Escritas

Lista de Poemas

II. O processo

Vive a névoa como um grande octópode inchado de gás amarelo
e cai seu gelatinoso ramal emaranhando a insigne cabeça.
É Londres, a Casa Redonda e a Justiça é a boca do polvo.
A besta desliza por ruas de sombra seus braços, seus
passos, seus pés resvalosos,
buscando Tomás, o Marinheiro, buscando seu pescoço nu:
porque a Justiça agoniza em sua Casa Redonda e exige alimento,
alimentos do mar, cavalheiros da água e do fogo.

A Justiça dourada te busca e tem fome de carne marinha.

Tomás, marinheiro, levanta tua espada de guerra!
Descarrega teu braço salgado e divide os braços do polvo de ouro!
Rechaça as cruéis ventosas que buscam detrás da névoa!
Esconde, Tomás, teu semblante delgado de falcão oceânico!
Defende a proa intranquila de tua embarcação orgulhosa!
Protege os olhos da águia que espera minha pátria em seu berço
e deixa perdido na névoa o octópode de boca amarela!
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XXIII

Converte-se em peixe voador
se transmigra a borboleta?

Então não era verdade
que vivia Deus na lua?

De que cor é o olor
do pranto azul das violetas?

Quantas semanas tem um dia
e quantos anos tem um mês?
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Final

Matilde, anos ou dias
dormidos, febris,
aqui ou ali,
cravando,
rompendo a espinha dorsal,
sangrando sangue verdadeiro,
despertando talvez
o perdido, dormido:
camas clínicas, janelas estrangeiras,
vestidos brancos
das sigilosas,
o torpor nos pés.

Depois estas viagens
e o meu mar de novo:
tua cabeça na cabeceira,
na luz
tuas mãos voadoras,
na minha luz,
sobre minha terra.

Foi tão belo viver
quando vivias!
O mundo é mais azul
e mais terrestre de noite,
quando durmo,
enorme, dentro de tuas breves mãos.
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Descrição de Capri

A vinha na rocha, as gretas do musgo, os muros que enredam
as trepadeiras, os plintos de flor e de pedra:
a ilha é a cítara que foi colocada na altura sonora
e corda por corda a luz ensaiou do dia remoto
sua voz, a cor das letras do dia,
e do seu fragrante recinto voava a aurora
derrubando o orvalho e abrindo os olhos da Europa.
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Noite - XCV

Os que se amaram como nós? Busquemos
as antigas cinzas do coração queimado
e ali que tombem um por um nossos beijos
até que ressuscite a flor desabitada.


Amemos o amor que consumiu seu fruto
e desceu à terra com rosto e poderio:
tu e eu somos a luz que continua,
sua inquebrantável espiga delicada.


Ao amor sepultado por tanto tempo frio,
por neve e primavera, por esquecimento e outono,
acerquemos a luz de uma nova maçã,


do frescor aberto por uma nova ferida,
como o amor antigo que caminha em silêncio
por uma eternidade de bocas enterradas.
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Trinou o Zorzal

Trinou o Zorzal, pássaro puro
dos campos do Chile:
chamava, celebrava,
escrevia no vento.

Era cedo,
aqui, no inverno, na costa.
Ficava um arrebol celeste
como um delgado pedaço de bandeira
flutuando sobre o mar.

Depois a cor azul invadiu o céu
até que tudo se encheu de azul,
porque esse é o dever de cada dia,
o pão azul de cada dia.
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XXXVI

Não será por fim a morte
uma cozinha interminável?

Que farão teus ossos desagregados,
buscarão outra vez tua forma?

Se fundirá tua destruição
em outra forma e em outra luz?

Formarão parte teus vermes
de cães ou de borboletas?
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XXXVIII

Não achas que vive a morte
dentro do sol de uma cereja?

Não pode também matar-te
um beijo da primavera?

Achas que o luto te adianta
a bandeira de teu destino?

E encontras na caveira
tua estirpe a osso condenada?
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LXV

Brilha a gota de metal
como uma sílaba em meu canto?

E não se arrasta uma palavra
às vezes como uma serpente?

Não crepitou em teu coração
um nome como uma laranja?

De que rio saem os peixes?
Da palavra joalheria?

E não naufragam os veleiros
por um excesso de vogais?
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LXVI

Lançam fumaça, fogo e vapor
os o das locomotivas?

Em que idioma cai a chuva
sobre cidades dolorosas?

Que suaves sílabas repete
o ar da aurora marinha?

Há estrela mais aberta
que a palavra papoula?

Há duas presas mais agudas
que as sílabas de chacal?
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