Lista de Poemas
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Corsino Fortes
Girassol
Girassol
Rasga a tua indecisão
E liberta-te.
Vem colar
O teu destino
Ao suspiro
Deste hirto jasmim
Que foge ao vento
Como
Pensamento perdido.
Aderido
Aos teus flancos
Singram navios.
Navios sem mares
Sem rumos
De velas rotas.
Amanheceu!
Orça o teu leme
E entra em mim
Antes que o Sol
Te desoriente
Girassol!
Rasga a tua indecisão
E liberta-te.
Vem colar
O teu destino
Ao suspiro
Deste hirto jasmim
Que foge ao vento
Como
Pensamento perdido.
Aderido
Aos teus flancos
Singram navios.
Navios sem mares
Sem rumos
De velas rotas.
Amanheceu!
Orça o teu leme
E entra em mim
Antes que o Sol
Te desoriente
Girassol!
4 340
Francisco José Tenreiro
Ritmo para a jóia daquela roça
Dona Jóia dona
dona de lindo nome;
tem um piano alemão
desafinando de calor.
Dona Jóia dona
do nome de Sum Roberto
está chorando nos seus olhos
de outras terras saudades.
Dona Jóia dona
dona de tudo que é lindo:
do oiro cacaueiro
do café de frutos vermelhos
das brisas da nossa ilha.
Dona Jóia dona
dona de tudo que é triste:
meninos de barriga oca
chupando em peitos chatos;
negros de pésão grande
trabalhando pelos mato.
Ai! Dona Jóia dona,
dona de mim também -
Jesus, Maria, José
Credo! -
não me olhe assim-sim
que me pára coração.
dona de lindo nome;
tem um piano alemão
desafinando de calor.
Dona Jóia dona
do nome de Sum Roberto
está chorando nos seus olhos
de outras terras saudades.
Dona Jóia dona
dona de tudo que é lindo:
do oiro cacaueiro
do café de frutos vermelhos
das brisas da nossa ilha.
Dona Jóia dona
dona de tudo que é triste:
meninos de barriga oca
chupando em peitos chatos;
negros de pésão grande
trabalhando pelos mato.
Ai! Dona Jóia dona,
dona de mim também -
Jesus, Maria, José
Credo! -
não me olhe assim-sim
que me pára coração.
2 599
Sophia de Mello Breyner Andresen
Assim o Amor
Assim o amor
Espantando meu olhar com teus cabelos
Espantando meu olhar com teus cavalos
E grandes praias fluidas avenidas
Tardes que oscilavam demoradas
E um confuso rumor de obscuras vidas
E o tempo sentado no limiar dos campos
Com seu fuso sua faca e seus novelos
Em vão busquei eterna luz precisa
Espantando meu olhar com teus cabelos
Espantando meu olhar com teus cavalos
E grandes praias fluidas avenidas
Tardes que oscilavam demoradas
E um confuso rumor de obscuras vidas
E o tempo sentado no limiar dos campos
Com seu fuso sua faca e seus novelos
Em vão busquei eterna luz precisa
3 929
Jorge Luis Borges
Ausencia
Habré de levantar la vasta vida
que aún ahora es tu espejo:
cada mañana habré de reconstruirla.
Desde que te alejaste,
cuántos lugares se han tornado vanos
y sin sentido, iguales
a luces en el día.
Tardes que fueron nicho de tu imagen,
músicas en que siempre me aguardabas,
palabras de aquel tiempo,
yo tendré que quebrarlas con mis manos.
¿En qué hondonada esconderé mi alma
para que no vea tu ausencia
que como un sol terrible, sin ocaso,
brilla definitiva y despiadada?
Tu ausencia me rodea
como la cuerda a la garganta,
el mar al que se hunde.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 44 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
que aún ahora es tu espejo:
cada mañana habré de reconstruirla.
Desde que te alejaste,
cuántos lugares se han tornado vanos
y sin sentido, iguales
a luces en el día.
Tardes que fueron nicho de tu imagen,
músicas en que siempre me aguardabas,
palabras de aquel tiempo,
yo tendré que quebrarlas con mis manos.
¿En qué hondonada esconderé mi alma
para que no vea tu ausencia
que como un sol terrible, sin ocaso,
brilla definitiva y despiadada?
Tu ausencia me rodea
como la cuerda a la garganta,
el mar al que se hunde.
Jorge Luis Borges | "Poesia Completa", pág. 44 | Debolsillo, 3ª. edição, 2016
3 007
Wisława Szymborska
Amor à primeira vista
Ambos estão convencidos
que os uniu uma paixão súbita.
É bela esta certeza,
mas a incerteza é mais bela ainda.
Julgam que por não se terem encontrado antes,
nada entre eles nunca ainda se passara.
E que diriam as ruas, as escadas, os corredores
onde se podem há muito ter cruzado?
Gostaria de lhes perguntar
se não se lembram —
talvez nas portas giratórias,
um dia, face a face?
algum “desculpe” num grande aperto de gente?
uma voz de que “é engano” ao telefone?
— mas sei o que respondem.
Não, não se lembram.
Muito os admiraria
saber que desde há muito
se divertia com eles o acaso.
Ainda não completamente preparado
para se transformar em destino para eles,
aproximou-os e afastou-os,
barrou-lhes o caminho
e, abafando as gargalhadas,
lá seguiu saltando ao lado deles.
Houve marcas, sinais,
que importa se ilegíveis.
Haverá talvez três anos
ou terça-feira passada,
certa folhinha esvoaçante
de um braço a outro braço.
Algo que se perdeu e encontrou?
Quem sabe se já uma bola
nos silvados da infância?
Punhos de poeta e campainhas
onde a seu tempo o toque
de uma mão tocou o outro toque.
As malas lado a lado no depósito.
Talvez acaso até um mesmo sonho
que logo o acordar desvaneceu.
Porque cada início
é só continuação,
e o livro das ocorrências
está sempre aberto ao meio.
tradução de Júlio Sousa Gomes
11 589
Armando Artur
Arte de viver
Habito no halo
dos meus versos
onde incansavelmente
rimo palavras sem rima
e seco lágrimas sem pranto
é a arte de viver...
como lacrar a vida e o amor
sem cantar?
como vencer o tédio e o temor
sem bailar?
eis a razão
porque sonho sem sono
porque voo sem asas
porque vivo sem vida
no avesso dos versos escondo
o tesouro da minha contrariedade
o mistério da minha enfermidade
e o feitiço da minha eternidade
dos meus versos
onde incansavelmente
rimo palavras sem rima
e seco lágrimas sem pranto
é a arte de viver...
como lacrar a vida e o amor
sem cantar?
como vencer o tédio e o temor
sem bailar?
eis a razão
porque sonho sem sono
porque voo sem asas
porque vivo sem vida
no avesso dos versos escondo
o tesouro da minha contrariedade
o mistério da minha enfermidade
e o feitiço da minha eternidade
2 019
Elisa Lucinda
O Amor de Dudu nas Águas
Estou virando uma menina
tornada mulherinha
com tanta coleirinha
de maturidade
ainda assim me sinto parida agora
tenra, maçã nova
nova Eva novo pecado.
Tudo gira e eu renasço menina
vestido curto na alma de dentro...
Deixo no mar os velhos adereços
a velha cristaleira, os velhos vícios
as caducas mágoas.
Nasce a mulher-menina de se amar
com água no ventre e no olhar.
Nasce a Doudou das Águas.
tornada mulherinha
com tanta coleirinha
de maturidade
ainda assim me sinto parida agora
tenra, maçã nova
nova Eva novo pecado.
Tudo gira e eu renasço menina
vestido curto na alma de dentro...
Deixo no mar os velhos adereços
a velha cristaleira, os velhos vícios
as caducas mágoas.
Nasce a mulher-menina de se amar
com água no ventre e no olhar.
Nasce a Doudou das Águas.
3 002
Tomaz Vieira da Cruz
Quissange - Saudade Negra
Não sei, por estas noites tropicais,
o que me encanta...
Se é o luar que canta
ou a floresta aos ais.
Não sei, não sei, aqui neste sertão
de musica dolorosa
qual é a voz que chora
e chega ao coração...
Qual o som que aflora
dos lábios da noite misteriosa!
Sei apenas, e isso é que importa,
que a tua voz, dolente e quase morta,
já mal a escuto, por andar ausente,
já mal escuto a tua voz dolente...
Dolente, a tua voz "luena",
lá do distante Moxico,
que disponho e crucifico
nesta amargura morena...
Que é o destino selvagem
duma canção em que tange,
por entre a floresta virgem
o meu saudoso "Quissange".
Quissange, fatalidade
deste meu triste destino...
Quissange, negra saudade
do teu olhar diamantino.
Quissange, lira gentia,
cantando o sol e o luar,
e chorando a nostalgia
do sertão, por sobre o mar.
Indo mares fora, mares bravos,
em noite primaveril
acompanhando os escravos
que morreram no Brasil.
Não sei, não sei,
neste verão infinito,
a razão de tanto grito...
-Se és tu, oh morte, morrei!
Mas deixa a vida que tange,
exaltando as amarguras,
e as mais tristes desventuras
do meu amado Quissange!
o que me encanta...
Se é o luar que canta
ou a floresta aos ais.
Não sei, não sei, aqui neste sertão
de musica dolorosa
qual é a voz que chora
e chega ao coração...
Qual o som que aflora
dos lábios da noite misteriosa!
Sei apenas, e isso é que importa,
que a tua voz, dolente e quase morta,
já mal a escuto, por andar ausente,
já mal escuto a tua voz dolente...
Dolente, a tua voz "luena",
lá do distante Moxico,
que disponho e crucifico
nesta amargura morena...
Que é o destino selvagem
duma canção em que tange,
por entre a floresta virgem
o meu saudoso "Quissange".
Quissange, fatalidade
deste meu triste destino...
Quissange, negra saudade
do teu olhar diamantino.
Quissange, lira gentia,
cantando o sol e o luar,
e chorando a nostalgia
do sertão, por sobre o mar.
Indo mares fora, mares bravos,
em noite primaveril
acompanhando os escravos
que morreram no Brasil.
Não sei, não sei,
neste verão infinito,
a razão de tanto grito...
-Se és tu, oh morte, morrei!
Mas deixa a vida que tange,
exaltando as amarguras,
e as mais tristes desventuras
do meu amado Quissange!
3 529
Gonçalves de Magalhães
Entr'ato
(...)
"No Brasil, como sabes, qualquer zote
Um formado doutor se conceitua;
Quem pra trolha nasceu, ou pro rabote
Não creias que consulte a sorte sua;
Toda a baixa gentalha deste lote
Em política ao menos se insinua.
O vadio, o pedante, o mentecapto
Pra os públicos empregos julga-se apto.
"Não é com má tenção qu'isto te digo,
Mas sim porqu'ad reum o caso o pede,
Tu mesmo terás dito lá contigo
Que o pedantismo no Brasil tem sede:
Quem tem um Governante por amigo
Alcança tudo que deseja, e pede,
Não se gradua o mérito e a virtude,
Pra escravo, e adulador basta que estude.
"Há muito qu'este mal nos assolapa
E tem feito o Brasil andar à-toa;
Toma um alvar de patriota a capa,
E defensor da Pátria se apregoa.
Dos patriotas é tão grande o mapa
Quanto o dos asnos, qu'ela galardoa;
Quem talentos não tem, nem tem ofício
Um emprego requer em sacrifício
"Era o tempo da nossa Independência
Em que certa Família dominava,
E, como hoje se faz, por influência
D'algum patrono, tudo se alcançava.
Do nosso Herói não foi baldada a agência,
E como patriota se inculcava
Alegando ser Jovem Fluminense,
Pôde um lugar obter de Amanuense.
(...)
"Mas coitado! uma idéia o afligia,
Era o seu mau estado monetário;
Nada tinha de seu; e ele bem via
Que tudo no Brasil era precário.
Seu lugar d'um Ministro dependia;
Sendo tudo interino e arbitrário,
Tudo cair podia num instante,
Quanto mais ele, mísero pedante!
(...)
Publicado no livro Episódio da Infernal Comédia ou Da Minha Viagem ao Inferno (1836).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Org. rev. e notas Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 194
"No Brasil, como sabes, qualquer zote
Um formado doutor se conceitua;
Quem pra trolha nasceu, ou pro rabote
Não creias que consulte a sorte sua;
Toda a baixa gentalha deste lote
Em política ao menos se insinua.
O vadio, o pedante, o mentecapto
Pra os públicos empregos julga-se apto.
"Não é com má tenção qu'isto te digo,
Mas sim porqu'ad reum o caso o pede,
Tu mesmo terás dito lá contigo
Que o pedantismo no Brasil tem sede:
Quem tem um Governante por amigo
Alcança tudo que deseja, e pede,
Não se gradua o mérito e a virtude,
Pra escravo, e adulador basta que estude.
"Há muito qu'este mal nos assolapa
E tem feito o Brasil andar à-toa;
Toma um alvar de patriota a capa,
E defensor da Pátria se apregoa.
Dos patriotas é tão grande o mapa
Quanto o dos asnos, qu'ela galardoa;
Quem talentos não tem, nem tem ofício
Um emprego requer em sacrifício
"Era o tempo da nossa Independência
Em que certa Família dominava,
E, como hoje se faz, por influência
D'algum patrono, tudo se alcançava.
Do nosso Herói não foi baldada a agência,
E como patriota se inculcava
Alegando ser Jovem Fluminense,
Pôde um lugar obter de Amanuense.
(...)
"Mas coitado! uma idéia o afligia,
Era o seu mau estado monetário;
Nada tinha de seu; e ele bem via
Que tudo no Brasil era precário.
Seu lugar d'um Ministro dependia;
Sendo tudo interino e arbitrário,
Tudo cair podia num instante,
Quanto mais ele, mísero pedante!
(...)
Publicado no livro Episódio da Infernal Comédia ou Da Minha Viagem ao Inferno (1836).
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Org. rev. e notas Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 194
7 745
José Craveirinha
A nossa casa
Ambição
minha e da Maria
foi termos uma casa nossa
onde nos contarmos os cabelos brancos.
Sonho realizado.
Casa definitiva já temos.
Lote 42.
Talhão 71883.
Fachada pintada a cal.
Classica arquitectura rectangular.
Uma via asfaltada com um único sentido.
Tudo sito no derradeiro bairrismo
que e' morar no bairro de Lhanguene.
Pelo menos envelhecer já não é problema.
O resto na altura mais propícia
surgirá por si.
Parece que está por pouco.
Na lista onde eu consto
É injusto que tarde
estarmos juntos.
minha e da Maria
foi termos uma casa nossa
onde nos contarmos os cabelos brancos.
Sonho realizado.
Casa definitiva já temos.
Lote 42.
Talhão 71883.
Fachada pintada a cal.
Classica arquitectura rectangular.
Uma via asfaltada com um único sentido.
Tudo sito no derradeiro bairrismo
que e' morar no bairro de Lhanguene.
Pelo menos envelhecer já não é problema.
O resto na altura mais propícia
surgirá por si.
Parece que está por pouco.
Na lista onde eu consto
É injusto que tarde
estarmos juntos.
5 948
Teófilo Dias
A Estátua
Fosse-me dado, em mármor de Carrara,
Num arranco de gênio e de ardimento,
Às linhas do teu corpo o movimento
Suprimindo, fixar-te a forma rara,
Cheio de força, vida e sentimento,
Surgira-me o ideal da pedra clara,
E em fundo, eterno arroubo, se prostrara,
Ante a estátua imortal, meu pensamento.
Do albor de brandas formas eu vestira
Teus contornos gentis; eu te cobrira
Com marmóreo cendal os moles flancos,
E a sôfrega avidez dos meus desejos
Em mudo turbilhão de imóveis beijos
As curvas te enrolara em flocos brancos.
Publicado no livro Fanfarras (1882). Poema integrante da série Flores Funestas.
In: DIAS, Teófilo. Poesias escolhidas. Sel. introd. e notas Antonio Candido. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 196
Num arranco de gênio e de ardimento,
Às linhas do teu corpo o movimento
Suprimindo, fixar-te a forma rara,
Cheio de força, vida e sentimento,
Surgira-me o ideal da pedra clara,
E em fundo, eterno arroubo, se prostrara,
Ante a estátua imortal, meu pensamento.
Do albor de brandas formas eu vestira
Teus contornos gentis; eu te cobrira
Com marmóreo cendal os moles flancos,
E a sôfrega avidez dos meus desejos
Em mudo turbilhão de imóveis beijos
As curvas te enrolara em flocos brancos.
Publicado no livro Fanfarras (1882). Poema integrante da série Flores Funestas.
In: DIAS, Teófilo. Poesias escolhidas. Sel. introd. e notas Antonio Candido. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 196
9 760
José Craveirinha
Pena
Zangado
acreditas no insulto
e chamas-me negro.
Mas não me chames negro.
Assim não te odeio.
Porque se me chamas negro
encolho os meus elásticos ombros
e com pena de ti sorrio.
acreditas no insulto
e chamas-me negro.
Mas não me chames negro.
Assim não te odeio.
Porque se me chamas negro
encolho os meus elásticos ombros
e com pena de ti sorrio.
7 828
Raimundo Correia
Conselhos
Vogar mais não vale a pena,
Amarra o barco a esta bóia;
Não traves por outra Helena
Segunda guerra de Tróia.
Ouve um conselho de amigo:
Deixa de muito escolher;
Eu das mulheres só digo
O que ouço a todos dizer.
Dizem de Cora que, quando
Entra nos bailes, namora,
Valsa demais, e, valsando
A perna mostra, e... não cora;
Nem por ver, dessa maneira,
Que a perna que mostra, em vão,
Não é de osso e carne inteira,
Mas metade de... algodão.
De Pacífica, que à-toa
Sem razão se assanha e briga;
E de Modesta (perdoa)!
Que traz o rei na barriga...
Prudência — em nada é cordata;
Benigna — maus modos tem;
E ao noivo de Fortunata
A sorte grande não vem.
Os papalvos certos ficam
De que não são, nem metade
Do que seus nomes indicam,
Severa e Felicidade:
Aquela — vale um pagode;
E desta outra o vulgo diz,
Que é feliz, como se pode
Na desgraça ser feliz;
Plácida — é plácida e mansa,
Como onça ou como leoa;
E é, bem sabes, Esperança
O desespero em pessoa.
Inocência — de pecados
Está cheia, como vês;
Diferentes namorados
Tem Constância, em cada mês;
Muito avara é — Generosa;
Angélica — é muito ingrata;
E até, com língua maldosa,
Dizem que Branca é... mulata.
Rosa é bela? Embora o seja,
(Se nos espinhos não for)
Semelhante, há lá quem veja,
Mulher-rosa à rosa-flor?!
E pois, que inda em tempo chego
Com meus conselhos: — se queres
Ter na vida mais sossego,
Deixa em sossego as mulheres.
Ao pé da letra as não tomes,
Porque as mulheres estão,
Até com seus próprios nomes,
Em viva... contradição.
Poema integrante da série Poesias Avulsas.
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.2, p.335-337
Amarra o barco a esta bóia;
Não traves por outra Helena
Segunda guerra de Tróia.
Ouve um conselho de amigo:
Deixa de muito escolher;
Eu das mulheres só digo
O que ouço a todos dizer.
Dizem de Cora que, quando
Entra nos bailes, namora,
Valsa demais, e, valsando
A perna mostra, e... não cora;
Nem por ver, dessa maneira,
Que a perna que mostra, em vão,
Não é de osso e carne inteira,
Mas metade de... algodão.
De Pacífica, que à-toa
Sem razão se assanha e briga;
E de Modesta (perdoa)!
Que traz o rei na barriga...
Prudência — em nada é cordata;
Benigna — maus modos tem;
E ao noivo de Fortunata
A sorte grande não vem.
Os papalvos certos ficam
De que não são, nem metade
Do que seus nomes indicam,
Severa e Felicidade:
Aquela — vale um pagode;
E desta outra o vulgo diz,
Que é feliz, como se pode
Na desgraça ser feliz;
Plácida — é plácida e mansa,
Como onça ou como leoa;
E é, bem sabes, Esperança
O desespero em pessoa.
Inocência — de pecados
Está cheia, como vês;
Diferentes namorados
Tem Constância, em cada mês;
Muito avara é — Generosa;
Angélica — é muito ingrata;
E até, com língua maldosa,
Dizem que Branca é... mulata.
Rosa é bela? Embora o seja,
(Se nos espinhos não for)
Semelhante, há lá quem veja,
Mulher-rosa à rosa-flor?!
E pois, que inda em tempo chego
Com meus conselhos: — se queres
Ter na vida mais sossego,
Deixa em sossego as mulheres.
Ao pé da letra as não tomes,
Porque as mulheres estão,
Até com seus próprios nomes,
Em viva... contradição.
Poema integrante da série Poesias Avulsas.
In: CORREIA, Raimundo. Poesias completas. Org. pref. e notas Múcio Leão. São Paulo: Ed. Nacional, 1948. v.2, p.335-337
2 371
Basílio da Gama
A Uma Senhora Natural do Rio de Janeiro
Já, Marfiza cruel, me não maltrata
Saber que usas comigo de cautelas,
Qu'inda te espero ver, por causa delas,
Arrependida de ter sido ingrata.
Com o tempo, que tudo desbarata,
Teus olhos deixarão de ser estrelas;
Verás murchar no rosto as faces belas,
E as tranças d'oiro converte-se em prata.
Pois se sabes que a tua formosura
Por força há de sofrer da idade os danos,
Por que me negas hoje esta ventura?
Guarda para seu tempo os desenganos,
Gozemo-nos agora, enquanto dura,
Já que dura tão pouco, a flor dos anos.
In: GAMA, Basílio da. Obras poéticas. Precedida de uma biogr. crít. e est. lit. do poeta por José Veríssimo. Rio de Janeiro: Garnier, s.d. (Coleção dos autores célebres da literatura brasileira)
Saber que usas comigo de cautelas,
Qu'inda te espero ver, por causa delas,
Arrependida de ter sido ingrata.
Com o tempo, que tudo desbarata,
Teus olhos deixarão de ser estrelas;
Verás murchar no rosto as faces belas,
E as tranças d'oiro converte-se em prata.
Pois se sabes que a tua formosura
Por força há de sofrer da idade os danos,
Por que me negas hoje esta ventura?
Guarda para seu tempo os desenganos,
Gozemo-nos agora, enquanto dura,
Já que dura tão pouco, a flor dos anos.
In: GAMA, Basílio da. Obras poéticas. Precedida de uma biogr. crít. e est. lit. do poeta por José Veríssimo. Rio de Janeiro: Garnier, s.d. (Coleção dos autores célebres da literatura brasileira)
6 519
D. Pedro II
VII - A Meus Netinhos Impressores de Meus Versos
Versos feitos por mim na mocidade
O mérito só tem sentimento.
Eram, pra assim dizer, um instrumento
Mais que o prazer ecoando-me a saudade.
Pospondo a fantasia sempre à verdade
Melhor encontrei nesta o ornamento
E, no estudo apurando o sentimento,
Quanto tenho a saber disse-me a idade.
É isso o que vos quero eu ensinar,
Amando-vos qual pode um terno avô,
A quem para as suas cãs engrinaldar
Melhor só poderia o que eu vou
Em carícias tão vossas procurar,
Sentindo que de vós inda mais sou.
18 de novembro de 1888.
In: D. PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. Poema integrante da série Poesias Autênticas.
NOTA: Feito por S. M. depois de receber a primeira página desta publicaçã
O mérito só tem sentimento.
Eram, pra assim dizer, um instrumento
Mais que o prazer ecoando-me a saudade.
Pospondo a fantasia sempre à verdade
Melhor encontrei nesta o ornamento
E, no estudo apurando o sentimento,
Quanto tenho a saber disse-me a idade.
É isso o que vos quero eu ensinar,
Amando-vos qual pode um terno avô,
A quem para as suas cãs engrinaldar
Melhor só poderia o que eu vou
Em carícias tão vossas procurar,
Sentindo que de vós inda mais sou.
18 de novembro de 1888.
In: D. PEDRO II. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. Poema integrante da série Poesias Autênticas.
NOTA: Feito por S. M. depois de receber a primeira página desta publicaçã
1 608
Cláudio Manuel da Costa
XIII (Sonetos) [Nise? Nise? onde estás? Aonde espera
Nise? Nise? onde estás? Aonde espera
Achar-te uma alma, que por ti suspira,
Se quanto a vista se dilata, e gira,
Tanto mais de encontrar-te desespera!
Ah se ao menos teu nome ouvir pudera
Entre esta aura suave, que respira!
Nise, cuido, que diz; mas é mentira.
Nise, cuidei que ouvia; e tal não era.
Grutas, troncos, penhascos da espessura,
Se o meu bem, se a minha alma em vós se esconde,
Mostrai, mostrai-me a sua formosura.
Nem ao menos o eco me responde!
Ah como é certa a minha desventura!
Nise? Nise? onde estás? aonde? aonde?
Publicado no livro Obras (1768).
In: COSTA, Cláudio Manuel da. Obras. Introd. cronol. e bibliogr. Antônio Soares Amora. Lisboa: Bertrand, 1959. (Obras primas da língua portuguesa
Achar-te uma alma, que por ti suspira,
Se quanto a vista se dilata, e gira,
Tanto mais de encontrar-te desespera!
Ah se ao menos teu nome ouvir pudera
Entre esta aura suave, que respira!
Nise, cuido, que diz; mas é mentira.
Nise, cuidei que ouvia; e tal não era.
Grutas, troncos, penhascos da espessura,
Se o meu bem, se a minha alma em vós se esconde,
Mostrai, mostrai-me a sua formosura.
Nem ao menos o eco me responde!
Ah como é certa a minha desventura!
Nise? Nise? onde estás? aonde? aonde?
Publicado no livro Obras (1768).
In: COSTA, Cláudio Manuel da. Obras. Introd. cronol. e bibliogr. Antônio Soares Amora. Lisboa: Bertrand, 1959. (Obras primas da língua portuguesa
11 119
Casimiro de Abreu
Segredos
Eu tenho uns amores — quem é que os não tinha
Nos tempos antigos! — Amar não faz mal;
As almas que sentem paixão como a minha
Que digam, que falem em regra geral.
— A flor dos meus sonhos é moça e bonita
Qual flor entreaberta do dia ao raiar,
Mas onde ela mora, que casa ela habita,
Não quero, não posso, não devo contar!
Seu rosto é formoso, seu talhe elegante,
Seus lábios de rosa, a fala é de mel,
As tranças compridas, qual livre bacante,
O pé de criança, cintura de anel;
— Os olhos rasgados são cor das safiras,
Serenos e puros, azuis como o mar;
Se falam sinceros, se pregam mentiras,
Não quero, não posso, não devo contar!
Oh! ontem no baile com ela valsando
Senti as delícias dos anjos do céu!
Na dança ligeira qual silfo voando
Caiu-lhe do rosto seu cândido véu!
— Que noite e que baile! — Seu hálito virgem
Queimava-me as faces no louco valsar,
As falas sentidas que os olhos falavam
Não posso, não quero, não devo contar!
Depois indolente firmou-se em meu braço,
Fugimos das salas, do mundo talvez!
Inda era mais bela rendida ao cansaço,
Morrendo de amores em tal languidez!
— Que noite e que festa! e que lânguido rosto
Banhado ao reflexo do branco luar!
A neve do colo e as ondas dos seios
Não quero, não posso, não devo contar!
A noite é sublime! — Tem longos queixumes,
Mistérios profundos que eu mesmo não sei:
Do mar os gemidos, do prado os perfumes,
De amor me mataram, de amor suspirei!
— Agora eu vos juro... Palavra! — não minto!
Ouvi-a formosa também suspirar;
Os doces suspiros que os ecos ouviram
Não quero, não posso, não devo contar!
Então nesse instante nas águas do rio
Passava uma barca, e o bom remador
Cantava na flauta: — "Nas noites d'estio
O céu tem estrelas, o mar tem amor!" —
— E a voz maviosa do bom gondoleiro
Repete cantando: — "viver é amar!" —
Se os peitos respondem à voz do barqueiro...
Não quero, não posso, não devo contar!
Trememos de medo... a boca emudece
Mas sentem-se os pulos do meu coração!
Seu seio nevado de amor se entumece...
E os lábios se tocam no ardor da paixão!
— Depois... mas já vejo que vós, meus senhores,
Com fina malícia quereis me enganar.
Aqui faço ponto; — segredos de amores
Não quero, não posso, não devo contar!
Rio, 1857
Imagem - 00300001
Publicado no livro As primaveras (1859). Poema integrante da série Livro II.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
Nos tempos antigos! — Amar não faz mal;
As almas que sentem paixão como a minha
Que digam, que falem em regra geral.
— A flor dos meus sonhos é moça e bonita
Qual flor entreaberta do dia ao raiar,
Mas onde ela mora, que casa ela habita,
Não quero, não posso, não devo contar!
Seu rosto é formoso, seu talhe elegante,
Seus lábios de rosa, a fala é de mel,
As tranças compridas, qual livre bacante,
O pé de criança, cintura de anel;
— Os olhos rasgados são cor das safiras,
Serenos e puros, azuis como o mar;
Se falam sinceros, se pregam mentiras,
Não quero, não posso, não devo contar!
Oh! ontem no baile com ela valsando
Senti as delícias dos anjos do céu!
Na dança ligeira qual silfo voando
Caiu-lhe do rosto seu cândido véu!
— Que noite e que baile! — Seu hálito virgem
Queimava-me as faces no louco valsar,
As falas sentidas que os olhos falavam
Não posso, não quero, não devo contar!
Depois indolente firmou-se em meu braço,
Fugimos das salas, do mundo talvez!
Inda era mais bela rendida ao cansaço,
Morrendo de amores em tal languidez!
— Que noite e que festa! e que lânguido rosto
Banhado ao reflexo do branco luar!
A neve do colo e as ondas dos seios
Não quero, não posso, não devo contar!
A noite é sublime! — Tem longos queixumes,
Mistérios profundos que eu mesmo não sei:
Do mar os gemidos, do prado os perfumes,
De amor me mataram, de amor suspirei!
— Agora eu vos juro... Palavra! — não minto!
Ouvi-a formosa também suspirar;
Os doces suspiros que os ecos ouviram
Não quero, não posso, não devo contar!
Então nesse instante nas águas do rio
Passava uma barca, e o bom remador
Cantava na flauta: — "Nas noites d'estio
O céu tem estrelas, o mar tem amor!" —
— E a voz maviosa do bom gondoleiro
Repete cantando: — "viver é amar!" —
Se os peitos respondem à voz do barqueiro...
Não quero, não posso, não devo contar!
Trememos de medo... a boca emudece
Mas sentem-se os pulos do meu coração!
Seu seio nevado de amor se entumece...
E os lábios se tocam no ardor da paixão!
— Depois... mas já vejo que vós, meus senhores,
Com fina malícia quereis me enganar.
Aqui faço ponto; — segredos de amores
Não quero, não posso, não devo contar!
Rio, 1857
Imagem - 00300001
Publicado no livro As primaveras (1859). Poema integrante da série Livro II.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
15 885
Florbela Espanca
O Meu Alentejo
Meio-dia: O sol a prumo cai ardente,
Doirando tudo. Ondeiam nos trigais
D’oiro fulvo, de leve... docemente...
As papoilas sangrentas, sensuais...
Andam asas no ar; e raparigas,
Flores desabrochadas em canteiros,
Mostram por entre o oiro das espigas
Os perfis delicados e trigueiros...
Tudo é tranquilo, e casto, e sonhador...
Olhando esta paisagem que é uma tela
De Deus, eu penso então: Onde há pintor,
Onde há artista de saber profundo,
Que possa imaginar coisa mais bela,
Mais delicada e linda neste mundo?!
Doirando tudo. Ondeiam nos trigais
D’oiro fulvo, de leve... docemente...
As papoilas sangrentas, sensuais...
Andam asas no ar; e raparigas,
Flores desabrochadas em canteiros,
Mostram por entre o oiro das espigas
Os perfis delicados e trigueiros...
Tudo é tranquilo, e casto, e sonhador...
Olhando esta paisagem que é uma tela
De Deus, eu penso então: Onde há pintor,
Onde há artista de saber profundo,
Que possa imaginar coisa mais bela,
Mais delicada e linda neste mundo?!
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Agostinho Neto
Quintandeira
A quitanda.
Muito sol
e a quintandeira à sombra
da mulemba.
- Laranja, minha senhora,
laranjinha boa!
A luz brinca na cidade
o seu quente jogo
de claros e escuros
e a vida brinca
em corações aflitos
o jogo da cabra-cega.
A quitandeira
que vende fruta
vende-se.
- Minha senhora
laranja, laranjinha boa!
Compra laranjas doces
compra-me também o amargo
desta tortura
da vida sem vida.
Compra-me a infância do espírito
este botão de rosa
que não abriu
princípio impelido ainda para um início.
Laranja, minha senhora!
Esgotaram-se os sorrisos
com que chorava
eu já não choro.
E aí vão as minhas esperanças
como foi o sangue dos meus filhos
amassado no pó das estradas
enterrado nas roças
e o meu suor
embebido nos fios de algodão
que me cobrem.
Como o esforço foi oferecido
à segurança das máquinas
à beleza das ruas asfaltadas
de prédios de vários andares
à comodidade de senhores ricos
à alegria dispersa por cidades
e eu
me fui confundindo
com os próprios problemas da existência.
Aí vão as laranjas
como eu me ofereci ao álcool
para me anestesiar
e me entreguei às religiões
para me insensibilizar
e me atordoei para viver.
Tudo tenho dado.
Até mesmo a minha dor
e a poesia dos meus seios nus
entreguei-os aos poetas.
Agora vendo-me eu própria.
- Compra laranjas
minha senhora!
Leva-me para as quitandas da vida
o meu preço é único:
- sangue.
Talvez vendendo-me
eu me possua.
-Compra laranjas!
Muito sol
e a quintandeira à sombra
da mulemba.
- Laranja, minha senhora,
laranjinha boa!
A luz brinca na cidade
o seu quente jogo
de claros e escuros
e a vida brinca
em corações aflitos
o jogo da cabra-cega.
A quitandeira
que vende fruta
vende-se.
- Minha senhora
laranja, laranjinha boa!
Compra laranjas doces
compra-me também o amargo
desta tortura
da vida sem vida.
Compra-me a infância do espírito
este botão de rosa
que não abriu
princípio impelido ainda para um início.
Laranja, minha senhora!
Esgotaram-se os sorrisos
com que chorava
eu já não choro.
E aí vão as minhas esperanças
como foi o sangue dos meus filhos
amassado no pó das estradas
enterrado nas roças
e o meu suor
embebido nos fios de algodão
que me cobrem.
Como o esforço foi oferecido
à segurança das máquinas
à beleza das ruas asfaltadas
de prédios de vários andares
à comodidade de senhores ricos
à alegria dispersa por cidades
e eu
me fui confundindo
com os próprios problemas da existência.
Aí vão as laranjas
como eu me ofereci ao álcool
para me anestesiar
e me entreguei às religiões
para me insensibilizar
e me atordoei para viver.
Tudo tenho dado.
Até mesmo a minha dor
e a poesia dos meus seios nus
entreguei-os aos poetas.
Agora vendo-me eu própria.
- Compra laranjas
minha senhora!
Leva-me para as quitandas da vida
o meu preço é único:
- sangue.
Talvez vendendo-me
eu me possua.
-Compra laranjas!
4 065
Manuel Bandeira
Chama E Fumo
Amor — chama, e, depois, fumaça...
Medita no que vais fazer:
O fumo vem, a chama passa...
Gozo cruel, ventura escassa,
Dono do meu e do teu ser,
Amor — chama, e, depois, fumaça...
Tanto ele queima! e, por desgraça,
Queimado o que melhor houver,
O fumo vem, a chama passa...
Paixão puríssima ou devassa,
Triste ou feliz, pena ou prazer,
Amor — chama, e, depois, fumaça...
A cada par que a aurora enlaça,
Como é pungente o entardecer!
O fumo vem, a chama passa...
Antes, todo ele é gosto e graça.
Amor, fogueira linda a arder!
Amor — chama, e, depois, fumaça...
Porquanto, mal se satisfaça,
(Como te poderei dizer?...)
O fumo vem, a chama passa...
A chama queima. O fumo embaça.
Tão triste que é! Mas, tem de ser...
Amor?... — chama, e, depois, fumaça:
O fumo vem, a chama passa...
Teresópolis, 1911
Medita no que vais fazer:
O fumo vem, a chama passa...
Gozo cruel, ventura escassa,
Dono do meu e do teu ser,
Amor — chama, e, depois, fumaça...
Tanto ele queima! e, por desgraça,
Queimado o que melhor houver,
O fumo vem, a chama passa...
Paixão puríssima ou devassa,
Triste ou feliz, pena ou prazer,
Amor — chama, e, depois, fumaça...
A cada par que a aurora enlaça,
Como é pungente o entardecer!
O fumo vem, a chama passa...
Antes, todo ele é gosto e graça.
Amor, fogueira linda a arder!
Amor — chama, e, depois, fumaça...
Porquanto, mal se satisfaça,
(Como te poderei dizer?...)
O fumo vem, a chama passa...
A chama queima. O fumo embaça.
Tão triste que é! Mas, tem de ser...
Amor?... — chama, e, depois, fumaça:
O fumo vem, a chama passa...
Teresópolis, 1911
9 707
Federico García Lorca
Noche de amor insomne
Noche arriba
los dos con luna llena,
yo me puse a llorar y tú reías.
Tu desdén era un dios, las penas mías
momentos y palomas en cadenas.
Noche abajo
los dos. Cristal de pena,
llorabas tú por hondas lejanías
sobre tu débil corazón de arena.
La aurora
nos unió sobre la cama,
las bocas puestas sobre el chorro helado
de una sangre sin fin que se derrama.
Y el sol
entró por el balcón cerrado
y el coral de la vida abrió su rama
sobre mi corazón amortajado.
los dos con luna llena,
yo me puse a llorar y tú reías.
Tu desdén era un dios, las penas mías
momentos y palomas en cadenas.
Noche abajo
los dos. Cristal de pena,
llorabas tú por hondas lejanías
sobre tu débil corazón de arena.
La aurora
nos unió sobre la cama,
las bocas puestas sobre el chorro helado
de una sangre sin fin que se derrama.
Y el sol
entró por el balcón cerrado
y el coral de la vida abrió su rama
sobre mi corazón amortajado.
3 637
Manuel Bandeira
Oração Para Aviadores
Santa Clara, clareai
Estes ares.
Dai-nos ventos regulares,
De feição.
Estes mares, estes ares
Clareai.
Santa Clara, dai-nos sol.
Se baixar a cerração,
Alumiai
Meus olhos na cerração.
Estes montes e horizontes
Clareai.
Santa Clara, no mau tempo
Sustentai
Nossas asas.
A salvo de árvores, casas
E penedos, nossas asas
Governai.
Santa Clara, clareai.
Afastai
Todo risco.
Por amor de S. Francisco,
Vosso mestre, nosso pai,
Santa Clara, todo risco
Dissipai.
Santa Clara, clareai.
Estes ares.
Dai-nos ventos regulares,
De feição.
Estes mares, estes ares
Clareai.
Santa Clara, dai-nos sol.
Se baixar a cerração,
Alumiai
Meus olhos na cerração.
Estes montes e horizontes
Clareai.
Santa Clara, no mau tempo
Sustentai
Nossas asas.
A salvo de árvores, casas
E penedos, nossas asas
Governai.
Santa Clara, clareai.
Afastai
Todo risco.
Por amor de S. Francisco,
Vosso mestre, nosso pai,
Santa Clara, todo risco
Dissipai.
Santa Clara, clareai.
6 746
José de Anchieta
Como Vem Guerreira!
Como, vem guerreira
a morte espantosa!
Como vem guerreira
e temerosa!
Suas armas são doença,
com que a todos acomete.
Por qualquer lugar se mete,
sem nunca pedir licença.
Tanto que se dá sentença
da morte espantosa,
como vem guerreira
e temerosa!
Por muito poder que tenha,
ninguém pode resistir.
Dá mil voltas, sem sentir,
mais ligeira que uma azenha.
Quando manda Deus que venha
a morte espantosa,
como vem guerreira
e temerosa!
A uns caça quando comem,
sem que engulam o bocado.
Outros mata no pecado,
Sem que gosto nele tomem.
Quando menos teme homem
a morte espantosa,
como vem guerreira
e temerosa!
A ninguém que dar aviso,
porque vem como ladrão.
Se não acha contrição,
então mata mais de liso.
Quando toma de improviso,
a morte espantosa,
como vem guerreira
e temerosa!
Quando esperas de viver
longa vida, mui contente,
ela entra, de repente,
sem deixar-te a perceber.
Quando mostra seu poder,
a morte espantosa,
como vem guerreira
a temerosa!
Tudo lhe serve de espada,
com tudo pode matar;
em todos acha lugar
para dar sua estocada.
A terrível bombardada
da morte espantosa,
como vem guerreira
e temerosa!
A primeira morte mata
o corpo, com quanto tem.
A segunda, quando vem,
a alma e o corpo rapa.
Co'o inferno se contrata
a morte espantosa.
Como vem guerreira
e temerosa!
In: ANCHIETA. Poesias: manuscrito do século XVI, em português, castelhano, latim e tupi. Transcrições, trad. e notas M. de L. de Paula Martins. São Paulo: Comissão do IV Centenário da Cidade, 1954
a morte espantosa!
Como vem guerreira
e temerosa!
Suas armas são doença,
com que a todos acomete.
Por qualquer lugar se mete,
sem nunca pedir licença.
Tanto que se dá sentença
da morte espantosa,
como vem guerreira
e temerosa!
Por muito poder que tenha,
ninguém pode resistir.
Dá mil voltas, sem sentir,
mais ligeira que uma azenha.
Quando manda Deus que venha
a morte espantosa,
como vem guerreira
e temerosa!
A uns caça quando comem,
sem que engulam o bocado.
Outros mata no pecado,
Sem que gosto nele tomem.
Quando menos teme homem
a morte espantosa,
como vem guerreira
e temerosa!
A ninguém que dar aviso,
porque vem como ladrão.
Se não acha contrição,
então mata mais de liso.
Quando toma de improviso,
a morte espantosa,
como vem guerreira
e temerosa!
Quando esperas de viver
longa vida, mui contente,
ela entra, de repente,
sem deixar-te a perceber.
Quando mostra seu poder,
a morte espantosa,
como vem guerreira
a temerosa!
Tudo lhe serve de espada,
com tudo pode matar;
em todos acha lugar
para dar sua estocada.
A terrível bombardada
da morte espantosa,
como vem guerreira
e temerosa!
A primeira morte mata
o corpo, com quanto tem.
A segunda, quando vem,
a alma e o corpo rapa.
Co'o inferno se contrata
a morte espantosa.
Como vem guerreira
e temerosa!
In: ANCHIETA. Poesias: manuscrito do século XVI, em português, castelhano, latim e tupi. Transcrições, trad. e notas M. de L. de Paula Martins. São Paulo: Comissão do IV Centenário da Cidade, 1954
2 965
Luís Gama
A Cativa
Nos olhos lhe mora,
Uma graça viva,
Para ser senhora
De quem é cativa.
CAMÕES
Como era linda, meu Deus!
Não tinha da neve a cor,
Mas no moreno semblante
Brilhavam raios de amor.
Ledo o rosto, o mais formoso
De trigueira coralina,
De Anjo a boca, os lábios breves
Cor de pálida cravina.
Em carmim rubro esgastados
Tinha os dentes cristalinos;
Doce a voz, qual nunca ouviram
Dúlios bardos matutinos.
Seus ingênuos pensamentos
São de amor juras constantes;
Entre as nuvens das pestanas
Tinha dois astros brilhantes.
As madeixas crespas, negras,
Sobre o seio lhe pendiam,
Onde os castos pomos de ouro
Amorosos se escondiam.
Tinha o colo acetinado
— Era o corpo uma pintura —
E no peito palpitante
Um sacrário de ternura.
Límpida alma — flor singela
Pelas brisas embalada,
Ao dormir d'alvas estrelas,
Ao nascer da madrugada.
Quis beijar-lhe as mãos divinas,
Afastou-mas — não consente;
A seus pés de rojo pus-me,
— Tanto pode o amor ardente!
Não te afastes, lhe suplico,
És do meu peito rainha;
Não te afastes, neste peito
Tens um trono, mulatinha!...
Vi-lhe as pálpebras tremerem,
Como treme a flor louçã
Embalando as níveas gotas
Dos orvalhos da manhã.
Qual na rama enlanguescida
Pudibunda sensitiva,
Suspirando ela murmura:
Ai, senhor, eu sou cativa!...
Deu-me as costas, foi-se embora
Qual da tarde ao arrebol
Foge a sombra de uma nuvem
Ao cair a luz do sol.
Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1861).
In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.112-113. (Últimas gerações, 4
Uma graça viva,
Para ser senhora
De quem é cativa.
CAMÕES
Como era linda, meu Deus!
Não tinha da neve a cor,
Mas no moreno semblante
Brilhavam raios de amor.
Ledo o rosto, o mais formoso
De trigueira coralina,
De Anjo a boca, os lábios breves
Cor de pálida cravina.
Em carmim rubro esgastados
Tinha os dentes cristalinos;
Doce a voz, qual nunca ouviram
Dúlios bardos matutinos.
Seus ingênuos pensamentos
São de amor juras constantes;
Entre as nuvens das pestanas
Tinha dois astros brilhantes.
As madeixas crespas, negras,
Sobre o seio lhe pendiam,
Onde os castos pomos de ouro
Amorosos se escondiam.
Tinha o colo acetinado
— Era o corpo uma pintura —
E no peito palpitante
Um sacrário de ternura.
Límpida alma — flor singela
Pelas brisas embalada,
Ao dormir d'alvas estrelas,
Ao nascer da madrugada.
Quis beijar-lhe as mãos divinas,
Afastou-mas — não consente;
A seus pés de rojo pus-me,
— Tanto pode o amor ardente!
Não te afastes, lhe suplico,
És do meu peito rainha;
Não te afastes, neste peito
Tens um trono, mulatinha!...
Vi-lhe as pálpebras tremerem,
Como treme a flor louçã
Embalando as níveas gotas
Dos orvalhos da manhã.
Qual na rama enlanguescida
Pudibunda sensitiva,
Suspirando ela murmura:
Ai, senhor, eu sou cativa!...
Deu-me as costas, foi-se embora
Qual da tarde ao arrebol
Foge a sombra de uma nuvem
Ao cair a luz do sol.
Publicado no livro Primeiras trovas burlescas de Getulino (1861).
In: GAMA, Luiz. Trovas burlescas e escritos em prosa. Org. Fernando Góes. São Paulo: Cultura, 1944. p.112-113. (Últimas gerações, 4
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