Escritas

Vim porque me pagavam

Ano
2011
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Poemas nesta obra

Conheci o Sandy na esquina do talho

Conheci o Sandy na esquina do talho,
no Largo do Calvário,
Tinha o carro mal estacionado.

Estivemos depois juntos na China,
Durante a invasão japonesa;
e em França, no despontar da Segunda Guerra Mundial

No Vietname, habitámos a mesma galeria escura.
Passávamos a vida a classificar ruídos e
a medir com os pés
o crescimento do arroz.

Quando Boccacio desvia no Decameron
os sintomas da peste,
nós estávamos em Veneza a queimar em grandes piras
os tártaros abatidos pela doença.

Às vezes ouvem-se cães a ladrar,
às vezes é tarde e o tempo se torna circular,
a felicidade deixa então de fazer parte
do nosso sistema solar.

Mas o Sandy está calmo e ponderado.
Se não tivesse problemas de asma,
fumaria cachimbo.

Uma tarde, numa esplanada
Com vista para o passado que não passa,
no Jardim do Príncipe Real para ser mais exacto –
disse mantenham-se vivos,
façam isso por Michael Jackson.

Detestei logo o Doutor Fausto.

Detestei logo o Doutor Fausto. 
Em sua casa sofri vida severa e claustral,
e foi um indizível gosto
quando o áspero eclesiástico
morreu lastimosamente de um carbúnculo.

Passei então para a divertida hospedagem das malícias,
e conheci logo, sem temperança,
todas as independências da pele.
Nunca mais rosnei a deslavada oração a Santa Rita,
nem dobrei o meu joelho viril
diante de imagem benta que não usasse minissaias.
Embebedo-me com alarido;
afirmo a minha robustez, abrindo sanguinolentamente os
paradoxos ao meio;
farto a carne com ginásticas subterrâneas;
e, como a barba me vem basta e negra,
aceito com orgulho a alcunha de Raposão.
Todos os quinze dias, porém, escrevo à Yvonne,
com a minha letra de míope,
uma carta alegre mas piedosa,
onde lhe conto a austeridade dos horários do bar,
o recato dos meus gins tónicos,
as copiosas rezas e as rígidas ressacas.

Escrevo muito porque eu sei que,
ao fim de mil páginas,
haverá sempre algum crítico
a comparar-me com Proust.

Escrevo-te, sobretudo,
na esperança de que o Raposão seja mais inteligente e mais
bonito do que eu.
O Raposão tem muitos pêlos no peito,
tem uma voz grossa.
O Raposão deve conseguir fazer-te regressar.

Esta é a melhor altura do ano

Esta é a melhor altura do ano
para cortar o cabelo – profere Sandy,
remexendo com a ponta dos dedos
alguns fiozinhos na testa.
A porra da lua atrai as marés,
cria tsunamis, invade o Japão,
provoca uma crise nuclear,
porque é que não haveria de fazer
crescer o cabelo?

Deus puxa os poetas pelos cabelos, explica Hölderlin – 
acrescento então,
preocupada com a importância literária do assunto.
Mas, para ter a certeza,
quis perguntar a um especialista,
isto é, a qualquer uma das mulheres
que estavam agora a fazer fila
à entrada do Ginásio Clube Português
como os grandes bandos de antílopes Impala
à beira de um pântano,
num documentário na Animal Planet.

Quis dizer-lhes que o dinheiro, a idade não contam,
que amanhã é outro dia,
mas depois lembrei-me dos terramotos,
da crise nuclear, do IVA,
e fiquei calada.

Meia-noite todo dia

Meia-noite todo dia
Tenho humor e vendo-o barato.
Muita gente gosta disto.

Dá-me gozo cozinhar
e penso que até sei fazer bem tiramisú e
chocos à lagareiro.
Não tenho dívidas fiscais
e sou beneficiário de um seguro de saúde do estado.
Já visitei 24 países, entre os quais a Síria, o Nepal e
a Nova Caledónia.
Dormi nas noites brancas da Lapónia;
cacei um tigre na selva subsaariana;
dei aulas de história ocidental a crianças subnutridas, numa
aldeia de Bangladesh,
e vi Charlize Theron gorda no filme "Monster".

Um dia vou adoptar uma menina órfã de Afeganistão.
Estou apenas à espera que os americanos
parem os bombardeamentos em Cabul.
Até lá, compro todos os anos
um postal humanitário da Unicef.
À distância de um click, vocês também podem ser sócios do
Grupo de Apoio às vítimas da malária.
Só me falta agora pagar
um crédito de 300.000,00 euros para ser feliz.

Na sala de leitura da insónia

Na sala de leitura da insónia,
Quando o carro do lixo é
a única resposta ao silêncio
e cada instante é um amante
que matamos num abrir e fechar de pernas,
acompanho em eco, até à estação,
os passos apressados das empregadas de limpeza.

Para elas, não há inferno. Simplesmente,
evitam sonhar.
Para nós, o autocarro 738 irá sempre ao Calvário,
mesmo se pago o bilhete.

No horizonte lento mas seguro de uma utopia light,
passo o dia a vender o meu terceiro mundo
em colóquios e palestras internacionais.
Mostro a toda a gente o canino de ouro,
a minha pele de girafa,
a bibliografia em francês.
Escrevo a palavra vazio
depois da palavra espera.

Pouso as mãos sobre os joelhos cansados.
Limpa
mas mal vestida
– olhai –
Sou o novo modelo para o fracasso

O mundo é estranho, Sandy

«O mundo é estranho, Sandy!»
O nosso é parecido com a palavra agora.
Das mãos nasce-nos uma espécie de nostalgia trémula
que na versão alemã traduziram por dipsomania.

Quando temos sede abrimos um rio
de esperas na noite dentro
e arregaçamos as calças até aos joelhos.
Não se dê que a madrugada
nos surpreenda com as cheias.

Estou com esta doença agora, but it’s ok.
I close my eyes and drift away;
I softly say a silent pray.
Não ligues nem comentes,
just press play:
 «O mundo é estranho, Sandy! O nosso é parecido.»

O primeiro que deixei

O primeiro que deixei
foi o Jimi Hendrix, à saída dum bar.
Passou a noite a desfilar
ao longo dum tapete ad hoc:
sobre garrafas partidas e rios de Super Bock. Tinha os pés a sangrar
de tanto andar em cima do mar.
Seguiu-se o rapaz do Lidl.
Coitado, este não tinha nenhuma hipótese, se para imaginar precisava de prótese. Meu Deus, pensava,
se ficar mais com ele,
vou acabar por escrever epigramas
para revistas baratas e damas.
Depois tive que abandonar numa estante de livraria
o meu autor preferido
e a sua melancolia:
«És como a Salomé -dizia- Pedes cabeças
mas só te entregam pizzas.»

O seu andar às voltas

O seu andar às voltas,
hesitante como qualquer principiante,
o epicentro das suas mentiras,
o campo magnético do seu prazer,
o pólo norte do seu sexo,
essa sua melancolia de magnólia
gravada no horizonte de tantas Hiroshimas
seriam um desastre em Mishima.

Mas esse dente à morcego
a provar a couraça da minha paciência, essa
mania de acordarmos todos os dias,
de não termos nada e possuir tudo,
eis o que nos une para a eternidade.
Para além dos complexos freudianos,
fora das restrições genéticas,
debaixo de qualquer suspeita
arrumada à pressa nos livros de cabeceira.

Quando me perguntam por nós
não hesito em fundamentar a minha resposta
invocando as musas gregas e os seus curadores,
dando exemplos pertinentes
como este:
ibamus obscuri sola sub nocte.

As milhares de mónadas da minha história psíquica
giram ciclicamente em torno da sua franja,
passam horas
contemplando a sua saia solar
no ondear ligeiro das searas.
Quando não há searas,
ligo a ventoinha e a saia flutua na mesma.
Haverá certamente uma altura em que
os anais do google irão disponibilizar on-line
os ficheiros secretos do nosso destino.
Alguém contará, então,
com a voz distorcida pela censura,
que me abandonava vezes sem conta
com o exagero das hipérboles,
que voltava depois
com o remorso tácito dos pontos suspensivos,
até quando?
que noite após noite me abastecia de requintados
pesadelos, flores de plástico e pastilhas Trident,
até que um dia,
pegou no tempo que nos restava juntos
e foi dar um passeio à parte mais negra da floresta.

Passas horas a olhar-me em silêncio

Passas horas a olhar-me em silêncio
enquanto invocas o sono
à beira de uma corona com limão.
Que tipo de cadáver sou eu neste preciso instante?

Quero pensar que não vês em mim
a decadência do império romano
pintado por cima desta linda vista de Lisboa.

Não sou nenhuma sobremesa
flambée ao lume das velas
no deserto de Atacama.

Quero acreditar que neste bordel ruidoso
a luz ténue e intermitente do despertador
mostra ainda com rigor científico
Os resultados dos nossos electrocardiogramas.

Vá, apaga lá esse cigarro e vem!
Regressemos aos lugares-comuns!
Sentemo-nos na nossa cama.

Poeta na Praça da Alegria

Não sou infeliz. Não, não me quero matar. 
Tenho até uma certa simpatia por esta vida
passada nos autocarros,
para cima e para baixo.
Gosto das minhas férias 
em frente da televisão.
Adoro essas mulheres com ar banal
que entram em directo no canal.
Gosto desses homens com bigodes e pulseiras grossas. 
Acredito nos milagres de Fátima
e no bacalhau com broa. 
Gosto dessa gente toda.
Quero ser um deles. 

Não, não guardo nenhum sentido escondido. 
Estas palavras, aliás, podem ser encontradas
em todos os números da revista Caras.
A ordem às vezes muda. 
Não quero que me façam nenhuma análise do poema.
Não, não escrevam teses, por favor. 
Isto é apenas um croché 
esquecido em cima do refrigerador. 

Obrigado por terem vindo cá para me beijarem o anel.

Obrigado por procurarem a eternidade da raça. 
Mas a poesia, mes chers, não salva, não brilha, só caça.

Porque falta meia hora

Porque falta meia hora antes de 
tomar o comprimido para dormir,
porque mesmo depois de tanto tempo
fazes de mim o filho com síndroma de Down
de Arthur Miller,
porque escrever não é só abrir cabeças
com o bisturi de Lacan,
e porque um poema não é a Isabella Rossellini
a chorar todos os sábados à noite,
nem o casal encontrado abraçado
na paralisia bucal do Vesúvio.
Porque a poesia não é a ponte Mirabeau
num cartaz de néon de adolescência,
porque hoje, quando ligaste,
era apenas porque te tinhas enganado no número,
porque estou cansado, voilá,
e não consigo evitar a noite,
penso agora em ti, Juliana,
heroína no sentido naturalista do termo,
penso sobretudo no teu arzinho
de provocação e de ataque.

Podias ter sido a Maria Eduarda
do cinema norte-americano,
a rapariga que ajudou a pôr fim à guerra no Vietname,
a Frida Kahlo e o Kofi Annan,
a estátua de Notre Dame.

O teu sentido reformista,
o teu olhar de Eça socialista,
cá está,
tinhas cabeça para embaixadora da boa vontade,
pés para andar nos corredores da ONU,
o feitio da botina, a mania, a despesa.

Mas continuas a dormir no teu cacifo húmido,
de cara para a parede
enquanto 20 repúblicas foram perpetuando
campanhas eleitorais e golpes de estado
nos jornais com os quais limpas os vidros da cozinha.

Coitada, coitadinha, coitadíssima,
permaneces na sala, um pouco pálida e fraca,
mas restituída aos deveres domésticos
e aos prazeres da sociedade!

O feitio da botina, a mania, a despesa,
o cheiro a terebintina.
Ó Juliana Couceiro Tavira, per omnia saecula,
chega para cá a garrafa e o cinzeiro;
temos assuntos por tratar e meia hora de critérios.

Vim porque me pagavam

Vim porque me pagavam,
e eu queria comprar o futuro a prestações.

Vim porque me falaram de apanhar cerejas
ou de armas de destruição em massa.
Mas só encontrei cucos e mexericos de feira,
metralhadoras de plástico, coelhinhos da Páscoa e pulseiras
de lata.

A bordo, alguém falou de justiça
(não, não era o Marx).
A bordo, falavam também de liberdade.
Quantos mais morríamos,
mais liberdade tínhamos para matar.
Matava porque estavas perto,
porque os outros ficaram na esquina do supermercado
a falar, a debater o assunto.

Com estas mãos levantei a poeira
com que agora cubro os nossos corpos.

Com estas pernas subi dez andares
para assim te poder olhar de frente.

Alguém se atreve ainda a falar de posteridade?
Eu só penso em como regressar a casa;
e que bonito me fica a esperança
enquanto apresento em directo
a autópsia da minha glória.