Escritas

As Velhas Negras

Gonçalves Crespo
As velhas negras, coitadas,
Ao longe estĂŁo assentadas
Do batuque folgazĂŁo.
Pulam crioulas faceiras
Em derredor das fogueiras
E das pipas de alcatrĂŁo.

Na floresta rumorosa
Esparge a lua formosa
A clara luz tropical.
Tremeluzem pirilampos
No verde-escuro dos campos
E nos cĂŽncavos do val.

Que noite de paz! que noite!
Não se ouve o estalar do açoite,
Nem as pragas do feitor!
E as pobres negras, coitadas,
Pendem as frontes cansadas
Num letĂĄrgico torpor!

E cismam: outrora, e dantes
Havia também descantes,
E o tempo era tĂŁo feliz!
Ai! que profunda saudade
Da vida, da mocidade
Nas matas do seu paĂ­s!

E ante o seu olhar vazio
De esperanças, frio, frio
Como um véu de viuvez,
Ressurge e chora o passado
— Pobre ninho abandonado
Que a neve alagou, desfez... —

E pensam nos seus amores
EfĂȘmeros como as flores
Que o sol queima no sertĂŁo...
Os filhos quando crescidos,
Foram levados, vendidos,
E ninguém sabe onde estão.

Conheceram muito dono:
Embalaram tanto sono
De tanta sinhĂĄ gentil!
Foram mucambas amadas,
E agora inĂșteis, curvadas.
Numa velhice imbecil!

No entanto o luar de prata
Envolve a colina e a mata
E os cafezais em redor!
E os negros mostrando os dentes,
Saltam lépidos, contentes,
No batuque estrugidor.

No espaçoso e amplo terreiro
A filha do Fazendeiro,
A sinhĂĄ sentimental,
Ouve um primo recém-vindo,
Que lhe narra o poema infindo
Das noites de Portugal.

E ela avista, entre sorrisos,
De uns longĂ­nquos paraĂ­sos
A tentadora visĂŁo...
No entanto as velhas, coitadas,
Cismam ao longe assentadas
Do batuque folgazĂŁo...

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Publicado no livro Noturnos (1882).

In: CRESPO, Gonçalves. Obras completas. Pref. Afrùnio Peixoto. Rio de Janeiro: Livros de Portugal, 194