Escritas

Lista de Poemas

Explore os poemas da nossa coleção

natalia nuno

natalia nuno

entardecer...

é doce ...chega contigo
até a brisa do salgueiro
entardecer q' és abrigo
hoje a lua veio primeiro

volto a sentir o pulsar
com ternura serei ave
doce andorinha a voar
serei do amor tua chave

esquivo poema a rimar
o céu é polpa de rubi
andam melros a trinar
nas palavras que eu urdi

tarde obscura de estio
olho agora a quietude
tu o mar ... e eu o rio
correndo pra ti amiúde

no riso do amanhecer
ou no mistério da tarde
em ti me volto a perder
êxtase q'é minha verdade

e logo a luz da aurora...
- as tuas carícias de mel
chegada do amor a hora
arrepia-se a nossa pele

natalia nuno
rosafogo
336
natalia nuno

natalia nuno

deixa-me sonhar...

senta-te ao meu lado
diminui esta distância entre
a tristeza e a felicidade
deixa-me falar-te da saudade
faz das tuas palavras meu sonhar
faz deste dia um dia perene
de alegria a transbordar,
deixa que me aninhe junto a ti
deixa que o tempo se detenha
que se incendeie meu sonho
e me extasie..
e depois se vier a morte
pois que venha!

natália nuno
298
natalia nuno

natalia nuno

raminhos de alecrim...prosa poética

hoje vim apanhar raminhos de alecrim, escolho caprichosamente, como se as minhas mãos fossem de delicado artista, que tanto escrevam e me façam sonhar afagando meu tempo de outono...as águas alegres do rio sorriem para mim, um freixo agita a ramagem com a aragem que vai para sul...um constante silêncio, apenas interrompido pelo chilrear duma ave na azul lonjura...no destino da tarde trazemos lembranças nostálgicas, no coração e no no pensamento, ecos desprendidos da infância, a nostalgia se aprofunda e recordamos os poentes dos dias inolvidáveis e inesquecíveis...mas hoje vim apanhar alecrim aos molhos, e por mim passam todos os dias da minha vida, e no meu coração há sempre uma cicatriz pronta a abrir, deixando-me numa saudade que às vezes é de lágrimas, outras de risos. mas sempre me protege do esquecimento...as minhas mãos recordam essa vida distante, de lavar no rio, de escolher os figos na eira, de segurar a cântara à cabeça, eram estes afazeres os livros que tanto ansiava e nunca tive... acordar o passado e deixá-lo no meio do silêncio da gente e da natureza, é acender uma chama onde existe força, emoção, e ainda caminho para prosseguir, quase alegre como se tivesse asas para perseguir as palavras que vou plantando neste doce cansaço que me reconcilia com o tempo e com a vida...hoje aproveito a dávida deste aroma do campo para matar a sede dos meus sonhos. E sempre faço a mesma pergunta: quem és? porque continuas aí? E a menina do baloiço me sorri, já começa a esfumar-se o seu rosto, apenas alcanço a sua ténue voz...já é apenas um sonho!


natalia nuno
252
natalia nuno

natalia nuno

clamor...trovas

silva o vento pela janela
parece meu nome gritar
passa a vida e eu por ela
e a saudade a contestar

o pássaro chora perdido
como criança sem mãe
e o meu coração partido
chora tal qual ele também

meus olhos tristes caindo
vão morrendo dia a dia
só minha boca sorrindo
com uma estranha ironia

logo os sonhos embrumados
inertes no silêncio da loucura
marioneta de gestos cansados
no peito duendes de ternura.

um dia abre-se uma greta
destas cortinas da janela
e logo a morte como seta
quererá que siga com ela

e na sua ávida avareza
no seu afiado gume...
amarras traz com certeza
segui-la-ei sem azedume.

natalia nuno
rosafogo
270
natalia nuno

natalia nuno

onde a vida me esqueceu...

Onde caminha a solidão
É onde a Vida se cala!
Quer eu queira quer não?!
Já tudo se vai, até minha alma.
O meu sonho, é meu cadilho
O meu caminho transformado em trilho.


Não quero ir por aí
Choro por me ver chorar
E fico por aqui!
Com tristeza em meu olhar.
Invento um tempo só meu
Invento asas, faço apelos, falo em ternura
Afronto até a noite escura
E no escuro das pálpebras clareia o dia
Mas hoje? Não estou dada à alegria.

Quantos sonhos dados como certos
Tantos outros foram inquietação
Já não sei quem me quer ou não!
Quem põe pedras nos meus caminhos desertos.

Então choro, só de me ver chorar
Sinto-me pássaro rasando a àgua
Na ânsia de se libertar.
De mais um dia de mágoa.
As nuvens do meu céu, são pequenos dragões
Que trazem tempestade às certezas e ilusões.

E a Vida se esvai, até ao último grão
Semente que na terra se esboroa
E é sombra que me cai no coração
E me deixa a chorar à toa.

rosafogo

Cada verso é como um filho
Que me deixa no olhar um estranho brilho.



Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=116038 © Luso-Poemas
221
Sirlânio Jorge Dias Gomes (R)

Sirlânio Jorge Dias Gomes (R)

Preâmbulos

Quem me compreende?
Onde estou neste caos?
Estes monstros do meu eu,
Adormecidos entre gemidos,
Vulcões da alma sangrando o corpo.
A vontade assalta a liberdade,
Sufocando-a em seus grilhões,
Invisíveis desafetos da personalidade,
Guerreando entre os fantasmas do tempo,
Devoradores de sonhos e felicidade.
Onde está aquilo que preciso?
Pode estar em qualquer lugar,
Na sensata visão do mundo,
Que me permito ver,
Além das sombras do mal aparente,
Caminhos vazios da fúria.
Onde estãos os verdadeiros amigos?
Devem estar procurando os seus,
A buscar respostas no infinito,
Na finitude de si mesmos,
Trazendo nas mãos,
Seus candeeiros da vida,
Esvaindo-se entre a razão,
Embriagada em seus destinos.



1 222
Isabel Pires

Isabel Pires

Das viagens de dentro

Não sei se me parecem muitos ou poucos dias, aqueles que passaram desde que te disse que vou andando por aí ou por aqui,
e até te disse que podia ser de qualquer forma,
que afinal há só uma quando nos encontramos sempre,
mesmo que em qualquer ponto do invisível aos olhos.

Continua a parecer-me que a minha alma está sentada próximo do coração.
Pela agitação da bordadura de seda que a envolve,
agora até me tem parecido que ela está menos tempo sentada.
Corre mais vezes para o mar, é isso, à procura da tua alma, quando não a vejo.
(Lembras-te de ter perguntado por onde anda a tua alma, seguido do aviso para que não a deixasses cair?)
Às vezes, quando a solidão anda muito zangada
a ponto de enfiar a cara em todos os buracos e açambarcar os vazios de todos os silêncios,
mesmo dos bons,
ponho a alma no tal colchão feito de pétalas brancas
- se ainda existe? claro que sim! -
e deixo-a boiar até se dar a colisão
- e como o atropelamento (i)mortal faria aqui tanto sentido, já viste? e lembras-te? nem de propósito... - ,
numa qualquer vaga que tece o lindo lençol de seda
- a mesma textura da bordadura que envolve a alma, sentiste?-,
que chamei muito, e ainda chamo, de lindo lençol de seda negra por ser assim que o vi primeiro,
mas que descobri também saber erguer-se em branco-luz feito em desafio de velas.

Trocamos de caneta para pintar as folhas do navio que
leva e faz
histórias com tudo dentro,
que as histórias felizes também têm céu,
e os céus às vezes fazem birras, largam raios e até choram.
Tal e qual como dizem as tuas cúpulas. (Lindas! Sempre, mesmo as tristes.)
Exactamente como te disse naquele dia
em que te prometi sentir-te nas tuas coisas,
só porque são tuas,
e agora voltei a bordar nas velas.

356
natalia nuno

natalia nuno

sou...

sou feita de velhos dias, sem brilho
turvam-se já meus olhos de tristeza
um sopro de inspiração, é meu trilho
sou água a tocar no fundo, incerteza!

sou aquilo que escrevo e pouco mais
sou a que fala de tudo, e até de amor
sou a que o poema manifesta, até os ais
choram os meus olhos se falam de dor

sou por fim a manifestação da loucura
sou saudade da primavera, já sem brilho
feita de velhos dias, q' ninguém procura

sou a rapariga que tempo velho ocultou
sou sem qualquer ironia, trapo andarilho
serei curso de água parado ou rio q' secou.

natalia nuno
342
natalia nuno

natalia nuno

para quem escrevo?...

Olho-me ao espelho e
a interrogação fica na boca
porquê esta pressa louca?
Há sempre uma hora a morrer
um dia a desaparecer
e eu aqui entre os outros
julgando-me forte
olho as minhas pegadas sobre a terra
caminho, sonho
e esqueço a morte.

E escrevo para quê?
E para quem escrevo?
Certamente para quem lê!
E para quem não lê,
e todos são uma multidão.

Para ti, são as palavras
que sem quereres lê-las
te vão entrando no coração,
se não te forem indiferentes
terás a minha gratidão
gratidão dum
coração que não pára
como o mar,
pois há nele memória e solidão,
enquanto o poeta caído
continua a sonhar...

Escrevo a palavra quotidiana
e o que digo é pouco ou nada
falo do tempo e da saudade
nesta língua por mim amada.

natalia nuno
rosafogo

Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=267121 © Luso-Poemas
325
Nick

Nick

Lua de marfim

Navio Negreiro

Mar calmo ao longe flutua o veleiro

Brisa leve sopra e o leva ao Brasil,
No convés há um bom marinheiro
Preso como todos nesse plano vil.

Decidiram juntos viajar para África
E riquezas daquela terra trazerem,
Pois seria coisa muito fácil, prática,
Pegar negros e além-mar venderem.

No porão do navio vem amarrados,
Seres humanos pra comercializar.
O capitão e os marujos engajados,
No negócio de escravos transportar.

Prisioneiros olham pelas escotilhas,
Noite clara lua branca como marfim,
Para trás ficaram esposas e filhas,
Sua vida agora está mesmo é ruim.

Liberdade para com eles ficou omissa.
A tripulação pouco está a se importar,
Irão mandar depois rezar uma missa,
Quando chegar ao Brasil vão festejar.

Gratos a Deus, Jesus, Espírito Santo,
Pela boa caça e riqueza que ganharem,
Pela venda dos escravos, é bom tanto
De dinheiro pra entre eles separarem.

Segue a caravela pelo mar indomável,
Céu de lua pálida, a tristeza a aflorar...
Mar imenso, salgada água interminável:
São as lágrimas do povo negro a chorar!


Parcicipação de Nick no 23º POETIZANDO E ENCANTANDO organizado pela Profª Lourdes Duarte, do excelente blog Filosofando na Vida - 2018
1 116
Sirlânio Jorge Dias Gomes (R)

Sirlânio Jorge Dias Gomes (R)

Casual

Lembro-me do olhar,
Foi simples,
Mas inundou-me
De repente,
Vi-me em teus braços,
Absorvendo os teus beijos,
Desejando o desconhecido,
Na exata paixão de nós dois.
752
Sirlânio Jorge Dias Gomes (R)

Sirlânio Jorge Dias Gomes (R)

Aleivosia

A chuva cai lá fora,
Imitando a minha tristeza,
A lavar meu pesaroso coração,
Arrancado do peito,
Pela aflição do infiel amor,
Que sem piedade,
Vestiu-se de tempestade,
Desabou sobre mim.
As rosas que eu trazia,
Despetalaram-se pelo tremor,
Das minhas mãos impetuosas,
Fracas e arrependidas,
De ter tocado a infelicidade,
Nas juras maliciosas,
De quem prometeu-me fidelidade.
Ainda é cedo neste açoite,
Onde sangro em minha dor,
Ataviado de amargura,
Lutando contra os monstros,
A devorar minha carne,
Neste pesadelo,
Enquanto não amanhece,
Em meu espírito em trevas.

733
natalia nuno

natalia nuno

poeta nas nuvens...

O poeta é uma espécie de doido varrido
Vive e morre cantando dores sem cura
É como um mendigo esquecido,
Feliz, eleva a sua musa às alturas.
Canta a tragédia, vive suspirando
Às vezes não cala a sua indignação
Dia após dia se resignando
Repetidamente se apodera dele a emoção.

Chora e soluça, também sonha, sonha...
O Poeta é um sonhador sem vergonha!

Delicia-se a sonhar, carícias e doçuras
Às vezes sente-se ave acorrentada
Outras solta-se nas alturas,
Ou fica errante p'la estrada
É veloz, tem asas de condor
Tudo ama, tudo o cega, vive de amor.

O Poeta cria seu Mundo à parte
Não se conforma em perder
Com muito engenho e arte!?
Escreve de manhã ou ao anoitecer.
De voz clara fala de outrora
Da distancia infinda, lembranças!?
Fala da flor que murcha agora.
Fala da velhice e da mocidade
Fala dos sonhos, das esperanças
E porque sofre fala também da saudade.

Murmura suas preces sem pausas
Na esperança de respostas receber
Suspira amargurado, indiferente às causas
De tudo julgar ter... e nada ter.
Canta seu Deus, e a Natureza
É fanático p'la liberdade
Mas no seu coração vive a certeza!?
De que um dia morrerá de saudade.

Tem sempre saudades dum bem
Seu coração é de criança sem maldade,
Mas só desse bem lhe vem,
A Poesia com vontade!


Desfia seu rosário em ritmo lento
Finge que a linguagem não é sua
Retém lágrimas ou sorri a cada momento
Imerge da tristeza, e também amua.
Não pára de saciar sua sede ardente
Como um rouxinol, cantando, cantando...
Nas alturas celestes se deixa voando.
Ora se sente ninguém, ora se sente gente.


natalia nuno

Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=139803 © Luso-Poemas
281
PÉRICLES ALVES DE OLIVEIRA - THOR MENKENT

PÉRICLES ALVES DE OLIVEIRA - THOR MENKENT

OS ANJOS E OS SANTOS NÃO TIVERAM PIEDADE!

Depois que andamos
juntos pelas sombras, pelas terras
e pelas pedras,

tu, ainda jovem
e linda, com teus cânticos medievais
e com tua face e corpo
luzeados,

foste plantada
sob a terra, pois eras reclamada,
por ciúme, pelas almas
dos deuses e anjos.

E teu espírito,
inigualável e absurdamente
puro, no silêncio que aqui se fez,
foi ao céu contemplá-los,

deixando-me
vazio entre um monte de cacos
coloridos esparramados pelo ainda vivos
homens!
1 130
natalia nuno

natalia nuno

incrédula vi a vida passar...trovas

sigo senhora de mim
sinto descer negra noite
talvez até seja o fim!?
a vida sempre m' afoite

recordando...

um riso fresco, tão doce
era o seu na mocidade
agora quem dera q'fosse
mas é choro de saudade

menina de figura esguia
seu olhar fundo sonhava
fruto ardente q'amadurecia
com o sol que a beijava...

era o viço da primavera
mais linda que a lua cheia
agora ai quem lhe dera
vai sonhando volta e meia.

reflexão......

queixume ou apenas receio
q' nem qualquer um escuta
vai a vida a mais de meio
taciturna vou levando a luta

que frialdade é envelhecer
resta um frémito de vida
vida, água do rio a correr
caminho nela reflectida.

natalia nuno




289
natalia nuno

natalia nuno

sonho maior...

sobrevoando os verdes da mente
viajo entre memórias embriagadas
num céu azul transparente
ou de nuvens pelo sol talhadas
vôo, ao compasso duma música que só eu escuto
na tranquilidade do sonho que me leva em desejo
até ao delírio... sussurra-me um canto confidente
esqueço até o rosto enrugado
essa verdade veemente,
que em mim se tem arvorado.
como abertas flores, os sonhos ou alucinações
rodopiam como se fosse um acontecer constante
e eu desço do tempo, deixo-me nesta cegueira
por um instante...
lembranças desejadas há muito detidas,
algumas, talvez ainda não nascidas!
mas destinadas a acontecer...
busco-as nas minhas entranhas
em sobressalto, como uma música ferida

procuro nelas enlear-me num sonho maior,
que não quero perder...lembranças
são minha vida...

e num confiado sonho vivo,
igual sempre a mim mesma
as horas vou abraçando num absoluto abandono
na escrita meu coração palpitando, aos ouvidos
sempre aquela incerteza que parece falar-me
deste outono que me rasga,
que me traz de repente um aroma
a recordar-me...há um vazio, carente de vazio
onde nada acontece, um espaço surdo e fechado
um rio que quer correr no meu coração parado

sou a mesma... saudade e inquietude
sou a criança que avançou na idade
e ao mesmo tempo sou por ora a juventude.

natalia nuno
264
natalia nuno

natalia nuno

o que o tempo tece...

Já me encosta à parede a Vida
Levando meu dia soalheiro
Agora nem novas, sou ave perdida
Sem ter poiso, ou poleiro.
No meu olhar sinto o vazio
E a culpa e o dano são da vida!?
Já a vida é noite onde o frio
Me deixa de tristeza vencida.

Minhas palavras são seara
Florescendo no meu peito
Ele que a Vida tanto amara
Vê seu tempo já tão estreito.

A Vida é como o vento logo vai
Deixa a saudade de outrora
Que do meu coração não sai
Vive nele a toda a hora.
Voa,como o vento não se prende
E é livre como o Amor!
Pára o relógio de repente
E nos consome de dor.

Resta a minha esperança acesa
Que de esperar não se cansa
À noitinha faço reza
E aguardo da Vida mudança.
Me embalo nesta ilusão
Enquanto fôr, hei-de lembrar
Que a Vida não foi em vão
Mas que ninguém pode amarrar.

A esperança o tempo é quem tece
E eu sou nele caminhante
Quem dera que Deus me desse
Um viver lá por diante.
Ferve-me o sangue nas veias
Mesmo em dias de monotonia
E todas as minhas ideias
As transformo em Poesia.


E vou gritando até que o sono
Os olhos se fechem talvez!?
Já na noite me abandono
Deixo esta trova de vez.

Rosafogo

Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=124359 © Luso-Poemas
276
natalia nuno

natalia nuno

aquela mulher da aldeia...

Aquela mulher da aldeia
já foi jovem e bonita
ainda agora não é feia!
O tempo trouxe a desdita.
Vejo-a com os olhos da alma
mas perguntas não lhe faço
vejo-a apressada, ora calma
Sigo-a com a memória e com o passo.

Aquela mulher da aldeia
já não é bonita, nem feia!
criou ilusões a rodo
sofreu de angústia e de tédio
envelheceu e hoje todo,
o seu sonho não tem remédio,

já foi jovem e bonita
aquela mulher da aldeia
O tempo trouxe a desdita
já não é bonita, nem feia!

Mil e uma noites sonhou
até que se esqueceu de si
envelheceu engordou
e raras vezes sorri!
tem medo que lhe calem a voz
tem medo até de pensar
às vezes é frágil casca de nós
com medo de a vida a abandonar,

não há dinheiro que pague
lembranças que à mente lhe vêem
nem há tempo que as apague,
nos seus sonhos se revêem,
todas as suas afeições,
não é bonita, nem feia
criou na vida ilusões
aquela mulher da aldeia.

Já não se parece nada
com o retrato da parede,
junto à sua fonte amada,
a matar a sua sede
há quem a ache mais bonita
àquela mulher da aldeia
mas para sua desdita?
Não é bonita, nem feia!

Hoje só arruma sonhos
gosta das coisas no lugar
os dias pra ela enfadonhos
deixa-se envelhecer,
embebecida a olhar o mar,
desconfia do futuro
diz que o céu será cinzento
seu olhar se torna duro
duro lhe fica o pensamento.
ainda uma ou outra vez
deixa entrar a claridade
com a memória dia a dia ,
mês após mês
aprisonada na saudade,
aquela mulher da aldeia
que já não é bonita, nem feia
tem ainda o subtil odor
duma seara de pão
e sempre...sempre, amor
no coração.

natalia nuno

rosafogo

Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=226639 © Luso-Poemas
284
Sonia M.Gonçalves (Son Dos Poemas)

Sonia M.Gonçalves (Son Dos Poemas)

O Luar D'Meu Olhar



O Luar D' Meu Olhar

Arde meu olhar este luar...
Prateia o anel de pedra negrita
Circunda todo meu ser e o lugar
Íntegra é a beleza in natura infinita

Arde meu olhar este luar...
O belo da cantoria que me apoema
A pupila da noite me parece enfeitiçar
Acordo meu silêncio à seiva suprema

Arde meu olhar este luar...
Varrendo a relva feito quebranto
A canção dos olhos parece-me ninar
Espanto de tão sublime que me pranto

Arde meu olhar este luar...
Penetrando por dentro meus sertões
Adentrando as entranhas pr'eu respirar
O chumbo negro da noite nos pulmões

Arde meu olhar este luar...
Usurpador toma minh' alma feito um varão
Ar de amor às faculdades ao contemplar
O sereno inspirador com jeito camaleão

Arde meu olhar este luar...
Apreciar o perfeito que faz a lua fundir
Circular o aro bruto lapidando o pupilar
Meu olhar usufruto só enquanto eu abrir...

Son Dos Poemas SôniaMGonçalves
834
natalia nuno

natalia nuno

pássaro livre...

teço em cada manhã um par de asas
embrulho os sonhos e sigo caminho
como um pássaro voando sobre as casas
a rasgar o vento que sopra p'lo rosmaninho
sina minha,
ave assustada cruzando montes
sem saber do rumo , sem horizontes...
num vôo cego, sigo adiante
por entre trigueirais loiros
aguardo o nascer do pão,
faço companhia aos besoiros
alimento corpo e alma
arranco ervas daninhas do coração
e seco as águas que os olhos entopem
dizem-me os sentidos que no fim estão,
sem perder tempo,
dou ouvidos à saudade
e grito aos sete ventos, que sou pássaro livre
dona dos meus pensamentos,
companheira da criança que em mim vive...

inventarei novo caminho que este está gasto
tanto silêncio sobre as palavras espalhei
que delas me afasto
deixar-me-ei na infância, perto das estrelas,
do agitar das folhas, das flores e amores
e no peito nem vestígio de tristeza
esquecendo do mundo a bofetada
suspensa num fio de eternidade
e a saudade no peito pousada.
verei os primeiros sinais da primavera,
os versos ressurgirão com o murmúrio
das águas, e no coração, amor à vida
que a morte... espera!

natalia nuno
292
natalia nuno

natalia nuno

a sós comigo...

Deixo-me ir ao sabor do desejo
Esqueço o futuro que há-de vir
Esqueço, nada de mim sei, nada vejo!?
E assim me deixo ir...
Fico num êxtase adormecida
Agora tudo me é indiferente,
Deixo-me da vida esquecida,
Só conta a hora!
Na velhice, docemente,
vivo o agora.
Mergulho em mim me abrigo
Minha memória ainda tem vontade
E a sós comigo,
Faço romagem da saudade.

Sem presente nem futuro
Minha alma?! Indiferente!
Nada me falta mas tudo é escuro.
Anda o Sol distante, neste dia dormente.
Não estou triste!? Nem sei o que quero!
O quê, da vida ainda espero?
Apenas uma noite enluarada.
Que me traga uma triste poesia
Que em mim a faça nascer
Como eu!Sombria.
Predestinada a morrer...
Pensei que o Mundo me entendia
Não julguei bem, p'ra meu mal?!
Só eu vejo a magia!
Que há na tristeza afinal.
Deixo que achem meu sonho louco,
nem eu já me entendo tão pouco.

rosafogo



Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=111740 © Luso-Poemas
359
natalia nuno

natalia nuno

hora de recordar...

semeio palavras na aragem do vento
palavras com aroma de infância
aseiam-se pelo firmamento,
crescem na claridade do meu olhar
na saudade ao lembrar
sussuram por entre os lírios do campo
palavras onde me encontro brincando
e nelas meu coração pulsando...

minha alma segue nesta melancolia
a vida fugidia e
cada paisagem me lembra um rosto
amigo, cantam as papoilas, o rio
e os melros seu assobio
palavras rasgam o arvoredo
e seguem do meu coração sem medo

natalia nuno





221
PÉRICLES ALVES DE OLIVEIRA - THOR MENKENT

PÉRICLES ALVES DE OLIVEIRA - THOR MENKENT

A COMUNHÃO

Ela chega e me percrusta todo,
contempla-me nos olhos como que
se fossem deveras seus

e me repara
de cima abaixo,
cada parte, cada centímentro
como se vasculhasse um abismo em busca
de um diamante,

e me percorre
com as delicadas mãos as curvas, os secretos,
os abismos e o fruto onde nasce,
de todos, o maior pecado.

E eu vibro,
e eu pulso,
e tu me teso e eu me delicio,

e eu me fargo na abundância
da generosidade, da beleza, da sensualidade
e da escultural perfeição dela,

e eu experimento
todas as geografias, do decote, enudecendo-a,
até o oásis que lhe fica entre
as pernas.

E consumamos,
eriçados, tesados e imensos,
longe das demais pretenções sapiens
e das displicências da lua e das estrelas,
um intenso amor
perfeito!
1 366
natalia nuno

natalia nuno

prisioneira...

Prisioneira

A solidão, afoga-me o peito
A alma tenho silenciosa e fria
Meu sangue fluí, não tem outro jeito
Nos meus lábios uma sede que arrepia.
Avanço no meu silêncio errante
Numa dor acre que me revolve o ser
Onde a fuga à felicidade é uma constante
mas ainda que perdida, necessito sobreviver!
Na sinuosa curva deste meu caminho
Agarro-me à vida e à recordação,
do passado, onde no presente me aninho.
E assim esqueço, no peito, o afogar da solidão.

rosafogo
natalia nuno

Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=92792 © Luso-Poemas
285