Citações

Citações para inspirar e refletir

Karl Kraus

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Ela começou o casamento com uma mentira. Era virgem e não disse isso a ele!
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Secularização: a Igreja tem um bom estômago. Apesar disso, deveria ser submetida a uma lavagem estomacal de tempos em tempos.
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Um pintor inescrupuloso que sob o pretexto de possuir uma mulher a atrai ao seu ateliê e lá a retrata.
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Como leio as notícias da imprensa diária apenas de passagem, confundi duas manchetes próximas: “Visita de Iswolski à Áustria” e “Tentativa de roubo num bricabraque”.
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Quando entramos em contato com ele é como se tocássemos uma gosma. Desde que sei disso, nunca mais toco em gosmas.
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Era ciumento e colecionava musgos. Queria que sua mulher vivesse criptogamicamente.
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Ele morreu picado pela serpente de Esculápio.
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A boca transborda daquilo que o coração está vazio.
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Sua convicção estava acima de tudo, inclusive acima da vida. Mas como estava disposto a fazer sacrifícios, e surgiu ocasião para tanto, ele deu a convicção pela sua vida.
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Certo sujeito disse que tentei colocá-lo contra a parede. Isso não é verdade. Eu simplesmente consegui.
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Um crítico literário que sempre encontra um juízo para as palavras certas.
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Ele deu rédeas soltas, que tomou emprestadas, a uma megalomania que não era sua.
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Ora vejam, o conselheiro administrativo da Cretinos S.A. e o diretor da Banalidades Associadas!
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Dificilmente haverá um escritor que em tão pouco tempo tenha se tornado tão desconhecido quanto esse X.
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Ele não deixa seu aborrecimento durante as refeições ser estragado por nenhum apetite.
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Um excelente pianista, mas a sua execução precisa superar os arrotos da boa sociedade após um jantar.
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Há pessoas que são toleradas em locais públicos apenas porque não pagam. São chamadas de redatores.
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Um piadista: coceiras na cabeça não são atividade cerebral.
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O filósofo L. St., da Hungria: ele não é um líder, mas é o “primeiro-violino” entre os pensadores. Chamam-no à mesa e ele toca o transcendental aos ouvidos das pessoas.
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O novo esnobe: o retrato de Dori Gray.
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Tive uma visão medonha: vi uma enciclopédia se aproximar de um sabe-tudo e abri-lo.
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Nunca percebemos com tanta clareza a brutalidade da existência, a falta de fundamento de todas as coisas humanas do que quando temos a infelicidade de estar num veículo que precisa parar porque é envolvido pela música folclórica.
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Que são a consciência que um Nero tinha de sua força, o ímpeto destruidor de um Gêngis Khan, a plenitude de poderes do Juízo Final comparados à altivez de um pequeno funcionário da Junta Geral de Alistamento do Distrito Judicial que, por não obediência a uma convocação para inscrição com fins de avaliação da taxação do imposto militar, nos condena a uma multa de duas coroas!
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Que cortejo estranho! Ela vai atrás dele como um cadáver que segue um enlutado.
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É melhor que não nos roubem nada. Assim pelo menos não teremos problemas com a polícia.
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Emerson: filosofia alemã que, ao ser transportada através dos mares, absorveu um tanto de sua umidade.
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Uma fábrica de guarda-chuvas expõe ao gosto público um cartaz que mostra Rômulo e Remo com guarda-chuvas abertos. Refleti muitas vezes sobre esse simbolismo. Sempre cheguei a essa mesma e triste explicação: em razão do mau tempo, a fundação de Roma foi suspensa.
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Em caso de dúvida, decida pelo correto.
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Seu marido permite que ela faça teatro — a boemia não teria permitido que ela se casasse. Portanto, na sociedade ainda há mais liberdade do que na boemia, que tem suas normas imutáveis.
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Quem quiser praticar ginástica cerebral, que procure reconstruir tão rápido quanto possível a conversa de um grupo quando, em dado momento, chamar sua atenção o quanto essa conversa se afastou do tema original. Ele folheará essa enciclopédia e verá um caminho em ziguezague em cujas extremidades se encontram assuntos que fazem lembrar a divertida falta de relação dos títulos: De calefação a gótico e De Newton a pacífico .
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A aglomeração: e depois que o acidente aconteceu, “apareceram muitos curiosos para ver o local”. E então o acidente já estava tão insensível às provocações da curiosidade que se contentou com o desprezo calado.
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É uma injustiça sempre criticar Viena pelos seus defeitos, visto que suas qualidades também merecem censura. No entanto, o livro de B. chega a criticar Viena por defeitos que são apenas qualidades que lhe faltam. Como esse autor eleva o nível cultural dos vienenses para atacá-lo! É lastimável essa falsa óptica de uma crítica que primeiro precisa inventar as qualidades de um povo para depois levá-las a mal. O autor descobriu no povo austríaco uma concepção ilusória da vida, e culpa uma dinastia, que sem dúvida é a mais fiel guardiã das realidades, pelo fato de o vienense viver num mundo irreal. A história “quis experimentar se o espírito podia governar sozinho”, e instituiu os Habsburgos. Eles criaram o mundo a partir de seu espírito. E semelhante panegírico ao mais sublime senso artístico foi considerado desleal! Eu, no entanto, não tolero a concepção errônea de uma essência popular que se esgota exclusivamente em pequenas autenticidades. Pois o mundo vienense não foi criado a partir do espírito, e sim a partir da carne de gado. Diante dessa solidez que se mede em quilos, toda imaginação capaz de criar um mundo qualquer é arruinada. O espírito criativo da irrealidade, descoberto pelo autor, interveio na história austríaca visivelmente apenas uma vez. Foi durante a construção da Linha Ferroviária Sul, entre Viena e Baden, quando se constatou que não havia montanha à disposição para construir o túnel que uma Alteza desejava — e o túnel foi construído.
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A beleza imerecida dessa cidade! Mas aqueles que a animam à chamada seriedade do trabalho são tão tolos quanto seus bajuladores e folhetinistas. Não é lamentável que seus habitantes não trabalhem, mas que não pensem. Chega a ser meritório contar com o fato de que o céu é azul e o prado é verde. Quem diz que não se pode viver disso é um filisteu. Mas quem diz que é triste viver disso quando não se é um artista, diz a verdade.
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Num domingo de inverno à tarde, num café de Viena, encurralados entre pais que jogam cartas, mulheres que berram e crianças que leem revistas humorísticas, podemos ser tomados por tal sentimento de solidão que ansiamos pela vida agitada que deve reinar por essa hora na Baía do Advento.
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Aqueles dois não se casaram: vivem desde então em mútua viuvez.
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Se eu perguntasse ao porteiro de um restaurante berlinense qual o significado dos relevos e frisos da escadaria, ele poderia responder: “Isso serve para levar em conta o senso de beleza”. Se eu perguntasse a um catador de papéis quem é representado num monumento, ele poderia responder: “O homem fez algo pela educação”. Certo, isso são abominações da civilização. Mas com o tempo também ficamos fartos das vantagens dela que gozamos em Viena quando a essas perguntas recebemos sempre a mesma resposta: “Que te importam os frisos, seu fedelho imbecil!”.
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Prússia: liberdade de ir e vir usando focinheira. Áustria: solitária com permissão para gritar.
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Oh deleite das experiências da língua, devorador da medula! O perigo da palavra é o prazer do pensamento. O que foi que dobrou a esquina ali adiante? Ainda não divisada e já amada! Lanço-me nessa aventura.
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Na Alemanha, bastam duas pessoas e temos uma associação. Morre uma delas, a outra levanta de seu lugar em sinal de luto.
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Às vezes lemos que uma cidade tem tantas centenas de milhares de “almas”, mas isso soa exagerado. Pela mesma razão, também se deveria romper finalmente com o sistema de recenseamento por “cabeças”. Mas não alimentaríamos mais desconfiança em relação à estatística das cifras gigantescas se uma outra parte do corpo fosse empregada como unidade de contagem. Ninguém mais poderia dizer que semelhante estimativa — no caso de uma metrópole como Viena, por exemplo — é exagerada. A assimilação e a eliminação do alimento são indiscutivelmente os interesses mais importantes que podem determinar a vida intelectual de uma população. Triste é apenas o fato de ela própria dominar tão mal aquilo que lhe é mais importante. A cultura dessa atividade vital não avança de forma alguma, e ainda que seja uma vantagem ser um bom garfo, não é vantagem alguma ser um garfo barulhento e se comportar de tal maneira que se ouçam os ruídos de bem-estar até no exterior.
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A polícia vigia com rigor para que apenas a velhice e a feiura se entreguem ao vício. Só é aceita num bordel aquela cuja corrupção datar de uma era policial anterior e cuja virtude tenha caído mais ou menos na mesma época em que caíram as muralhas da cidade. Ela precisa ser uma emeretriz... As inválidas cantam: “Eles nos sustentaram!”.
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Espeto minha pena no cadáver da Áustria porque ainda acredito que ele viva.
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As camas de Hamburgo têm bordas altas. Estamos seguros de que não cairemos quando o mar estiver agitado. Um uso sem sentido, com o qual o povo conserva a tradição do camarote. O enjoo do mar se reproduz em terra firme por gerações de marceneiros, e nada é mais doloroso ao acordar do que a recordação de que os hamburgueses são um povo de navegadores.
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Que a palavra mais velha seja desconhecida nas redondezas, recém-nascida e inspire dúvidas sobre se vai viver. Então ela viverá. Ouvimos o coração da língua batendo.
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Devemos escrever sempre como se escrevêssemos pela primeira e pela última vez. Dizer tanto como se fosse uma despedida, e tão bem como se estivéssemos estreando.
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Estou sempre disposto a publicar aquilo que contei a um amigo sob o selo do mais profundo sigilo. Mas ele não deve espalhá-lo.
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Ficar triste da vida por haver encontrado em seu trabalho um erro que ninguém vê; apenas se tranquilizar depois de encontrar um segundo, pois então a mancha na honra é coberta pelo conhecimento da imperfeição dos esforços humanos: parece-me que é esse talento para a tortura o que distingue a arte do artesanato. Cabeças rasas poderiam tomar esse traço por pedantismo, mas elas não suspeitam de que liberdade nasceu essa coerção e a que facilidade de produção conduzem semelhantes dificuldades infligidas a si próprio. Nada seria mais tolo do que falar de niquice formal onde a forma não é a roupagem do pensamento, mas sua carne. Essa caçada às últimas possibilidades de expressão conduz até as entranhas da linguagem. É aí que se cria esse entrelaçamento no qual os limites entre o que e como não são mais distinguíveis, e no qual, frequentemente, a expressão antecede o pensamento até o instante em que ele dá sua centelha sob a lima. Os diletantes trabalham seguros e vivem satisfeitos. Por causa de uma palavra recusada pela balança de precisão de minha sensibilidade estilística, muitas vezes já detive a máquina de impressão e mandei destruir o que tinha sido impresso. A máquina violenta o espírito em vez de servi-lo: assim ele pretende lhe mostrar quem manda. Quando é que acabo, visto que a publicação por fim não pode mais ser impedida e não traz a ansiada cesura da criação? Ah, eu só termino um trabalho quando começo outro; esse é o tempo que dura minha “correção de autor”. Esse também é o tempo que dura a louvável loucura de acreditar que o leitor notará a ausência de um pensamento que nasceu depois da hora. E comparada a uma escrita que se arrepende de maneira tão sanguinolenta de suas imperfeições, esse leitor considera que sua faculdade de ler, deturpada pelo jornalismo, é perfeita. Por alguns vinténs, ele comprou um direito à superficialidade: será que ficaria satisfeito se tivesse de se lançar ao trabalho? Talvez as coisas estivessem melhores se os escritores alemães aplicassem a seus manuscritos a décima parte do cuidado que dedico a meus textos depois de impressos. Um amigo que me socorre com frequência fazendo as vezes de parteira, ficou admirado com a facilidade de meus partos e a dificuldade de meu puerpério. Para os outros as coisas vão bem. Eles trabalham à escrivaninha e se divertem na sociedade. Eu me divirto à escrivaninha e trabalho na sociedade. Por isso evito a sociedade. No máximo, eu poderia perguntar às pessoas se essa ou aquela palavra lhes agrada mais. E isso elas não sabem.
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Não domino a língua, mas a língua me domina completamente. Ela não é a criada de meus pensamentos. Vivo numa relação com ela em que concebo pensamentos, e ela pode fazer de mim o que bem quiser. Eu a obedeço à letra. Pois das letras salta o jovem pensamento ao meu encontro e dá forma retroativa à língua que o criou. Semelhante graça de gestar pensamentos me obriga a ficar de joelhos e transforma todo dispêndio de cuidado trêmulo em dever. A língua é uma senhora dos pensamentos; ela pode ser útil na casa de quem consegue inverter essa relação, mas lhe fecha o útero.
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