Lista de Poemas
I - Terra E Céu
Alturas da Mongólia,
desérticas alturas,
de repente avistei minha pátria,
o Norte Grande, Chile,
a pele seca, arranhada
da terra nos limites do céu.
Vi os montes de areia,
a extensão taciturna:
me recolhi escutando
o vento terrível de Gobi,
as tormentas
no “teto do mundo”
tudo tão parecido
com as regiões
de cobre e sal e céu
de meu país andino.
Depois o vento
trouxe cheiro de camelo,
uma brisa queimada
se transformou em incenso,
a luz deteve
um dedo
sobre a seda
de uma bandeira rubra,
e vi que estava longe
de minha pátria.
Os mongóis já não eram
os errantes
ginetes
do vento e da areia:
eram meus camaradas.
Mostraram-me
seus laboratórios.
Doce ali em cima era
a palavra
metalurgia.
Ali onde os magos
teceram
sabedoria e teias de aranha,
em Durga, negra Durga,
agora reluzia
o novo nome,
Ulan Bator,
o nome
de um capitão do povo.
E era tudo
tão simples.
Os jovens,
os universitários do deserto,
inclinados
sobre os microscópios.
Nas areias frias
da altura reluziam
os novos institutos,
as minas eram perfuradas,
os livros e a música
cantavam no coro
do vento
e o homem
renascia.
Noite - LXXXV
como o bafo de um boi enterrado no frio,
e longas línguas de água se acumulam cobrindo
o mês que a nossas vidas prometeu ser celeste.
Adiantado outono, favo silvante de folhas,
quando sobre os povoados palpita teu estandarte
cantam mulheres loucas despedindo os rios,
os cavalos relincham para a Patagônia.
Há uma trepadeira vespertina em teu rosto
que cresce silenciosa pelo amor transportada
até as ferraduras crepitantes do céu.
Me inclino sobre o fogo de teu corpo noturno
e não apenas teus seios amo mas o outono
que esparge pela névoa seu sangue ultramarino.
Os Invasores
Os que arrasaram
antes a Nicarágua.
Os que roubaram o Texas.
Os que humilharam Valparaiso.
Os que com garras sujas
apertam a garganta
de Porto Rico.
À Coréia chegaram.
Chegaram.
Com napalm e com dólares,
com destruição, com sangue,
com cinzas e lágrimas.
Com a morte.
Chegaram.
à mãe e ao menino
queimaram vivos na aldeia.
À escola florida
dirigiram
seu petróleo ardendo.
Para destruir as vidas e a vida.
Para buscar desde o ar
até o último
pastor nas montanhas
e matá-lo.
Para cercear os seios
da radiante guerrilheira.
Para matar prisioneiros em seus leitos.
Chegaram.
E súbito não houve senão morte.
Fumaça, cinzas, sangue, morte.
Iv - o Cinturão
um cinturão de couro de Orinoco.
Agora na cintura
levo um rio,
aves nupciais que em seu vôo levantam
as pétalas da espessura,
o longo trovão que perdi na infância
hoje o levo amarrado,
cosido com relâmpagos e chuva,
subjugando minhas velhas calças.
Couro de litoral, couro de rio,
te amo e toco,
és flor e madeira, sáurio e lodo,
és argila extensa.
Passo minha mão sobre tuas rugas
como sobre minha pátria. Tens lábios
de um beijo que me busca.
Mas não só amor, oh terra, tens,
sei que também me guardas
a dentada, o fio, o extermínio
que perguntam por mim todos os dias,
porque tua costa, América, não tem apenas plumas
de um leque incendiário,
não tem só açúcar luminoso,
frutas que pestanejam,
mas o venenoso sussurro
da facada secreta.
Aqui só
me provou o rio:
não fica mal em minha cintura.
O Orinoco
é como um nome que me falta.
Eu me chamo Orinoco,
devo ir com a água na cintura,
e desde agora
esta linha de couro
crescerá com a lua,
abrirá seus estuários na aurora,
caminhará as ruas
comigo e entrará nas reuniões
recordando-me
de onde sou: das terras abruptas
de Sinaloa e de Magallanes,
das pontas de ferro andino,
das ilhas de furacão,
porém mais que todos os lugares,
do rio caimão verde,
do Orinoco, envolto
pelas suas respirações,
que entre suas duas margens sempre recém-bordadas
vai estendendo seu canto pela terra.
Carlos Augusto, obrigado,
jovem irmão, porque no meu exílio
a água pátria me mandaste. Um dia
verás aparecer na corrente
do rio
que desatada corre e nos reúne,
um rosto, nosso povo,
alto e feliz cantando com as águas.
E quando esse rosto nos fitar
pensaremos “fizemos nossa parte”
e cantaremos com nossos rios,
com nossos povos cantaremos.
Iii - a Cidade Ferida
continuava sangrando
secreto sangue, escura
a noite ia e vinha.
O resplendor do tempo
como um relâmpago em Berlim do Este
iluminava o passo
dos jovens livres
que levantavam a cidade novamente.
Na sombra passei de lado a lado
e a tristeza de uma idade antiga
me encheu o coração como uma pá
carregada de imundície.
Em Berlim custodiava o Ocidente
sua “Liberdade” imunda,
e ali também estava
a estátua com seu falso
fanal, sua carranca leprosa
pintada de alcoólico carmim,
e na mão o garrote
recém-desembarcado de Chicago.
Berlim Ocidental, com teu mercado
de jovens rameiras
e de soldados invasores ébrios,
Berlim Ocidental, para vender tua pobre
mercadoria
saturaste os muros
de afixos com pernas obscenas,
de vampiras seminuas,
e até os cigarros um sabor
de vício negro têm.
Os pederastas dançam apertando-se
com os técnicos do State Department.
As lésbicas descobriram
seu protegido paraíso
e seu santo: San Ridgway.
Berlim Ocidental, és a pústula
do rosto antigo da Europa,
os velhos zorros nazistas
resvalam no muco
de tuas iluminadas ruas sujas,
e Coca-Cola e anti-semitismo
correm em abundância
sobre teus excrementos e tuas ruínas.
Es a cidade maldita, filha da tartaruga Truman
e do desterrado crocodilo hitleriano,
e afiam-lhe os dentes,
e dão-lhe baionetas
enquanto o boogy-boogy
desencadeia o fio delirante
do mercado sexual para soldados.
“Jovenzinha alemã
de dezenove abris
busca o velho senhor, ou comerciante
estabelecido, para vender-lhe logo
sua juventude”, diz o jornal.
E na sombra terrível
da noite que passa
desembarcam os tanques.
Os gases que assassinaram
na metade da Europa
voltam a serem fabricados
com monopólio norte-americano.
Velhos carrascos nazistas
saem de novo e ladram
nos cafés, olfateando o sangue,
a arte abstrata e o conflito da “alma”
são temas das artes, salpicadas
com sangue e sexo,
como nos bons tempos de Adolfo
fecham jornais e golpeiam o ventre
de alguma mocinha comunista
que lhes cospe no rosto.
Assim é a vida,
e neste Berlim tombaram homens
em todos os cachos da morte.
Para esta cidade negra,
pustular, venenosa,
a Liberdade deu suas maiores veias,
sangrando desde o Volga
até as águas negras do Sprea.
Para este baile norte-americano
e este garrotaço de Washington,
lutaram, ai, lutaram
todos os homens
de um mar até outro,
até todas as terras e as ilhas.
Por isso voo passo a passo
a Berlim Oriental, também a noite
cobre os telhados quebrados,
mas eu vejo o sonho,
sei que o trabalho dorme
para na noite acumular sua força.
Vejo os últimos jovens que cantam
voltando das fábricas.
Vejo
a luz através da noite,
a cor das flores
que enchiam os trens quando cheguei à Alemanha.
Respiro porque o homem
aqui é meu irmão.
Aqui não preparam o lobo,
aqui não afiam os dentes
para desenfrear a carnificina.
Aqui cheira
à escola varrida e regada,
cheira a tijolos recém-transportados,
cheira à água fresca,
cheira à padaria,
cheira à verdade e a vento.
Meio-Dia - XXXIII
onde a trepadeira sobe pelas escadas:
antes que chegues, alcançou teu quarto
o verão nu com pés de madressilva.
Nossos beijos errantes percorreram o mundo:
Armênia, espessa gota de mel desenterrada,
Ceilão, pomba verde, e Yang Tsé separando
com antiga paciência os dias das noites.
E agora, bem-amada, pelo mar crepitante
voltamos como duas aves cegas ao muro,
ao ninho da longínqua primavera,
porque o amor não pode voar sem deter-se:
ao muro ou às pedras do mar vão nossas vidas,
a nosso território regressaram os beijos.
O Anjo da Poesia
com outras flores que na terra
não têm ainda nome.
Tua firmeza é a flor da árvore do aço.
É tua fraternidade a flor do pão fragrante.
É teu inverno uma flor em que a neve
ilumina o amor sem ameaça.
Eu percorri a terra onde Pushkin voltava
para elevar em seu canto a luz dos cristais,
e presenciei como seu povo levantava
esta constelação sobre as mãos
acostumadas a elevar o trigo.
Pushkin, foste o anjo
do Comitê Central.
Contigo visitei ruínas sagradas
ali onde os soldados de teu povo
defenderam as sílabas de tua alma.
Contigo vi crescer dos escombros
o gigantesco voo da vida,
as rodas do trator rumo ao outono,
novas cidades cheias de ruídos,
aviões amarelos como abelhas.
E quando entrei no museu ou na casa,
na fábrica, no rio que te segue cantando,
ou quando na cidade de Lenin vi apagadas
as cicatrizes do martírio augusto,
oh camarada transparente, estavas
junto a meu coração dando-me toda
a orgulhosa estrutura de tua pátria.
Ali, enfim, um anjo não levava mais arma
que um ramo cristalino de relâmpagos
e ele e toda sua terra defendiam
as sílabas errantes de meu canto.
Ali por fim a paz me resguardava.
E Pushkin me dizia: “Vem comigo
até Novosibirsk, além nas terras
desérticas, povoadas
antes pela solidão e pelas dores,
hoje a bandeira de minha voz passeia
sobre as construções orgulhosas”
Anjo, querias que toda tua vida
visitasse, tocando as espigas,
enumerando fábricas e escolas,
conversando com meninos e soldados.
Veio a Morte de Paul
de Paul Éluard.
Aí, o pequeno sobrescrito
do telegrama.
Fechei os olhos, era
sua morte, algumas letras,
e um grande vazio branco.
Assim é a morte. Assim
veio através do ar
a flecha de sua morte
a transpassar meus dedos
e ferir-me como espinho
de uma rosa terrível.
Herói ou pão, não recordo
se sua louca doçura
foi a do coroado vencedor
ou foi só o mel que se reparte.
Eu recordo
seus olhos,
gotas daquele oceano celeste,
flores de azul cerejeira,
antiga primavera.
Quantas coisas
caminham pela terra e pelo tempo,
até formar um homem.
Chuva,
pássaros litorais cujo grito
rouco ressoa na espuma,
torres,
jardins e batalhas.
Isso
era Éluard: um homem
rumo ao que tinham vindo
caminhando
raias de chuva, verticais fios
de intempérie,
e espelho de água clássica
em que se refletia e florescia
a torre da paz e a formosura.
Meio-Dia - XLV
porque, não sei dizê-lo, é comprido o dia,
e te estarei esperando como nas estações
quando em alguma parte dormitaram os trens.
Não te vás por uma hora porque então
nessa hora se juntam as gotas do desvelo
e talvez toda a fumaça que anda buscando casa
venha matar ainda meu coração perdido.
Ai que não se quebrante tua silhueta na areia,
ai que não voem tuas pálpebras na ausência:
não te vás por um minuto, bem-amada,
porque nesse minuto terás ido tão longe
que eu cruzarei toda a terra perguntando
se voltarás ou se me deixarás morrendo.
Outro
que não figurava nos livros
acostumei-me às terras tenazes
em que ninguém me perguntava
se me agradavam as alfaces
ou se preferia a menta
que devoram os elefantes.
E de tanto não responder
tenho o coração amarelo.
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Com treze anos, começou a contribuir com alguns textos para o jornal La Montaña. Foi em 1920 que surgiu o pseudônimo Pablo Neruda – uma homenagem ao poeta tchecoslovaco Jan Neruda. Vários dos poemas desse período estão presentes em Crepusculário, o primeiro livro do poeta, publicado em 1923.
Além das suas atividades literárias, Neruda estudou francês e pedagogia na Universidade do Chile. No período de 1927 a 1935, trabalhou como diplomata, vivendo em Burma, Sri Lanka, Java, Cingapura, Buenos Aires, Barcelona e Madri. Em 1930, casou-se com María Antonieta Hagenaar, de quem se divorciaria em 1936. Em 1955, conheceu Mathilde Urrutia, com quem ficaria até o final da vida.
Em meio às turbulências políticas do período entre-guerras, publicou o livro que marcaria um novo período em sua obra, Residência na terra (1933). Em 1936, o estouro da Guerra Civil Espanhola e o assassinato de García Lorca aproximaram o poeta chileno dos republicanos espanhóis, e ele acabou destituído de seu cargo consular. Em 1943, voltou ao Chile, e, em 1945 foi eleito senador da república, filiando-se ao partido comunista chileno. Teve de viver clandestinamente em seu próprio país por dois anos, até exilar-se, em 1949. Um ano depois foi publicado no México e clandestinamente no Chile o livro Canto geral. Além de ser o título mais célebre de Neruda, é uma obra-prima de poesia telúrica que exalta poderosamente toda a vida do Novo Mundo, denuncia a impostura dos conquistadores e a tristeza dos povos explorados, expressando um grito de fraternidade através de imagens poderosas.
Após viver em diversos países, Neruda voltou ao Chile em 1952. Muito do que ele escreveu nesse tempo tem profundas marcas políticas, como é o caso de As uvas e o vento (1954), que pode ser considerado o diário de exílio do poeta. Em 1971, Pablo Neruda recebeu a honraria máxima para um escritor, o Prêmio Nobel de Literatura. Morreu em Santiago do Chile, em 23 de setembro de 1973, apenas alguns dias após o golpe militar que depusera da presidência do país o seu amigo Salvador Allende.
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