"Casa-Grande & Senzala"
"Casa-Grande & Senzala"
Grande livro que fala
Desta nossa leseira
Brasileira.
Mas com aquele forte
Cheiro e sabor do Norte
— Dos engenhos de cana
(Massangana!)
Com fuxicos danados
E chamegos safados
De mulecas fulôs
Com sinhôs!
A mania ariana
Do Oliveira Viana
Leva aqui a sua lambada
Bem puxada.
Se nos brasis abunda
Jenipapo na bunda,
Se somos todos uns
Octoruns,
Que importa? É lá desgraça?
Essa história de raça,
Raças más, raças boas
— Diz o Boas —
É coisa que passou
com o franciú Gobineau.
Pois o mal do mestiço
Não está nisso.
Está em causas sociais,
De higiene e outras que tais:
Assim pensa, assim fala
Casa Grande & Senzala.
Livro que à ciência alia
A profunda poesia
Que o passado revoca
E nos toca
A alma de brasileiro,
Que o portuga femeeiro
Fez e o mau fado quis
Infeliz!
Grande livro que fala
Desta nossa leseira
Brasileira.
Mas com aquele forte
Cheiro e sabor do Norte
— Dos engenhos de cana
(Massangana!)
Com fuxicos danados
E chamegos safados
De mulecas fulôs
Com sinhôs!
A mania ariana
Do Oliveira Viana
Leva aqui a sua lambada
Bem puxada.
Se nos brasis abunda
Jenipapo na bunda,
Se somos todos uns
Octoruns,
Que importa? É lá desgraça?
Essa história de raça,
Raças más, raças boas
— Diz o Boas —
É coisa que passou
com o franciú Gobineau.
Pois o mal do mestiço
Não está nisso.
Está em causas sociais,
De higiene e outras que tais:
Assim pensa, assim fala
Casa Grande & Senzala.
Livro que à ciência alia
A profunda poesia
Que o passado revoca
E nos toca
A alma de brasileiro,
Que o portuga femeeiro
Fez e o mau fado quis
Infeliz!
41
À quarante et un an (c'est mon àge)!
Je n'ai pas d'enfant. Dieu m'assiste!
Je suis seul. Cela me soulage
Tout en me laissant un peu triste.
Je n'ai pas d'enfant. Dieu m'assiste!
Je suis seul. Cela me soulage
Tout en me laissant un peu triste.
A Afonso
Recebi o seu telegrama,
Afonso. Obrigado, obrigado:
Sempre é bom ganhar um agrado
Dos amigos a quem mais se ama.
Gastão gentil como uma dama,
Esse merece ser chamado
Pinheiro, como você o chama.
E Otávio, nunca assaz louvado.
Não me sinto pinheiro, Afonso,
Eu velho bardo, entre mil vários,
À espera da hora do responso.
Sou apenas um setentão
Adido à estranha legação
Dos pinheiros septuagenários.
Afonso. Obrigado, obrigado:
Sempre é bom ganhar um agrado
Dos amigos a quem mais se ama.
Gastão gentil como uma dama,
Esse merece ser chamado
Pinheiro, como você o chama.
E Otávio, nunca assaz louvado.
Não me sinto pinheiro, Afonso,
Eu velho bardo, entre mil vários,
À espera da hora do responso.
Sou apenas um setentão
Adido à estranha legação
Dos pinheiros septuagenários.
A Antenor Nascentes
Como chega às de ouro agora,
Que ainda chegue às de diamante,
Onde vou ver se consigo
(Mas não creio!) entre os presentes
Estar — é o voto do amigo
Desde a infância, e vida afora
Seu admirador constante,
Meu caro Antenor Nascentes.
Que ainda chegue às de diamante,
Onde vou ver se consigo
(Mas não creio!) entre os presentes
Estar — é o voto do amigo
Desde a infância, e vida afora
Seu admirador constante,
Meu caro Antenor Nascentes.
A Arnaldo Vasconcelos, Respondendo À Pergunta: "quanto Mede e Quanto Pesa o Seu Coração?"
Quanto mede e quanto pesa,
Arnaldo, o meu coração?
Depende da ocasião:
É às vezes bem pequenino
E pesa mais do que um sino,
Pesa como uma paixão.
Arnaldo, o meu coração?
Depende da ocasião:
É às vezes bem pequenino
E pesa mais do que um sino,
Pesa como uma paixão.
A Espada de Ouro
Excelentíssimo General
Henrique Duffles Teixeira Lott,
A espada de ouro que, por escote,
Os seus cupinchas lhe vão brindar,
Não vale nada (não leve a mal
Que assim lhe fale) se comparada
Com a velha espada
De aço forjada,
Como as demais.
— Espadas estas
Que a Pátria pobre, de mãos honestas,
Dá aos seus soldados e generais.
Seu aço limpo vem das raízes
Batalhadoras da nossa história:
Aço que fala dos que, felizes,
Tombaram puros no chão da glória!
O ouro da outra é ouro tirado,
Ouro raspado
Pelas mãos sujas da pelegada
Do bolso gordo dos argentários,
Do bolso raso dos operários,
Não vale nada!
É ouro sinistro,
Ouro mareado:
Mancha o Ministro,
Mancha o Soldado.
Henrique Duffles Teixeira Lott,
A espada de ouro que, por escote,
Os seus cupinchas lhe vão brindar,
Não vale nada (não leve a mal
Que assim lhe fale) se comparada
Com a velha espada
De aço forjada,
Como as demais.
— Espadas estas
Que a Pátria pobre, de mãos honestas,
Dá aos seus soldados e generais.
Seu aço limpo vem das raízes
Batalhadoras da nossa história:
Aço que fala dos que, felizes,
Tombaram puros no chão da glória!
O ouro da outra é ouro tirado,
Ouro raspado
Pelas mãos sujas da pelegada
Do bolso gordo dos argentários,
Do bolso raso dos operários,
Não vale nada!
É ouro sinistro,
Ouro mareado:
Mancha o Ministro,
Mancha o Soldado.
A Guimarães Rosa
Não permita Deus que eu morra
Sem que ainda vote em você;
Sem que, Rosa amigo, toda
Quinta-feira que Deus dê,
Tome chá na Academia
Ao lado de vosmecê,
Rosa dos seus e dos outros,
Rosa da gente e do mundo,
Rosa de intensa poesia .
De fino olor sem segundo;
"Rosa do Rio e da Rua,
Rosa do sertão profundo!
Sem que ainda vote em você;
Sem que, Rosa amigo, toda
Quinta-feira que Deus dê,
Tome chá na Academia
Ao lado de vosmecê,
Rosa dos seus e dos outros,
Rosa da gente e do mundo,
Rosa de intensa poesia .
De fino olor sem segundo;
"Rosa do Rio e da Rua,
Rosa do sertão profundo!
A Jorge Medauar
Há trinta anos (tanto corre
O tempo) escrevi a poesia
Onde disse que fazia
Meus versos como quem morre.
Ainda não eras nascido.
Agora, orgulhosamente
Moço, ao poeta velho e doente
Parodiaste destemido:
Das batalhas em que estive
É o suor que em meu verso escorre!
Tu o fazes como quem morre:
Eu o faço como quem vive!
Façam-no como quem morre
Ou quem vive, que ele viva!
Vive o que é belo e deriva
Da alma e para outra alma corre.
Verso que dela se prive,
Ai dele! quem lhe socorre?
Nem Marx nem Deus! Ele morre.
Só o verso com alma vive.
Deste ou daquele pensar,
Esta me parece a reta,
A justa linha do poeta,
Poeta Jorge Medauar!
O tempo) escrevi a poesia
Onde disse que fazia
Meus versos como quem morre.
Ainda não eras nascido.
Agora, orgulhosamente
Moço, ao poeta velho e doente
Parodiaste destemido:
Das batalhas em que estive
É o suor que em meu verso escorre!
Tu o fazes como quem morre:
Eu o faço como quem vive!
Façam-no como quem morre
Ou quem vive, que ele viva!
Vive o que é belo e deriva
Da alma e para outra alma corre.
Verso que dela se prive,
Ai dele! quem lhe socorre?
Nem Marx nem Deus! Ele morre.
Só o verso com alma vive.
Deste ou daquele pensar,
Esta me parece a reta,
A justa linha do poeta,
Poeta Jorge Medauar!
À Maneira de Alberto de Oliveira
Esse que em moço ao Velho Continente
Entrou de rosto erguido e descoberto,
E ascendeu em balão e, mão tenente,
Foi quem primeiro o sol viu mais de perto;
Águia da Torre Eiffel, da Itu contente
Rebento mais ilustre e mais diserto,
Ê o florão que nos falta (e não no tente
Glória maior), Santos Dumont Alberto!
Ah que antes de morrer, como soldado
Que mal-ferido da refrega a poeira
Beija do chão natal, me fora dado
Vê-lo (tal Febo esplende e é luz e é dia)
Na que chamais de Letras Brasileira,
Ou melhor nome tenha, Academia.
Entrou de rosto erguido e descoberto,
E ascendeu em balão e, mão tenente,
Foi quem primeiro o sol viu mais de perto;
Águia da Torre Eiffel, da Itu contente
Rebento mais ilustre e mais diserto,
Ê o florão que nos falta (e não no tente
Glória maior), Santos Dumont Alberto!
Ah que antes de morrer, como soldado
Que mal-ferido da refrega a poeira
Beija do chão natal, me fora dado
Vê-lo (tal Febo esplende e é luz e é dia)
Na que chamais de Letras Brasileira,
Ou melhor nome tenha, Academia.
À Maneira de Augusto Frederico Schmidt
I
Daqui a trezentos anos
Não existirei mais.
Outros amarão e serão amados,
Outros terão livrarias católicas,
Outros escreverão no suplemento de domingo dos jornais:
Eu não existirei mais.
Seja, não importa, Senhor!
Sou um pobre gordo.
Mas sei que eles também não serão felizes.
Eu sim, o serei então.
Quando debaixo da terra, magro, magro, só ossos,
Não existir mais.
II
Há muito o meu coração está seco,
Há muito a tristeza do abandono,
A desolação das coisas práticas
Entrou em mim, me diminuindo.
Porém de repente será talvez a contemplação
De um céu noturno como mais belo não vi,
Com estrelas de um brilho incrível,
De uma pureza incalculável, incrível.
A poesia voltará de novo ao meu coração
Como a chuva caindo na terra queimada.
Como o sol clareando a tristeza das cidades,
Das ruas, dos quintais, dos tristes e dos doentes.
A poesia voltará de novo, única solução para mim,
Única solução para o peso dos meus desenganos,
Depois de todas as soluções terem falhado:
O amor, os seguros, a água, a borracha.
A poesia voltará de novo, consoladora e boa,
Com uma frescura de mãos santas de virgem,
Com uma bondade de heroísmos terríveis,
Com uma violência de convicções inabaláveis.
Verei fugir todas as minhas amargas queixas de repente.
Tudo me parecerá de novo exato, sólido, reto,
A poesia restabelecerá em mim o equilíbrio perdido.
À poesia cairá em mim como um raio.
Daqui a trezentos anos
Não existirei mais.
Outros amarão e serão amados,
Outros terão livrarias católicas,
Outros escreverão no suplemento de domingo dos jornais:
Eu não existirei mais.
Seja, não importa, Senhor!
Sou um pobre gordo.
Mas sei que eles também não serão felizes.
Eu sim, o serei então.
Quando debaixo da terra, magro, magro, só ossos,
Não existir mais.
II
Há muito o meu coração está seco,
Há muito a tristeza do abandono,
A desolação das coisas práticas
Entrou em mim, me diminuindo.
Porém de repente será talvez a contemplação
De um céu noturno como mais belo não vi,
Com estrelas de um brilho incrível,
De uma pureza incalculável, incrível.
A poesia voltará de novo ao meu coração
Como a chuva caindo na terra queimada.
Como o sol clareando a tristeza das cidades,
Das ruas, dos quintais, dos tristes e dos doentes.
A poesia voltará de novo, única solução para mim,
Única solução para o peso dos meus desenganos,
Depois de todas as soluções terem falhado:
O amor, os seguros, a água, a borracha.
A poesia voltará de novo, consoladora e boa,
Com uma frescura de mãos santas de virgem,
Com uma bondade de heroísmos terríveis,
Com uma violência de convicções inabaláveis.
Verei fugir todas as minhas amargas queixas de repente.
Tudo me parecerá de novo exato, sólido, reto,
A poesia restabelecerá em mim o equilíbrio perdido.
À poesia cairá em mim como um raio.
À Maneira de E.e. Cummings
Thank you for the exquisite jam
Th
an
k you
too
) or also (
for the
71
Cumm
ings"
po? e! ms!!
An
d now —
get into this brazilian hammock and
let me sing for you:
"Lullaby
"Sleep on and on..."
Xaire, Elisabeth.
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Cumm
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po? e! ms!!
An
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get into this brazilian hammock and
let me sing for you:
"Lullaby
"Sleep on and on..."
Xaire, Elisabeth.
À Maneira de Olegário Mariano
Triste flor de milonga ao abandono,
Betsabé, Betsabé, que mal me fazes!
Ontem, a coqueluche dos rapazes,
E agora? pobre pássaro sem dono.
Primavera e verão foram-se. O outono
Chegou. Folhas no chão... Névoas falazes...
E aí vem o inverno... O fim das lindas frases...
O último sonho, e após, o último sono!
As cigarras calaram-se. Era tarde!
E hoje que no teu sangue já não arde
O fogo em que tanta alma se abrasou,
Choras, sem compreenderes que a saudade
É um bem maior do que a felicidade,
Porque é a felicidade que ficou!
Betsabé, Betsabé, que mal me fazes!
Ontem, a coqueluche dos rapazes,
E agora? pobre pássaro sem dono.
Primavera e verão foram-se. O outono
Chegou. Folhas no chão... Névoas falazes...
E aí vem o inverno... O fim das lindas frases...
O último sonho, e após, o último sono!
As cigarras calaram-se. Era tarde!
E hoje que no teu sangue já não arde
O fogo em que tanta alma se abrasou,
Choras, sem compreenderes que a saudade
É um bem maior do que a felicidade,
Porque é a felicidade que ficou!
A Maria da Glória
Maria dá glória a menina,
Mas esta dá glória a Maria.
Então viva muito a menina
Para glória maior de Maria.
Mas esta dá glória a Maria.
Então viva muito a menina
Para glória maior de Maria.
A Moussy
De John o agrado mais terno,
De Tontje o olhar mais risonho
Tomo e com eles componho
Alguma coisa de eterno,
De fino, de leve — um sonho,
Um pensamento, um perfume,
À carícia mais querida,
— Um beijo, em que se resume
Toda a afeição de uma vida.
De Tontje o olhar mais risonho
Tomo e com eles componho
Alguma coisa de eterno,
De fino, de leve — um sonho,
Um pensamento, um perfume,
À carícia mais querida,
— Um beijo, em que se resume
Toda a afeição de uma vida.
Adalardo
Adalardo! Nome assim
Não parece de homem não.
De estrela alfa, isto sim,
De grande constelação.
Você sempre foi, aliás,
No seu ar fino e galhardo,
Digno do nome que traz,
Meu caro amigo Adalardo.
Não parece de homem não.
De estrela alfa, isto sim,
De grande constelação.
Você sempre foi, aliás,
No seu ar fino e galhardo,
Digno do nome que traz,
Meu caro amigo Adalardo.
Adalgisa
No Hotel D. Pedro
Há uma janela
Onde verás
A planta bela,
Penhor amável
De afeto antigo,
Mandada ao poeta
Que é teu amigo,
Que é teu criado,
Teu fã também,
Agora e na hora
Da morte, amém!
Há uma janela
Onde verás
A planta bela,
Penhor amável
De afeto antigo,
Mandada ao poeta
Que é teu amigo,
Que é teu criado,
Teu fã também,
Agora e na hora
Da morte, amém!
Adivinha
O animal deu nome às ilhas:
Estas deram nome à ave.
O animal como se chama?
Como se chamam as ilhas?
E como se chama a ave?
— Responda, senhor ou dama.
Estas deram nome à ave.
O animal como se chama?
Como se chamam as ilhas?
E como se chama a ave?
— Responda, senhor ou dama.
Agradecendo Doces a Stella Leonardos
1. Doces de açúcar e gemas
São teus versos, e teus doces
Sabem a poemas: não fosses
Toda doce em cada poema!
2. Pouco e coco rimam, sim,
Mas quando o coco é o seu coco,
Que, por mais que seja, é pouco
(Pelo menos para mim!).
3. Não veio doce, mas veio
Verso seu, que me é tão doce
Como se doce ele fosse:
Mais que doce: doce e meio!
São teus versos, e teus doces
Sabem a poemas: não fosses
Toda doce em cada poema!
2. Pouco e coco rimam, sim,
Mas quando o coco é o seu coco,
Que, por mais que seja, é pouco
(Pelo menos para mim!).
3. Não veio doce, mas veio
Verso seu, que me é tão doce
Como se doce ele fosse:
Mais que doce: doce e meio!
Agradecendo Uns Maracujás
Estes não são de gaveta.
Estes são do Maranhão.
Não do Maranhão Estado,
Mas do Maranhão poeta
— Raul Maranhão chamado —
Amigo do coração.
Estes são do Maranhão.
Não do Maranhão Estado,
Mas do Maranhão poeta
— Raul Maranhão chamado —
Amigo do coração.
Allinges
Ês grande e bela, como as deusas e as esfinges
E as montanhas e o mar... És noite e aurora, Allinges!
E as montanhas e o mar... És noite e aurora, Allinges!
Alphonsus de Guimaraens Filho
Refrão de glória, eis vem no trilho
Do pai — dois mestres em refrães —
Trás Alphonsus de Guimaraens,
Alphonsus de Guimaraens Filho.
Do pai — dois mestres em refrães —
Trás Alphonsus de Guimaraens,
Alphonsus de Guimaraens Filho.
Álvaro Augusto
Hoje, afilhado, és pirralho.
Mas a infância terá fim
E a herança ilustre comanda:
Álvaro, olha que és Carvalho!
Olha que és Cesário Alvim!
Olha que és Buarque de Holanda!
Mas a infância terá fim
E a herança ilustre comanda:
Álvaro, olha que és Carvalho!
Olha que és Cesário Alvim!
Olha que és Buarque de Holanda!
Ana Margarida
Fosse eu Rubén Darío e mil
Versos faria de seguida
Chamando-te, Ana Margarida,
"La nifia bella del Brasil".
Versos faria de seguida
Chamando-te, Ana Margarida,
"La nifia bella del Brasil".
Ana Margarida Maria
Ana — Sant'Ana — principia.
Maria acaba. Entre elas brilha
Uma flor branca. E eis, maravilha
De pureza, graça, alegria,
Ana Margarida Maria.
Maria acaba. Entre elas brilha
Uma flor branca. E eis, maravilha
De pureza, graça, alegria,
Ana Margarida Maria.
André
André, André, André,
O Bandeira o que é?
É poeta ou não é?
André, André, André,
E você o que é?
É André ou Tomé,
Homem de pouca fé?
O Bandeira o que é?
É poeta ou não é?
André, André, André,
E você o que é?
É André ou Tomé,
Homem de pouca fé?
Anthony Robert
Anthony Robert,
sweet braggadocio,
be-
lieve it or not,
Ilove you much more
then you love me!
sweet braggadocio,
be-
lieve it or not,
Ilove you much more
then you love me!
Anunciação
O anjo, embuçado
Num raio X,
Curvou-se e disse:
— Chico de Assis,
Senhora Eunice,
Queríeis filho?
Pois, Deus louvado,
Me maravilho,
Que ouvidos sois:
Dar-vos-á dois!
Num raio X,
Curvou-se e disse:
— Chico de Assis,
Senhora Eunice,
Queríeis filho?
Pois, Deus louvado,
Me maravilho,
Que ouvidos sois:
Dar-vos-á dois!
Astéria
O Mestre me ensinou:
Fáculas nitentes
Como metal luzidio
Bordam as manchas
— Abismos de remoinhos electromagnéticos
A verrumar a espessura solar.
Massas de nuvens
Em colunatas coesas de fímbrias froculares
Atestam lá longe a despesa ignescente da estrela
No vômito de suas ondas
Despedidas e soltas.
O oceano celeste
Outrora tido por oco
Está cheio dessas como lavas vulcânicas
Pairando invisíveis no cosmos.
E eu as detecto no meu registro natural e inédito
— O esqueleto e modelo exterior do corpo radiário de Astéria.
Fáculas nitentes
Como metal luzidio
Bordam as manchas
— Abismos de remoinhos electromagnéticos
A verrumar a espessura solar.
Massas de nuvens
Em colunatas coesas de fímbrias froculares
Atestam lá longe a despesa ignescente da estrela
No vômito de suas ondas
Despedidas e soltas.
O oceano celeste
Outrora tido por oco
Está cheio dessas como lavas vulcânicas
Pairando invisíveis no cosmos.
E eu as detecto no meu registro natural e inédito
— O esqueleto e modelo exterior do corpo radiário de Astéria.
Augusto Frederico Schmidt
O poeta Augusto Frederico
Schmidt, de quem dizem que está rico,
Foi homem pobre, certifico,
Mas o poeta sempre foi rico.
Schmidt, de quem dizem que está rico,
Foi homem pobre, certifico,
Mas o poeta sempre foi rico.
Auto-Retrato
Provinciano que nunca soube
Escolher bem uma gravata;
Pernambucano a quem repugna
A faca do pernambucano;
Poeta ruim que na arte da prosa
Envelheceu na infância da arte,
E até mesmo escrevendo crônicas
Ficou cronista de província;
Arquiteto falhado, músico
Falhado (engoliu um dia
Um piano, mas o teclado
Ficou de fora); sem família,
Religião ou filosofia;
Mal tendo a inquietação de espírito
Que vem do sobrenatural,
E em matéria de profissão
Um tísico profissional.
Escolher bem uma gravata;
Pernambucano a quem repugna
A faca do pernambucano;
Poeta ruim que na arte da prosa
Envelheceu na infância da arte,
E até mesmo escrevendo crônicas
Ficou cronista de província;
Arquiteto falhado, músico
Falhado (engoliu um dia
Um piano, mas o teclado
Ficou de fora); sem família,
Religião ou filosofia;
Mal tendo a inquietação de espírito
Que vem do sobrenatural,
E em matéria de profissão
Um tísico profissional.
Balanço de Março de 1959
Março. Visita da princesa inglesa.
Raivou o calor desabaladamente.
Foi culpa mesmo da duquesa,
Que é Kent.
Fui ao Museu de Arte Moderna,
À exposição dos neoconcretos.
Motivos por demais secretos
Poderão construir obra eterna?
Em Lígia, tão dotada, a pintura transcende
À tela e incorpora a moldura.
Vendo e escutando é que se aprende:
Aprendi, mas não vi pintura.
Uma palavra só e em torno
Muito branco basta a Gullar
Para um belo poema compor
No estilo mais oracular.
Minha amiguinha X pretende
Que o entende. Será que entende?
Jaime Maurício me apresenta
era Pedrosa, hoje Martins.
Saio azul na tarde nevoenta,
Neoconcretizado até os rins.
Deixa Boto — última prova
Em sua terrena lida —
"Os movimentos da vida
Pelos silêncios da cova."
Raivou o calor desabaladamente.
Foi culpa mesmo da duquesa,
Que é Kent.
Fui ao Museu de Arte Moderna,
À exposição dos neoconcretos.
Motivos por demais secretos
Poderão construir obra eterna?
Em Lígia, tão dotada, a pintura transcende
À tela e incorpora a moldura.
Vendo e escutando é que se aprende:
Aprendi, mas não vi pintura.
Uma palavra só e em torno
Muito branco basta a Gullar
Para um belo poema compor
No estilo mais oracular.
Minha amiguinha X pretende
Que o entende. Será que entende?
Jaime Maurício me apresenta
era Pedrosa, hoje Martins.
Saio azul na tarde nevoenta,
Neoconcretizado até os rins.
Deixa Boto — última prova
Em sua terrena lida —
"Os movimentos da vida
Pelos silêncios da cova."
Bela
Bela, Bela, ritornelo
Seja em tua vida, espero :
Belo, belo, belo, belo,
Tenho tudo quanto quero!
Seja em tua vida, espero :
Belo, belo, belo, belo,
Tenho tudo quanto quero!
Bodas de Ouro
Bondade é coisa que na vida
— Nesta vida decepcionante —
Nenhum prêmio, nenhum tesouro,
Nenhuma recompensa paga:
Bondade de Mestre Aguinaga,
À quem, depois das bodas de ouro,
Desejamos as de brilhante.
(Depois as do céu, na outra vida...)
— Nesta vida decepcionante —
Nenhum prêmio, nenhum tesouro,
Nenhuma recompensa paga:
Bondade de Mestre Aguinaga,
À quem, depois das bodas de ouro,
Desejamos as de brilhante.
(Depois as do céu, na outra vida...)
Brigadeiro Praticante
O Brigadeiro é católico:
Vai à igreja, ajoelha e reza.
Mas quando bate no peito,
Bate em rocha de certeza;
— É direito!
Brigadeiro praticante,
Comunga, e quando comunga,
Incorpora um Deus ativo:
Não o Deus, inútil calunga,
Sim o Deus vivo!
O Deus que acende nos homens
A chama da caridade,
Do dever sem recompensa:
Deus que a força da humildade
Faz imensa!
Comunga, mas não comunga
Com os impostores ateus
e os ricos do Estado Novo:
Comunga só com o seu Deus
E com o povo!
Vai à igreja, ajoelha e reza.
Mas quando bate no peito,
Bate em rocha de certeza;
— É direito!
Brigadeiro praticante,
Comunga, e quando comunga,
Incorpora um Deus ativo:
Não o Deus, inútil calunga,
Sim o Deus vivo!
O Deus que acende nos homens
A chama da caridade,
Do dever sem recompensa:
Deus que a força da humildade
Faz imensa!
Comunga, mas não comunga
Com os impostores ateus
e os ricos do Estado Novo:
Comunga só com o seu Deus
E com o povo!
Cantiga de Amor
Mulheres neste mundo de meu Deus
Tenho visto muitas — grandes, pequenas,
Ruivas, castanhas, brancas e morenas.
E amei-as, por mal dos pecados meus!
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!
Andei por São Paulo e pelo Ceará
(Não falo em Pernambuco, onde nasci),
Bahia, Minas, Belém do Pará...
De muito olhar de mulher já sofri!
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!
Atravessei o mar e, no estrangeiro,
Em Paris, Basiléia e nos Grisões,
Lugano, Gênova por derradeiro,
Vi mulheres de todas as nações.
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!
Mulher bonita não falta, ai de mim!
Nenhuma porém, tão bonita assim!
Tenho visto muitas — grandes, pequenas,
Ruivas, castanhas, brancas e morenas.
E amei-as, por mal dos pecados meus!
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!
Andei por São Paulo e pelo Ceará
(Não falo em Pernambuco, onde nasci),
Bahia, Minas, Belém do Pará...
De muito olhar de mulher já sofri!
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!
Atravessei o mar e, no estrangeiro,
Em Paris, Basiléia e nos Grisões,
Lugano, Gênova por derradeiro,
Vi mulheres de todas as nações.
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!
Mulher bonita não falta, ai de mim!
Nenhuma porém, tão bonita assim!
Carla
Carla, és bonita. Pudera!
Sendo filhinha de Allinges,
O fato era de prever.
Mas o que ver eu quisera
É se a beleza materna
Tu, quando mulher, atinges,
Doce e pequenino ser
Feito da essência mais terna.
Sendo filhinha de Allinges,
O fato era de prever.
Mas o que ver eu quisera
É se a beleza materna
Tu, quando mulher, atinges,
Doce e pequenino ser
Feito da essência mais terna.
Carlos Chagas Filho
Não degenera quem sai
Aos seus — é a lição da História.
Este, que com grande brilho
Já foi Carlos Chagas Filho,
Junta à do pai nova glória,
E hoje é Carlos Chagas pai.
Aos seus — é a lição da História.
Este, que com grande brilho
Já foi Carlos Chagas Filho,
Junta à do pai nova glória,
E hoje é Carlos Chagas pai.
Carlos Drummond de Andrade
O sentimento do mundo
É amargo, ó meu poeta irmão!
Se eu me chamasse Raimundo!...
Não, não era solução.
Para dizer a verdade,
O nome que invejo a fundo
É Carlos Drummond de Andrade.
É amargo, ó meu poeta irmão!
Se eu me chamasse Raimundo!...
Não, não era solução.
Para dizer a verdade,
O nome que invejo a fundo
É Carlos Drummond de Andrade.
Cartão-postal
Paris encanta. Londres mete medo.
Paris é a maior... ninguém se iluda.
Por intermédio meu, amigo Lêdo,
a Coluna Vendôme te saúda!
Paris é a maior... ninguém se iluda.
Por intermédio meu, amigo Lêdo,
a Coluna Vendôme te saúda!
Carta-poema
Excelentíssimo Prefeito
Senhor Hildebrando de Góis,
Permiti que, rendido o preito
A que fazeis jus por quem sois,
Um poeta já sexagenário,
Que não tem outra aspiração
Senão viver de seu salário
Na sua limpa solidão,
Peça vistoria e visita
A este pátio para onde dá
O apartamento que ele habita
No Castelo há dois anos já.
É um pátio, mas é via pública,
E estando ainda por calçar,
Faz a vergonha da República
Junto à Avenida Beira-Mar!
Indiferentes ao capricho
Das posturas municipais,
A ele jogam todo o seu lixo
Os moradores sem quintais.
Que imundície! Tripas de peixe,
Cascas de fruta e ovo, papéis...
-Não é natural que me queixe?
Meu Prefeito, vinde e vereis!
Quando chove, o chão vira lama:
São atoleiros, lodaçais,
Que disputam a palma à fama
Das velhas maremas letais!
A um distinto amigo europeu
Disse eu: — Não é no Paraguai
Que fica o Grande Chaco, este é O
Grande Chaco! Senão, olhai!
Excelentíssimo Prefeito
Hildebrando Araújo de Góis,
A quem humilde rendo preito,
Por serdes vós, senhor, quem sois:
Mandai calçar a via pública
Que, sendo um vasto lagamar,
Faz a vergonha da República
Junto à Avenida Beira-Mar!
Senhor Hildebrando de Góis,
Permiti que, rendido o preito
A que fazeis jus por quem sois,
Um poeta já sexagenário,
Que não tem outra aspiração
Senão viver de seu salário
Na sua limpa solidão,
Peça vistoria e visita
A este pátio para onde dá
O apartamento que ele habita
No Castelo há dois anos já.
É um pátio, mas é via pública,
E estando ainda por calçar,
Faz a vergonha da República
Junto à Avenida Beira-Mar!
Indiferentes ao capricho
Das posturas municipais,
A ele jogam todo o seu lixo
Os moradores sem quintais.
Que imundície! Tripas de peixe,
Cascas de fruta e ovo, papéis...
-Não é natural que me queixe?
Meu Prefeito, vinde e vereis!
Quando chove, o chão vira lama:
São atoleiros, lodaçais,
Que disputam a palma à fama
Das velhas maremas letais!
A um distinto amigo europeu
Disse eu: — Não é no Paraguai
Que fica o Grande Chaco, este é O
Grande Chaco! Senão, olhai!
Excelentíssimo Prefeito
Hildebrando Araújo de Góis,
A quem humilde rendo preito,
Por serdes vós, senhor, quem sois:
Mandai calçar a via pública
Que, sendo um vasto lagamar,
Faz a vergonha da República
Junto à Avenida Beira-Mar!
Célia
Que idade risonha e bela,
Célia, a dos vinte anos! Eu
Que já possuo de meu
Perto de três vezes ela,
Os teus vinte anos saúdo,
Desejando que os renoves,
Faças conta e fora os noves,
Te reste em venturas tudo!
Célia, a dos vinte anos! Eu
Que já possuo de meu
Perto de três vezes ela,
Os teus vinte anos saúdo,
Desejando que os renoves,
Faças conta e fora os noves,
Te reste em venturas tudo!
Celina Ferreira
Não me tocou levemente:
Tocou-me fundo,
Celina, a tua poesia,
Que me tornou para sempre
Seu cúmplice.
Tocou-me fundo,
Celina, a tua poesia,
Que me tornou para sempre
Seu cúmplice.
Clara de Andrade
Trago n'alma a devoção
Da mais pura claridade.
Clara d'Ellébeuse? Não!
Clara, mas Clara de Andrade.
Da mais pura claridade.
Clara d'Ellébeuse? Não!
Clara, mas Clara de Andrade.
Clara Ramos
Já cantei Clara de Andrade;
Hoje canto Clara Ramos.
De Graciliano, que amamos,
Grácil filha e claridade.
Hoje canto Clara Ramos.
De Graciliano, que amamos,
Grácil filha e claridade.
Craveiro, Dá-me Uma Rosa
Craveiro, dá-me uma rosa!
Mas não qualquer, General:
Que eu quero, Craveiro, a rosa
Mais linda de Portugal!
Não me dês rosa de sal.
Não me dês rosa de azar.
Não me dês, Craveiro, rosa
Dos jardins de Salazar!
A Portugal mando um cravo.
Mas não qualquer, General:
Mando o cravo mais bonito
Da minha terra natal!
Não cravo de Juscelino,
Nem de nenhum general!
Não cravo (se há lá já cravos!)
Da futura capital.
Mando o puro cravo branco
Da pátria não oficial:
Cravo de amor, — sem política,
Só de amor, meu General.
Mas não qualquer, General:
Que eu quero, Craveiro, a rosa
Mais linda de Portugal!
Não me dês rosa de sal.
Não me dês rosa de azar.
Não me dês, Craveiro, rosa
Dos jardins de Salazar!
A Portugal mando um cravo.
Mas não qualquer, General:
Mando o cravo mais bonito
Da minha terra natal!
Não cravo de Juscelino,
Nem de nenhum general!
Não cravo (se há lá já cravos!)
Da futura capital.
Mando o puro cravo branco
Da pátria não oficial:
Cravo de amor, — sem política,
Só de amor, meu General.
Cristina Isabel
Viva a xará da Imperatriz,
Da Princesa e da Mãe de Deus!
Viva a que é a mais moça dos seus
E a mais nova das minhas Musas,
Toda graça, encanto e harmonia,
Geração de um casal feliz,
Sobre a qual, sobre o qual, profusas,
Chovam as bênçãos de Maria!
Da Princesa e da Mãe de Deus!
Viva a que é a mais moça dos seus
E a mais nova das minhas Musas,
Toda graça, encanto e harmonia,
Geração de um casal feliz,
Sobre a qual, sobre o qual, profusas,
Chovam as bênçãos de Maria!
Dedicatória de Opus 10
A Tiago e Pomona
A Tiago e Pomona ofereço
Meu Opus 10, exemplar A.
E com este voto ofereço:
Deus bem-fade a vida em começo
Do opus 1 deles, meu xará.
— Meu imprevisível xará.
A Tiago e Pomona ofereço
Meu Opus 10, exemplar A.
E com este voto ofereço:
Deus bem-fade a vida em começo
Do opus 1 deles, meu xará.
— Meu imprevisível xará.
Dedicatórias da Primeira Edição
A MOUSSY EJO
Malungo, malungulungo,
Malungo, malungulô.
Com todo o amor do malungo
Para Moussy e para Jo.
A RACHEL
À grande e cara Rachel
Mando este livro, no qual
Ruim é a parte do Manuel,
Ótima a do João Cabral.
A SANTA ROSA
Quem é malungo, malunga.
Se não presta este Mafuá,
Ponha, meu Santa, um calunga
No ante-rosto, e prestará.
A VINÍCIUS
Penico é também cabungo,
Ma foi! São tais exercícios
Cabungagens que o malungo
Envia ao caro Vinícius.
A PRUDENTE
Malungo Manuel envia
Isto ao malungo Prudente.
Sei que é mofina a poesia,
Mas que papel excelente!
A ALFONSO REYES
No es Pegaso, sino un matungo
El caballo de mi poesía:
Simple homenaje del malungo
Al maestro de Cortesia.
A MURILO E SAUDADE
Murilo de olhos de santo,
Saudade de olhos de mel,
Pode não ter grande encanto,
Mas é vosso este Manuel.
A CARPEAUX
Malungo, malungulungo,
Malungo, malunguló.
Homenagem do malungo
A Otto Maria Carpeaux.
A LAURO ESCOREL
Maus versos em bom papel,
Aqui vai, Lauro Escorel,
O mafuá do Manuel.
A MARIA
Malungo Manuel envia
Isto à malunga Maria.
A MURILO MIRANDA
Bandeira manda a Miranda,
Ao fino, ao raro editor
Esta versalhada, e manda-a
Pela edição, que é um primor.
A HOMERO ICAZA SÁNCHEZ
— Are you Homer?
— Oh no! Pm Icaza Sánchez.
— Then a malungo?
— Definitely!
— Well, here you are!
A LÊDO IVO
Lêdo, amor com amor se
paga. Por isso, neste quarteto, retribuo com o Mafuá
o Acontecimento do Soneto.
Malungo, malungulungo,
Malungo, malungulô.
Com todo o amor do malungo
Para Moussy e para Jo.
A RACHEL
À grande e cara Rachel
Mando este livro, no qual
Ruim é a parte do Manuel,
Ótima a do João Cabral.
A SANTA ROSA
Quem é malungo, malunga.
Se não presta este Mafuá,
Ponha, meu Santa, um calunga
No ante-rosto, e prestará.
A VINÍCIUS
Penico é também cabungo,
Ma foi! São tais exercícios
Cabungagens que o malungo
Envia ao caro Vinícius.
A PRUDENTE
Malungo Manuel envia
Isto ao malungo Prudente.
Sei que é mofina a poesia,
Mas que papel excelente!
A ALFONSO REYES
No es Pegaso, sino un matungo
El caballo de mi poesía:
Simple homenaje del malungo
Al maestro de Cortesia.
A MURILO E SAUDADE
Murilo de olhos de santo,
Saudade de olhos de mel,
Pode não ter grande encanto,
Mas é vosso este Manuel.
A CARPEAUX
Malungo, malungulungo,
Malungo, malunguló.
Homenagem do malungo
A Otto Maria Carpeaux.
A LAURO ESCOREL
Maus versos em bom papel,
Aqui vai, Lauro Escorel,
O mafuá do Manuel.
A MARIA
Malungo Manuel envia
Isto à malunga Maria.
A MURILO MIRANDA
Bandeira manda a Miranda,
Ao fino, ao raro editor
Esta versalhada, e manda-a
Pela edição, que é um primor.
A HOMERO ICAZA SÁNCHEZ
— Are you Homer?
— Oh no! Pm Icaza Sánchez.
— Then a malungo?
— Definitely!
— Well, here you are!
A LÊDO IVO
Lêdo, amor com amor se
paga. Por isso, neste quarteto, retribuo com o Mafuá
o Acontecimento do Soneto.
Dois Anúncios
I- RONDÓ DE EFEITO
Olhei pra ela com toda a força.
Disse que ela era boa.
Que ela era gostosa,
Que ela era bonita pra burro:
Não fez efeito.
Virei pirata:
Dei em cima dela de todas as maneiras,
Utilizei o bonde, o automóvel, o passeio a pé,
Falei de macumba, ofereci pó...
À toa: não fez efeito.
Então banquei o sentimental:
Fiquei com olheiras,
Ajoelhei,
Chorei,
Me rasguei todo,
Fiz versinhos,
Cantei as modinhas mais tristes do repertório do Nôzinho.
Escrevi cartinhas e pra acertar a mão, li Elvira a Morta Virgem, romance primoroso e por tal forma comovente que ninguém pode lê-lo sem derramar copiosas lágrimas...
Perdi meu tempo: não fez efeito.
Meu Deus que mulher durinha!
Foi um buraco na minha vida.
Mas eu mato ela na cabeça:
Vou lhe mandar uma caixinha de Minorativas,
Pastilhas purgativas:
É impossível que não faça efeito!
II - COLÓQUIO SENTIMENTAL
— Não faça assim bichinho. O Segredo da Beleza diz: "Certo, um lindo seio apontando orgulhosamente o céu, é coisa rara. Mas a culpa cabe muitas vezes às próprias mulheres. Não cuidam deles. Deixam-nos magoar pelos dedos estouvados, esses belos frutos tão frágeis."
— Não tenha receio, meu coração. Farei massagens, como manda o livro. Com muita leveza, em sentido circular... começando pela implantação e acabando nas pontas...
— Com creme de pétalas de rosas?
— Com creme de pétalas de rosas...
— E ficarão firmes?
— Ora se!
— Como o Pão de Açúcar?...
— Como a Sul América!
Olhei pra ela com toda a força.
Disse que ela era boa.
Que ela era gostosa,
Que ela era bonita pra burro:
Não fez efeito.
Virei pirata:
Dei em cima dela de todas as maneiras,
Utilizei o bonde, o automóvel, o passeio a pé,
Falei de macumba, ofereci pó...
À toa: não fez efeito.
Então banquei o sentimental:
Fiquei com olheiras,
Ajoelhei,
Chorei,
Me rasguei todo,
Fiz versinhos,
Cantei as modinhas mais tristes do repertório do Nôzinho.
Escrevi cartinhas e pra acertar a mão, li Elvira a Morta Virgem, romance primoroso e por tal forma comovente que ninguém pode lê-lo sem derramar copiosas lágrimas...
Perdi meu tempo: não fez efeito.
Meu Deus que mulher durinha!
Foi um buraco na minha vida.
Mas eu mato ela na cabeça:
Vou lhe mandar uma caixinha de Minorativas,
Pastilhas purgativas:
É impossível que não faça efeito!
II - COLÓQUIO SENTIMENTAL
— Não faça assim bichinho. O Segredo da Beleza diz: "Certo, um lindo seio apontando orgulhosamente o céu, é coisa rara. Mas a culpa cabe muitas vezes às próprias mulheres. Não cuidam deles. Deixam-nos magoar pelos dedos estouvados, esses belos frutos tão frágeis."
— Não tenha receio, meu coração. Farei massagens, como manda o livro. Com muita leveza, em sentido circular... começando pela implantação e acabando nas pontas...
— Com creme de pétalas de rosas?
— Com creme de pétalas de rosas...
— E ficarão firmes?
— Ora se!
— Como o Pão de Açúcar?...
— Como a Sul América!
Duas Marias
Duas Marias: Cristina
E sua gêmea Isabel.
A ambas saúda e se assina
Servo e admirador Manuel.
Pincel que pintar Cristina
Tem que pintar Isabel.
Se o pintor for o Candinho,
Então é a sopa no mel.
Dorme sem susto, Cristina,
Dorme sem medo, Isabel:
Nossa Senhora vos nina,
Ao pé está o Anjo Gabriel.
E sua gêmea Isabel.
A ambas saúda e se assina
Servo e admirador Manuel.
Pincel que pintar Cristina
Tem que pintar Isabel.
Se o pintor for o Candinho,
Então é a sopa no mel.
Dorme sem susto, Cristina,
Dorme sem medo, Isabel:
Nossa Senhora vos nina,
Ao pé está o Anjo Gabriel.
Edmée
Que delícia na mata o fio d'água
Da fresca fonte para a sede grande!
(Assim a tua voz, límpida água
Para outra sede, Edmée Brandi.)
Da fresca fonte para a sede grande!
(Assim a tua voz, límpida água
Para outra sede, Edmée Brandi.)
Eduarda
Mais do que tu de mim
Gosto, Eduarda, de ti.
Ês mais que sapoti,
Sereia, és sapotim.
Gosto, Eduarda, de ti.
Ês mais que sapoti,
Sereia, és sapotim.
Elegia de Agosto
Não os decepcionarei.
Jânio Quadros, São Paulo, 6.X.60
A nação elegeu-o seu Presidente
Certa de que ele jamais a decepcionaria.
De fato,
Durante seis meses,
O eleito governou com honestidade,
Com desvelo,
Com bravura.
Mas um dia,
De repente,
Lhe deu a louca
E ele renunciou.
Renunciou sem ouvir ninguém.
Renunciou sacrificando o seu país e os seus amigos.
Renunciou carismaticamente, falando nos pobres e humildes que é tão difícil ajudar.
Explicou: "Não nasci presidente.
Nasci com a minha consciência.
Quero ficar em paz com a minha consciência."
Agora vai viajar.
Vai viajar longamente no exterior.
Está em paz com a sua consciência.
Ouviram bem?
ESTÁ EM PAZ COM A SUA CONSCIÊNCIA
E que se danem os pobres e humildes que é tão difícil ajudar.
Jânio Quadros, São Paulo, 6.X.60
A nação elegeu-o seu Presidente
Certa de que ele jamais a decepcionaria.
De fato,
Durante seis meses,
O eleito governou com honestidade,
Com desvelo,
Com bravura.
Mas um dia,
De repente,
Lhe deu a louca
E ele renunciou.
Renunciou sem ouvir ninguém.
Renunciou sacrificando o seu país e os seus amigos.
Renunciou carismaticamente, falando nos pobres e humildes que é tão difícil ajudar.
Explicou: "Não nasci presidente.
Nasci com a minha consciência.
Quero ficar em paz com a minha consciência."
Agora vai viajar.
Vai viajar longamente no exterior.
Está em paz com a sua consciência.
Ouviram bem?
ESTÁ EM PAZ COM A SUA CONSCIÊNCIA
E que se danem os pobres e humildes que é tão difícil ajudar.
Elegia Inútil
Lágrimas, duas a duas,
choraram dentro de mim,
ao ler que o Prefeito Alvim
mudou o nome de muitas ruas.
Nomes de ruas que havia
no Rio de antigamente!
(A respeito, minha gente,
ainda há a Rua da Alegria?)
Eram tão lindos! Assim:
Rua Bela da Princesa
(que distinção, que beleza!
nome que cheira a jardim).
Rua Direita da Sé:
nome firme, nome nobre;
nome em que nada há que dobre;
nome-afirmação de fé!
Havia as ruas de ofício:
Dos Ourives, dos Latoeiros...
Becos: Beco dos Ferreiros...
E havia as ruas do vício...
Muito nome foi mudado,
mas o novo não pegou:
nunca ninguém não falou
senão Largo do Machado.
(Este nome pode ser,
quando muito, acrescentado,
assim, Largo do Machado
de Assis gosto de dizer.
Na do Catete, contou-me
Z.., o mestre escreveu Brás Cubas.
Darás na casa se subas
pela rua do seu nome.)
Esta Rua do Ouvidor
já foi Caminho do Mar!
(Ouvidor pode passar,
mas o antigo era melhor.)
Não tens laranjas, mas cheiras
aos frutos da minha infância:
ah inesquecível fragrância
da que ainda és das Laranjeiras!
O Largo da Mãe do Bispo
há muito tempo acabou-se.
(E hoje acabou o que era doce
ainda: a Rua do Bispo...)
Vais ter um nome pequeno,
Rua do Jogo da Bola!
Vais ter um nome pachola,
ai Travessa do Sereno!
choraram dentro de mim,
ao ler que o Prefeito Alvim
mudou o nome de muitas ruas.
Nomes de ruas que havia
no Rio de antigamente!
(A respeito, minha gente,
ainda há a Rua da Alegria?)
Eram tão lindos! Assim:
Rua Bela da Princesa
(que distinção, que beleza!
nome que cheira a jardim).
Rua Direita da Sé:
nome firme, nome nobre;
nome em que nada há que dobre;
nome-afirmação de fé!
Havia as ruas de ofício:
Dos Ourives, dos Latoeiros...
Becos: Beco dos Ferreiros...
E havia as ruas do vício...
Muito nome foi mudado,
mas o novo não pegou:
nunca ninguém não falou
senão Largo do Machado.
(Este nome pode ser,
quando muito, acrescentado,
assim, Largo do Machado
de Assis gosto de dizer.
Na do Catete, contou-me
Z.., o mestre escreveu Brás Cubas.
Darás na casa se subas
pela rua do seu nome.)
Esta Rua do Ouvidor
já foi Caminho do Mar!
(Ouvidor pode passar,
mas o antigo era melhor.)
Não tens laranjas, mas cheiras
aos frutos da minha infância:
ah inesquecível fragrância
da que ainda és das Laranjeiras!
O Largo da Mãe do Bispo
há muito tempo acabou-se.
(E hoje acabou o que era doce
ainda: a Rua do Bispo...)
Vais ter um nome pequeno,
Rua do Jogo da Bola!
Vais ter um nome pachola,
ai Travessa do Sereno!
Elisa
Dizem os lábios
O que está dentro
Do coracão?
— Na face lisa
Dir-te-ão meus lábios
À mesma coisa
Que trago dentro
Do coração,
Elisa.
O que está dentro
Do coracão?
— Na face lisa
Dir-te-ão meus lábios
À mesma coisa
Que trago dentro
Do coração,
Elisa.
Embolada do Brigadeiro
— Não voto no militar; voto no homem escandaloso.
— Ué, compadre, quem é o homem escandoloso?
— O Brigadeiro.
— Escandaloso?
— Escandaloso.
— Escandaloso por quê?
— Ora, ouça lá o meu corrido:
Homem mesmo escandaloso,
Pois não mata,
Pois não furta,
Pois não mente,
Não engana, nem intriga,
Tem preceito, tem ensino:
Foi assim desde tenente,
Foi assim desde menino!
Homem mesmo escandaloso!
Não tem mancha,
Não tem medo,
Quem não sente?
Brigadeiro da fiúza,
Sem agacho, sem empino:
Foi assim desde tenente,
Foi assim desde menino!
Homem mesmo escandaloso!
Não é bruto,
Ambicioso,
Maldizente,
Nunca diz um disparate,
Nunca faz um desatino:
Foi assim desde tenente,
Foi assim desde menino!
Homem mesmo escandaloso!
Não zunzuna
Nem não fala
Atoamente:
Será nosso Presidente,
Estava no seu destino
Desde que ele era tenente,
Desde que ele era menino!
— Tem razão, compadre, vamos votar nele.
— Ué, compadre, quem é o homem escandoloso?
— O Brigadeiro.
— Escandaloso?
— Escandaloso.
— Escandaloso por quê?
— Ora, ouça lá o meu corrido:
Homem mesmo escandaloso,
Pois não mata,
Pois não furta,
Pois não mente,
Não engana, nem intriga,
Tem preceito, tem ensino:
Foi assim desde tenente,
Foi assim desde menino!
Homem mesmo escandaloso!
Não tem mancha,
Não tem medo,
Quem não sente?
Brigadeiro da fiúza,
Sem agacho, sem empino:
Foi assim desde tenente,
Foi assim desde menino!
Homem mesmo escandaloso!
Não é bruto,
Ambicioso,
Maldizente,
Nunca diz um disparate,
Nunca faz um desatino:
Foi assim desde tenente,
Foi assim desde menino!
Homem mesmo escandaloso!
Não zunzuna
Nem não fala
Atoamente:
Será nosso Presidente,
Estava no seu destino
Desde que ele era tenente,
Desde que ele era menino!
— Tem razão, compadre, vamos votar nele.
Eneida
Amigo houve aqui que excomungo:
— Amigo de cacaracá.
Tu, tão querida do malungo,
Entra, Eneida, neste mafuá.
— Amigo de cacaracá.
Tu, tão querida do malungo,
Entra, Eneida, neste mafuá.
Epitalâmio para Maria da Glória e Rodolfo
Cantei Maria da Glória
recém-nascida. Hoje canto
a mesma na plena glória
de mulher recém-casada
— adorável e adorada.
Ela, pelo seu encanto,
acabou por alcançar
com quem o mais pelo par
de que no mundo há memória
fazer. Assim Deus os fez
e os uniu. Glória ao marquês
Rodolfo! e as bênçãos não cessem
dos céus aos dois, pois merecem.
recém-nascida. Hoje canto
a mesma na plena glória
de mulher recém-casada
— adorável e adorada.
Ela, pelo seu encanto,
acabou por alcançar
com quem o mais pelo par
de que no mundo há memória
fazer. Assim Deus os fez
e os uniu. Glória ao marquês
Rodolfo! e as bênçãos não cessem
dos céus aos dois, pois merecem.
Eunice Veiga
Eunice meiga,
Eunice linda...
Que mais ainda?
— Eunice Veiga!
Eunice linda...
Que mais ainda?
— Eunice Veiga!
Fidelino de Figueiredo
Figueiredo Fidelino,
Fidelíssimo e sincero,
Ser-me-á prazer superfino
Ler o retrato do Antero;
Mas como é de bom ensino
Desde já mandar eu quero
Ao mestre que amo e venero
Meu abraço manuelino.
Fidelíssimo e sincero,
Ser-me-á prazer superfino
Ler o retrato do Antero;
Mas como é de bom ensino
Desde já mandar eu quero
Ao mestre que amo e venero
Meu abraço manuelino.
Francisca
Francisca, me dá
Tudo aquilo que
Não gostas em ti.
E eu farei com isso
Um prazer tão grande
— Mais lindo que as nuvens
Da alvorada clara!
Mais doce que a brisa
Da alvorada fresca!
Francisca, Francisca!
Tudo aquilo que
Não gostas em ti.
E eu farei com isso
Um prazer tão grande
— Mais lindo que as nuvens
Da alvorada clara!
Mais doce que a brisa
Da alvorada fresca!
Francisca, Francisca!
Francisca
Francisca, Chica, Chiquita,
Qualquer petit nom que tome,
Quero que seja bonita
Como é bonito o seu nome!
Qualquer petit nom que tome,
Quero que seja bonita
Como é bonito o seu nome!
G.s. de Clerk Júnior
Honra ao holandês exemplar
Ao amigo tão verdadeiro
Que, sem se naturalizar
Se tornou grande brasileiro!
Ao amigo tão verdadeiro
Que, sem se naturalizar
Se tornou grande brasileiro!
Helena Maria
Helena Maria:
O preto no branco,
No branco a poesia,
No preto esse arranco
"Da alma forte e pura
Em sua ternura.
O preto no branco,
No branco a poesia,
No preto esse arranco
"Da alma forte e pura
Em sua ternura.
Hilda Moscoso
O poeta te deseja, Hilda, o favor divino
Neste metro, como teu pai, alexandrino.
Neste metro, como teu pai, alexandrino.
Homero Icaza
En el día 10 de Enero
Del anio de 62.
Ruego a la Fortuna, a la vida,
A todas las Santas — y a Dios —
Concedan a Homero de Homero
La cosa más apetecida...
En el día 10 de Enero
Del afio de 62
Del anio de 62.
Ruego a la Fortuna, a la vida,
A todas las Santas — y a Dios —
Concedan a Homero de Homero
La cosa más apetecida...
En el día 10 de Enero
Del afio de 62
Idílio na Praia
Nudez anatômica
Onde madrugais
Areia dormente!
Quem vem lá, Vinícius
Não o de Morais
Mas o de imorais
Poemas vai perdido
Tão perdidamente
Pela bomba atômica.
E diz-lhe ao ouvido:
— Ai bombinha atômica
Vem comigo vem!
Sou tão delicado
Sou um monstrozinho
De delicadeza!
Meu amor meu bem
Me ama me possui
Me faz em pedaços!
Já não sou Vinícius
Sou o que jamais
Fui: Mar de Sargaços
Cabo Guardafui!
Cantarei na lira
Casimiriana
Versos que esqueceram
Às musas de Gôngora!
E te chamarei
Cupincha Nux Vomica
Oriana Ariana!
Ah mal sei que e é igual
a mc2
Perdão bomba atômica!
Sou um sórdido poeta
Fundo em matemática
E te amo ai de mim!
Vem ó pomba atômica!
Vem minha bombinha
Pombinha rolinha
Do meu coração!
Vem como és agora:
Te quero novinha
Donzela pucela
Antes da ebaente
Desintegração!
Onde madrugais
Areia dormente!
Quem vem lá, Vinícius
Não o de Morais
Mas o de imorais
Poemas vai perdido
Tão perdidamente
Pela bomba atômica.
E diz-lhe ao ouvido:
— Ai bombinha atômica
Vem comigo vem!
Sou tão delicado
Sou um monstrozinho
De delicadeza!
Meu amor meu bem
Me ama me possui
Me faz em pedaços!
Já não sou Vinícius
Sou o que jamais
Fui: Mar de Sargaços
Cabo Guardafui!
Cantarei na lira
Casimiriana
Versos que esqueceram
Às musas de Gôngora!
E te chamarei
Cupincha Nux Vomica
Oriana Ariana!
Ah mal sei que e é igual
a mc2
Perdão bomba atômica!
Sou um sórdido poeta
Fundo em matemática
E te amo ai de mim!
Vem ó pomba atômica!
Vem minha bombinha
Pombinha rolinha
Do meu coração!
Vem como és agora:
Te quero novinha
Donzela pucela
Antes da ebaente
Desintegração!
Imagens de Juiz de Fora
I
Vejo-a dançando tão leve e linda,
Tão linda e leve como nenhuma
Não dança, voa como uma pluma
Largada ao vento.
E quando passa, dançando ainda,
Leva consigo meu pensamento.
II
Entras, mimosa e cândida,
E enleado em teu perfume
Gagueja um poeta pálido:
Du bist wie eine Blume...
III
Soltos, desnastros,
Esvoaçantes,
Num fulgor de astros,
Quem dera vê-los,
Nas madrugadas,
Os teus cabelos,
Loucos, errantes,
Sobre as espáduas maravilhadas!...
IV
Qual o mistério de terdes
Uns olhos que tanto encantam?
Que sereias é que cantam
Na água desses olhos verdes?
V
Aparece... E uma luz irradia na sala
Como de uma primeira estrela em céu de opala.
Vejo-a dançando tão leve e linda,
Tão linda e leve como nenhuma
Não dança, voa como uma pluma
Largada ao vento.
E quando passa, dançando ainda,
Leva consigo meu pensamento.
II
Entras, mimosa e cândida,
E enleado em teu perfume
Gagueja um poeta pálido:
Du bist wie eine Blume...
III
Soltos, desnastros,
Esvoaçantes,
Num fulgor de astros,
Quem dera vê-los,
Nas madrugadas,
Os teus cabelos,
Loucos, errantes,
Sobre as espáduas maravilhadas!...
IV
Qual o mistério de terdes
Uns olhos que tanto encantam?
Que sereias é que cantam
Na água desses olhos verdes?
V
Aparece... E uma luz irradia na sala
Como de uma primeira estrela em céu de opala.
Improviso
Glória aos poetas de Portugal.
Glória a D. Dinis. Glória a Gil
Vicente. Glória a Camões. Glória
a Bocage, a Garrett, a João
de Deus (mas todos são de Deus,
e há um santo; Antero de Quental).
Glória a Junqueiro. Glória ao sempre
Verde Cesário. Glória a Antônio
Nobre. Glória a Eugênio de Castro.
A Pessoa e seus heterônimos.
A Camilo Pessanha. Glória
a tantos mais, a todos mais.
— Glória a Teixeira de Pascoais.
Glória a D. Dinis. Glória a Gil
Vicente. Glória a Camões. Glória
a Bocage, a Garrett, a João
de Deus (mas todos são de Deus,
e há um santo; Antero de Quental).
Glória a Junqueiro. Glória ao sempre
Verde Cesário. Glória a Antônio
Nobre. Glória a Eugênio de Castro.
A Pessoa e seus heterônimos.
A Camilo Pessanha. Glória
a tantos mais, a todos mais.
— Glória a Teixeira de Pascoais.
Isá
Quisera poder molhar
A minha pena no orvalho
Para num verso imitar
À aurora que ouço cantar
Nos olhos de Isá Bicalho.
A minha pena no orvalho
Para num verso imitar
À aurora que ouço cantar
Nos olhos de Isá Bicalho.
Isadora
Pois que és Isadora,
Dança, dança, dança.
Não direi agora
Que ainda és criança.
Mas quando chegares
A idade da trança,
Dança, dança, dança,
Dança até cansares.
Dança, dança, dança
Como na Ásia dançam
As moças de Java.
Pois que és Isadora,
Dança como outrora,
Como linda outrora
Dançava, dançava
Isadora Duncan.
Dança, dança, dança.
Não direi agora
Que ainda és criança.
Mas quando chegares
A idade da trança,
Dança, dança, dança,
Dança até cansares.
Dança, dança, dança
Como na Ásia dançam
As moças de Java.
Pois que és Isadora,
Dança como outrora,
Como linda outrora
Dançava, dançava
Isadora Duncan.
Isaías
Deus dê a este novo Isaías
Não visões, não profecias:
Dê o que falta a tanta gente
— Pureza d'alma, semente
Das celestiais alegrias.
Não visões, não profecias:
Dê o que falta a tanta gente
— Pureza d'alma, semente
Das celestiais alegrias.
Itaperuna
Primeiro houve entradas para pegar índio
Entradas para descobrir o ouro
Agora há entradas para plantar café
Um dia trouxeram da Martinica um soldadinho verde
O soldadinho juntou-se com a mulata roxa
E nasceu um exército de soldadinhos verdes
Os batalhões alinharam-se
Marcha soldado
Pé de café
E tomaram de assalto as baixadas as lombas as faldas e os contrafortes até o planalto.
Do meio deles
De Estrela boa estrela
Saiu o maior soldado brasileiro
Onde acampavam
Havia riqueza
Solares trapiches
Resendes Valenças Vassouras
Estradas reais calçadas com pedra
Os Tijucos do café
Com linhagens de barões estadistas que formaram gabinetes e deram lustre ao segundo reinado
Mas o amor do soldado derreia a mulata
O mau goza se satisfaz e
Marcha soldado
Pé de café!
Soldado gosta de mulher nova
Araçatubas de peito duro
Itaperunas de mamilo preto
Itaperuna!
Ponta de trilho da civilização cafeeira
Criação republicana e brasileira
Único município que não aderiu
Porque era republicano antes da República!
Ora esta eu agora me esqueci que não sou republicano
Ponhamos Itaperuna exceção republicana.
Desta república de paulistas baianos, paulistas pernambucanos e paulistas de Macaé!
Marcha soldado
Pé de café!
(Qual onda verde nada!
Batalhão é que é)
Batalhão de república militarista
Itaperuna exceção republicana
Itaperuna pacífica das pequenas propriedades
Das quatro mil oitocentas e seis pequenas propriedades registradas
Com os seus cinquenta e dois milhares de cafeeiros
A sua futura safra de um milhão e setecentas mil arrobas
Terra de José de Lannes
Bandeirante sem crimes na consciência
Itaperuna sem Rio das Mortes nem Mata da Traição
(Exceção republicana!)
Vértice do triângulo Itaperuna Araçatuba Paranapanema
Onde estão acampados os batalhões do café.
Marcha soldado
Pé de café
Se não marchar direito
O Brasil não fica em pé.
Entradas para descobrir o ouro
Agora há entradas para plantar café
Um dia trouxeram da Martinica um soldadinho verde
O soldadinho juntou-se com a mulata roxa
E nasceu um exército de soldadinhos verdes
Os batalhões alinharam-se
Marcha soldado
Pé de café
E tomaram de assalto as baixadas as lombas as faldas e os contrafortes até o planalto.
Do meio deles
De Estrela boa estrela
Saiu o maior soldado brasileiro
Onde acampavam
Havia riqueza
Solares trapiches
Resendes Valenças Vassouras
Estradas reais calçadas com pedra
Os Tijucos do café
Com linhagens de barões estadistas que formaram gabinetes e deram lustre ao segundo reinado
Mas o amor do soldado derreia a mulata
O mau goza se satisfaz e
Marcha soldado
Pé de café!
Soldado gosta de mulher nova
Araçatubas de peito duro
Itaperunas de mamilo preto
Itaperuna!
Ponta de trilho da civilização cafeeira
Criação republicana e brasileira
Único município que não aderiu
Porque era republicano antes da República!
Ora esta eu agora me esqueci que não sou republicano
Ponhamos Itaperuna exceção republicana.
Desta república de paulistas baianos, paulistas pernambucanos e paulistas de Macaé!
Marcha soldado
Pé de café!
(Qual onda verde nada!
Batalhão é que é)
Batalhão de república militarista
Itaperuna exceção republicana
Itaperuna pacífica das pequenas propriedades
Das quatro mil oitocentas e seis pequenas propriedades registradas
Com os seus cinquenta e dois milhares de cafeeiros
A sua futura safra de um milhão e setecentas mil arrobas
Terra de José de Lannes
Bandeirante sem crimes na consciência
Itaperuna sem Rio das Mortes nem Mata da Traição
(Exceção republicana!)
Vértice do triângulo Itaperuna Araçatuba Paranapanema
Onde estão acampados os batalhões do café.
Marcha soldado
Pé de café
Se não marchar direito
O Brasil não fica em pé.
Jaime Cortesão
Honra ao que, bom português,
Baniram do seu torrão:
Ninguém mais que ele cortês,
Ninguém menos cortesão.
Baniram do seu torrão:
Ninguém mais que ele cortês,
Ninguém menos cortesão.
Joanita
Não é Joe, não é Joana,
Nem Juanita: é Joanita.
A diferença é pequena,
Mas nessa diferencita,
Que em suma é tão pequenina,
Há a graça que não está dita,
Que é privilégio da dona,
Que já toda a gente cita
E assim talvez não reúna
Nenhuma moça bonita.
Nem Juanita: é Joanita.
A diferença é pequena,
Mas nessa diferencita,
Que em suma é tão pequenina,
Há a graça que não está dita,
Que é privilégio da dona,
Que já toda a gente cita
E assim talvez não reúna
Nenhuma moça bonita.
João Condé
Se as cores perder o João
Condé, dê-se ao descorado
Uma condecoração:
Assim, do pé, para a mão,
Ficará Condé corado.
Condé, dê-se ao descorado
Uma condecoração:
Assim, do pé, para a mão,
Ficará Condé corado.
John Talbot
John Talbot, John Talbot,
He's not very tall, but
He's a baby so sweet, so nice.
He looks like-a bird
And I never have heard
Of such kind, such lovely blue eyes.
He's not very tall, but
He's a baby so sweet, so nice.
He looks like-a bird
And I never have heard
Of such kind, such lovely blue eyes.
Josefina
Em Josefina
Modos, linguagem,
Ar, expressão,
Olhos e riso,
Riso e sorriso,
É tudo imagem
Graciosa e fina
Do coração.
Modos, linguagem,
Ar, expressão,
Olhos e riso,
Riso e sorriso,
É tudo imagem
Graciosa e fina
Do coração.
Keats
A thing of beauty is a joy
For ever, Keats exprimiu.
Mas ele próprio sentiu
Quanto essa alegria dói.
For ever, Keats exprimiu.
Mas ele próprio sentiu
Quanto essa alegria dói.
Laura Constância
Em Laura Constância
(Que delícia vê-la
Tão perto da infância!)
Saúdo a nova estrela.
(Que delícia vê-la
Tão perto da infância!)
Saúdo a nova estrela.
Leda Letícia
Leda Letícia, delícia
Dos olhos de quem a vê,
Triste de quem não a vê,
Pois não sabe o que é a delícia
Maior dos olhos, Letícia!
— Um beijo para você.
Dos olhos de quem a vê,
Triste de quem não a vê,
Pois não sabe o que é a delícia
Maior dos olhos, Letícia!
— Um beijo para você.
Lêdo Ivo
Pronuncie-se, não no exato
Padrão parnasiano Lêdo Ivo,
Mas Lêdo Ivo, com o hiato
Docemente nuncupativo.
Padrão parnasiano Lêdo Ivo,
Mas Lêdo Ivo, com o hiato
Docemente nuncupativo.
Liliana
Para a filha (Feliciana?
Joana? Bibiana? Aureliana?
Ana? Mariana? Fabiana?
Herculana? Emerenciana?
Caetana? Diana? Damiana?
Justiniana? Sebastiana?
Valeriana? Taprobana?),
Para a filha de Liliana
E para a própria Liliana
Mando um beijo de pestana.
Joana? Bibiana? Aureliana?
Ana? Mariana? Fabiana?
Herculana? Emerenciana?
Caetana? Diana? Damiana?
Justiniana? Sebastiana?
Valeriana? Taprobana?),
Para a filha de Liliana
E para a própria Liliana
Mando um beijo de pestana.
Louvado e Prece
Isabel querida
— A menininha
mais bonitinha,
mais engraçadinha,
mais bizurunguinha
que eu já vi na minha vida
— amorável,
adorável,
a d o r á v e l !
Mas é mesmo uma menina?
Ou será, Manuel,
lírio da campina
botão de rosa no galho,
ou na manhã fria
de abril, cristalina
gotinha de orvalho?
(De orvalho ou de mel?)
Se não é um doce,
é como se fosse.
É mais: um anjinho
muito seriozinho
caído do céu
por descuido, com
uma bonequinha
loura e coradinha
nos braços. Que bom
que é um anjo fresquinho
caído do céu!
Rogo a Deus, nosso Senhor,
seres meu anjo-guardião:
se um dia, seja em que for,
eu cair em tentação
(sou tão grande pecador!)
peço-te que tu me salves,
salves o bardo Manuel,
Isabel,
— Isabel Moreira Alves.
— A menininha
mais bonitinha,
mais engraçadinha,
mais bizurunguinha
que eu já vi na minha vida
— amorável,
adorável,
a d o r á v e l !
Mas é mesmo uma menina?
Ou será, Manuel,
lírio da campina
botão de rosa no galho,
ou na manhã fria
de abril, cristalina
gotinha de orvalho?
(De orvalho ou de mel?)
Se não é um doce,
é como se fosse.
É mais: um anjinho
muito seriozinho
caído do céu
por descuido, com
uma bonequinha
loura e coradinha
nos braços. Que bom
que é um anjo fresquinho
caído do céu!
Rogo a Deus, nosso Senhor,
seres meu anjo-guardião:
se um dia, seja em que for,
eu cair em tentação
(sou tão grande pecador!)
peço-te que tu me salves,
salves o bardo Manuel,
Isabel,
— Isabel Moreira Alves.
Luísa, Marina e Lúcia
Esse José Bittencourt
— Chamá-lo-ei José tout court —,
Três anjos de muita argúcia
O acompanham, todos três
Lindos, que assim Deus os fez:
Luísa, Marina e Lúcia.
São três anjinhos goianos,
Nascidos faz poucos anos.
Homem de invejável sina
Esse José! Pois três filhas
Tem, três puras maravilhas:
Luísa, Lúcia e Marina.
Jamais irei à Rumânia.
Hei de ir, porém, a Goiânia.
Não à procura de brisa,
(Se há brisa em Goiás!), mas para
Ver essa trindade rara:
Lúcia, Marina e Luísa.
— Chamá-lo-ei José tout court —,
Três anjos de muita argúcia
O acompanham, todos três
Lindos, que assim Deus os fez:
Luísa, Marina e Lúcia.
São três anjinhos goianos,
Nascidos faz poucos anos.
Homem de invejável sina
Esse José! Pois três filhas
Tem, três puras maravilhas:
Luísa, Lúcia e Marina.
Jamais irei à Rumânia.
Hei de ir, porém, a Goiânia.
Não à procura de brisa,
(Se há brisa em Goiás!), mas para
Ver essa trindade rara:
Lúcia, Marina e Luísa.
Madrigal do Pé para a Mão
Teu pé... Será início ou é
Fim? E as duas coisas teu pé.
Por quê? Os motivos são tantos!
Resumo-os sem mais tardanças:
Início dos meus encantos,
Fim das minhas esperanças.
Fim? E as duas coisas teu pé.
Por quê? Os motivos são tantos!
Resumo-os sem mais tardanças:
Início dos meus encantos,
Fim das minhas esperanças.
Madrigal Epitalâmico
Ady Marinho,
Tu tens no olhar
O sol do vinho,
O sal do mar.
Por isso enlevas
E, de roldão
E para cima,
Rendido levas
O coração
De Ermiro Lima,
Ady Marinho,
Que tens no olhar
O sol do vinho,
O sal do mar.
Tu tens no olhar
O sol do vinho,
O sal do mar.
Por isso enlevas
E, de roldão
E para cima,
Rendido levas
O coração
De Ermiro Lima,
Ady Marinho,
Que tens no olhar
O sol do vinho,
O sal do mar.
Madrigal Muito Fácil
Quando de longe te vi,
Quando de longe te via,
Gostei logo bem de ti.
Como é bonita! eu dizia.
Mas por enganar aquilo
Que dentro de mim senti,
Que dentro de mim sentia,
Pensei de mim para mim
Que a distância é que fazia
Me pareceres assim.
Não era a distância não!
Pois chegou aquele dia
Em que te apertei a mão
Sem saber o que dizia.
E vi que eras mais bonita.
Porém muito mais bonita
Do que para o meu sossego
A distância te fazia.
Quanto mais de perto mais
Bonita, era o que eu dizia!
E desde então imagino
Que mais linda te acharia,
Mais fresca, mais desejável
Mais tudo enfim, se algum dia
— Dia ou noite que marcasses —
Se algum dia me deixasses
Te ver de mais perto ainda!
Quando de longe te via,
Gostei logo bem de ti.
Como é bonita! eu dizia.
Mas por enganar aquilo
Que dentro de mim senti,
Que dentro de mim sentia,
Pensei de mim para mim
Que a distância é que fazia
Me pareceres assim.
Não era a distância não!
Pois chegou aquele dia
Em que te apertei a mão
Sem saber o que dizia.
E vi que eras mais bonita.
Porém muito mais bonita
Do que para o meu sossego
A distância te fazia.
Quanto mais de perto mais
Bonita, era o que eu dizia!
E desde então imagino
Que mais linda te acharia,
Mais fresca, mais desejável
Mais tudo enfim, se algum dia
— Dia ou noite que marcasses —
Se algum dia me deixasses
Te ver de mais perto ainda!
Madrigal para As Debutantes de 1946
Outro, não eu, ó debutantes!
Cante as galas primaveris.
Que o meu estro de relutantes
Octossílabos já senis
Mais imagina do que diz
O que nos primeiros instantes
Do amor e do sonho sentis.
Meus vinte anos vão tão distantes!
Pensando bem, jamais os fiz.
Enfermo, envelheci muito antes.
Aprendi a ser infeliz,
Deus louvado, e por isso quis
Em vossa festa, ó debutantes!
Meter, perdoai!, o meu nariz.
Cante as galas primaveris.
Que o meu estro de relutantes
Octossílabos já senis
Mais imagina do que diz
O que nos primeiros instantes
Do amor e do sonho sentis.
Meus vinte anos vão tão distantes!
Pensando bem, jamais os fiz.
Enfermo, envelheci muito antes.
Aprendi a ser infeliz,
Deus louvado, e por isso quis
Em vossa festa, ó debutantes!
Meter, perdoai!, o meu nariz.
Mag
Só mesmo um santo
(Que eu nada valho)
Pode pintar
O jeito, o encanto,
Esse carinho
Posto no rosto
(Por Deus foi posto),
Posto no olhar,
No olhar gordinho
De Mag Bicalho.
(Que eu nada valho)
Pode pintar
O jeito, o encanto,
Esse carinho
Posto no rosto
(Por Deus foi posto),
Posto no olhar,
No olhar gordinho
De Mag Bicalho.
Magu
Magu, Magu, maga magra,
Magra Magu... Mas no corpo
— Como as pequeninas ilhas —
Tem as suas redondezas,
Redonduras, redondelas,
Redondilhas!
Magu é Maria Augusta,
Mas não tem nada de augusta
E é bem pouco mariana.
Magu! Magu?... Maguzinha!
Magra Magu, besourinho
Cor de havana.
Magra Magu... Mas no corpo
— Como as pequeninas ilhas —
Tem as suas redondezas,
Redonduras, redondelas,
Redondilhas!
Magu é Maria Augusta,
Mas não tem nada de augusta
E é bem pouco mariana.
Magu! Magu?... Maguzinha!
Magra Magu, besourinho
Cor de havana.
Manuel Bandeira
Manuel Bandeira
(Sousa Bandeira.
O nome inteiro
Tinha Carneiro.)
Eu me interrogo:
— Manuel Bandeira,
Quanta besteira!
Olha uma cousa:
Por que não ousa
Assinar logo
Manuel de Sousa?
(Sousa Bandeira.
O nome inteiro
Tinha Carneiro.)
Eu me interrogo:
— Manuel Bandeira,
Quanta besteira!
Olha uma cousa:
Por que não ousa
Assinar logo
Manuel de Sousa?
Márcia
Se tomares como Norma
Reto caminho na vida,
Viverás da melhor forma:
Terás bom nome, conforto
E ventura garantida,
Pois chegarás a bom porto
Como ela (ou sem moela!),
Márcia bela.
Reto caminho na vida,
Viverás da melhor forma:
Terás bom nome, conforto
E ventura garantida,
Pois chegarás a bom porto
Como ela (ou sem moela!),
Márcia bela.
Márcia dos Anjos
Ando sem inspiração...
Mas vou ver se agora arranjo os
Versos que o meu coração
Quer para Márcia dos Anjos.
Mas vou ver se agora arranjo os
Versos que o meu coração
Quer para Márcia dos Anjos.
Maria Cândida
Disse um poeta de renome
(vai num beijo aqui a lição):
"Quem é Cândida no nome
deve-o ser no coração."
Cândida Maria Cândida
foi, que era minha irmãzinha.
Assim tu, cândida, cândida
hás de ser, pois que és Candinha.
(vai num beijo aqui a lição):
"Quem é Cândida no nome
deve-o ser no coração."
Cândida Maria Cândida
foi, que era minha irmãzinha.
Assim tu, cândida, cândida
hás de ser, pois que és Candinha.
Maria da Glória
Glória, Maria da Glória.
— Que glória? — De ser bonita.
— Só? — De ter merecimento.
— Só? — De ser boa e simpática.
— Que glória mais problemática!
— Absoluta! Imperatória!
— E habita?... ... — Não digo. — Habita?...
— Habita em meu pensamento.
— Que glória? — De ser bonita.
— Só? — De ter merecimento.
— Só? — De ser boa e simpática.
— Que glória mais problemática!
— Absoluta! Imperatória!
— E habita?... ... — Não digo. — Habita?...
— Habita em meu pensamento.
Maria da Glória Chagas
Esta é Glória, esta é Maria;
Nome que é nome e renome.
Claro está que com tal nome
Será — fácil profecia —
Boa filha, boa irmã e
Boa esposa. Ó anjos, dai-
Lhe a gentileza da mãe,
A inteligência do pai.
Nesta vida transitória
Chagas tenha só no nome,
— Nome que é nome e renome —,
E tudo o mais seja glória.
Nome que é nome e renome.
Claro está que com tal nome
Será — fácil profecia —
Boa filha, boa irmã e
Boa esposa. Ó anjos, dai-
Lhe a gentileza da mãe,
A inteligência do pai.
Nesta vida transitória
Chagas tenha só no nome,
— Nome que é nome e renome —,
E tudo o mais seja glória.
Maria Helena
Sou a única bisneta
De meu bisavô Bandeira,
Que era pessoa discreta,
Mansa, desinteresseira,
— Que era, em pessoa, a bondade:
Que responsabilidade!
De meu bisavô Bandeira,
Que era pessoa discreta,
Mansa, desinteresseira,
— Que era, em pessoa, a bondade:
Que responsabilidade!
Maria Isabel
Cresça em beleza, em simpatia e graças cresça A filha de Hilda e de João Victor, e eu, Manuel
Velho bardo, cada vez mais me desvaneça
De meu nome rimar com o seu, Maria Isabel.
Velho bardo, cada vez mais me desvaneça
De meu nome rimar com o seu, Maria Isabel.
Maria Teresa
Por Maria Teresa,
Filha de Elza e de Rui,
Mana o meu verso e flui,
Cantando em Guanabara
E toda a redondeza
Seus encantos e a rara
Modéstia, de quem fui
E serei sempre fiel
Admirador.
Manuel.
Filha de Elza e de Rui,
Mana o meu verso e flui,
Cantando em Guanabara
E toda a redondeza
Seus encantos e a rara
Modéstia, de quem fui
E serei sempre fiel
Admirador.
Manuel.
Marie-claude
Quelque chose de doux, três doux,
Três (j em ai Pâme toute chaude)
Sinsinue en moi tout à coup:
C'est que je pense à Marie-Claude.
Três (j em ai Pâme toute chaude)
Sinsinue en moi tout à coup:
C'est que je pense à Marie-Claude.
Marisa
Muitas vezes a beira-mar
Sopra um fresco alento de brisa
Que vem do largo a suspirar...
Assim é o teu nome, Marisa,
Que principia igual ao mar
E acaba mais suave que a brisa.
Sopra um fresco alento de brisa
Que vem do largo a suspirar...
Assim é o teu nome, Marisa,
Que principia igual ao mar
E acaba mais suave que a brisa.
Miguelzinho e Isabel
I
— Que menino inteligente
Minha gente!
— Saiba você que é o menino
Bisneto de Zeferino.
— Que menina! Que feitiço
Tem no olhar!
— Pudera! O avô é Ademar...
O pai, Miguel... — É por isso!
II
— Quem é a mãe de Miguelzinho?
— De Miguelzinho? Gisah.
— Ah!
Por isso é tão bonitinho.
— As avós desta menina
Quem são?
— Dona Isa, Dona Edina.
— Tem a quem sair então!
III
Miguelito
Pequetito
De olhozito
Redondito
Gaiatito;
Miguelito
Todo em ito:
Cabelito
Narizito;
Miguelito
Queridito,
Miguelito
Tão bonito.
IV
Isabel
Anjozinho aloof
De boca de mel,
De olhar triste e fundo,
Mandado a este mundo
De tristezas, uf!
Para ser mulher:
Enquanto és criança
Conta o que ainda resta,
Em tua lembrança
Da pátria perdida.
E eu possa, ouvindo esta
História, esquecer
A madrasta vida.
— Que menino inteligente
Minha gente!
— Saiba você que é o menino
Bisneto de Zeferino.
— Que menina! Que feitiço
Tem no olhar!
— Pudera! O avô é Ademar...
O pai, Miguel... — É por isso!
II
— Quem é a mãe de Miguelzinho?
— De Miguelzinho? Gisah.
— Ah!
Por isso é tão bonitinho.
— As avós desta menina
Quem são?
— Dona Isa, Dona Edina.
— Tem a quem sair então!
III
Miguelito
Pequetito
De olhozito
Redondito
Gaiatito;
Miguelito
Todo em ito:
Cabelito
Narizito;
Miguelito
Queridito,
Miguelito
Tão bonito.
IV
Isabel
Anjozinho aloof
De boca de mel,
De olhar triste e fundo,
Mandado a este mundo
De tristezas, uf!
Para ser mulher:
Enquanto és criança
Conta o que ainda resta,
Em tua lembrança
Da pátria perdida.
E eu possa, ouvindo esta
História, esquecer
A madrasta vida.
Mônica Maria
Seu avô me disse:
— "Mônica Maria
É loura e graciosa".
Foi como se a visse...
Pois de fato a via.
Mais lírio que rosa,
Melhor — madressilva,
Flor de minha infância
— Tamanha distância!
Como na Bahia
Mônica Maria
Pereira da Silva
Overbeck.
— "Mônica Maria
É loura e graciosa".
Foi como se a visse...
Pois de fato a via.
Mais lírio que rosa,
Melhor — madressilva,
Flor de minha infância
— Tamanha distância!
Como na Bahia
Mônica Maria
Pereira da Silva
Overbeck.
Mote e Glosas
Como pode o peixe vivo
Viver fora da água fria?
Como poderei viver
Sem a tua companhia?
(Toada de Diamantina)
Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Estrela, por que me deixas
Sem a tua companhia?
Sonho contigo de noite,
Sonho contigo de dia:
Foi no que deu esta vida
Sem a tua companhia.
Água fria fica quente,
Água quente fica fria.
Mas eu fico sempre frio
Sem a tua companhia.
Nunca mais vou no meu bote
Pescar peixe na baía:
Não quero saber de pesca
Sem a tua companhia.
Viver fora da água fria?
Como poderei viver
Sem a tua companhia?
(Toada de Diamantina)
Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Estrela, por que me deixas
Sem a tua companhia?
Sonho contigo de noite,
Sonho contigo de dia:
Foi no que deu esta vida
Sem a tua companhia.
Água fria fica quente,
Água quente fica fria.
Mas eu fico sempre frio
Sem a tua companhia.
Nunca mais vou no meu bote
Pescar peixe na baía:
Não quero saber de pesca
Sem a tua companhia.
Murilo Mendes
Mais te amo, ó poesia, quando
A realidade transcendes
Em pânico, desvairando
Na voz de um Murilo Mendes.
A realidade transcendes
Em pânico, desvairando
Na voz de um Murilo Mendes.
Na Toalha de Mesa de R.c.
Nunca lhe falte a esta toalha
O que ainda a fará mais bela,
E é: flores, fina baixela,
Bons vinhos, farta vitualha.
O que ainda a fará mais bela,
E é: flores, fina baixela,
Bons vinhos, farta vitualha.
Nieta Nava
O poeta Pedro Nava quando
Se casou, não imaginava
Que assim se estava completando
Um lindo nome — Nieta Nava.
Se casou, não imaginava
Que assim se estava completando
Um lindo nome — Nieta Nava.
Nininha Nabuco
De Alvim e Melo Franco (Minas),
De Nabuco (Pernambuco)
Deus, tomando o melhor suco,
Formou — inveja das meninas,
Inveja delas e minha —
Maria do Carmo Nabuco
(Nininha).
De Nabuco (Pernambuco)
Deus, tomando o melhor suco,
Formou — inveja das meninas,
Inveja delas e minha —
Maria do Carmo Nabuco
(Nininha).
No Aniversário de Maria da Glória
Trôpego, reumático, surdo,
Eu, poeta oficial da família,
Junto as últimas forças e urdo
Em mansa, amorosa vigília
Estes versos para Maria
Da Glória no glorioso dia!
Eu, poeta oficial da família,
Junto as últimas forças e urdo
Em mansa, amorosa vigília
Estes versos para Maria
Da Glória no glorioso dia!
Nossa Senhora de Nazareth
Jantando uma vez em casa de Odylo,
Seu amigo Couto, na animação
Do papo — papo que é um deleite ouvi-lo —
Subitamente perdeu a razão
(Só assim se pode explicar aquilo)
E fez o clássico gesto vilão,
O obsceno gesto que a Vênus de Milo
Jamais poderia fazer, pois não?
Desaprovei a licença de Couto
Diante de Nazareth. Que afoito (ou afouto)!
Pois a intemerata piauiense é
A mulher que já encontrei até agora
Mais parecida com Nossa Senhora:
É Nossa Senhora de Nazareth.
Seu amigo Couto, na animação
Do papo — papo que é um deleite ouvi-lo —
Subitamente perdeu a razão
(Só assim se pode explicar aquilo)
E fez o clássico gesto vilão,
O obsceno gesto que a Vênus de Milo
Jamais poderia fazer, pois não?
Desaprovei a licença de Couto
Diante de Nazareth. Que afoito (ou afouto)!
Pois a intemerata piauiense é
A mulher que já encontrei até agora
Mais parecida com Nossa Senhora:
É Nossa Senhora de Nazareth.
O Brigadeiro
Depois de tamanhas dores,
De tão duro cativeiro
Às mãos dos interventores,
Que quer o Brasil inteiro?
— O Brigadeiro!
Brigadeiro de verdade!
E o que quer o mau patriota
Que não ama a liberdade,
Que prefere andar na sota?
— Quer a nota!
À nota tirada ao povo
Pelo estado quitandeiro
Rotulado Estado Novo.
Quem lhe porá um paradeiro?
— O Brigadeiro!
Brigadeiro da esperança,
Brigadeiro da lisura,
Que há nele que tanto afiança
À sua candidatura?
— Alma pura!
Pergunto ao homem do Norte,
Do Centro e Sul: Companheiro,
Quem dos Dezoito do Forte
É o mais legítimo herdeiro?
— O Brigadeiro!
Brigadeiro do ar Eduardo
Gomes, oh glória castiça!
Que promete se chegar
Ao posto que não cobiça?
— À justiça!
O Brasil, barco tão grande
Perdido em denso nevoeiro,
Pede mão firme que o mande:
Deus manda que timoneiro?
— O Brigadeiro!
Brigadeiro da virtude,
Brigadeiro da decência,
Quem o ergueu a essa altitude,
Lhe brindou tal ascendência?
— A consciência!
Abaixo a politicalha!
Abaixo o politiqueiro!
Votemos em quem nos valha:
Quem nos vale, brasileiro?
— O Brigadeiro!
De tão duro cativeiro
Às mãos dos interventores,
Que quer o Brasil inteiro?
— O Brigadeiro!
Brigadeiro de verdade!
E o que quer o mau patriota
Que não ama a liberdade,
Que prefere andar na sota?
— Quer a nota!
À nota tirada ao povo
Pelo estado quitandeiro
Rotulado Estado Novo.
Quem lhe porá um paradeiro?
— O Brigadeiro!
Brigadeiro da esperança,
Brigadeiro da lisura,
Que há nele que tanto afiança
À sua candidatura?
— Alma pura!
Pergunto ao homem do Norte,
Do Centro e Sul: Companheiro,
Quem dos Dezoito do Forte
É o mais legítimo herdeiro?
— O Brigadeiro!
Brigadeiro do ar Eduardo
Gomes, oh glória castiça!
Que promete se chegar
Ao posto que não cobiça?
— À justiça!
O Brasil, barco tão grande
Perdido em denso nevoeiro,
Pede mão firme que o mande:
Deus manda que timoneiro?
— O Brigadeiro!
Brigadeiro da virtude,
Brigadeiro da decência,
Quem o ergueu a essa altitude,
Lhe brindou tal ascendência?
— A consciência!
Abaixo a politicalha!
Abaixo o politiqueiro!
Votemos em quem nos valha:
Quem nos vale, brasileiro?
— O Brigadeiro!
O Obelisco
Um obelisco monolítico é a verdade nua em praça pública. A nudez dos obeliscos é mais inteira, mais estreme, mais escorreita, mais franca, mais sincera, mais lisa, mais pura, mais ingênua do que a da mulher mais bem feita.
Ingênua como a de Susana surpreendida pelos juízes.
Pura como a de Santa Maria Egipcíaca despindo-se para o barqueiro.
Todo obelisco é uma lição de verticalidade física e moral, de retidão, de ascetismo.
Homem que não suportas a solidão (grande fraqueza!)
Aprende com os obeliscos a ser só.
Os egípcios erguiam obeliscos à entrada de seus templos, de seus túmulos, e neles gravavam apenas
Discretamente,
O nome do rei construtor ou do deus referenciado.
O obelisco aponta aos mortais as coisas mais altas: o céu, a lua, o sol, as estrelas — Deus.
O obelisco da Avenida Rio Branco não veio do Egito como o que está na Praça da Concórdia em Paris:
Nem por isso merece menos respeito.
Obelisco não é mourão em que se amarram cavalos.
Não é manequim para camisolas de anúncio.
Não é andaime para farandulagens de carnaval.
(Já o fantasiaram de baiana, oh afronta!
Já lhe quebraram o ápice de agulha,
Já o chamuscaram de alto a baixo.)
Que o obelisco esteja sempre nu e limpo, apontando as coisas mais altas — o céu, a lua, o sol e as estrelas.
Ingênua como a de Susana surpreendida pelos juízes.
Pura como a de Santa Maria Egipcíaca despindo-se para o barqueiro.
Todo obelisco é uma lição de verticalidade física e moral, de retidão, de ascetismo.
Homem que não suportas a solidão (grande fraqueza!)
Aprende com os obeliscos a ser só.
Os egípcios erguiam obeliscos à entrada de seus templos, de seus túmulos, e neles gravavam apenas
Discretamente,
O nome do rei construtor ou do deus referenciado.
O obelisco aponta aos mortais as coisas mais altas: o céu, a lua, o sol, as estrelas — Deus.
O obelisco da Avenida Rio Branco não veio do Egito como o que está na Praça da Concórdia em Paris:
Nem por isso merece menos respeito.
Obelisco não é mourão em que se amarram cavalos.
Não é manequim para camisolas de anúncio.
Não é andaime para farandulagens de carnaval.
(Já o fantasiaram de baiana, oh afronta!
Já lhe quebraram o ápice de agulha,
Já o chamuscaram de alto a baixo.)
Que o obelisco esteja sempre nu e limpo, apontando as coisas mais altas — o céu, a lua, o sol e as estrelas.
O Palacete dos Amores
Um dia destes a saudade
(Saudade, a mais triste das flores)
Me deu da minha mocidade
No Palacete dos Amores.
O Palacete dos Amores
Criação que a força de vontade
Do velho Gomes, em verdade,
Atestava. Linhas e cores.
Compunham quadro de um sainete
Tal, que os amores eram mato
Nos três pisos do palacete.
Mato, não — jardim: por maiores
Que fossem, sempre houve recato
No Palacete dos Amores.
(Saudade, a mais triste das flores)
Me deu da minha mocidade
No Palacete dos Amores.
O Palacete dos Amores
Criação que a força de vontade
Do velho Gomes, em verdade,
Atestava. Linhas e cores.
Compunham quadro de um sainete
Tal, que os amores eram mato
Nos três pisos do palacete.
Mato, não — jardim: por maiores
Que fossem, sempre houve recato
No Palacete dos Amores.
Odylo-nazareth
Vai a bênção que pediste.
Mas a maior bênção é
Ganhar em Natal tão triste
Maria de Nazareth.
Janeiro de 1942
Mas a maior bênção é
Ganhar em Natal tão triste
Maria de Nazareth.
Janeiro de 1942
Oitava Camoniana para Fernanda
De Ely e Lorita, brandos, nasce a branda
(Vede da natureza o ideal concerto!),
Bonita e sem pecado algum Fernanda,
Que alegria dos pais será decerto.
E faça quem sobre o Universo manda
O mundo para ela um céu aberto,
Onde continuamente, como um dia
De claro sol, a vida lhe sorria.
(Vede da natureza o ideal concerto!),
Bonita e sem pecado algum Fernanda,
Que alegria dos pais será decerto.
E faça quem sobre o Universo manda
O mundo para ela um céu aberto,
Onde continuamente, como um dia
De claro sol, a vida lhe sorria.
Omoussi
Omoussi, quero ver neste
Teu neto o divino intento
De te dar complemento
Num filho que não tiveste.
Teu neto o divino intento
De te dar complemento
Num filho que não tiveste.
Oração a Santa Teresa
Santa Teresa olhai por nós
Moradores de Santa Teresa
Santa Teresa olhai por nós
Moradores de Santa Teresa
Antigamente o bonde era no Largo da Carioca atrás do chafariz
Na estação tinha uma casa de frutas
Onde o chefe de família
Podia comprar a quarta de manteiga sem sal
A lata de biscoitos Aimoré
A língua do Rio Grande
O homem das balas recebia recados, guardava embrulhos
De vez em quando havia um desastre na manobra do reboque
Bom tempo em que havia desastre na manobra do reboque!
Porque hoje é ali no duro
Na ladeira dos fundos do Teatro Lírico.
Santa Teresa olhai por nós
Moradores de Santa Teresa,
Santa Teresa rogai por nós
Moradores de Santa Teresa
Rogai por nós junto ao prefeito da cidade.
Rogai pelos tísicos
Rogai pelos cardíacos
Rogai pelos tabéticos
Rogai pela gente de fôlego curto
Rogai por mim e pelo pintor Artur Lucas.
Nos fundos do Teatro Lírico
Tem um mictório
Rogai pelas donzelas do morro obrigadas a passar diariamente em frente do mictório.
Santa Teresa rogai por nós
Moradores de Santa Teresa
Estamos comendo da banda podre
Faz um ano.
Moradores de Santa Teresa
Santa Teresa olhai por nós
Moradores de Santa Teresa
Antigamente o bonde era no Largo da Carioca atrás do chafariz
Na estação tinha uma casa de frutas
Onde o chefe de família
Podia comprar a quarta de manteiga sem sal
A lata de biscoitos Aimoré
A língua do Rio Grande
O homem das balas recebia recados, guardava embrulhos
De vez em quando havia um desastre na manobra do reboque
Bom tempo em que havia desastre na manobra do reboque!
Porque hoje é ali no duro
Na ladeira dos fundos do Teatro Lírico.
Santa Teresa olhai por nós
Moradores de Santa Teresa,
Santa Teresa rogai por nós
Moradores de Santa Teresa
Rogai por nós junto ao prefeito da cidade.
Rogai pelos tísicos
Rogai pelos cardíacos
Rogai pelos tabéticos
Rogai pela gente de fôlego curto
Rogai por mim e pelo pintor Artur Lucas.
Nos fundos do Teatro Lírico
Tem um mictório
Rogai pelas donzelas do morro obrigadas a passar diariamente em frente do mictório.
Santa Teresa rogai por nós
Moradores de Santa Teresa
Estamos comendo da banda podre
Faz um ano.
Otávio Tarquínio de Sousa
Não só no nome que brilha
Este é imperador e rei.
Pois tem n'alma, ó maravilha,
Dois tronos de ouro de lei:
- Lúcia esposa e Lúcia filha.
Este é imperador e rei.
Pois tem n'alma, ó maravilha,
Dois tronos de ouro de lei:
- Lúcia esposa e Lúcia filha.
Outra Trova
Sombra da nuvem no monte,
Sombra do monte no mar.
Água do mar em teus olhos
Tão cansados de chorar!
Sombra do monte no mar.
Água do mar em teus olhos
Tão cansados de chorar!
Petição Ao Prefeito
Governador desta cidade,
Excelentíssimo Prefeito
General Mendes de Morais,
Ouça o que digo, e tenho que há de
Mover-se-lhe o sensível peito
Dado às coisas municipais!
Há no interior do quarteirão
Formado pelas avenidas
Antônio Carlos, Beira-Mar,
Wilson e Calógeras, tão
Bem traçadas e bem construídas,
Um pântano que é de amargar!
Não suponha que eu exagero,
Excelência: é a verdade pura,
Sem nenhum véu de fantasia.
Já o pintei uma vez: não quero
Fabricar mais literatura
Sobre tamanha porcaria!
Reporters, a quem nada escapa,
Escreveram sueltos diversos
Sobre esse foco de infecção.
Fotógrafos bateram chapa...
Coisas melhores que os meus versos
De velho poeta solteirão!
Fiz, por sanear-se esta marema,
Uma carta desesperada
Ao seu ilustre antecessor,
Uma carta em forma de poema:
O homem saiu sem fazer nada...
Pelo martírio do Senhor,
Ponha o pátio, insigne Prefeito,
Limpo como o olhar da inocência,
Limpo como — feita a ressalva
Da muita atenção e respeito
Devidos a Vossa Excelência —
Sua excelentíssima calva!
Excelentíssimo Prefeito
General Mendes de Morais,
Ouça o que digo, e tenho que há de
Mover-se-lhe o sensível peito
Dado às coisas municipais!
Há no interior do quarteirão
Formado pelas avenidas
Antônio Carlos, Beira-Mar,
Wilson e Calógeras, tão
Bem traçadas e bem construídas,
Um pântano que é de amargar!
Não suponha que eu exagero,
Excelência: é a verdade pura,
Sem nenhum véu de fantasia.
Já o pintei uma vez: não quero
Fabricar mais literatura
Sobre tamanha porcaria!
Reporters, a quem nada escapa,
Escreveram sueltos diversos
Sobre esse foco de infecção.
Fotógrafos bateram chapa...
Coisas melhores que os meus versos
De velho poeta solteirão!
Fiz, por sanear-se esta marema,
Uma carta desesperada
Ao seu ilustre antecessor,
Uma carta em forma de poema:
O homem saiu sem fazer nada...
Pelo martírio do Senhor,
Ponha o pátio, insigne Prefeito,
Limpo como o olhar da inocência,
Limpo como — feita a ressalva
Da muita atenção e respeito
Devidos a Vossa Excelência —
Sua excelentíssima calva!
Poema de Duas Magdas
Uma é Magda Becker Soares;
A outra, Magda Araújo.
Ah vida de caramujo
A minha,
Em que entram moças aos pares,
Mais noivas do que convinha!
Se por uma bebo os ares
— E essa é Magda Becker Soares —
Por sua xará babujo
— Scilicet Magda Araújo.
A outra, Magda Araújo.
Ah vida de caramujo
A minha,
Em que entram moças aos pares,
Mais noivas do que convinha!
Se por uma bebo os ares
— E essa é Magda Becker Soares —
Por sua xará babujo
— Scilicet Magda Araújo.
Poema para Tuquinha
Você chamou Maria Helena "o anjo lindo de Tuquinha".
Na realidade você é que é o anjo lindo de Maria Helena,
O anjo lindo de Branca,
O anjo lindo de Branquinha,
O anjo lindo de Isabel,
O anjo lindo de Manuel,
O anjo lindo de nós todos.
Reze a Deus por nós, anjo lindo: aos anjos ele atende.
Na realidade você é que é o anjo lindo de Maria Helena,
O anjo lindo de Branca,
O anjo lindo de Branquinha,
O anjo lindo de Isabel,
O anjo lindo de Manuel,
O anjo lindo de nós todos.
Reze a Deus por nós, anjo lindo: aos anjos ele atende.
Portugal, Meu Avozinho
Como foi que temperaste,
Portugal, meu avozinho,
Esse gosto misturado
De saudade e de carinho?
Esse gosto misturado
De pele branca e trigueira,
— Gosto de África e de Europa,
Que é o da gente brasileira?
Gosto de samba e de fado,
Portugal, meu avozinho.
Ai Portugal que ensinaste
Ao Brasil o teu carinho!
Tu de um lado, e do outro lado
Nós... No meio o mar profundo...
Mas, por mais fundo que seja,
Somos os dois um só mundo.
Grande mundo de ternura,
Feito de três continentes...
Ai, mundo de Portugal,
Gente mãe de tantas gentes!
Ai, Portugal, de Camões,
Do bom trigo e do bom vinho,
Que nos deste, ai avozinho,
Este gosto misturado,
Que é saudade e que é carinho!
Portugal, meu avozinho,
Esse gosto misturado
De saudade e de carinho?
Esse gosto misturado
De pele branca e trigueira,
— Gosto de África e de Europa,
Que é o da gente brasileira?
Gosto de samba e de fado,
Portugal, meu avozinho.
Ai Portugal que ensinaste
Ao Brasil o teu carinho!
Tu de um lado, e do outro lado
Nós... No meio o mar profundo...
Mas, por mais fundo que seja,
Somos os dois um só mundo.
Grande mundo de ternura,
Feito de três continentes...
Ai, mundo de Portugal,
Gente mãe de tantas gentes!
Ai, Portugal, de Camões,
Do bom trigo e do bom vinho,
Que nos deste, ai avozinho,
Este gosto misturado,
Que é saudade e que é carinho!
Prece
Senhor Bom Jesus do Calvário e da Via-Sacra
O prefeito Henriquinho
Vai derrubar o teu templo da Rua Uruguaiana
Pra abrir uma avenida!
Senhor Bom Jesus do Calvário e da Via-Sacra
O prefeito Henriquinho
Para abrir uma avenida
Vai demolir o templo do santo
Pedra da fé
Sobre a qual edificaste a tua Igreja!
Senhor Bom Jesus do Calvário e da Via-Sacra
Quando o prefeito morrer
Não o mandes para o Inferno:
Ele não sabe o que faz.
Mas um seculozinho a mais de Purgatório
Não seria mau. Amém.
O prefeito Henriquinho
Vai derrubar o teu templo da Rua Uruguaiana
Pra abrir uma avenida!
Senhor Bom Jesus do Calvário e da Via-Sacra
O prefeito Henriquinho
Para abrir uma avenida
Vai demolir o templo do santo
Pedra da fé
Sobre a qual edificaste a tua Igreja!
Senhor Bom Jesus do Calvário e da Via-Sacra
Quando o prefeito morrer
Não o mandes para o Inferno:
Ele não sabe o que faz.
Mas um seculozinho a mais de Purgatório
Não seria mau. Amém.
Prudente de Morais Neto
O autêntico poeta, dileto
Meu crítico e companheirão,
Deu-me a maior prova de afeto
De que eu podia ser objeto:
Fez-me tio por adoção.
Prudente! Prudente e discreto
Como o avô, o Santo Varão.
Bem grande avô! Bem grande neto,
O autêntico!
Tomo aqui o tom mais circunspeto
E dou a bênção — ou benção,
Como seria mais correto —
Ao sobrinho do coração,
A Prudente de Morais Neto,
O autêntico.
Meu crítico e companheirão,
Deu-me a maior prova de afeto
De que eu podia ser objeto:
Fez-me tio por adoção.
Prudente! Prudente e discreto
Como o avô, o Santo Varão.
Bem grande avô! Bem grande neto,
O autêntico!
Tomo aqui o tom mais circunspeto
E dou a bênção — ou benção,
Como seria mais correto —
Ao sobrinho do coração,
A Prudente de Morais Neto,
O autêntico.
Raquel
Raquel, angélica flor
Do ramalhete de Clóvis.
(Amor, que os astros moves,
Dá-lhe o melhor amor.)
Do ramalhete de Clóvis.
(Amor, que os astros moves,
Dá-lhe o melhor amor.)
Resposta a Alberto de Serpa
Saber comigo como é Poesia?...
saber comigo como é Bondade?...
Pois quem mais sabe como é Poesia,
pois quem mais sabe como é Bondade
do que tu mesmo, bom e grande Alberto
de Serpa, amigo de peito aberto
para os amigos de longe ou perto,
querido Alberto, fraterno Alberto?
saber comigo como é Bondade?...
Pois quem mais sabe como é Poesia,
pois quem mais sabe como é Bondade
do que tu mesmo, bom e grande Alberto
de Serpa, amigo de peito aberto
para os amigos de longe ou perto,
querido Alberto, fraterno Alberto?
Resposta a Carlos Drummond de Andrade
À mão que o dispensa deve
O laurel sua virtude.
Grato, mas junto sou rude
De quem Claro Enigma escreve.
O laurel sua virtude.
Grato, mas junto sou rude
De quem Claro Enigma escreve.
Retruque a Guimarães Rosa
Respondo a Guimarães Rosa
Em pé de romance assim:
Vou pedir ao Maçarico,
Vou pedir ao Miguilim
Que a mano Rosa eles digam:
— "Rosa, não seja ruim.
Faça a vontade do bardo,
Ainda que bardo chinfrim!"
E eu secundo: Mano Rosa,
Rosa, rosai, rosae, rose,
Vou aos meus dias pôr um fim.
Antes, porém, me prometa,
Pelo Senhor do Bonfim,
Que à minha futura vaga
Você se apresenta, sim?
Muito saudar a Riobaldo,
Igualmente a Diadorim!
Em pé de romance assim:
Vou pedir ao Maçarico,
Vou pedir ao Miguilim
Que a mano Rosa eles digam:
— "Rosa, não seja ruim.
Faça a vontade do bardo,
Ainda que bardo chinfrim!"
E eu secundo: Mano Rosa,
Rosa, rosai, rosae, rose,
Vou aos meus dias pôr um fim.
Antes, porém, me prometa,
Pelo Senhor do Bonfim,
Que à minha futura vaga
Você se apresenta, sim?
Muito saudar a Riobaldo,
Igualmente a Diadorim!
Ria, Rosa, Ria!
A Guimarães Rosa
Acaba a Alegria
Dizendo-nos: — Ria!
Velha companheira,
Boa conselheira!
Por isso me rio
De mim para mim.
Rio, rio, rio!
E digo-lhes: — Ria,
Rosa, noite e dia!
No calor, no frio,
Ria, ria! Ria,
Como lhe aconselha
Essa doce velha
Cheirando a alecrim,
A alegre Alegria!
Acaba a Alegria
Dizendo-nos: — Ria!
Velha companheira,
Boa conselheira!
Por isso me rio
De mim para mim.
Rio, rio, rio!
E digo-lhes: — Ria,
Rosa, noite e dia!
No calor, no frio,
Ria, ria! Ria,
Como lhe aconselha
Essa doce velha
Cheirando a alecrim,
A alegre Alegria!
Ribeiro Couto
Não é ruim, não é do Couto,
É Rui, mas não é Barbosa:
É, sim, Rui Ribeiro Couto,
Mestre do verso e da prosa.
É Rui, mas não é Barbosa:
É, sim, Rui Ribeiro Couto,
Mestre do verso e da prosa.
Rodrigo M.f. de Andrade
Como melhor precisar
Esta palavra amizade?
Nomeando o amigo exemplar:
Rodrigo M.F. de Andrade.
Esta palavra amizade?
Nomeando o amigo exemplar:
Rodrigo M.F. de Andrade.
Rondó do Atribulado do Tribobó
No vale do Tribobó
Tinha uma casa bonita
Com varanda por dois lados
Várias cadeiras de lona
Redes rangendo gostosas
E dentro pelas paredes
Uns quadrinhos mozarlescos
Como os cocôs de Clarinha...
Mas era um calor danado!
Lá fora em frente da casa
Tinha um bosque muito agradável
Todo de madeira de lei
— Cedros jacarandás paus-d'arco —
Debaixo de cuja sombra
Era bom ficar fumando
Embalançando nas redes
Contando bobagens...
Mas era um calor danado!
Dentro de casa o conforto não deixava nada a desejar:
Luz elétrica gelo instalações sanitárias completas
Água quente de serpentina a qualquer hora do dia
Comida ótima
A mulher do homem que estava passando uns tempos no sítio era uma senhora distintíssima.
Tinha três filhos: Rodrigo Luís que quando se referia aos planetas dizia o Vênus, o Mártir, etc. Joaquim Pedro bonitinho pra burro mas muito encabulado; e Clarinha a mesma de cujos cocôs já falei atrás.
Os meninos viviam de espingardas caçando tatuíras
O atribulado achava tudo isso delicioso familiar bucólico repousante...
Mas era um calor danado!
Na véspera da partida
Faltou água, vejam só!
Foi um pânico tremendo
No sítio do Tribobó.
O atribulado desceu
Sacudido num fordeco
Pra Maria Paula Baldeadouro Cova da Onça Fonseca Niterói
E embarafustou numa barca
Onde por cúmulo do azar
Surgiu o Martins Errado!
(Não havia possibilidade de evasão
Nascer de novo não adiantava
Todas as agências postais estavam fechadas
Fazia um calor danado!)
Tinha uma casa bonita
Com varanda por dois lados
Várias cadeiras de lona
Redes rangendo gostosas
E dentro pelas paredes
Uns quadrinhos mozarlescos
Como os cocôs de Clarinha...
Mas era um calor danado!
Lá fora em frente da casa
Tinha um bosque muito agradável
Todo de madeira de lei
— Cedros jacarandás paus-d'arco —
Debaixo de cuja sombra
Era bom ficar fumando
Embalançando nas redes
Contando bobagens...
Mas era um calor danado!
Dentro de casa o conforto não deixava nada a desejar:
Luz elétrica gelo instalações sanitárias completas
Água quente de serpentina a qualquer hora do dia
Comida ótima
A mulher do homem que estava passando uns tempos no sítio era uma senhora distintíssima.
Tinha três filhos: Rodrigo Luís que quando se referia aos planetas dizia o Vênus, o Mártir, etc. Joaquim Pedro bonitinho pra burro mas muito encabulado; e Clarinha a mesma de cujos cocôs já falei atrás.
Os meninos viviam de espingardas caçando tatuíras
O atribulado achava tudo isso delicioso familiar bucólico repousante...
Mas era um calor danado!
Na véspera da partida
Faltou água, vejam só!
Foi um pânico tremendo
No sítio do Tribobó.
O atribulado desceu
Sacudido num fordeco
Pra Maria Paula Baldeadouro Cova da Onça Fonseca Niterói
E embarafustou numa barca
Onde por cúmulo do azar
Surgiu o Martins Errado!
(Não havia possibilidade de evasão
Nascer de novo não adiantava
Todas as agências postais estavam fechadas
Fazia um calor danado!)
Rosa Francisca
Francisca, Francisca,
Ai Rosa Francisca,
Me dá tua boca
Dentuça e pequena,
Pequena e sabida!
Francisca, Francisca,
Me dá teus dois pés!
Teus pés tão felizes
De te pertencerem,
De neles pesares,
De andarem contigo.
Francisca, Francisca,
Me dá teus joelhos
Pontudos e finos,
Teus joelhos magros!
Francisca, Francisca,
Francisca, me dá
Tuas pestaninhas
Tão louras, tão brancas,
Tão... tão humorísticas!
Francisca, Francisca,
Ai Rosa Francisca!
Ai Rosa Francisca,
Me dá tua boca
Dentuça e pequena,
Pequena e sabida!
Francisca, Francisca,
Me dá teus dois pés!
Teus pés tão felizes
De te pertencerem,
De neles pesares,
De andarem contigo.
Francisca, Francisca,
Me dá teus joelhos
Pontudos e finos,
Teus joelhos magros!
Francisca, Francisca,
Francisca, me dá
Tuas pestaninhas
Tão louras, tão brancas,
Tão... tão humorísticas!
Francisca, Francisca,
Ai Rosa Francisca!
Rosa Francisca Adelaide
Francisca, Francisca,
Ai Rosa Francisca,
Francisca Adelaide!
Não queres ser Rosa,
Pois então, Francisca,
Me dá essa rosa:
À rosa mais limpa,
Mais escondidinha
— Rosa bonitinha —,
A única rosa
Em que para sempre,
À todo o momento,
De dia ou de noite,
Feliz, infeliz,
Ai Rosa Francisca,
Tenho o pensamento.
Ai Rosa Francisca!
Ai Rosa
Francisca
Adelaide!
Ai Rosa Francisca,
Francisca Adelaide!
Não queres ser Rosa,
Pois então, Francisca,
Me dá essa rosa:
À rosa mais limpa,
Mais escondidinha
— Rosa bonitinha —,
A única rosa
Em que para sempre,
À todo o momento,
De dia ou de noite,
Feliz, infeliz,
Ai Rosa Francisca,
Tenho o pensamento.
Ai Rosa Francisca!
Ai Rosa
Francisca
Adelaide!
Rosalina
Rosalina,
Rosa ou Lina?
Lina ou Linda?
Flor ainda!
Flor purpúrea,
Mais singela
Que Adozinda:
Rosalina!
Rosalinda!
Rosa ou Lina?
Lina ou Linda?
Flor ainda!
Flor purpúrea,
Mais singela
Que Adozinda:
Rosalina!
Rosalinda!
Sacha
Sacha muchacha,
Nariz de bolacha!
(Meu estro não acha
Outra rima em acha.
Por isso se agacha,
Se cobre de graxa,
Se arranha, se racha,
Se desatarracha
E pede em voz baixa
Desculpas a Sacha.)
Nariz de bolacha!
(Meu estro não acha
Outra rima em acha.
Por isso se agacha,
Se cobre de graxa,
Se arranha, se racha,
Se desatarracha
E pede em voz baixa
Desculpas a Sacha.)
Sapo-cururu
Sapo-cururu
Da beira do rio.
Oh que sapo gordo!
Oh que sapo feio!
Sapo-cururu
Da beira do rio.
Quando o sapo coaxa,
Povoléu tem frio.
Que sapo mais danado,
Ó maninha, ó maninha!
Sapo-cururu é o bicho
Pra comer de sobreposse.
Sapo-cururu
Da barriga inchada.
Vóte! Brinca com ele...
Sapo-cururu é senador da República.
Da beira do rio.
Oh que sapo gordo!
Oh que sapo feio!
Sapo-cururu
Da beira do rio.
Quando o sapo coaxa,
Povoléu tem frio.
Que sapo mais danado,
Ó maninha, ó maninha!
Sapo-cururu é o bicho
Pra comer de sobreposse.
Sapo-cururu
Da barriga inchada.
Vóte! Brinca com ele...
Sapo-cururu é senador da República.
Sara
Sara de olhar meigo e bom,
Sara de voz meiga e rara,
Sara, discípula cara,
Sara, rosa de Saron.
Sara de voz meiga e rara,
Sara, discípula cara,
Sara, rosa de Saron.
Saudação a Vinícius de Moraes
Marcus Vinícius
Cruz de Moraes,
Eu não sabia
Que no teu nome
Tu carregavas
À tua cruz
De fogo e lavas.
Cruz da poesia?
Cruz do renome?
Marcus Vinícius
Que em tuas puras,
Tuas selvagens
Raras imagens
Da mais pungente
Melancolia
Ficaste ardente
Para jamais:
Quais são teus vícios,
Vinícius, quais,
Para os purgares
Nas consulares
Assinaturas?
Marcus Vinícius,
Eu já te tinha
(E te ofereço
Esta tetinha)
Como um dos marcos
De maior preço
Do bom lirismo
Da pátria minha.
Mas não sabia
Que fosses Marcus
Pelo batismo.
Hoje que o sei,
Te gritarei
Num poema bem,
Bem, não! no mais
Pantafaçudo
Que já compus:
— Marcus Vinícius
Cruz de Moraes
(Mello também),
De cruz a cruz
Eu te saúdo!
Cruz de Moraes,
Eu não sabia
Que no teu nome
Tu carregavas
À tua cruz
De fogo e lavas.
Cruz da poesia?
Cruz do renome?
Marcus Vinícius
Que em tuas puras,
Tuas selvagens
Raras imagens
Da mais pungente
Melancolia
Ficaste ardente
Para jamais:
Quais são teus vícios,
Vinícius, quais,
Para os purgares
Nas consulares
Assinaturas?
Marcus Vinícius,
Eu já te tinha
(E te ofereço
Esta tetinha)
Como um dos marcos
De maior preço
Do bom lirismo
Da pátria minha.
Mas não sabia
Que fosses Marcus
Pelo batismo.
Hoje que o sei,
Te gritarei
Num poema bem,
Bem, não! no mais
Pantafaçudo
Que já compus:
— Marcus Vinícius
Cruz de Moraes
(Mello também),
De cruz a cruz
Eu te saúdo!
Saudades do Rio Antigo
Vou-me embora pra Pasárgada.
Lá o rei não será deposto
E lá sou amigo do rei.
Aqui eu não sou feliz
A vida está cada vez
Mais cara, e a menor besteira
Nos custa os olhos da cara.
O trânsito é uma miséria:
Sair a pé pelas ruas
Desta capital cidade
É quase temeridade.
E eu não tenho cadilac
Para em vez de atropelado,
Atropelar sem piedade
Meus pedestres semelhantes.
Oh! que saudade que eu tenho
Do Rio como era dantes!
O Rio que tinha apenas
Quinhentos mil habitantes.
O Rio que conheci
Quando vim prá cá menino:
Meu velho Rio gostoso,
Cujos dias revivi
Lendo deliciadamente
O livro de Coaraci.
Cidade onde, rico ou pobre
Dava gosto se viver.
Hoje ninguém está contente.
Hoje, meu Deus, todo mundo
Traz na boca a cinza amarga
Da frustração... Minha gente,
Vou-me embora pra Pasárgada.
Lá o rei não será deposto
E lá sou amigo do rei.
Aqui eu não sou feliz
A vida está cada vez
Mais cara, e a menor besteira
Nos custa os olhos da cara.
O trânsito é uma miséria:
Sair a pé pelas ruas
Desta capital cidade
É quase temeridade.
E eu não tenho cadilac
Para em vez de atropelado,
Atropelar sem piedade
Meus pedestres semelhantes.
Oh! que saudade que eu tenho
Do Rio como era dantes!
O Rio que tinha apenas
Quinhentos mil habitantes.
O Rio que conheci
Quando vim prá cá menino:
Meu velho Rio gostoso,
Cujos dias revivi
Lendo deliciadamente
O livro de Coaraci.
Cidade onde, rico ou pobre
Dava gosto se viver.
Hoje ninguém está contente.
Hoje, meu Deus, todo mundo
Traz na boca a cinza amarga
Da frustração... Minha gente,
Vou-me embora pra Pasárgada.
Sílvia Amélia
Tudo quanto é puro e cheira:
— Manacá, jasmim, camélia,
Lírio, flor de laranjeira,
Rosa branca, Sílvia Amélia!
— Manacá, jasmim, camélia,
Lírio, flor de laranjeira,
Rosa branca, Sílvia Amélia!
Sílvia Maria
Muitas vezes, de repente,
Sílvia Maria, você
Parece um bichinho que é
Mais bonito do que gente.
Sílvia Maria, você
Parece um bichinho que é
Mais bonito do que gente.
Solange
Para que não falem as más
Línguas, declaro aqui, Solange:
Não sou como os velhos gagás;
De Solange quero só Pange.
Línguas, declaro aqui, Solange:
Não sou como os velhos gagás;
De Solange quero só Pange.
Soneto Parnasiano e Acróstico em Louvor de Helena Oliveira
Houve na Grécia antiga uma beleza rara
(Em versos de ouro o grande Homero celebrou-a),
Linda mais do que a mente humana imaginara,
E cuja fama sem rival inda ressoa.
Não a compararei porém (quem a compara?)
À que celebro aqui: a outra não era boa.
O esplendor da beleza é sol que só me aclara
Luzindo sob o véu do pudor que afeiçoa.
Inspiremo-nos, pois, não na Helena de Tróia,
Versátil coração, frio como uma jóia,
Em cujo lume ardeu uma cidade inteira.
Inspiremo-nos, sim, de uma Helena mais pura.
Ronsard mostrou na sua uma flor de ternura:
A mesma flor que orna esta Helena brasileira.
(Em versos de ouro o grande Homero celebrou-a),
Linda mais do que a mente humana imaginara,
E cuja fama sem rival inda ressoa.
Não a compararei porém (quem a compara?)
À que celebro aqui: a outra não era boa.
O esplendor da beleza é sol que só me aclara
Luzindo sob o véu do pudor que afeiçoa.
Inspiremo-nos, pois, não na Helena de Tróia,
Versátil coração, frio como uma jóia,
Em cujo lume ardeu uma cidade inteira.
Inspiremo-nos, sim, de uma Helena mais pura.
Ronsard mostrou na sua uma flor de ternura:
A mesma flor que orna esta Helena brasileira.
Sonho de Uma Noite de Coca
O suplicante — Padre Nosso, que estás no céu, santificado seja o teu nome. Venha a nós o teu reino. Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu. O pó nosso de cada dia nos dá hoje...
O Senhor (interrompendo enternecidíssimo) — Toma lá, meu filho. Afinal tu és pó e em pó te converterás!
O Senhor (interrompendo enternecidíssimo) — Toma lá, meu filho. Afinal tu és pó e em pó te converterás!
Sônia Maria
Sônia, filha de Gilberto
E filha de Madalena,
Cumprirá em moça, decerto,
O que promete em pequena.
Não verei isso de perto,
Serei bem longe... Que pena!
E filha de Madalena,
Cumprirá em moça, decerto,
O que promete em pequena.
Não verei isso de perto,
Serei bem longe... Que pena!
Susana de Melo Morais
Susana nasceu
Na segunda-feira.
E eu, que sou Bandeira,
Embandeirei eu
Esta Lapa inteira:
Sus, Ana!
Não foi brincadeira:
Muito a mãe sofreu.
Gritava a enfermeira:
Sus, Ana!
O pai lhe escolheu
Um nome que cheira
À terra fagueira
Do senhor do céu.
É a glória primeira:
Sus, Ana!
Na segunda-feira.
E eu, que sou Bandeira,
Embandeirei eu
Esta Lapa inteira:
Sus, Ana!
Não foi brincadeira:
Muito a mãe sofreu.
Gritava a enfermeira:
Sus, Ana!
O pai lhe escolheu
Um nome que cheira
À terra fagueira
Do senhor do céu.
É a glória primeira:
Sus, Ana!
Temas e Voltas
Em brigas não tomo parte,
À morros não subo não:
Que se nunca tive enfarte,
Só tenho meio pulmão.
No amor ainda tomo parte,
Mas não me esbaldo, isso não:
Que se nunca tive enfarte,
Só tenho meio pulmão.
De Eros a arriscada arte
Sempre usei com discrição:
Que se nunca tive enfarte,
Só tenho meio pulmão.
Bem que desejara amar-te
Sem medida nem razão.
Mas qual! Se não tive enfarte,
Só tenho meio pulmão.
À morros não subo não:
Que se nunca tive enfarte,
Só tenho meio pulmão.
No amor ainda tomo parte,
Mas não me esbaldo, isso não:
Que se nunca tive enfarte,
Só tenho meio pulmão.
De Eros a arriscada arte
Sempre usei com discrição:
Que se nunca tive enfarte,
Só tenho meio pulmão.
Bem que desejara amar-te
Sem medida nem razão.
Mas qual! Se não tive enfarte,
Só tenho meio pulmão.
Temístocles da Graça Aranha
A aranha morde. A graça arranha
E vale o gládio nu de Têmis.
Logo se vê que tu não temes,
Temístocles da Graça Aranha.
E vale o gládio nu de Têmis.
Logo se vê que tu não temes,
Temístocles da Graça Aranha.
Teu Nome
Teu nome, voz das sereias,
Teu nome, o meu pensamento,
Escrevi-o nas areias,
Na água — escrevi-o no vento.
Teu nome, o meu pensamento,
Escrevi-o nas areias,
Na água — escrevi-o no vento.
Thiago de Mello
Thiago de Mello, cuidado!
Poupa o teu novo sorriso.
Não o dês (nem é preciso)
Ao amigo refalsado,
Ão crítico canastrão,
Ao político safado,
À mulher sem coração!
Não o dês (nem é decente)
À direita e à esquerda, a tantas
Inúteis coisas e gente:
A fariseus faroleiros,
A calhordas sicofantas,
Brasileiros, estrangeiros!
Adverte, em teus desenganos,
Que vale vinte e três anos,
Mil e oitocentos cruzeiros!
Poupa o teu novo sorriso.
Não o dês (nem é preciso)
Ao amigo refalsado,
Ão crítico canastrão,
Ao político safado,
À mulher sem coração!
Não o dês (nem é decente)
À direita e à esquerda, a tantas
Inúteis coisas e gente:
A fariseus faroleiros,
A calhordas sicofantas,
Brasileiros, estrangeiros!
Adverte, em teus desenganos,
Que vale vinte e três anos,
Mil e oitocentos cruzeiros!
Toada
Fui sempre um homem alegre.
Mas depois que tu partiste,
Perdi de todo a alegria:
Fiquei triste, triste, triste.
Nunca dantes me sentira
Tão desinfeliz assim:
É que ando dentro da vida
Sem vida dentro de mim.
Mas depois que tu partiste,
Perdi de todo a alegria:
Fiquei triste, triste, triste.
Nunca dantes me sentira
Tão desinfeliz assim:
É que ando dentro da vida
Sem vida dentro de mim.
Tomy
Este menino, que só
Com me olhar me cativou,
Se tem o nome do avô,
Tenha os encantos da avó.
Com me olhar me cativou,
Se tem o nome do avô,
Tenha os encantos da avó.
Três Letras para Melodias de Villa-lobos
1/ MARCHINHA DAS TRÊS MARIAS
Quando já a luz do dia
Atrás das serras arde;
Quando desmaia a tarde
À lenta voz dos sinos:
Nos céus da minha terra,
Tão ricos de esperança,
Brilham na noite mansa
Três luzes, três destinos.
Tremem gentis, tremeluzem com fulgor,
Astros do meu anseio e meu amor,
A levantar meus olhos para Deus.
Três sóis, os três destinos
Da terra em que nascemos,
Pátria que estremecemos
No solo e em sua história:
Maria que és da Graça
(Da Graça e dos Amores),
Maria que és das Dores,
Maria que és da Glória.
Tremem gentis, tremeluzem com fulgor,
Astros do meu anseio e meu amor,
A levantar meus olhos para Deus.
II QUADRILHA
Roda, ciranda,
Por aí fora,
Chegou a hora
De cirandar!
Na tarde clara
Vinde ligeiras,
Ó companheiras,
Rir e dançar!
Moças que dançam
Nas horas breves
Dos sonhos leves,
Na doce idade
Das ilusões,
Guardam lembrança,
Boa lembrança
Da mocidade
Nos corações.
Roda, ciranda,
Como essas belas,
Gratas estrelas
Dos nossos céus!
Vamos, em rondas
Precipitadas,
Como levadas
Na asa dos véus!
Moças que dançam
Nas horas leves
Dos sonhos breves,
Na doce idade
Das ilusões,
Guardam lembrança
Boa lembrança,
Da mocidade
Nos corações.
III QUINTA BACHIANA
Irerê, meu passarinho
Do sertão do Cariri,
Irerê, meu companheiro,
Cadê viola?
Cadê meu bem?
Cadê Maria?
Ai triste sorte a do violeiro cantadó!
Sem a viola em que cantava o seu amô,
Seu assobio é tua flauta de irerê:
Que tua flauta do sertão quando assobia,
A gente sofre sem querê!
Teu canto chega lá do fundo do sertão
Como uma brisa amolecendo o coração.
Irerê, solta teu canto!
Canta mais! Canta mais!
Pra alembrá o Cariri!
Canta, cambaxirra!
Canta, juriti!
Canta, irerê!
Canta, canta, sofrê!
Patativa! Bem-te-vi!
Maria-acorda-que-é-dia!
Cantem todos vocês,
Passarinhos do sertão!
Bem-te-vi!
Eh sabiá!
Lá! liá! liá! liá! liá! liá!
Eh sabiá da mata cantadó!
Liá! liá! liá! liá!
Lá! liá! liá! liá! liá! liá!
Eh sabiá da mata sofredó!
O vosso canto vem do fundo do sertão
Como uma brisa amolecendo o coração.
Quando já a luz do dia
Atrás das serras arde;
Quando desmaia a tarde
À lenta voz dos sinos:
Nos céus da minha terra,
Tão ricos de esperança,
Brilham na noite mansa
Três luzes, três destinos.
Tremem gentis, tremeluzem com fulgor,
Astros do meu anseio e meu amor,
A levantar meus olhos para Deus.
Três sóis, os três destinos
Da terra em que nascemos,
Pátria que estremecemos
No solo e em sua história:
Maria que és da Graça
(Da Graça e dos Amores),
Maria que és das Dores,
Maria que és da Glória.
Tremem gentis, tremeluzem com fulgor,
Astros do meu anseio e meu amor,
A levantar meus olhos para Deus.
II QUADRILHA
Roda, ciranda,
Por aí fora,
Chegou a hora
De cirandar!
Na tarde clara
Vinde ligeiras,
Ó companheiras,
Rir e dançar!
Moças que dançam
Nas horas breves
Dos sonhos leves,
Na doce idade
Das ilusões,
Guardam lembrança,
Boa lembrança
Da mocidade
Nos corações.
Roda, ciranda,
Como essas belas,
Gratas estrelas
Dos nossos céus!
Vamos, em rondas
Precipitadas,
Como levadas
Na asa dos véus!
Moças que dançam
Nas horas leves
Dos sonhos breves,
Na doce idade
Das ilusões,
Guardam lembrança
Boa lembrança,
Da mocidade
Nos corações.
III QUINTA BACHIANA
Irerê, meu passarinho
Do sertão do Cariri,
Irerê, meu companheiro,
Cadê viola?
Cadê meu bem?
Cadê Maria?
Ai triste sorte a do violeiro cantadó!
Sem a viola em que cantava o seu amô,
Seu assobio é tua flauta de irerê:
Que tua flauta do sertão quando assobia,
A gente sofre sem querê!
Teu canto chega lá do fundo do sertão
Como uma brisa amolecendo o coração.
Irerê, solta teu canto!
Canta mais! Canta mais!
Pra alembrá o Cariri!
Canta, cambaxirra!
Canta, juriti!
Canta, irerê!
Canta, canta, sofrê!
Patativa! Bem-te-vi!
Maria-acorda-que-é-dia!
Cantem todos vocês,
Passarinhos do sertão!
Bem-te-vi!
Eh sabiá!
Lá! liá! liá! liá! liá! liá!
Eh sabiá da mata cantadó!
Liá! liá! liá! liá!
Lá! liá! liá! liá! liá! liá!
Eh sabiá da mata sofredó!
O vosso canto vem do fundo do sertão
Como uma brisa amolecendo o coração.
Trova
Atirei um limão doce
Na janela de meu bem:
Quando as mulheres não amam,
Que sono as mulheres têm!
Na janela de meu bem:
Quando as mulheres não amam,
Que sono as mulheres têm!
Trovas para Adelmar
A Academia anda triste,
Triste, triste (para mim):
É um jardim cheio de rosas,
Mas um jardim sem jasmim.
Falta lá a flor mais gostosa
De se cheirar num jardim,
Pois das brasileiras flores
A mais cheirosa é o jasmim,
Basta um jasmim pequenino
Para encher todo um jardim.
Adelmar, na Academia,
Ês tu, meu caro, o jasmim.
A Academia anda triste...
Nunca a vi tão triste assim!
É um jardim cheio de rosas,
Mas um jardim sem jasmim!
Triste, triste (para mim):
É um jardim cheio de rosas,
Mas um jardim sem jasmim.
Falta lá a flor mais gostosa
De se cheirar num jardim,
Pois das brasileiras flores
A mais cheirosa é o jasmim,
Basta um jasmim pequenino
Para encher todo um jardim.
Adelmar, na Academia,
Ês tu, meu caro, o jasmim.
A Academia anda triste...
Nunca a vi tão triste assim!
É um jardim cheio de rosas,
Mas um jardim sem jasmim!
Urânia Maria
Urânia junto a Maria:
Não há nome mais bonito:
A Musa da Astronomia
Junto à Mãe de Deus: Em ti
Se vê, Urânia Maria,
Unir-se um a outro infinito,
O mito à sabedoria,
A vida ao seu outro lado,
Ou seja, tudo abreviado
Num dissílabo — Teti.
Não há nome mais bonito:
A Musa da Astronomia
Junto à Mãe de Deus: Em ti
Se vê, Urânia Maria,
Unir-se um a outro infinito,
O mito à sabedoria,
A vida ao seu outro lado,
Ou seja, tudo abreviado
Num dissílabo — Teti.
Variações Sobre o Nome de Mário de Andrade
Mário
Inteligência
Sabor
Surpresa
As neblinas paulistas condensaram-se em ácidos sarcásticos
E queimaram a epiderme azul dos aços virginais
Mas nas sombras mais fundas ficaram os docementes dos nanquins mais melancólicos!...
Como será São Paulo...
O Paraná com os pinhais intratáveis?
(Não servem para uma exploração regular da indústria do papel)
Goiás! Ilha do Bananal!
Mas os índios? Os mosquitos?
Os botocudos e os borrachudos...
Como será o Brasil?...
Como será São Paulo?
São Paulo era a Sé Velha
Cercada de sobradinhos coloniais
Na Rua de São João a escala cromática dos pára-sóis dos engraxates
Progredior Politeama
A Casa Garraux vendia também objetos de arte
Camilo Castelo Branco não sabia ainda da existência dos piraquaras do Paraíba
Não havia ainda Vasco Porcalho livreiro-editor encomendando a toda a gente uma novela safada
Havia sim a Avenida Tiradentes espapaçada ao sol como um feriado nacional
E o edifício do Liceu implorando baixinho que o deixassem em tijolo aparente
(Lá dentro eu desenhando a bico de pena motivos arquitetônicos do Renascimento...
As minhas arquiteturas corroídas!...)
Duas vezes por semana música no Jardim da Luz
A banda do maestro Antão
A primeira da América do Sul
O samba de Alexandre Levi
Bis! Bis!
O namorozinho nacional passeando cheio de dengue entre os zincos lambuzados de cerveja
Não havia guaraná bebida depurativa e tônico-refrigerante
Quem fazia o policiamento era a torre da Inglesa
O relógio grande batia os quartos um dois três quatro e recomeçava indefinidamente sem compreender como aquela gente podia ainda ouvir Puccini
E em torno dele a garoa paulistana irônica silenciosa encharcava todos os minutos
Mas as garoas condensaram-se em ácidos sarcásticos
E queimaram a epiderme azul dos aços virginais:
Mário de Andrade!
Como será São Paulo?
Não havia mais bandeirantes
Nem a lembrança de Álvares de Azevedo
O antigo Largo de São Bento com as árvores nuas e magrinhas
Pedia tanto um pouco de neve que lhe desse um arzinho de Paris
Os filhos de Bernardino de Campos faziam parte do cordão
Nem Teatro Municipal nem Esplanada Hotel
Só havia um viaduto:
Anhangabaú dos suicídios passionais!
Ponte Grande!
Cambuci!
E o cemitério da Consolação...
Mário um cigarro
O punho forte do subconsciente campeia e conjuga os relâmpagos mais díspares
Os ritmos mais dissolutos
Raivas
Testamentos de Heiligenstadt
Amores fantasmagorias carnavais porrada
Coisas absolutamente incompreensíveis
Como as obras de Deus
Raivas raivas
Bondade
A girândola do último dia de novena
Tudo
Para todos os lados
CATÓLICO
Mário um cigarro
Positivamente esta quarta-feira está cotidiana demais
O leite da manhã tinha mais água
O sol está banal como uma taça de campeonato
Como os bronzes comerciais que representam o Trabalho
Eu não sei latim
Não sei cálculo diferencial e integral
Não sei tocar piano (por causa de uma sonatina de Steibelt)
Não compreendo absolutamente Fichte Schelling e Hegel
Victor Hugo é pau
Byron é pau
Mário um cigarro
CAPORAL LAVADO!
Numa pia de igreja em Bizâncio está gravada esta inscrição
NIPSONANOMHMATAMHMONANOSPIN
Soletrada da direita para a esquerda recompõe o mesmo sentido
Lava os pecados não laves só a cara
Mário eles não lavam nem os pecados nem a cara
Os homens são horríveis
POR ISSO HÁ QUE OS AMAR
Com os docementes dos nanquins mais melancólicos
Brasil
Como será o Brasil?
MÁRIO DE ANDRADE
Inteligência
Sabor
Surpresa
As neblinas paulistas condensaram-se em ácidos sarcásticos
E queimaram a epiderme azul dos aços virginais
Mas nas sombras mais fundas ficaram os docementes dos nanquins mais melancólicos!...
Como será São Paulo...
O Paraná com os pinhais intratáveis?
(Não servem para uma exploração regular da indústria do papel)
Goiás! Ilha do Bananal!
Mas os índios? Os mosquitos?
Os botocudos e os borrachudos...
Como será o Brasil?...
Como será São Paulo?
São Paulo era a Sé Velha
Cercada de sobradinhos coloniais
Na Rua de São João a escala cromática dos pára-sóis dos engraxates
Progredior Politeama
A Casa Garraux vendia também objetos de arte
Camilo Castelo Branco não sabia ainda da existência dos piraquaras do Paraíba
Não havia ainda Vasco Porcalho livreiro-editor encomendando a toda a gente uma novela safada
Havia sim a Avenida Tiradentes espapaçada ao sol como um feriado nacional
E o edifício do Liceu implorando baixinho que o deixassem em tijolo aparente
(Lá dentro eu desenhando a bico de pena motivos arquitetônicos do Renascimento...
As minhas arquiteturas corroídas!...)
Duas vezes por semana música no Jardim da Luz
A banda do maestro Antão
A primeira da América do Sul
O samba de Alexandre Levi
Bis! Bis!
O namorozinho nacional passeando cheio de dengue entre os zincos lambuzados de cerveja
Não havia guaraná bebida depurativa e tônico-refrigerante
Quem fazia o policiamento era a torre da Inglesa
O relógio grande batia os quartos um dois três quatro e recomeçava indefinidamente sem compreender como aquela gente podia ainda ouvir Puccini
E em torno dele a garoa paulistana irônica silenciosa encharcava todos os minutos
Mas as garoas condensaram-se em ácidos sarcásticos
E queimaram a epiderme azul dos aços virginais:
Mário de Andrade!
Como será São Paulo?
Não havia mais bandeirantes
Nem a lembrança de Álvares de Azevedo
O antigo Largo de São Bento com as árvores nuas e magrinhas
Pedia tanto um pouco de neve que lhe desse um arzinho de Paris
Os filhos de Bernardino de Campos faziam parte do cordão
Nem Teatro Municipal nem Esplanada Hotel
Só havia um viaduto:
Anhangabaú dos suicídios passionais!
Ponte Grande!
Cambuci!
E o cemitério da Consolação...
Mário um cigarro
O punho forte do subconsciente campeia e conjuga os relâmpagos mais díspares
Os ritmos mais dissolutos
Raivas
Testamentos de Heiligenstadt
Amores fantasmagorias carnavais porrada
Coisas absolutamente incompreensíveis
Como as obras de Deus
Raivas raivas
Bondade
A girândola do último dia de novena
Tudo
Para todos os lados
CATÓLICO
Mário um cigarro
Positivamente esta quarta-feira está cotidiana demais
O leite da manhã tinha mais água
O sol está banal como uma taça de campeonato
Como os bronzes comerciais que representam o Trabalho
Eu não sei latim
Não sei cálculo diferencial e integral
Não sei tocar piano (por causa de uma sonatina de Steibelt)
Não compreendo absolutamente Fichte Schelling e Hegel
Victor Hugo é pau
Byron é pau
Mário um cigarro
CAPORAL LAVADO!
Numa pia de igreja em Bizâncio está gravada esta inscrição
NIPSONANOMHMATAMHMONANOSPIN
Soletrada da direita para a esquerda recompõe o mesmo sentido
Lava os pecados não laves só a cara
Mário eles não lavam nem os pecados nem a cara
Os homens são horríveis
POR ISSO HÁ QUE OS AMAR
Com os docementes dos nanquins mais melancólicos
Brasil
Como será o Brasil?
MÁRIO DE ANDRADE
Vera Marta
Ver-te e amar-te, Vera Marta,
Obra foi de um só momento.
Nada mais ponho na carta:
Não é preciso, nem tento.
Obra foi de um só momento.
Nada mais ponho na carta:
Não é preciso, nem tento.
Verlaine
Não te posso dar flor nem fruto. Folha ou galho
Sim. Folha e não será de álamo ou tília fina.
Folha do mato, mas cheirosa de resina,
Levando à tua glória uma gota de orvalho.
Sim. Folha e não será de álamo ou tília fina.
Folha do mato, mas cheirosa de resina,
Levando à tua glória uma gota de orvalho.
Viriato Octogenário
"Queixem-se outros de gota, reumatismo",
Diz Viriato, "e de falta de memória.
Nada disso conheço. Nula é a escória
Do tempo em meu minúsculo organismo.
"Não ouço bem? Frequentemente cismo
Que estou gripado? Dizem que é ilusória
Minha gripe (ao revés de minha glória),
E que a minha surdez é comodismo.
"Se eu vos confiar que escassa é a obesidade
Nos meus quadris e de ano em ano o cinto
Aperto um ponto mais, quem de vós há de
"Acreditar-me? E jurareis que minto
Quando eu disser que quanto mais idade
Tenho, mais moço e lépido me sinto!"
Diz Viriato, "e de falta de memória.
Nada disso conheço. Nula é a escória
Do tempo em meu minúsculo organismo.
"Não ouço bem? Frequentemente cismo
Que estou gripado? Dizem que é ilusória
Minha gripe (ao revés de minha glória),
E que a minha surdez é comodismo.
"Se eu vos confiar que escassa é a obesidade
Nos meus quadris e de ano em ano o cinto
Aperto um ponto mais, quem de vós há de
"Acreditar-me? E jurareis que minto
Quando eu disser que quanto mais idade
Tenho, mais moço e lépido me sinto!"
Vital Pacífico Passos
Poeta do Forrobodó
Se és pacífico não sei,
Mas que és vital jurarei,
Ó satírico sem dó,
Sem dono, sem lei nem laços
— Vital Pacífico Passos!
Se és pacífico não sei,
Mas que és vital jurarei,
Ó satírico sem dó,
Sem dono, sem lei nem laços
— Vital Pacífico Passos!
Votos de Ano-bom
A Murilo e Saudade
Que a Murilo e Saudade vás
Levar, cartão, num grande abraço,
Meus votos de saúde e paz.
(Paz sem a pomba de Picasso.)
Que a Murilo e Saudade vás
Levar, cartão, num grande abraço,
Meus votos de saúde e paz.
(Paz sem a pomba de Picasso.)
Zezé-arnaldo
Meus caros primos, na data
De hoje, a Jesus Cristo Rei
Alquimista pedirei
Transforme em ouro essa prata,
Ainda que é prata de lei.
De hoje, a Jesus Cristo Rei
Alquimista pedirei
Transforme em ouro essa prata,
Ainda que é prata de lei.
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