Escritas

Lista de Poemas

Serenata de Paris

Formosa é a Rua da Huchette, pequena como uma romã
e opulenta em seu pobre esplendor de vitrine andrajosa:
ali entre os beatniks barbudos neste ano do sessenta e cinco
tu e eu transmigrados de estrela vivemos felizes e surdos.
Faz bem quando longe tremia e chovia na pátria
descansar uma vez na vida fechando a porta ao lamento,
suportar com a boca apertada a dor dos teus que é tua
e enterrar a cabeça na luz madurando o racimo do pranto.

Paris guarda em seus tetos tortos os olhos antigos do tempo
e em suas casas que apenas sustentam as vigas externas
há lugar de alguma maneira invisível para o caminhante,
e ninguém sabia que aquela cidade te esperava algum dia
e apenas chegaste sem língua e sem ganas soubeste sem que ninguém te dissesse
que estava teu pão na padaria e teu corpo podia sonhar em sua orla.

Cidade vagabunda e amada, coroa de todos os homens,
diadema radiante, sargaço de rotiserías5,
não há um só dia em teu rosto, nem uma folha de outono em tua copa:
és nova e renasces de guerra e lixo, de beijos e sangue,
como se em cada hora milhões de adeuses que partem
e de olhos que chegam te fossem fundando, assombrosa
e o pobre viajante assustado de repente sorri acreditando que o reconheces,
e em tua indiferença se sente esperado e amado
até que mais tarde não sabe que sua alma não é sua
e que teus costumes de fumaça guiavam seus passos
até que uma vez em seu espelho o olha a morte
e em seu enterro Paris continua caminhando com passos de criança,
com asas aéreas, com águas do rio e do tempo que nunca envelhecem.
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Manhã - XIII

A luz que de teus pés sobe a tua cabeleira,
a turgência que envolve tua forma delicada,
não é de nácar marinho, nunca de prata fria:
é de pão, de pão amado pelo fogo.


A farinha acumulou seu celeiro contigo
e cresceu incrementada pela idade venturosa,
quando os cereais duplicaram teu peito
meu amor era o carvão trabalhando na terra.


Oh, pão tua fronte, pão tuas pernas, pão tua boca,
pão que devoro e nasce com luz cada manhã,
bem-amada, bandeira das fornadas,


uma lição de sangue te concedeu o fogo,
da farinha aprendeste a ser sagrada,
e do pão o idioma e o aroma.
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Regresso

Amor meu, no mar navegamos de volta à raça,
à herança, ao vulcão e ao recinto, ao idioma adormecido
que nos saía pela cabeleira nas terras alheias:
o mar palpitava como uma nutriz repleta,
os seios atlânticos sustêm o mínimo navio dos passageiros
e apenas sorriem os desconhecidos bebendo substâncias geladas,
trombones e missas e máscaras, comidas rituais, rumores,
cada um se amarra a seu olvido com sua predileta corrente
e os cochichos do dissimulado de orelha furtiva
o cesto de ferro nos leva apalpando e cortando o oceano.
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X

Que pensarão de meu chapéu
daqui a cem anos os polacos?

Que dirão de minha poesia
os que não tocaram meu sangue?

Como se mede a espuma
que resvala da cerveja?

Que faz uma mosca encarcerada
em um soneto de Petrarca?
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Manhã - VIII

Senão fosse porque têm cor de lua teus olhos,
de dia com argila, com trabalho, com fogo,
e aprisionada tens a agilidade do ar,
se não fosse porque uma semana és de âmbar.


se não fosse porque és o momento amarelo
em que o outono sobe pelas trepadeiras
e és ainda o pão que a lua fragrante
elabora passeando sua farinha pelo céu,


oh, bem-amada, eu não te amaria!
Em teu abraço eu abraço o que existe,
a areia, o tempo, a árvore da chuva,


e tudo vive para que eu viva:
sem ir tão longe posso ver tudo:
vejo em tua vida todo o vivente.
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Ilha

Amor meu, na Ilha Saint-Louis escondeu-se o outono
como um urso de circo, sonâmbulo, coroado pelos guizos
que caem do plátano, em cima do rio, chorando:
cruzou o crepúsculo a Ponte do Arcebispado,
pé ante pé, detrás da Igreja que mostra suas graves costelas,
e tu e eu regressamos de um dia que não teve nada
a não ser esta dor e este amor disperso nas ruas,
o amor de Paris ataviado como uma estação cinzenta,
a dor de Paris com sua faixa de pranto enrolada à sua insigne cintura
e esta noite, fechando os olhos, guardaremos um dia como uma moeda
que já não se aceita na loja, que brilhou e consumou seu tesouro:
estendidos, caídos no sono, seguindo o imóvel caminho,
com um dia a mais ou a menos que agregou a teu vestuário
um fulgor de ouro inútil que, sem dúvida, ou talvez, é a vida.
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Os navios

Como no mercado se atiram ao saco carvão e cebolas,
álcool, parafina, batatas, cenouras, bifes, azeite, laranjas,
o navio é a vaga desordem onde caíram
melífluas robustas, famintos tafuis, popes, mercadores;
às vezes decidem olhar o oceano que tem se detido
como um queijo azul que ameaça com olhos espessos
e o terror do imóvel penetra na fronte dos passageiros;
cada homem deseja gastar os sapatos, os pés e os ossos
mover-se no seu horrível infinito até que já não exista.
Termina o perigo, a nave circula na água do círculo
e longe assomam as torres de prata de Montevidéu.
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Manhã - VII

“Virás comigo”, disse, sem que ninguém soubesse
onde e como pulsava meu estado doloroso
e para mim não havia cravo nem barcarola,
nada senão uma ferida pelo amor aberta.


Repeti: vem comigo, como se morresse,
e ninguém viu em minha boca a lua que sangrava,
ninguém viu aquele sangue que subia ao silêncio.
Oh amor, agora esqueçamos a estrela com pontas!


Por isso quando ouvi que tua voz repetia
“Virás comigo”, foi como se desatasses
dor, amor, a fúria do vinho encarcerado


que de sua cantina submergida soubesse
e outra vez em minha boca senti um sabor de chama,
de sangue e cravos, de pedra e queimadura.
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Meio-Dia - XLII

Radiantes dias balançados pela água marinha,
concentrados como o interior de uma pedra amarela
cujo esplendor de mel não derrubou a desordem:
preservou sua pureza de retângulo.


Crepita, sim, a hora como fogo ou abelhas
e é verde a tarefa de submergir em folhas,
até que para a altura é a folhagem
um mundo cintilante que se apaga e sussurra.


Sede do fogo, abrasadora multidão do estio
que constrói um Éden com algumas quantas folhas,
porque a terra de rosto escuro não quer sofrimentos,


mas frescor ou fogo, água ou pão para todos,
e nada deverá dividir os homens
senão o sol ou a noite, a lua ou as espigas.
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Meio-Dia - XXXVI

Coração meu, rainha do aipo e da artesa:
pequena leoparda do fio e a cebola:
agrada-me ver brilhar teu império diminuto,
as armas da cera, do vinho, do azeite,


do alho, da terra por tuas mãos aberta,
da substância azul acesa em tuas mãos
da transmigração do sonho à salada,
do réptil enrolado na mangueira.


Tu, com tua podadeira levantando o perfume,
tu, com a direção do sabão na espuma,
tu, subindo minhas loucas escalas e escadas,


tu, manejando o sintoma de minha caligrafia
e encontrando na areia do caderno
as letras extraviadas que buscavam tua boca.
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