Spectro real feito de nós,
Da nossa saudade e ânsia,
Que fala com oculta voz
Na alma, a distância;
E a nossa própria dor se torna
Uma vaga ânsia, um sperar vago,
Como a erma brisa que transtorna
Um ermo lago.
Não mente a alma ao coração.
Se Deus o deu, Deus nos amou.
Porque ele pôde ser, Deus não
Nos desprezou.
Rei-nato, a sua realeza,
Por não podê-la herdar dos seus
Avós, com mística inteireza
A herdou de Deus;
E, por directa consonância
Com a divina intervenção,
Uma hora ergueu-nos alta a ânsia
De salvação.
Toldou-o a Sorte que o trouxera
Outra vez com nocturno véu.
Deus pra que no-lo deu, se era
Pra o tornar seu?
Ah, tenhamos mais fé que a esp'rança!
Mais vivo que nós somos, fita
Do Abismo onde não há mudança
A terra aflita.
E se assim é, se, desde o Assombro
Aonde a Morte as vidas leva,
Vê esta pátria, escombro a escombro,
Cair na treva;
Se algum poder do que tivera
Sua alma, que não vemos, tem,
De longe ou perto – por que espera?
Por que não vem?
Em nova forma ou novo alento,
Que alheio pulso ou alma tome,
Regresse como um pensamento,
Alma de um nome!
Regresse sem que a gente o veja,
Regresse só que a gente o sinta –
Impulso, luz, visão que reja
E a alma pressinta!
E qualquer gládio adormecido,
Servo do oculto impulso, acorde,
E um novo herói se sinta erguido
Porque o recorde!
Governa o servo e o jogral.
O que íamos a ser morreu.
Não teve aurora a matinal
Strela do céu.
Vivemos só de recordar.
Na nossa alma entristecida
Há um som de reza a invocar
A morta vida;
E um místico vislumbre chama
O que, no plaino trespassado,
Vive ainda em nós, longínqua chama –
O DESEJADO.
Sim, só há a esp'rança, como aquela
– E quem sabe se a mesma? – quando
Se foi de Avis a última estrela
No campo infando.
Novo Alcácer Quibir na noite!
Novo castigo e mal do Fado!
Por que pecado novo o açoite
Assim é dado?
Só resta a fé, que a sua memória
Nos nossos corações gravou,
Que Deus não dá paga ilusória
A quem amou.
Flor alta do paul da grei,
Antemanhã da Redenção,
Nele uma hora encarnou El-Rei
Dom Sebastião.
O sopro de ânsia que nos leva
A querer ser o que já fomos,
E em nós vem como em uma treva,
Em vãos assomos,
Bater à porta ao nosso gesto,
Fazer apelo no nosso braço,
Lembrar ao sangue nosso o doesto
E o vil cansaço,
Nele um momento clareou,
A noite antiga se seguiu,
Mas que segredo é que ficou
No escuro frio?
Que memória, que luz passada
Projecta, sombra, no futuro,
Dá no alma? Que longínqua espada
Brilha no escuro?
Que nova luz virá raiar
Da noite em que jazemos vis?
Ó sombra amada, vem tornar
A ânsia feliz.
Quem quer que sejas, lá no abismo
Onde a morte a vida conduz,
Sê para nós um misticismo
A vaga luz
Com que a noite erma inda vazia
No frio alvor da antemanhã
Sente, da esp'rança que há no dia,
Que não é vã.
E amanhã, quando houver a Hora,
Sendo Deus pago, Deus dirá
Nova palavra redentora
Ao mal que há.
E um novo verbo ocidental
Encarnado em heroísmo e glória,
Traga por seu broquel real
Tua memória!
Precursor do que não sabemos,
Passado de um futuro a abrir
No assombro de portais extremos
Por descobrir,
Sê estrada, gládio, fé, fanal,
Pendão de glória em glória erguido!
Tornas possível Portugal
Por teres sido!
Não era extinta a antiga chama
Se tu e o amor puderam ser.
Entre clarins te a glória aclama,
Morto a vencer!
E, porque foste, confiando
EM QUEM SERÁ porque tu foste,
Ergamos a alma, e com o infando
Sorrindo arroste,
Até que Deus o laço solte
Que<
Longe da fama e das espadas
Alheio às turbas ele dorme.
Em torno há claustros ou arcadas?
Só a noite enorme.
Porque para ele, já virado
Para o lado onde está só Deus,
São mais que Sombra e que Passado
A terra e os céus.
Ali o gesto, a astúcia, a lida,
São para ele, sem as ver,
Vácuo de acção sombra perdida,
Sopro sem ser.
Só com sua alma e com a treva,
A alma gentil que nos amou
Inda esse amor e ardor conserva?
Tudo acabou?
No mistério onde a Morte some
Aquilo a que a alma chama a vida.
Que resta dele a nós – só o nome
E a fé perdida?
Se Deus o havia de levar,
Para que foi que no-lo trouxe –
Cavaleiro leal, do olhar
Altivo e doce?
Soldado-rei que oculta sorte
Como em braços da Pátria ergueu,
E passou como o vento norte
Sob o ermo céu.
Mas a alma acesa não aceita
Essa morte absoluta, o nada
De quem foi Pátria, e fé eleita,
E ungida espada.
Se o amor crê que a Morte mente
Quando a quem quer leva de novo
Quão mais crê o Rei ainda existente
O amor de um povo!
Quem ele foi sabe-o a Sorte.
Sabe-o o Mistério e a sua lei.
A Vida fê-lo herói, e a Morte
O sagrou Rei!
Não é com fé que nós não cremos
Que ele não morra inteiramente.
Ah, sobrevive! Inda o teremos
Em nossa frente.
No oculto para o nosso olhar,
No visível à nossa alma,
Inda sorri com o antigo ar
De força calma.
Ainda de longe nos anima,
Indo na alma nos conduz –
Gládio de fé erguido acima
Da nossa cruz!
Nada sabemos do que oculta
O véu igual de noite e dia.
Mesmo ante a Morte a Fé exulta:
Chora e confia.
Apraz no que em nós quer que seja
Qual Deus quis nosso querer tosco.
Crer que ele vela, benfazeja
Sombra connosco.
Não sai da nossa alma a fé
De que, alhures que o mundo e o fado,
Ele inda pensa em nós e é
O bem-amado.
Tenhamos fé, porque ele foi.
Deus não quer mal a quem o deu.
Não passa como o vento o herói
Sob o ermo céu.
E amanhã, quando queira a Sorte,
Quando findar a expiação,
Ressurrecto da falsa morte,
Ele já não.
Mas a ânsia nossa que encarnara,
A alma de nós de que foi braço,
Tornará, nova forma clara,
Ao tempo e ao espaço.
Tornará feito qualquer outro,
Qualquer coisa de nós com ele;
Porque o nome do herói morto
Inda compele;
Inda comanda, e a armada ida
Para os campos da Redenção,
Às vezes leva à frente, erguida
Spada, a Ilusão.
E um raio só do ardente amor,
Que emana só do nome seu,
Dê sangue a um braço vingador,
Se esmoreceu.
Com mais armas que com Verdade
Combate a alma por quem amo.
É lenha só a Realidade:
A fé é a chama.
Mas ai, que a fé já não tem forma
Na matéria e na cor da Vida.
E, pensada, em dor se transforma
A fé perdida!
Pra que deu Deus a confiança
A quem não ia dar o bem?
Morgado da nossa esperança,
A Morte o tem!
Mas basta o nome e basta a glória
Para ele estar connosco, e ser
Carnal presença de memória
A amanhecer;
Spectro real feito de nós,
Da nossa saudade e ânsia,
Que fala com oculta voz
Na alma, a distância;
E a nossa própria dor se torna
Uma vaga ânsia, um sperar vago,
Como a erma brisa que transtorna
Um ermo lago.
Não mente a alma ao coração.
Se Deus o deu, Deus nos amou.
Porque ele pôde ser, Deus não
Nos desprezou.
Rei-nato, a sua realeza,
Por não podê-la herdar dos seus
Avós, com mística inteireza
A herdou de Deus;
E, por directa consonância
Com a divina intervenção,
Uma hora ergueu-nos alta a ânsia
De salvação.
Toldou-o a Sorte que o trouxera
Outra vez com nocturno véu.
Deus pra que no-lo deu, se era
Pra o tornar seu?
Ah, tenhamos mais fé que a esp'rança!
Mais vivo que nós somos, fita
Do Abismo onde não há mudança
A terra aflita.
E se assim é, se, desde o Assombro
Aonde a Morte as vidas leva,
Vê esta pátria, escombro a escombro,
Cair na treva;
Se algum poder do que tivera
Sua alma, que não vemos, tem,
De longe ou perto – por que espera?
Por que não vem?
Em nova forma ou novo alento,
Que alheio pulso ou alma tome,
Regresse como um pensamento,
Alma de um nome!
Regresse sem que a gente o veja,
Regresse só que a gente o sinta –
Impulso, luz, visão que reja
E a alma pressinta!
E qualquer gládio adormecido,
Servo do oculto impulso, acorde,
E um novo herói se sinta erguido
Porque o recorde!
Governa o servo e o jogral.
O que íamos a ser morreu.
Não teve aurora a matinal
Strela do céu.
Vivemos só de recordar.
Na nossa alma entristecida
Há um som de reza a invocar
A morta vida;
E um místico vislumbre chama
O que, no plaino trespassado,
Vive ainda em nós, longínqua chama –
O DESEJADO.
Sim, só há a esp'rança, como aquela
– E quem sabe se a mesma? – quando
Se foi de Avis a última estrela
No campo infando.
Novo Alcácer Quibir na noite!
Novo castigo e mal do Fado!
Por que pecado novo o açoite
Assim é dado?
Só resta a fé, que a sua memória
Nos nossos corações gravou,
Que Deus não dá paga ilusória
A quem amou.
Flor alta do paul da grei,
Antemanhã da Redenção,
Nele uma hora encarnou El-Rei
Dom Sebastião.
O sopro de ânsia que nos leva
A querer ser o que já fomos,
E em nós vem como em uma treva,
Em vãos assomos,
Bater à porta ao nosso gesto,
Fazer apelo no nosso braço,
Lembrar ao sangue nosso o doesto
E o vil cansaço,
Nele um momento clareou,
A noite antiga se seguiu,
Mas que segredo é que ficou
No escuro frio?
Que memória, que luz passada
Projecta, sombra, no futuro,
Dá no alma? Que longínqua espada
Brilha no escuro?
Que nova luz virá raiar
Da noite em que jazemos vis?
Ó sombra amada, vem tornar
A ânsia feliz.
Quem quer que sejas, lá no abismo
Onde a morte a vida conduz,
Sê para nós um misticismo
A vaga luz
Com que a noite erma inda vazia
No frio alvor da antemanhã
Sente, da esp'rança que há no dia,
Que não é vã.
E amanhã, quando houver a Hora,
Sendo Deus pago, Deus dirá
Nova palavra redentora
Ao mal que há.
E um novo verbo ocidental
Encarnado em heroísmo e glória,
Traga por seu broquel real
Tua memória!
Precursor do que não sabemos,
Passado de um futuro a abrir
No assombro de portais extremos
Por descobrir,
Sê estrada, gládio, fé, fanal,
Pendão de glória em glória erguido!
Tornas possível Portugal
Por teres sido!
Não era extinta a antiga chama
Se tu e o amor puderam ser.
Entre clarins te a glória aclama,
Morto a vencer!
E, porque foste, confiando
EM QUEM SERÁ porque tu foste,
Ergamos a alma, e com o infando
Sorrindo arroste,
Até que Deus o laço solte
Que<
4 270
Fernando Pessoa
BICARBONATO DE SODA
BICARBONATO DE SODA
Súbita, uma angústia...
Ah, que angústia, que náusea do estômago à alma!
Que amigos que tenho tido!
Que vazias de tudo as cidades que tenho percorrido!
Que esterco metafísico os meus propósitos todos!
Uma angústia,
Uma desconsolação da epiderme da alma,
Um deixar cair os braços ao sol-pôr do esforço...
Renego.
Renego tudo.
Renego mais do que tudo.
Renego a gládio e fim todos os Deuses e a negação deles.
Mas o que é que me falta, que o sinto faltar-me no estômago e na circulação do sangue?
Que atordoamento vazio me esfalfa no cérebro?
Devo tomar qualquer coisa ou suicidar-me?
Não: vou existir. Arre! Vou existir.
E-xis-tir...
E--xis--tir...
Meu Deus! Que budismo me esfria no sangue!
Renunciar de portas todas abertas,
Perante a paisagem todas as paisagens,
Sem esperança, em liberdade,
Sem nexo,
Acidente da inconsequência da superfície das coisas,
Monótono mas dorminhoco,
E que brisas quando as portas e as janelas estão todas abertas!
Que verão agradável dos outros!
Dêem-me de beber, que não tenho sede!
20/06/1930
Súbita, uma angústia...
Ah, que angústia, que náusea do estômago à alma!
Que amigos que tenho tido!
Que vazias de tudo as cidades que tenho percorrido!
Que esterco metafísico os meus propósitos todos!
Uma angústia,
Uma desconsolação da epiderme da alma,
Um deixar cair os braços ao sol-pôr do esforço...
Renego.
Renego tudo.
Renego mais do que tudo.
Renego a gládio e fim todos os Deuses e a negação deles.
Mas o que é que me falta, que o sinto faltar-me no estômago e na circulação do sangue?
Que atordoamento vazio me esfalfa no cérebro?
Devo tomar qualquer coisa ou suicidar-me?
Não: vou existir. Arre! Vou existir.
E-xis-tir...
E--xis--tir...
Meu Deus! Que budismo me esfria no sangue!
Renunciar de portas todas abertas,
Perante a paisagem todas as paisagens,
Sem esperança, em liberdade,
Sem nexo,
Acidente da inconsequência da superfície das coisas,
Monótono mas dorminhoco,
E que brisas quando as portas e as janelas estão todas abertas!
Que verão agradável dos outros!
Dêem-me de beber, que não tenho sede!
20/06/1930
2 006
Fernando Pessoa
Tirem-me os deuses
Tirem-me os deuses
Em seu arbítrio
Superior e urdido às escondidas
O Amor, glória e riqueza.
Tirem, mas deixem-me,
Deixem-me apenas
A consciência lúcida e solene
Das coisas e dos seres.
Pouco me importa
Amor ou glória.
A riqueza é um metal, a glória é um eco
E o amor uma sombra.
Mas a concisa
Atenção dada
Às formas e às maneiras dos objectos
Tem abrigo seguro.
Seus fundamentos
São todo o mundo,
Seu amor é o plácido Universo,
Sua riqueza a vida.
A sua glória
É a suprema
Certeza da solene e clara posse
Das formas dos objectos.
O resto passa,
E teme a morte.
Só nada teme ou sofre a visão clara
E inútil do Universo.
Essa a si basta,
Nada deseja
Salvo o orgulho de ver sempre claro
Até deixar de ver.
06/06/1915
Em seu arbítrio
Superior e urdido às escondidas
O Amor, glória e riqueza.
Tirem, mas deixem-me,
Deixem-me apenas
A consciência lúcida e solene
Das coisas e dos seres.
Pouco me importa
Amor ou glória.
A riqueza é um metal, a glória é um eco
E o amor uma sombra.
Mas a concisa
Atenção dada
Às formas e às maneiras dos objectos
Tem abrigo seguro.
Seus fundamentos
São todo o mundo,
Seu amor é o plácido Universo,
Sua riqueza a vida.
A sua glória
É a suprema
Certeza da solene e clara posse
Das formas dos objectos.
O resto passa,
E teme a morte.
Só nada teme ou sofre a visão clara
E inútil do Universo.
Essa a si basta,
Nada deseja
Salvo o orgulho de ver sempre claro
Até deixar de ver.
06/06/1915
2 185
Fernando Pessoa
Grande libertador
ODE "A PARTIDA"
(excertos)
Grande libertador,
Que quebraste as algemas de todas as mortes – as do corpo e as da alma
A morte, a doença, a tristeza
A arte, e a ciência, e a filosofia...
Grande libertador
Que arrasaste os muros da cadeia velha
E fizeste ruir os andaimes da cadeia nova,
Que abriste de par em par as janelas todas
Nas salas todas de todas as casas,
E o vento real limpou do fumo e do sono
As salas dadas aos prazeres dos sonhos,
......................................................
Agora que estou quase na morte e vejo tudo já claro,
Grande Libertador, volto submisso a ti.
Sem dúvida teve um fim a minha personalidade.
Sem dúvida porque se exprimiu, quis dizer qualquer coisa.
Mas hoje, olhando para trás, só uma ânsia me fica –
Não ter tido a tua calma superior a ti próprio,
A tua libertação constelada de Noite Infinita.
Não tive talvez missão alguma na terra,
...........................................................
Ah, se todo este mundo claro, e estas flores e luz,
Se todo este mundo com terra e mar e casas e gente,
Se todo este mundo natural, social, intelectual,
Estes corpos nus por baixo das vestes naturais,
Se isto é ilusão, por que é que isto está aqui?
Ó mestre Caeiro, só tu é que tinhas razão!
Se isto não é, por que é que é?
Se isto não pode ser, então porque pôde ser?
Acolhei-a, ao chegar,
A ela, à Morte, a esse erro da vista,
Com os cheiros dos campos, e as flores cortadas trazidas ao colo,
Com as romarias e as tardes pelas estradas,
Com os ranchos festivos, e os lares contentes,
Com a alegria e a dor, com o prazer e a mágoa,
Com todo o vasto mar movimentado da vida.
Acolhei-a sem medo,
Como quem na estação de província, no apeadeiro campestre,
Acolhe o viajante que há-de chegar no comboio do Além.
Acolhei-a contentes,
Crianças cantando de riso, corpos de jovens nos jogos,
Alegria rude e natural das tabernas.
E os braços e os beijos e os seios das raparigas.
....................................................
Da casa do monte, símbolo eterno e perfeito,
Vejo os campos, os campos todos,
E eu os saúdo por fim com a voz verdadeira,
Eu lhes dou vivas, chorando, com as lágrimas certas e os vivas exactos
Eu os aperto a meu peito, como filho que encontrasse o pai perdido.
Vivam, vivam, vivam
Os montes, e a planície, e as ervas!
Vivam os rios, vivam as fontes!
Vivam as flores, e as árvores, e as pedras!
Vivam os entes vivos – os bichos pequenos,
Os bichos que correm, insectos e aves,
Os animais todos, tão reais sem mim,
Os homens, as mulheres, as crianças,
As Famílias, e as não-famílias, igualmente!
Tudo quanto sente sem saber porquê!
Tudo quanto vive sem pensar que vive!
Tudo que acaba e cessa sem angústia nem nada,
Sabendo, melhor que eu, que nada há que temer,
Que nada é fim, que nada é abismo, que nada é mistério,
E que tudo é Deus, e que tudo é Ser, e que tudo é Vida.
Ah, estou liberto!
Ah, quebrei todas
As algemas do pensamento.
Eu, o claustro e a cave voluntários de mim mesmo,
Eu o próprio abismo que sonhei,
Eu, que vi em tudo caminhos e atalhos de sombra
E a sombra e os caminhos e os atalhos estavam em mim!
Ah, estou liberto...
Mestre Caeiro, voltei à tua casa do monte
E vi a verdade que vias, mas com meus olhos,
Verdadeiramente com meus olhos,
Verdadeiramente verdade.
Ah, vi que não há morte alguma!
Vi que
Não há abismos!
Nada é sinistro!
Não há mistério ou verdade!
Não há Deus, nem vida, nem alma distinta da vida!
Tu, tu Mestre Caeiro, tu é que tinhas razão!
Mas ainda não viste tudo, tudo é mais ainda!
Alegre cantaste a alegria de tudo,
Mas sem pensá-lo tu sentias
Que é porque a alegria de tudo é essencialmente imortal.
Como cantaras alegre a morte futura
Se a puderas pensar como morte,
Se deveras sentiras a noite e o acabamento?
Não, não: tu sabias
Não com teu pensamento, mas com teu corpo inteiro,
Com todos os teus sentidos tão acordados ao mundo
Que não há nada que morra, que não há coisa que cesse,
Que cada momento não passa nunca,
Que a flor colhida fica sempre na haste,
Que o beijo dado é eterno,
Que na essência e universo das coisas,
Tudo é alegria e sol
E só no erro e no olhar há dor e dúvida e sombra.
Embandeira a canto e rosas!
E da estação de província, do apeadeiro campestre
Lá vem o comboio!
Com lenços agitados, com olhos que brilham eternos
Saudemos em ouro e flores a morte que chega!
................................
(excertos)
Grande libertador,
Que quebraste as algemas de todas as mortes – as do corpo e as da alma
A morte, a doença, a tristeza
A arte, e a ciência, e a filosofia...
Grande libertador
Que arrasaste os muros da cadeia velha
E fizeste ruir os andaimes da cadeia nova,
Que abriste de par em par as janelas todas
Nas salas todas de todas as casas,
E o vento real limpou do fumo e do sono
As salas dadas aos prazeres dos sonhos,
......................................................
Agora que estou quase na morte e vejo tudo já claro,
Grande Libertador, volto submisso a ti.
Sem dúvida teve um fim a minha personalidade.
Sem dúvida porque se exprimiu, quis dizer qualquer coisa.
Mas hoje, olhando para trás, só uma ânsia me fica –
Não ter tido a tua calma superior a ti próprio,
A tua libertação constelada de Noite Infinita.
Não tive talvez missão alguma na terra,
...........................................................
Ah, se todo este mundo claro, e estas flores e luz,
Se todo este mundo com terra e mar e casas e gente,
Se todo este mundo natural, social, intelectual,
Estes corpos nus por baixo das vestes naturais,
Se isto é ilusão, por que é que isto está aqui?
Ó mestre Caeiro, só tu é que tinhas razão!
Se isto não é, por que é que é?
Se isto não pode ser, então porque pôde ser?
Acolhei-a, ao chegar,
A ela, à Morte, a esse erro da vista,
Com os cheiros dos campos, e as flores cortadas trazidas ao colo,
Com as romarias e as tardes pelas estradas,
Com os ranchos festivos, e os lares contentes,
Com a alegria e a dor, com o prazer e a mágoa,
Com todo o vasto mar movimentado da vida.
Acolhei-a sem medo,
Como quem na estação de província, no apeadeiro campestre,
Acolhe o viajante que há-de chegar no comboio do Além.
Acolhei-a contentes,
Crianças cantando de riso, corpos de jovens nos jogos,
Alegria rude e natural das tabernas.
E os braços e os beijos e os seios das raparigas.
....................................................
Da casa do monte, símbolo eterno e perfeito,
Vejo os campos, os campos todos,
E eu os saúdo por fim com a voz verdadeira,
Eu lhes dou vivas, chorando, com as lágrimas certas e os vivas exactos
Eu os aperto a meu peito, como filho que encontrasse o pai perdido.
Vivam, vivam, vivam
Os montes, e a planície, e as ervas!
Vivam os rios, vivam as fontes!
Vivam as flores, e as árvores, e as pedras!
Vivam os entes vivos – os bichos pequenos,
Os bichos que correm, insectos e aves,
Os animais todos, tão reais sem mim,
Os homens, as mulheres, as crianças,
As Famílias, e as não-famílias, igualmente!
Tudo quanto sente sem saber porquê!
Tudo quanto vive sem pensar que vive!
Tudo que acaba e cessa sem angústia nem nada,
Sabendo, melhor que eu, que nada há que temer,
Que nada é fim, que nada é abismo, que nada é mistério,
E que tudo é Deus, e que tudo é Ser, e que tudo é Vida.
Ah, estou liberto!
Ah, quebrei todas
As algemas do pensamento.
Eu, o claustro e a cave voluntários de mim mesmo,
Eu o próprio abismo que sonhei,
Eu, que vi em tudo caminhos e atalhos de sombra
E a sombra e os caminhos e os atalhos estavam em mim!
Ah, estou liberto...
Mestre Caeiro, voltei à tua casa do monte
E vi a verdade que vias, mas com meus olhos,
Verdadeiramente com meus olhos,
Verdadeiramente verdade.
Ah, vi que não há morte alguma!
Vi que
Não há abismos!
Nada é sinistro!
Não há mistério ou verdade!
Não há Deus, nem vida, nem alma distinta da vida!
Tu, tu Mestre Caeiro, tu é que tinhas razão!
Mas ainda não viste tudo, tudo é mais ainda!
Alegre cantaste a alegria de tudo,
Mas sem pensá-lo tu sentias
Que é porque a alegria de tudo é essencialmente imortal.
Como cantaras alegre a morte futura
Se a puderas pensar como morte,
Se deveras sentiras a noite e o acabamento?
Não, não: tu sabias
Não com teu pensamento, mas com teu corpo inteiro,
Com todos os teus sentidos tão acordados ao mundo
Que não há nada que morra, que não há coisa que cesse,
Que cada momento não passa nunca,
Que a flor colhida fica sempre na haste,
Que o beijo dado é eterno,
Que na essência e universo das coisas,
Tudo é alegria e sol
E só no erro e no olhar há dor e dúvida e sombra.
Embandeira a canto e rosas!
E da estação de província, do apeadeiro campestre
Lá vem o comboio!
Com lenços agitados, com olhos que brilham eternos
Saudemos em ouro e flores a morte que chega!
................................
2 922
Fernando Pessoa
MARINETTI, ACADÉMICO
Lá chegam todos, lá chegam todos...
Qualquer dia, salvo venda, chego eu também...
Se nascem, afinal, todos para isso...
Não tenho remédio senão morrer antes,
Não tenho remédio senão escalar o Grande Muro...
Se fico cá, prendem-me para ser social...
Lá chegam todos, porque nasceram para Isso,
E só se chega ao Isso para que se nasceu...
Lá chegam todos...
Marinetti, académico...
As Musas vingaram-se com focos eléctricos, meu velho,
Puseram-te por fim na ribalta da cave velha,
E a tua dinâmica, sempre um bocado italiana, f-f-f-f-f-f-f-f.....
Qualquer dia, salvo venda, chego eu também...
Se nascem, afinal, todos para isso...
Não tenho remédio senão morrer antes,
Não tenho remédio senão escalar o Grande Muro...
Se fico cá, prendem-me para ser social...
Lá chegam todos, porque nasceram para Isso,
E só se chega ao Isso para que se nasceu...
Lá chegam todos...
Marinetti, académico...
As Musas vingaram-se com focos eléctricos, meu velho,
Puseram-te por fim na ribalta da cave velha,
E a tua dinâmica, sempre um bocado italiana, f-f-f-f-f-f-f-f.....
2 360
Fernando Pessoa
Desfraldando ao conjunto fictício dos céus estrelados
Desfraldando ao conjunto fictício dos céus estrelados
O esplendor do sentido nenhum da vida...
Toquem num arraial a marcha fúnebre minha!
Quero cessar sem consequências...
Quero ir para a morte como para uma festa ao crepúsculo.
O esplendor do sentido nenhum da vida...
Toquem num arraial a marcha fúnebre minha!
Quero cessar sem consequências...
Quero ir para a morte como para uma festa ao crepúsculo.
1 850
Fernando Pessoa
Que lindos olhos de azul inocente os do pequenito do agiota!
Que lindos olhos de azul inocente os do pequenito do agiota!
Santo Deus, que entroncamento esta vida!
Tive sempre, feliz ou infelizmente, a sensibilidade humanizada,
E toda a morte me doeu sempre pessoalmente,
Sim, não só pelo mistério de ficar inexpressivo o orgânico,
Mas de maneira directa, cá do coração.
Como o sol doura as casas dos réprobos!
Poderei odiá-los sem desfazer no sol?
Afinal que coisa a pensar com o sentimento distraído
Por causa dos olhos de criança de uma criança...
Santo Deus, que entroncamento esta vida!
Tive sempre, feliz ou infelizmente, a sensibilidade humanizada,
E toda a morte me doeu sempre pessoalmente,
Sim, não só pelo mistério de ficar inexpressivo o orgânico,
Mas de maneira directa, cá do coração.
Como o sol doura as casas dos réprobos!
Poderei odiá-los sem desfazer no sol?
Afinal que coisa a pensar com o sentimento distraído
Por causa dos olhos de criança de uma criança...
2 265
Português
English
Español