Citações
Citações para inspirar e refletir
Também o prefácio é um sutil medidor de livros. Por isso os mais espertos costumam agora deixar de lado esse traiçoeiro indicador de conteúdo, e os comodistas o fazem porque um bom prefácio é mais difícil que o livro. [...] O prefácio é ao mesmo tempo a raiz e o quadrado do livro e, por conseguinte, acrescento eu, nada outro, senão sua genuína resenha.
Para as nossas cidades metálicas, que melhor ornamentação que os cactos? Se não por outros motivos, já bastava o seu próprio nome — cacto — tão adequadamente cacofônico.
Tudo de bom que eu ouvi até hoje sobre a espécie humana foi dito por seres humanos. Eu queria uma opinião independente!
O público ledor é tímido: confunde altissonância com gênio: a imensa voga que teve na América um Vargas Villa e, na Europa, um D’Annunzio... Ninguém mais escuta esses megafones. E por aquela mesma época, pelo menos no Brasil, o público adorava quem escrevia difícil. Ninguém mais lê Coelho Netto, é verdade. Mas para quê? Surgiram outros...
O Zico no fundo não existe. É uma entidade abstrata criada pelo inconsciente coletivo do Maracanã.
O espelho nos mostra o nosso contrário, nossa esquerda na nossa direita, mas este é o limite máximo da sua dissimulação. Fora isso, ele é de uma franqueza brutal e irrecorrível.
Às vezes, uma mulher é um substituto bastante útil para a masturbação. No entanto, é preciso um excesso de fantasia.
Quando Luís XVI foi julgado, ele devia simplesmente ter dito que, segundo as leis, a pessoa do rei era sagrada, e nada mais. Isso não teria salvado sua vida, mas pelo menos, ele teria morrido como um rei.
Na dualidade mente/corpo no esporte, a mente se sobrepõe ao corpo. Mas o corpo tem mais espaço para a publicidade.
Carlos I morreu por ter resistido e Luís XVI, por não ter resistido. Nenhum dos dois compreendeu a força da história, que é o segredo dos grandes reinados.
Como se distingue um esquerdista de um direitista no Brasil? Até pouco tempo era fácil, esquerdista tinha barba.
Adeus, ó gentes da comunicação em quadrinhos! Adeus... eu voltarei ao mundo quando vocês tiverem redescoberto a escrita.
Sou de Libra. Minha vida é regida por Saturno, Urano e, estranhamente, pelo maestro Isaac Karabtchevsky.
Quem organiza uma antologia escreve sempre um prefácio em que declara o critério adotado. O que sucede de ordinário é que a maioria dos leitores não faz caso do prefácio. Agora sei que os prefácios são inúteis, e entre apanhar e apanhar, antes apanhar sem prefácio.
Tristeza em Paris só em 1998, com os gols de cabeça do Zidane.
Visto que é proibido por lei ter feras selvagens, e os animais domésticos não me dão prazer algum, prefiro continuar solteiro.
De um modo geral, quando lemos um estudo crítico erudito, tiramos melhor proveito das citações que dos seus comentários.
— Os monstros têm olhos azuis...
Alguns, em nome da fama, com farrapos de erudição se besuntam, e imortais se crêem tornar à medida que citam.
As estátuas de poetas são a sucata da poesia.
Poesia não é a gente tentar em vão trepar pelas paredes, como se vê em tanto louco por aí: poesia é trepar mesmo pelas paredes.
O único engajamento político que se deve pedir a um artista é o de retratar a estupidez humana e usar sua criação como um testemunho contra. Se não fosse pelos artistas, a crueldade da história não deixaria vestígios.
A má literatura é a literatura em estado puro, intocada por distrações como estilo, invenção, graça ou significado, reduzida apenas ao ímpeto de escrever.
Um autor aparece com mais vantagem nas páginas de outro livro, distinto do seu. No seu próprio, ele é apenas um candidato à espera da aprovação do leitor; no livro de outro autor ele tem a autoridade de quem legisla.
Com frequência as mulheres são um obstáculo para a satisfação sexual, mas, como tal, eroticamente utilizáveis.
Não me inspiro nas citações; valho-me delas para corroborar o que digo e que não sei tão bem expressar, ou por insuficiência da língua ou por fraqueza do intelecto. Não me preocupo com a quantidade e sim com a qualidade das citações. Se houvesse desejado que fossem avaliadas pela quantidade teria podido reunir o dobro.
Os que se vingam por princípios são ferozes e implacáveis.
Os americanos salvaram o mundo… E ficaram com ele. (Cf. Assédio )
Mas se abster da mulher não é lá um prazer assim tão especial, isso eu preciso reconhecer!
Certa vez, tinha eu quinze anos, inventei uma história que principiava assim: “A primeira coisa que fazem os defuntos, depois de enterrados, é abrirem novamente os olhos.” Mas fiquei tão horrorizado com essa espantosa revelação que não me animei a seguir avante e a história gorou no berço, isto é, no túmulo.
Como todos os impérios, o de Hollywood também se impôs destruindo culturas nativas e escravizando mentes. A diferença é que contra o feitiço desse império não bastam a reação econômica e a sublevação social — nunca escravos quiseram tanto continuar escravos, ainda mais se os feitores forem a Sharon Stone sem calças ou o Richard Gere sem camisa.
O autor tem direito ao prefácio; mas ao leitor pertence o posfácio.
Não, não foi por humor negro que pus no que leste acima o título de Conto Azul. Costumamos pintar sempre de azul tudo o que se passou nos nossos quinze anos — talvez por um instinto de compensação. Mas a infância, ó poetas, não é mesmo azul? Quanto a mim, eu venho há muito desconfiando de que a infância é uma invenção do adulto. E o passado uma invenção do presente. Por isso é tão bonito sempre, ainda quando foi uma lástima... A memória tem uma bela caixa de lápis de cor.
Todos os partidos são jacobinos.
A primavera é um descontrole glandular da natureza. O inverno é o preço que a gente paga para ter o outono, e por isso está perdoado. O verão é uma indignidade.
E eis que, de todo aquele espantoso terremoto de Nicarágua, sobrou, como sempre, o poeta Rubén Darío.
No meu quebra-cabeça de hoje acabo de descobrir este admirável conceito: “Intervalo quadrado entre os triglifos de um friso dórico.” Paciência!, não te direi o que seja... E é melhor assim. O mistério faz parte da beleza.
Um príncipe acusado por seus súditos não lhes deve explicações.
As citações em meu trabalho são como bandidos de beira da estrada que repentinamente surgem armados e tomam de assalto as convicções dos passantes.
A presunção — tão desculpável e divertida nos moços — é o mais certo sinal de burrice nos velhos. O verdadeiro fruto da árvore do conhecimento é a simplicidade.
À noite todas as vacas são pretas, mesmo as loiras.
Quanto à vida eterna minha preocupação não é se existe ou não, é chegar lá e encontrar os melhores lugares tomados por quem foi primeiro. Os etruscos devem ter todas as coberturas, os fenícios os terrenos do lago e a gente acaba ficando num quarto debaixo de uma escola de dança flamenca, para sempre.
Um excêntrico é um louco com saldo bancário.
Diziam que quem ficasse sentado na frente do café Deux Magots em Paris por um tempo indeterminado veria passar todo o mundo à sua frente. Um exagero, claro, parecido com aquele dos mil macacos ao teclado de mil computadores, que no fim de um milhão de anos (estamos falando de macacos longevos) teriam reescrito toda a obra de Shakespeare — e ido comemorar no Deux Magots, presumivelmente.
Sem justiça há somente opressores e vítimas. E não há justiça durante as revoluções.
Pobre se engasga com cuspe.
Durante a Revolução, os franceses nunca estiveram sem um rei.
Dentro de cada Elke Maravilha existe um tímido tentando se esconder e dentro de cada tímido existe um exibido gritando “Não me olhem! Não me olhem!” só para chamar a atenção. (Cf. Notoriedade)