Citações

Citações para inspirar e refletir

Karl Kraus

Karl Kraus

Que a palavra mais velha seja desconhecida nas redondezas, recém-nascida e inspire dúvidas sobre se vai viver. Então ela viverá. Ouvimos o coração da língua batendo.
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Karl Kraus

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O incompreensível na arte da palavra — nas outras artes também não compreendo o compreensível — não deve tocar o sentido exterior. Este deve ser mais claro do que aquilo que fulano e sicrano têm a dizer um ao outro. O misterioso se encontra atrás da clareza. A arte é algo tão claro que ninguém compreende. Qualquer alemão entende que sobre todos os cimos há paz 3 ; todavia, n ão há um que já tenha apreendido isso.
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Karl Kraus

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São raros os livros antigos que, entre coisas incompreensíveis e óbvias, conservaram um conteúdo vivo.
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Karl Kraus

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Pediram-me muitas vezes para ser justo e observar uma coisa de todos os lados. E fiz isso, na esperança de que uma coisa talvez pudesse se tornar melhor se eu a observasse de todos os lados. Mas cheguei ao mesmo resultado. De maneira que continuei a observar uma coisa apenas de um lado, poupando muito trabalho e desilusão. Pois é consolador considerar que uma coisa é ruim e, ao fazê-lo, poder se desculpar apelando a um preconceito.
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Karl Kraus

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Se alguém tivesse dito ao Diabo, para quem a guerra desde sempre foi uma pura paixão, que alguma vez haveria homens com um interesse comercial na continuação da guerra, que eles nem sequer se dariam ao trabalho de ocultá-lo e que seus lucros ainda lhes proporcionariam reconhecimento social, ele o mandaria contar essa história a outro. Porém, quando tivesse se convencido do fato, o Inferno enrubesceria de vergonha e ele teria de reconhecer que durante toda a sua vida foi um pobre diabo!
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Karl Kraus

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Desde que maçãs podres serviram certa vez de estímulo no drama alemão, o público receia usá-las como meio de intimidação.
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O propósito do jovem Jean Paul era “escrever livros para poder comprar livros”. O propósito de nossos jovens escritores é ganhar livros de presente para poder escrever livros.
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A prostituição do corpo partilha com o jornalismo a capacidade de não precisar sentir, mas o supera pela capacidade de poder sentir.
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Karl Kraus

A ideia de que um jornalista escreva com a mesma correção sobre uma nova ópera quanto sobre um novo regulamento parlamentar tem algo de inquietante. Ele certamente também poderia dar lições a um bacteriólogo, a um astrônomo e talvez até a um pastor. E se um especialista em matemática superior cruzasse seu caminho, ele lhe provaria que é versado em matemáticas ainda mais altas.
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Um cérebro criativo também diz por conta própria aquilo que outro disse antes dele. Em compensação, outro pode imitar pensamentos que apenas mais tarde ocorrerão a um cérebro criativo.
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Lichtenberg cava mais fundo do que qualquer outro, mas não volta à superfície. Ele fala sob a terra. Só o escuta quem também cava fundo.
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A guerra seria uma punição razoável se não fosse a continuação do delito.
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O fato de um tema ser artístico não deve necessariamente prejudicá-lo junto ao público. Superestima-se o público ao acreditar que ele leva a mal e excelência da representação. Ele de forma alguma lhe dá atenção, e também tolera com tranquilidade coisas valiosas desde que o objeto casualmente corresponda a um interesse vulgar.
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La bourse est la vie .
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Muitas vezes arranho minha mão com a pena e só então sei que vivi aquilo que se encontra escrito.
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Na maioria dos seres humanos não avanço até a alma, mas sou assaltado por dúvidas já nas entranhas. Pois não posso acreditar que esse magnífico mecanismo foi criado para compor um grande comerciante, e apenas por meio da autópsia me deixo convencer de que um agiota tem um baço.
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O público não tolera qualquer coisa. Ele repele com indignação uma obra imoral quando percebe suas intenções culturais.
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Há cabeças ocas rasas e profundas.
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Tal como sempre surgem rostos novos, embora o conteúdo das pessoas pouco se distinga, assim deve haver sempre frases novas para o mesmo material intelectual. Isso dependerá do criador que tiver a capacidade de exprimir a mais ligeira nuance.
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Preciso estar outra vez entre seres humanos. Pois neste verão, em meio às abelhas e aos dentes-de-leão, minha misantropia degenerou gravemente.
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No começo era o exemplar para resenha, e alguém o recebeu da editora. Então ele escreveu uma resenha. Então escreveu um livro, que o editor aceitou e passou adiante como exemplar para resenha. O próximo que o recebeu fez o mesmo. Assim nasceu a literatura moderna.
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Nem de longe um bom escritor recebe tantas cartas anônimas ofensivas quanto normalmente se supõe. De cem asnos, nem dez admitem sê-lo, e no máximo um coloca isso por escrito.
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A língua alemã é a mais profunda; o discurso alemão, o mais raso.
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“Escrever bem” sem personalidade pode bastar para o jornalismo. Na pior das hipóteses, para a ciência. Jamais para a literatura.
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Heine é um Moisés que bateu com a vara no rochedo da língua alemã. Porém, velocidade não é sortilégio; a água não brotou do rochedo, mas ele a apresentou com a outra mão, e era água de colônia.
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A guerra só seria correta se apenas os não aptos fossem enviados para o campo de batalha.
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O leitor admite de bom grado que o autor o deixe confuso com sua cultura geral. Qualquer pessoa fica impressionada porque não sabia como a ilha de Corfu se chama em albanês. Pois a partir de então ela sabe, e pode brilhar diante dos outros que ainda não sabem. A cultura geral é a única premissa que o público não leva a mal, e um autor que humilha o leitor nesse ponto tem a sua fama presente garantida. Mas ai daquele que pressupõe faculdades que não possam ser recuperadas ou cuja aplicação esteja ligada a incomodidades! Tudo bem que o autor saiba mais que o leitor; mas que ele tenha pensado mais não lhe será perdoado tão facilmente. O público não pode ser mais tolo. Ele é inclusive mais inteligente do que o autor culto, pois fica sabendo através de sua revista como a ilha de Corfu se chama em albanês, enquanto aquele teve de consultar uma enciclopédia primeiro.
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Um agitador toma a palavra. O artista é tomado por ela.
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O francês ainda não se afastou tanto de sua superfície quanto o alemão de sua profundidade.
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A diplomacia é um jogo de xadrez em que os povos são colocados em xeque.
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Na guerra, ou a mentira é uma embriaguez ou uma ciência. Esta última é mais prejudicial ao organismo.
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Literatos alemães: os louros com que um sonha não deixam o outro dormir. Outro, por sua vez, sonha que seus louros não deixam um outro dormir, e este não dorme porque o outro sonha com louros.
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Por que muitos escrevem? Porque não têm caráter suficiente para não escrever.
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Quando lemos um de seus ensaios mitológico-políticos aprendemos a odiar a cultura mais do que o absolutamente necessário.
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De onde tiro tanto tempo para não ler tanta coisa?
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Primeiro o cão fareja, depois levanta a perna. Contra essa falta de originalidade compreensivelmente não se pode objetar nada. Mas o fato de o literato ler antes de escrever é desolador.
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Escrever um romance pode ser puro deleite. Viver um romance já apresenta suas dificuldades. Porém ler um romance é algo que evito tanto quanto posso.
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A ironia sentimental é um cão que ladra para a Lua enquanto mija sobre sepulturas.
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O chiste abraça a realidade e a loucura salta sobre o mundo. Como ainda podemos inventar se atrás de cada carantonha surge um rosto que lhe é igual inclusive na fala? Como podemos exagerar se os fatos se transformam em caricatura do exagero? A e B estão em conflito. Diz-se que A praticou um ato ilegal. Porém, visto que por alguma razão não se pode dizer isso em voz alta, o que se diz em voz alta é o seguinte: “O senhor já sabe do ato ilegal que B cometeu mais uma vez?”. Quando se diz isso, não se pensa no fato de B realmente poder tê-lo cometido. Também não se acredita que A, consciente de seu próprio delito, alguma vez pudesse censurá-lo a B, caso este também o tivesse cometido. Não se acredita nisso, pelo menos nesse caso especialmente crítico. Apenas a experiência geral de que algo semelhante por certo já aconteceu, de que se imputou a B aquilo que somente A cometeu, justifica a jocosa confusão: “Imagine só o senhor do que B não é capaz!”. No dia seguinte, publica-se um protesto de A contra o procedimento de B. Este teria cometido exatamente aquele ato ilegal, o pior numa série de crimes semelhantes. Desse modo, o próprio A assume o método parodístico com o qual se atribui a B os pecados de A porque não se tem outra saída. Resta assim apenas a explicação de que ele sentiu remorsos e, na esperança de ser corretamente compreendido, confessou sua falta sob a forma de uma imputação a B. Caso B realmente tivesse cometido essa falta, A pelo menos deveria perceber a justa compensação e silenciar. O que constitui a comicidade do caso não é a indignação contra aquilo que também se fez, ou que se fez apenas sozinho, mas a exatidão com que A aproveita a distorção intencional empregada pela pessoa cautelosa que precisa dizer B quando se refere à A. Por conseguinte, não se evita apenas dizer a verdade; também se é cauteloso com a mentira, pois ela também é vã e serve no máximo para motivo de farsa.
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Empregar palavras incomuns é um vício literário. Devemos colocar apenas dificuldades de pensamento no caminho do público.
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Ele domina a língua alemã — isso vale para o caixeiro. O artista é um criado da palavra.
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Meus trabalhos devem ser lidos duas vezes para serem bem compreendidos. Mas tampouco me oponho a que sejam lidos três vezes. Prefiro, porém, que não sejam lidos do que o sejam apenas uma vez. Não pretendo me responsabilizar pelas congestões de um imbecil que não tem tempo.
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O jogo de palavras, desprezível como fim em si mesmo, pode ser o recurso mais nobre de uma intenção artística na medida em que serve para abreviar uma intuição espirituosa. Ele pode ser um epigrama de crítica social.
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A matéria a que o compositor dá forma é o som, e o pintor fala por meio de cores. Por isso, nenhum leigo respeitável que fala apenas por meio de palavras se atreve a emitir um juízo sobre música ou pintura. O escritor dá forma a um material acessível a qualquer um: a palavra. Por isso, qualquer leitor se atreve a emitir um juízo sobre a literatura. Os analfabetos do som e da cor são modestos. Mas pessoas que sabem ler não são consideradas analfabetas.
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Talvez a guerra traga uma única mudança, mas uma mudança em razão da qual ela certamente não foi empreendida: as vítimas da psicanálise voltarão sadias para casa. Pois a guerra entende quase tão pouco de psicologia quanto a psicanálise, mas, diante do método individualizante desta, que na maioria dos casos se atém ao nada, a guerra pelo menos tem a vantagem de, na maioria dos casos, padronizar os indivíduos, e assim, proporcionar ao nada a sua verdadeira posição. É bom quando águas-vivas que nem sequer eram instrumentos sejam elevadas a tal condição.
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Será a literatura nada mais do que a habilidade de apresentar ao público uma opinião com palavras? Então a pintura seria a arte de expressar uma opinião em cores. No entanto, os jornalistas da pintura são os pintores de paredes. E eu acredito que um escritor é aquele que diz ao público uma obra de arte. A maior honra que já recebi me foi prestada quando um leitor me confessou embaraçado que só conseguia entender meus textos na segunda leitura. Ele hesitou em me dizer isso, teve dificuldades para falar minha língua. Esse era um entendido e não sabia. O elogio ao meu estilo me deixa indiferente, mas as críticas que lhe fazem logo me deixarão orgulhoso. Por muito tempo realmente tive receio de que as pessoas tivessem prazer com meus textos já na primeira leitura. Como? Uma frase deveria servir para o público enxaguar a boca com ela? Os folhetinistas que escrevem em alemão possuem uma considerável vantagem em relação aos escritores que escrevem a partir do alemão. Eles ganham à primeira vista e desiludem à segunda: é como se de repente estivéssemos nos bastidores e víssemos que tudo é de papelão. No caso dos outros, porém, é como se um véu cobrisse a cena. Quem já deveria aplaudir? Aqueles vaiam antes que a cena se torne visível. Assim se comporta a maioria; eles não têm tempo. E eles não têm tempo apenas para as obras da linguagem. No caso das pinturas, admitem que não devam representar apenas um processo apreendido pelo primeiro olhar: obrigam-se a dar um segundo olhar para chegar a perceber alguma coisa da arte das cores. Mas uma arte da construção de frases? Se lhes dissermos que isso existe, eles pensam na obediência às leis da gramática.
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A linguagem é o material do artista literário; porém, ela não pertence só a ele, enquanto a cor pertence exclusivamente ao pintor. Por essa razão, as pessoas deveriam ser proibidas de falar. A linguagem de sinais basta perfeitamente para os pensamentos que têm para comunicar entre si. É permitido lambuzar nossas roupas sem cessar com tinta a óleo?
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Karl Kraus

Um escritor que eterniza um fato cotidiano compromete apenas a atualidade. Porém, quem jornaliza a eternidade tem perspectiva de ser reconhecido nas altas rodas.
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