Escritas

Lista de Poemas

Manhã - XIV

Me falta tempo para celebrar teus cabelos.
Um por um devo contá-los e louvá-los:
outros amantes querem viver com certos olhos,
eu só quero ser penteador de teus cabelos.


Na Itália te batizaram Medusa
pela encrespada e alta luz de tua cabeleira.
Eu te chamo brejeira minha e emaranhada:
meu coração conhece as portas de teu pelo.


Quando tu te extraviares em teus próprios cabelos,
não me esqueças, lembra-te que te amo,
não me deixes perdido ir sem tua cabeleira


pelo mundo sombrio de todos os caminhos
que só tem sombra, transitórias dores,
até que o sol suba à torre de teu pelo.
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Meio-Dia - XLIX

É hoje: todo o ontem foi caindo
entre dedos de luz e olhos de sonho,
amanhã chegará com passos verdes:
ninguém detém o rio da aurora.


Ninguém detém o rio de tuas mãos,
os olhos de teu sonho, bem-amada,
és tremor do tempo que transcorre
entre luz vertical e sol sombrio,


e o céu fecha sobre ti suas asas
levando-te e trazendo-te a meus braços
com pontual, misteriosa cortesia:


por isso canto ao dia e à lua,
ao mar, ao tempo, a todos os planetas,
a tua voz diurna e a tua pele noturna.
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Noite - LXXXII

Amor meu, ao fechar esta porta noturna
te peço, amor, uma viagem por escuro recinto:
fecha teus sonhos, entra com teu céu em meus olhos,
estende-te em meu sangue como num amplo rio.


Adeus, adeus, cruel claridade que foi caindo
no saco de cada dia do passado,
adeus a cada raio de relógio ou laranja,
saúde, oh sombra, intermitente companheira!


Nesta nave ou água ou morte ou nova vida,
uma vez mais unidos, dormidos, ressurgidos,
somos o matrimônio da noite no sangue.


Não sei quem vive ou morre, quem repousa ou desperta,
mas é teu coração o que reparte
em meu peito os dons da aurora.
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XLVIII

São os seios das sereias
os redondos caracóis?

Ou são ondas petrificadas
ou jogo imóvel da espuma?

Não se incendiou a pradaria
com os vagalumes selvagens?

Os cabeleireiros do outono
despentearam os crisântemos?
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Vallejo

Mais tarde na Rua Delambre com Vallejo bebendo calvados
e cerveja nos copos imensos da Rua Alegria,
porque então meu irmão tinha alegria no copo
e levantávamos juntos a felicidade de um minuto que ardia no ar
e que se apagaria em sua morte deixando-me cego.
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O canto

A torre do pão, a estrutura que o arco constrói na altura
com a melodia elevando sua fértil firmeza
e a pétala dura do canto crescendo na rosa,
assim tua presença e tua ausência e o peso de tua cabeleira,
o fresco calor do teu corpo de aveia na cama,
a pele vitoriosa que tua primavera dispôs ao lado
de meu coração que golpeava na pedra do muro,
o firme contato de trigo e de ouro de teus ensolarados quadris,
tua voz derramando doçura selvagem como uma cascata,
tua boca que amou a pressão dos meus beijos tardios,
foi como se o dia e a noite cortassem seu nó mostrando entreaberta
a porta que une e separa a luz da sombra
e pela abertura assomasse o distante domínio
que o homem buscava furando a pedra, a sombra, o vazio.
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XVII - A ilha

Oh torre da luz, triste formosura
que dilatou no mar estátuas e colares,
olho calcário, insígnia da água extensa, grito
de albatroz enlutado, dente do mar, esposa
do vento oceânico, oh rosa separada
do tronco do rosal despedaçado
que a profundidade converteu em arquipélago,
oh estrela natural, diadema verde,
só em tua solitária dinastia,
inatingível ainda, evasiva, deserta
como uma gota, como uma uva, como o mar.
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Iii - Tu o Fizeste

Houve muitos homens,
muitos Fucik
que fizeram bem todas as coisas da vida.
Tu, Julius Fucik,
também as fizeste.
Os pequenos e grandes deveres dolorosos
e os indispensáveis
pequenos movimentos,
cumprir, cumprir:
a retidão é um ponto severo
que se repete até ser uma linha,
uma norma, um caminho,
e este ponto o fizeste
como todos os homens simples
por dever e por alegria,
porque assim temos que ser.
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XXXII

Há algo mais tolo na vida
que chamar-se Pablo Neruda?

Há no céu da Colômbia
um colecionador de nuvens?

Por que sempre se fazem em Londres
os congressos de guarda-chuvas?

Sangue cor de amaranto
tinha a rainha de Sabá?

Quando Baudelaire chorava
chorava com lágrimas negras?
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Noite - XCV

Os que se amaram como nós? Busquemos
as antigas cinzas do coração queimado
e ali que tombem um por um nossos beijos
até que ressuscite a flor desabitada.


Amemos o amor que consumiu seu fruto
e desceu à terra com rosto e poderio:
tu e eu somos a luz que continua,
sua inquebrantável espiga delicada.


Ao amor sepultado por tanto tempo frio,
por neve e primavera, por esquecimento e outono,
acerquemos a luz de uma nova maçã,


do frescor aberto por uma nova ferida,
como o amor antigo que caminha em silêncio
por uma eternidade de bocas enterradas.
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