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yuri petrilli
matriosca
Como a todos que tateiam os beirais do abismo ocorre,
A mim também chegou a hora de vê-lo por de dentro,
E despenquei subitamente pelas umbrosas profundezas,
Cada instante mais distante do trajeto infindo
Sem passado, sem presente e sem futuro,
Por onde meus passos cansados se arrastavam.
Distancio-me de tudo.
Perde-se-me a luz do Sol real.
E em cada fundo a que minha alma desce,
Sob uma delirante opressão lúgubre,
Só o que existe é o prelúdio de um novo abismo constelado de angústias,
E a náusea de saber do meu desconhecimento
Acerca de em qual estância de mim mesmo me deixei.
Desintegrado do trajeto,
Mergulho na incerteza, debruçado
Na áspera solidão
Qual se dá cerceada em si.
Bem sei que um dia tive pálpebras leves,
Bem sei que um dia meus olhos foram atentos em vigílias e azuis como venezianas
De um lar gentil, que se abrem
Para que se espie a maravilha do mundo,
Cerradas somente em prol de descanso noturno,
Quando a maravilha do mundo dá espaço à maravilha do sonho.
Bem sei...
Bem sei que antes de ciscar ao báratro meus olhos não tinham chumbo nos sonhos,
Me não sentia alheio à paisagem diurna,
E havia notas musicais em cada gesto inaudível,
E não havia vinhas de desencanto me murchando as flores,
E era tudo límpido e a aspereza um reles mau bocado de sonho.
Mal bem sei...
Tenho grandes emaranhados de sensações,
Sonho que sonho dentro de um sonho,
Miseravelmente desperto,
Sentindo na carne o esfacelamento de meu coração palpitante
Ante a realidade desvirtuada e sem propósito,
E, ora dividido entre instantes que se ferem no mesmo tecido triste das horas,
Ora pouco sei se vivo,
Ou se parto para os domínios do não-ser.
(Ah, mas quão afáveis eram as mãos da finada avó de minha infância,
Por sobre meus cabelos puros de menino,
Como uma bênção sem malmequeres!...)
Quantas adagas férreas pesadamente sobrepostas às minhas pálpebras semicerradas...
E vejo pela metade, bem como existo pela metade,
Sem porém deixar de sonhar e sentir integralmente,
– E como me punge a falta de respaldo em vivência às minhas sensações,
Desterradas como crianças a que lhe tomassem os berços quentes em uma noite fria.
Indigesto do cansaço de tanto despencar,
Ao sabor da náusea de não encontrar consolo em quebrar-me ou acalmar-me,
Que me resta senão assistir à cinemática de todas as incompletudes
Que de mim me fiz?
Que me resta senão deixar que cessem os olhos chumbados pelo desgosto
E assistir, de dentro da minha cabeça,
Aos nulos quadros que em hipóteses me foram dados a colorir,
E não obstante, em gestos covardes, os rasguei com meu desprezo?
Que me resta senão chorar sem lágrimas,
No esforço fisicamente dorido da garganta seca,
As borboletas da minha alma que assassinei enquanto casulos?
Que mais posso fazer, dado que está tudo partido,
Senão esfolar as mãos nas ruínas dos lugares que amei e destruí?
Que me resta, piedade, que me resta, ó espasmo, que me resta desengano?
Como hei de resfolegar desta amargura
Se mesmo a superfície e a ideia de se chegar nela me sufocam?
(Mas dentre os escombros de todas as pragas,
Uma criança resiste.
Uma criança precedente ao abismo.
Uma criança com um lírio ao peito.
Uma criança de olhos acesos
Que a tudo espreita com as faces sujas e calmas e me fere de ternuras.
Que de mim, criança?...
Quem és tu para que eu a viva?...)
Grande vacuidade de todas as coisas, diz-me,
Em qual sarjeta ou fundo de garrafa
Abandonei a substância da sua maravilha?
À qual acalanto pernicioso deixei que adormecessem as minhas aspirações humanas?
Em qual verso que não escrevi por não poder conceber, não deixei escrita, inconscientemente, como tinta que se esgotasse,
A grande epifania da minha vida vazia?
Em qual dessas quedas? Em qual dessas estradas, onde?...
(Quantos ecos de quantos me amaram me cingem!
E quantos abraços eu já recebi nos confins da minha mentira desgrenhada!
Quantos estilhaços eu já abracei e remendei parcialmente com as agulhas e linhas do meu descontentamento!
Mas quanto, quanto, não fiz de seus dóceis tecidos, quando em mãos, depósitos de meu escarro...)
Estou lúcido e louco e ranjo os dentes e sinto frio.
Seria isto um prenúncio de morte?
Seria esta passagem entre tais portões obscuros a minha última obra?
Seria este microcosmo de sensações a amálgama da minha sujeira?
Ah, pudera tudo isto ser a nulificação de tudo!
Um tédio cardíaco de um coração que, tendo aprendido a pensar, cessasse de repente, como um dia profetizou o escrivão misantropo.
Antes fosse qualquer coisa, antes fosse um monturo ou espólio,
Que este meio vazio de se sonhar meio-morto sonhos vivíssimos, ou viver meio-vivo sonhos mortíssimos, alternadamente.
Não houvesse nesta queda uma ânsia que fugisse das despetaladas possibilidades,
E ansiasse pela consolidação do absurdo.
Não houvesse esta centelha no pensamento doloroso
Que, estando aquém da queda ou do pouso,
Do sonho ou do despertar,
Da vida ou da morte,
Procura por qualquer coisa que se não possa ver do fundo si,
Tendo por defronte a estrada perdida que é um nada abstrato,
Por detrás, a estrada absolutamente perdida que é um nada inconveniente,
E por dentro todas as estradas fundidas em labirintos decadentes e sem sinalização,
Absurdas,
Estúpidas,
E ainda assim, absurda e estupidamente mais que nada.
(Mas, e a criança?...
Ela brinca ainda com as borboletas,
Nos recantos mornos das ruínas...
Que criança?... Como pode?...
Onde?...
Pudesse eu descobrir onde se albergou,
Pudesse eu compreender como por ela sinto
Neste momento em que me esqueço...)
Expurgo de minha alma, ao menos, nestas linhas degeneradas,
O retrato escarrado dado pela boca do meu penar sem convalescência.
Se pouco, me resta o sabor deste desconhecimento para fazer cirandas mentais.
E a minha própria poesia para rodopiar no ar da eternidade vácua de onde me quedo vagarosamente,
Iluminando estas constelações pobres com as pontuações apoteóticas
De todos os meus tédios e lamentos falsos.
(Amigos esvaídos pelas ampulhetas trincadas,
Que melancolia é vê-los metamorfoseados em retratos opacos...
Mas que grande humanidade me açoita em seus papéis lustrosos...)
Dentro, dentro... Tudo dentro...
Tudo absurdamente dentro de mim...
Tudo transbordando impossivelmente para dentro, sempre para dentro...
Tantos afogamentos e naufrágios,
Tantas dores saborosas como a própria vida dos meus sonhos quebrados,
Tantas desilusões iludidas na virtude da desilusão,
E a consciência da inconsciência pairando como uma mariposa por sobre a decomposição do cadáver de quem me supus.
(Entretanto, como era bonita
A moça que por mim passou em alguma dessas camadas...)
Dentro, tudo dentro, vítreo, uma redoma ao redor do meu coração,
Que, apesar de todos os pesares,
Apesar de todo o desconhecimento esmorecido que cultiva,
Insiste em querer buscar onde abandonou
A verdadeira essência de seu sangue jorrado,
Sem nem sonhar onde ou como.)
(A criança?
Mas existe?...)
E o meu caminho se estende vertiginosamente
Por tudo quanto encontro, desencontro e descaminho,
Tudo lá e nada lá ou aqui – náusea nos internos dos tecidos.
Cada canto em seu canto, calado.
Cada amor em seu laço rasgado.
Cada ser em seu espaço delimitado pelo mundo.
Cada transeunte pelas calçadas de seus caminhos quotidianos.
Cada afeto isolado em cada estilhaço da sensibilidade de cada sensível.
Cada qual em cada lugar de si,
E tudo em lugar nenhum,
Que é o lugar de tudo,
Pois que a pedregosa estrada é um caminho infindo com destino definido
Que a tudo leva no curso do tempo
Ao lugar que lhe pertence.
Mas, e eu?
Onde estou em mim
No curso destas curvas abismais?
A mim também chegou a hora de vê-lo por de dentro,
E despenquei subitamente pelas umbrosas profundezas,
Cada instante mais distante do trajeto infindo
Sem passado, sem presente e sem futuro,
Por onde meus passos cansados se arrastavam.
Distancio-me de tudo.
Perde-se-me a luz do Sol real.
E em cada fundo a que minha alma desce,
Sob uma delirante opressão lúgubre,
Só o que existe é o prelúdio de um novo abismo constelado de angústias,
E a náusea de saber do meu desconhecimento
Acerca de em qual estância de mim mesmo me deixei.
Desintegrado do trajeto,
Mergulho na incerteza, debruçado
Na áspera solidão
Qual se dá cerceada em si.
Bem sei que um dia tive pálpebras leves,
Bem sei que um dia meus olhos foram atentos em vigílias e azuis como venezianas
De um lar gentil, que se abrem
Para que se espie a maravilha do mundo,
Cerradas somente em prol de descanso noturno,
Quando a maravilha do mundo dá espaço à maravilha do sonho.
Bem sei...
Bem sei que antes de ciscar ao báratro meus olhos não tinham chumbo nos sonhos,
Me não sentia alheio à paisagem diurna,
E havia notas musicais em cada gesto inaudível,
E não havia vinhas de desencanto me murchando as flores,
E era tudo límpido e a aspereza um reles mau bocado de sonho.
Mal bem sei...
Tenho grandes emaranhados de sensações,
Sonho que sonho dentro de um sonho,
Miseravelmente desperto,
Sentindo na carne o esfacelamento de meu coração palpitante
Ante a realidade desvirtuada e sem propósito,
E, ora dividido entre instantes que se ferem no mesmo tecido triste das horas,
Ora pouco sei se vivo,
Ou se parto para os domínios do não-ser.
(Ah, mas quão afáveis eram as mãos da finada avó de minha infância,
Por sobre meus cabelos puros de menino,
Como uma bênção sem malmequeres!...)
Quantas adagas férreas pesadamente sobrepostas às minhas pálpebras semicerradas...
E vejo pela metade, bem como existo pela metade,
Sem porém deixar de sonhar e sentir integralmente,
– E como me punge a falta de respaldo em vivência às minhas sensações,
Desterradas como crianças a que lhe tomassem os berços quentes em uma noite fria.
Indigesto do cansaço de tanto despencar,
Ao sabor da náusea de não encontrar consolo em quebrar-me ou acalmar-me,
Que me resta senão assistir à cinemática de todas as incompletudes
Que de mim me fiz?
Que me resta senão deixar que cessem os olhos chumbados pelo desgosto
E assistir, de dentro da minha cabeça,
Aos nulos quadros que em hipóteses me foram dados a colorir,
E não obstante, em gestos covardes, os rasguei com meu desprezo?
Que me resta senão chorar sem lágrimas,
No esforço fisicamente dorido da garganta seca,
As borboletas da minha alma que assassinei enquanto casulos?
Que mais posso fazer, dado que está tudo partido,
Senão esfolar as mãos nas ruínas dos lugares que amei e destruí?
Que me resta, piedade, que me resta, ó espasmo, que me resta desengano?
Como hei de resfolegar desta amargura
Se mesmo a superfície e a ideia de se chegar nela me sufocam?
(Mas dentre os escombros de todas as pragas,
Uma criança resiste.
Uma criança precedente ao abismo.
Uma criança com um lírio ao peito.
Uma criança de olhos acesos
Que a tudo espreita com as faces sujas e calmas e me fere de ternuras.
Que de mim, criança?...
Quem és tu para que eu a viva?...)
Grande vacuidade de todas as coisas, diz-me,
Em qual sarjeta ou fundo de garrafa
Abandonei a substância da sua maravilha?
À qual acalanto pernicioso deixei que adormecessem as minhas aspirações humanas?
Em qual verso que não escrevi por não poder conceber, não deixei escrita, inconscientemente, como tinta que se esgotasse,
A grande epifania da minha vida vazia?
Em qual dessas quedas? Em qual dessas estradas, onde?...
(Quantos ecos de quantos me amaram me cingem!
E quantos abraços eu já recebi nos confins da minha mentira desgrenhada!
Quantos estilhaços eu já abracei e remendei parcialmente com as agulhas e linhas do meu descontentamento!
Mas quanto, quanto, não fiz de seus dóceis tecidos, quando em mãos, depósitos de meu escarro...)
Estou lúcido e louco e ranjo os dentes e sinto frio.
Seria isto um prenúncio de morte?
Seria esta passagem entre tais portões obscuros a minha última obra?
Seria este microcosmo de sensações a amálgama da minha sujeira?
Ah, pudera tudo isto ser a nulificação de tudo!
Um tédio cardíaco de um coração que, tendo aprendido a pensar, cessasse de repente, como um dia profetizou o escrivão misantropo.
Antes fosse qualquer coisa, antes fosse um monturo ou espólio,
Que este meio vazio de se sonhar meio-morto sonhos vivíssimos, ou viver meio-vivo sonhos mortíssimos, alternadamente.
Não houvesse nesta queda uma ânsia que fugisse das despetaladas possibilidades,
E ansiasse pela consolidação do absurdo.
Não houvesse esta centelha no pensamento doloroso
Que, estando aquém da queda ou do pouso,
Do sonho ou do despertar,
Da vida ou da morte,
Procura por qualquer coisa que se não possa ver do fundo si,
Tendo por defronte a estrada perdida que é um nada abstrato,
Por detrás, a estrada absolutamente perdida que é um nada inconveniente,
E por dentro todas as estradas fundidas em labirintos decadentes e sem sinalização,
Absurdas,
Estúpidas,
E ainda assim, absurda e estupidamente mais que nada.
(Mas, e a criança?...
Ela brinca ainda com as borboletas,
Nos recantos mornos das ruínas...
Que criança?... Como pode?...
Onde?...
Pudesse eu descobrir onde se albergou,
Pudesse eu compreender como por ela sinto
Neste momento em que me esqueço...)
Expurgo de minha alma, ao menos, nestas linhas degeneradas,
O retrato escarrado dado pela boca do meu penar sem convalescência.
Se pouco, me resta o sabor deste desconhecimento para fazer cirandas mentais.
E a minha própria poesia para rodopiar no ar da eternidade vácua de onde me quedo vagarosamente,
Iluminando estas constelações pobres com as pontuações apoteóticas
De todos os meus tédios e lamentos falsos.
(Amigos esvaídos pelas ampulhetas trincadas,
Que melancolia é vê-los metamorfoseados em retratos opacos...
Mas que grande humanidade me açoita em seus papéis lustrosos...)
Dentro, dentro... Tudo dentro...
Tudo absurdamente dentro de mim...
Tudo transbordando impossivelmente para dentro, sempre para dentro...
Tantos afogamentos e naufrágios,
Tantas dores saborosas como a própria vida dos meus sonhos quebrados,
Tantas desilusões iludidas na virtude da desilusão,
E a consciência da inconsciência pairando como uma mariposa por sobre a decomposição do cadáver de quem me supus.
(Entretanto, como era bonita
A moça que por mim passou em alguma dessas camadas...)
Dentro, tudo dentro, vítreo, uma redoma ao redor do meu coração,
Que, apesar de todos os pesares,
Apesar de todo o desconhecimento esmorecido que cultiva,
Insiste em querer buscar onde abandonou
A verdadeira essência de seu sangue jorrado,
Sem nem sonhar onde ou como.)
(A criança?
Mas existe?...)
E o meu caminho se estende vertiginosamente
Por tudo quanto encontro, desencontro e descaminho,
Tudo lá e nada lá ou aqui – náusea nos internos dos tecidos.
Cada canto em seu canto, calado.
Cada amor em seu laço rasgado.
Cada ser em seu espaço delimitado pelo mundo.
Cada transeunte pelas calçadas de seus caminhos quotidianos.
Cada afeto isolado em cada estilhaço da sensibilidade de cada sensível.
Cada qual em cada lugar de si,
E tudo em lugar nenhum,
Que é o lugar de tudo,
Pois que a pedregosa estrada é um caminho infindo com destino definido
Que a tudo leva no curso do tempo
Ao lugar que lhe pertence.
Mas, e eu?
Onde estou em mim
No curso destas curvas abismais?
96
Luciana
sonho indulgente
não tolero essa inigmatica partida
no ventre do anjo sedutor
olhos azuis ,esguia
nos labios silenciosos do amor.
não ha motivo ou razão dessa angustia
que provoca extremo fervor
pele clara,e tão macia
os labios amargos jamais beijarei.
sonho provocante inebria
na angustia deste pobre rei.
no verão inebriante ,em sumo
teu futuro no véu se partiu.
a lembrança marcada em uma coroa
de um anjo que chora por ti.
Autoria: Luciana Aparecida Schlei - Praia Grande -SP
PARTICIPAÇÃO DO ESPIRITO QUE SOPRA AO MEU OUVIDO.
664
Luciana
Amor eterno ,Diamante
Eu sorrio,meus labios largos que mal cabem no rosto
as maçãs rosadas em plena primavera
onde as flores brotam no peito como um buquê de amor.
onde eu estava este tempo todo?
meu magnifico sorriso se escondia,
ja posso te amar denovo,
em toda a melodia.
como te amo a todo ano
entre toda essa ventania,
meu anjo de cabelos longos,
eu jamais irei te deixar,
meu coração se inebria ao te olhar,
suas costas fortes ,sua pele
meu coração dispara sem exitar.
como estou feliz nesta era,
essa jornada que se iniciou
esse amor tão louco
que jamais esfriou.
Luciana Aparecida Schlei-Praia grande SP
28-07-2020
275
rianribeiro
Pouco a pouco
Pouco a pouco, descubro o silêncio de minha alma. Assim, pouco a pouco, transbordo. Nesse sigilo, milhões de mistérios; sou todo segredo. E não me conto a mim mesmo.
43
Maycon Douglas Silva Ribeiro
No limiar do silêncio e da fala
Sofro sem medida pelo o que falo e pelo o que calo.
É desde muito cedo que sou refém do meu enredo e do meu silêncio.
207
glaucio
Luar Sempiterno
Tu eras plurifacetada na Grécia Antiga,
Conhecida por Selene, Hécate e Ártemis.
Três deusas amplamente conhecidas,
Simbolizavam as tuas diferentes fases.
Logo depois, romanos foram modestos,
De Diana, deusa protetora te intitularam.
Diziam que protegias os seus trajetos
Durante as caçadas que iniciavam.
Na Babilônia com o tempo foste Ishtar,
Kwan-Yin para os chineses distantes dali.
De Shiva os hindus vieram a te chamar,
Para índios brasileiros tu eras deus Jaci.
Surgiram grupos que não te deificavam,
Nem por isso ignoravam sua importância.
Como Qatar, o símbolo do poder de Alá,
Na doutrina corâmica teve sua relevância.
Contudo, aprenderam com as fases lidar,
Calculando os dias, em Ti se baseando.
Compreenderam a sua influência no mar,
E aspectos místicos acabaram afastando.
Nem por isso povo algum te desprezas,
Seja ateu, agnóstico, pagão ou cristão.
Mesmo a vendo como algo da natureza,
Tua beleza e brilho geram admiração.
Conhecida por Selene, Hécate e Ártemis.
Três deusas amplamente conhecidas,
Simbolizavam as tuas diferentes fases.
Logo depois, romanos foram modestos,
De Diana, deusa protetora te intitularam.
Diziam que protegias os seus trajetos
Durante as caçadas que iniciavam.
Na Babilônia com o tempo foste Ishtar,
Kwan-Yin para os chineses distantes dali.
De Shiva os hindus vieram a te chamar,
Para índios brasileiros tu eras deus Jaci.
Surgiram grupos que não te deificavam,
Nem por isso ignoravam sua importância.
Como Qatar, o símbolo do poder de Alá,
Na doutrina corâmica teve sua relevância.
Contudo, aprenderam com as fases lidar,
Calculando os dias, em Ti se baseando.
Compreenderam a sua influência no mar,
E aspectos místicos acabaram afastando.
Nem por isso povo algum te desprezas,
Seja ateu, agnóstico, pagão ou cristão.
Mesmo a vendo como algo da natureza,
Tua beleza e brilho geram admiração.
81
POETA ALEXSANDRE SOARES DE LIMA
O DIA FELIZ COMEÇA NA NOITE DE AMOR
VOCÊ É O BRILHO,
A VONTADE DE AMAR
O DESPERTAR DOS SONHOS
O NASCER DO SOL
O SORRIR DO AMANHECER
AMANHECER DO DESEJO
CÉU DE AMOR
LUZ DO BEIJO
EU SOU A NOITE
DA CANÇÃO
O BRILHO DAS ESTRELAS
BRILHANDO
MEU PENSAMENTO
BONDOSO
DE FAZER - TE MAIS FELIZ,
FAZER - TE MEU CÉU
OS SEUS SONHOS
MORAM NA MINHA VONTADE
DE CONCRETIZÁ - LOS
O DIA É DE LUZ
DE CERTEZA
SEU AMOR É SEU SONHO
NOSSO SONHO
DENTRO DE NÓS
O DIA NÃO ACABA NA NOITE
O DIA FELIZ SÓ ESTÁ
COMEÇANDO
NA NOITE DE AMOR.
O DIA DE VÁRIOS ANOS
MUITOS ANOS DE AMOR.
( Autor: Poeta Alexsandre Soares de Lima)
359
Maycon Douglas Silva Ribeiro
O valor dos gestos pequenos
Não é preciso gestos grandes para demonstrar o amor que alguém possa sentir por alguém.
Para que eu soubesse disso, foi preciso um instante entre a hora do táxi chegar e pegar algumas malas, colocar no carro,
e eu dá um abraço de despedida, um até logo, precisamente.
É preciso saber que há várias formas de amar sem possuir nem machucar.
O amor não poda as nossas asas, pelo contrário, o amor cultiva às para os voos que daremos na vida...
O amor está para além de só dizer: Eu te amo. Não mora apenas nas palavras. Está no almoço feito todos os dias...
Para que eu soubesse disso, foi preciso um instante entre a hora do táxi chegar e pegar algumas malas, colocar no carro,
e eu dá um abraço de despedida, um até logo, precisamente.
É preciso saber que há várias formas de amar sem possuir nem machucar.
O amor não poda as nossas asas, pelo contrário, o amor cultiva às para os voos que daremos na vida...
O amor está para além de só dizer: Eu te amo. Não mora apenas nas palavras. Está no almoço feito todos os dias...
209
natalia nuno
lembrança...
hoje rolou uma lágrima sobre o papel
manchando o sonho que descrevia
lágrima gotejando sobre a minha pele
sonho que deixei para trás um dia
hoje... abriguei os sentimentos
escrevo ao de leve numa folha de rosa
deixo a memória de dias cinzentos
volto sorrindo à meninice gostosa
esqueço o tempo e levo só o coração
fico lá atrás a brincar às escondidas
vou saltar à corda viva de emoção
e na mão tenho as malhas preferidas
brinco agora de mãos dadas na roda
soquetes branquinhos, coração explodindo
livre como pássaro e nada me incomoda
quero ficar... deixem-me, estou pedindo!
aqui neste tempo ameno e transparente
sonhar, poder de pés descalços andar
que felicidade a deste dez réis de gente
princesa... só com a aldeia p'ra morar
natalia nuno
manchando o sonho que descrevia
lágrima gotejando sobre a minha pele
sonho que deixei para trás um dia
hoje... abriguei os sentimentos
escrevo ao de leve numa folha de rosa
deixo a memória de dias cinzentos
volto sorrindo à meninice gostosa
esqueço o tempo e levo só o coração
fico lá atrás a brincar às escondidas
vou saltar à corda viva de emoção
e na mão tenho as malhas preferidas
brinco agora de mãos dadas na roda
soquetes branquinhos, coração explodindo
livre como pássaro e nada me incomoda
quero ficar... deixem-me, estou pedindo!
aqui neste tempo ameno e transparente
sonhar, poder de pés descalços andar
que felicidade a deste dez réis de gente
princesa... só com a aldeia p'ra morar
natalia nuno
125
Paulo Faria
Dedicado a Adriana Sergio Dalma
Dedicado a Adriana Sergio Dalma
Hoje não vamos chorar de saudade
Simplesmente vamos orar!
Quem parte desperta um sentimento de saudade eterna nos corações
Vamos guardar na nossa mente
As lembranças que serão essas que a deixarão viva
Em nossos corações para sempre!
A morte são pétalas que se soltam das flores
Deixando uma eterna saudade no coração.
Não se despediu de nós...
Mas ficará para sempre na nossa memória
Com o tempo entenderemos a sua partida!
Paulo Faria
Hoje não vamos chorar de saudade
Simplesmente vamos orar!
Quem parte desperta um sentimento de saudade eterna nos corações
Vamos guardar na nossa mente
As lembranças que serão essas que a deixarão viva
Em nossos corações para sempre!
A morte são pétalas que se soltam das flores
Deixando uma eterna saudade no coração.
Não se despediu de nós...
Mas ficará para sempre na nossa memória
Com o tempo entenderemos a sua partida!
Paulo Faria
43
Brenda Aleixo
Dona Maria
Dona Maria morreu
O povo chorou, chorou, chorou
Mulher guerreira, forte,
Comeu o pão que o diabo amassou
E enfrentou, superou.
No canto se via teu marido
Com o mais triste semblante
No ar sentia o tamanho de sua dor
Ele disse que sempre a amou
Só que esse suposto amor
só chegou no leito da morte
Porque metade do pão que dona Maria comeu
Foi ele quem amassou
Todo desamor, toda dor, toda angústia
Todo insegurança, todo medo
Foi seu próprio marido quem causou
Prometeu que a amaria e respeitaria todos os dias da sua vida
E no mesmo dia a promessa foi descumprida
Deixou Maria linda vestida de noiva
pra ir comemorar seu casamento na putaria
E Maria? Ninguém ligou pro que ela sentia
Eu me importo tanto que até transformei em poesia
Pra que as próximas Marias saibam que não estão sozinhas
Porque essa Maria, morreu sem fazer
Metadade do que queria
E nao quero que isso se repita
Com mais nenhuma Maria, Angelica ou Cecilía
todas nós merecemos ter a liberdade em vida.
Com mais nenhuma Maria, Angelica ou Cecilía
todas nós merecemos ter a liberdade em vida.
171
Maycon Douglas Silva Ribeiro
Não têm mas... e nem mais
Não há maiores ou melhores explicações, não há a ponta de nada que possa escrever quando não há o desejo que faz conta de mais novas páginas para (r)escrever.
Há apenas tinta no bico da caneta o suficiente para tracejar um ponto final.
Há paginas no fogo.
Há novas palavras.
Há outros afetos.
Há outra cama.
Há outro olhar.
Há outro acordo.
Há outras adaptações.
Há algo aparentemente novo, de novo.
186
ANTONIA K
Libélula
Outrora larva aquática
Mergulhada em lago temporário
Nascida do lodo mental
Metamorfoseando-se.
Pousada na superfície d'agua
Pairando no ar
Suas asas multicores
Em elevação .
No azul profundo do dia
O limite entre céu e terra
Contraste da consciência.
AK
435
Sândalo de Dandi
Religião Urbana (Fragmentos)
De olhos abertos
Vejo que o TEMPO está PERDIDO
HÁ TEMPOS, e como se não houvesse amanhã
A PERFEIÇÃO bate a minha porta....
Vivendo nessa METRÓPOLES de FABRICAs e de PLANTAS EMBAIXO DO AQUÁRIO, ouvindo e vendo MUSICA URBANA
POR ENQUANTO, O MUNDO ANDA TÃO COMPLICADO e acho que do jeito que as coisas estão, parece ser necessário vender todas as almas dos nossos ÍNDIOS num leilão.
QUE PAÍS....
Vejo que o TEMPO está PERDIDO
HÁ TEMPOS, e como se não houvesse amanhã
A PERFEIÇÃO bate a minha porta....
Vivendo nessa METRÓPOLES de FABRICAs e de PLANTAS EMBAIXO DO AQUÁRIO, ouvindo e vendo MUSICA URBANA
POR ENQUANTO, O MUNDO ANDA TÃO COMPLICADO e acho que do jeito que as coisas estão, parece ser necessário vender todas as almas dos nossos ÍNDIOS num leilão.
QUE PAÍS....
521
yuri petrilli
o córrego
Suavemente, molho as mãos no fluxo d'água
Do córrego fresco defronte aos bambuzais...
E em lentos acenos submersos, se desfaz
Toda a minha outrora intransigente e atroz mágoa.
Apanho uma haste verde que encontro caída
A um canto – tem uma pensa folha na ponta...
E eis que nela um peixe sonho – e dou-lhe tal vida,
E ao pô-lo a nadar me alegro, e o resto desmonta.
O alto Sol arde em maravilha, e sou criança,
Já me não sinto barbado e tampouco triste...
Neste momento calmo, apenas o que existe
É a água, a folha e o sonho, unidos em temperança.
E de mais nada necessito em este dia...
Basta-me o córrego fresco que me diverte,
E esta haste com folha, que em peixe se converte
Sob o olhar íntimo da minha poesia,
Que nada mais me adentra a causar qualquer dor...
Que nada mais me importa, pois nado também
Junto às formas que de mim nascem – sonhador,
Nas ondas suaves que de tal berço vêm.
Do córrego fresco defronte aos bambuzais...
E em lentos acenos submersos, se desfaz
Toda a minha outrora intransigente e atroz mágoa.
Apanho uma haste verde que encontro caída
A um canto – tem uma pensa folha na ponta...
E eis que nela um peixe sonho – e dou-lhe tal vida,
E ao pô-lo a nadar me alegro, e o resto desmonta.
O alto Sol arde em maravilha, e sou criança,
Já me não sinto barbado e tampouco triste...
Neste momento calmo, apenas o que existe
É a água, a folha e o sonho, unidos em temperança.
E de mais nada necessito em este dia...
Basta-me o córrego fresco que me diverte,
E esta haste com folha, que em peixe se converte
Sob o olhar íntimo da minha poesia,
Que nada mais me adentra a causar qualquer dor...
Que nada mais me importa, pois nado também
Junto às formas que de mim nascem – sonhador,
Nas ondas suaves que de tal berço vêm.
90
Lagaz
Trago verdades
Trago verdades
sobre a vida e a morte,
e a violência contida entre elas
sobre as novas e velhas formas
de aceitação,
e a vergonha oculta neste fato
sobre o sangue vil ou inocente
que jorra nas calçadas,
e o incomodo que já não nos causa
sobre a sorte
des miseráveis esquecidos
e o silêncio alheio e disfarçado
em cada imagem
sobre o paraíso perdido
a cada frase suja e solta por
desrespeito
sobres os caminhos de pedra
ignorados por conveniência
sobre a falha humana
em lidar com a verdade.
sobre a vida e a morte,
e a violência contida entre elas
sobre as novas e velhas formas
de aceitação,
e a vergonha oculta neste fato
sobre o sangue vil ou inocente
que jorra nas calçadas,
e o incomodo que já não nos causa
sobre a sorte
des miseráveis esquecidos
e o silêncio alheio e disfarçado
em cada imagem
sobre o paraíso perdido
a cada frase suja e solta por
desrespeito
sobres os caminhos de pedra
ignorados por conveniência
sobre a falha humana
em lidar com a verdade.
1 006
Maycon Douglas Silva Ribeiro
Interpelações
Me acomodo sob o divã...
A psicanálista pergunta: Quem é você?
Não respondo.
Sigo sem pressa para saber.
Não creio ser possível tambem saber-me tão depressa e completamente.
A psicanálista pergunta: Quem é você?
Não respondo.
Sigo sem pressa para saber.
Não creio ser possível tambem saber-me tão depressa e completamente.
183
MARIA DE FATIMA FERREIRA RODRIGUES
Haicai
Se a morte é
a vida está além
e além será
533
Paulo Faria
INFINITO
Refuto o que é o infinito
Dia após dia...
Nada granjeia a dimensão deste amor
Se tentares aferir o universo
Estarás proxima de compreender
A dimensão do meu amor.
Este sentimento é e será eterno
Ultrapassando as barreiras da eternidade
Ele me faz mover...
Fazendo de mim uma pessoa única e feliz.
No fundo dos oceanos...
Descortino o brilho das estrelas
Ofuscado pela beleza de um sorriso teu.
Em teus olhar encontro um novo caminho
Uma visão perfeitamente nítida do paraíso.
São os teus olhos que me vêem
Mas sou eu que através deles
Construo e edifico...
Uma estrada de amor infinita.
In "Palavras Guardadas"
Paulo Faria
.
Dia após dia...
Nada granjeia a dimensão deste amor
Se tentares aferir o universo
Estarás proxima de compreender
A dimensão do meu amor.
Este sentimento é e será eterno
Ultrapassando as barreiras da eternidade
Ele me faz mover...
Fazendo de mim uma pessoa única e feliz.
No fundo dos oceanos...
Descortino o brilho das estrelas
Ofuscado pela beleza de um sorriso teu.
Em teus olhar encontro um novo caminho
Uma visão perfeitamente nítida do paraíso.
São os teus olhos que me vêem
Mas sou eu que através deles
Construo e edifico...
Uma estrada de amor infinita.
In "Palavras Guardadas"
Paulo Faria
.
452
yuri petrilli
frasco (ou, dia dos namorados)
O frasco, espólio do passado,
Recende, porque nunca aberto,
Ao céu longínquo de um lar de sonho
Onde inda não fora sepultado o amor
E beijar era inda um gesto com guarida em vida.
Frasco... Perfume incógnito e impossível,
Deixado a um canto, como os corações
Que, de nunca o terem liberado,
Vão morrendo lentamente no sono de névoa vítrea
Da fragrância encarcerada.
Tantos frascos cheios e empoeirados
No recanto doloroso das prateleiras...
Tantas histórias vaporadas em perfumes
Que dançam no interno do nada dos presentes...
Oh, mas tantas ilusões tentam varrer o pó do jazigo do jamais...
Recende, porque nunca aberto,
Ao céu longínquo de um lar de sonho
Onde inda não fora sepultado o amor
E beijar era inda um gesto com guarida em vida.
Frasco... Perfume incógnito e impossível,
Deixado a um canto, como os corações
Que, de nunca o terem liberado,
Vão morrendo lentamente no sono de névoa vítrea
Da fragrância encarcerada.
Tantos frascos cheios e empoeirados
No recanto doloroso das prateleiras...
Tantas histórias vaporadas em perfumes
Que dançam no interno do nada dos presentes...
Oh, mas tantas ilusões tentam varrer o pó do jazigo do jamais...
75
Maycon Douglas Silva Ribeiro
Coragem
É preciso ter a coragem para receber um não: eu não te amo mais; eu não gosto mais de vocÊ.
É preciso, ainda, ter a coragem para receber aquele olhar insatisfeito quase sempre sem amor e compreensão.
É preciso coragem para receber as adversidades afetivas.
É preciso, ainda, ter a coragem para receber aquele olhar insatisfeito quase sempre sem amor e compreensão.
É preciso coragem para receber as adversidades afetivas.
198
Adriely Acioly
Se fez e me fez
Eu sempre quis muito, desejei muito;
em teus braços tive tudo, tudo além do que sempre quis.
Tu se fez meu abrigo,
Meu forte,
paz,
aconchego,
Meu amor.
Teu toque vai além da minha pele, ele me eleva a alma, me transborda euforia.
em teus braços tive tudo, tudo além do que sempre quis.
Tu se fez meu abrigo,
Meu forte,
paz,
aconchego,
Meu amor.
Teu toque vai além da minha pele, ele me eleva a alma, me transborda euforia.
481
adrianoperalta
Em busca de uma vida frugal
RINÓPOLIS : “De Beata Vita”.
As pessoas labutam diariamente em busca da vida perfeita, do corpo perfeito, da saúde perfeita, da família perfeita e de tudo mais que representa o ápice na sociedade.
O doutor Gileade era a síntese do que seria um ser humano invejável. Com 57 anos de idade, era desembargador em Brasília e gozava do auge da saúde física e mental. Poderia ter se aposentado, mas preferiu continuar trabalhando para manter o status do cargo e os benefícios complementares que faziam sua remuneração da ativa saltar às alturas.
Sua família era indelével: a esposa e companheira de mais de 30 anos, e um casal de filhos. A filha mais velha era promotora de justiça e o caçula médico geriatra casado com uma endocrinologista. Três netas complementavam a continuidade da geração.
A típica família de propaganda de margarina. Residência num condomínio de luxo, carros importados, férias nos lugares paradisíacos, refeições em restaurantes com estrela “Michelin”.
Num domingo ensolarado de outono, Gileade levanta-se da cama e observa sua esposa que continua repousando. Vai à cozinha preparar o café e vinte minutos após compor a mesa, retorna ao quarto para avisar que o “breakfast” está servido.
Chama e ela não responde. Toca em seu ombro e sente que o corpo está gélido e sem vida.
Desesperado, ele aciona o atendimento médico de urgência. Era tarde demais. Ela morreu dormindo, ou como diria um vereador brasileiro que virou meme na internet “dormiu e quando acordou já estava morta”.
Foi um dos velórios mais concorridos da capital federal. A nata da sociedade se fazia presente. Àquela altura, já havia uma meia dúzia de mulheres despertando interesse pelo novel viúvo - desde mocinhas na casa dos 25 anos, balzaquianas e até uma prima da falecida que já rompera o marco da terceira idade.
Casar-se com o desembargador era como ganhar na loteria. Era garantia de vida tranquila, confortável e de glamour social.
Nos dois primeiros dias após o sepultamento, houve a companhia dos filhos e netas e após isso, cada qual seguiu seus passos, mantendo apenas o contato por aplicativos de mensagens.
No final do mês, ele teria que tomar uma decisão difícil. Estava prestes a concluir um curso de pós-doutorado em direito público na Universidade de Salamanca e as passagens já estavam compradas em nome dele e da esposa. Seguir os planos originais ou desistir da viagem: era a dúvida que lhe martelava o cérebro.
Mesmo a contragosto, tomou o avião até Madri. Pernoitou no hotel que a esposa tinha reservado, no bairro Chamberí. Na manhã seguinte, foi na locadora buscar o carro, conforme previamente programado.
No estrada rumo à Salamanca, tinha a intenção de almoçar em Ávila. Restando menos de 40 quilômetros para chegar ao restaurante pretendido, ele não percebeu e passou sobre um objeto metálico caído na pista.
Estourou o pneu e quase capotou o veículo. Parou no acostamento e foi pedir socorro num sítio à margem da estrada.
O morador idoso lhe prestou auxílio e o levou para sua casa. Gileade chorava sem parar, como uma criança perdida. Seu choro não tinha uma explicação certa: era pelo acidente do carro, pela perda da esposa, pela dúvida em continuar o pós-doutorado, pela falta de rumo na vida, pelo medo de cair em depressão ...
O espanhol era Alfredo, que morava naquela pequena propriedade com o seu filho, este tinha um certo grau de deficiência mental. A granja fora herdada dos avós, transferida aos seus pais e seguiu a linha sucessória.
A casa feita de pedras tinha mais de cem anos. Após percorrer o mundo, Alfredo decidiu voltar às origens e viver no estilo minimalista na propriedade da família. Utilizava apenas o necessário para viver bem. Tinha uma camionete na garagem, mas transitava com uma bicicleta com a qual se deslocava até o povoado de “Ojos-Albos” para comprar mantimentos e visitar os amigos. Fazia questão de ajudar os necessitados.
Parece que os astros convergiram naquele momento. Um desembargador que estava perdido e precisando de ajuda encontra um altruísta disposto a lhe acolher.
Gileade desistiu do curso e ficou ali por mais de uma semana. Trabalhava na terra e visitava o vilarejo; às vezes a pé, e em outras vezes de bicicleta.
No retorno ao Brasil, entendeu o propósito da viagem e entendeu que Alfredo fora um anjo colocado em sua vida para lhe mostrar o caminho da felicidade.
Pediu aposentadoria e reuniu-se com a família. Explicou que precisava de uma nova razão para viver.
Dividiu o patrimônio em cinco cotas e transferiu cada uma para filhos e netas. Guardou para si apenas o dinheiro de um dos carros, que foi vendido, e de um investimento que possuía em títulos do Tesouro Nacional. Nem os móveis e utensílios da casa lhe acompanhariam na nova jornada.
Comprou um carro básico com seis anos de uso, colocou nele algumas roupas e objetos pessoais e tomou rumo ignorado.
Transformou-se numa espécie de andarilho, mas com algum tipo de conforto.
Tirou a barba que era sua marca registrada e apagou todos os registros em redes sociais. Em princípio, sonhava em aportar em alguma cidadezinha no estado de Minas Gerais.
Andar sem rumo pelas estradas tinha uma grande vantagem: podia se perder à vontade porque ele não sabia qual seria o destino. Quando sentia fome, parava em algum ponto simples na beira do caminho e ali mesmo lanchava e às vezes tirava uma sesta - à sombra de alguma árvore.
Já havia atravessado o estado das Minas Gerais, quando avistou uma senhora humilde com uma criança de colo pedindo carona às margens da rodovia SP-425. Seu projeto de vida era ajudar as pessoas e ali havia alguém necessitando.
Parou seu Renault Clio e abaixou o vidro do passageiro. A mulher pediu carona dizendo que a filha bebê estava queimando de febre e precisava ser levada a um posto de saúde para ser medicada.
O local mais próximo era a pequena cidade de RINÓPOLIS, no estado de São Paulo. Ele deixou a mãe e a criança na porta do posto de saúde e deu-lhe a quantia de duzentos reais em dinheiro - suficientes para a compra de remédios e para pagar um táxi de retorno.
Já passava das 16 horas e ele decidiu hospedar-se num hotel popular no centro da cidade. Guardou os pertences no quarto e foi sentar-se na praça do outro lado da rua. As pessoas lhe cumprimentavam, mesmo sem conhecê-lo, desejando boa tarde e perguntando como ele estava.
Parecia ter encontrado o local ideal, para manter o anonimato da vida e buscar uma rotina simples.
Conheceu pessoas, inclusive um corretor informal (desses que atuam sem registro no órgão oficial) e que coincidentemente, lhe perguntou se queria comprar uma casa naquela cidade. Gileade entendeu aquilo como uma mensagem divina.
Foi conhecer o imóvel que ficava a poucas quadras dali (aliás, tudo naquela cidade ficava a poucas quadras). Era uma casa de alvenaria construída na década de 1950, que não recebia pintura e reforma há pelo menos uns trinta anos. Ficava a cerca de 200 metros da praça central, na rua São Paulo, numa baixada onde aos sábados acontecia a feira livre dos produtores agrícolas.
Um terço do dinheiro que reservou para si, foi suficiente para comprar, reformar e mobiliar o imóvel.
Comprou uma bicicleta e incorporou-se à rotina dos moradores. O Clio ficava escondido na garagem fechada.
Todos os dias acordava pela manhã e ia pedalando rumo à padaria. Comprava uma dezena de pães (franceses) e pedia para encher sua caneca plástica com café. Atravessava a rua e sentava-se calmamente no banco da praça, onde tomava o café e comia um dos pães. Outros dois ou três, ele jogava de forma esfarelada sobre o gramado, para atrair e alimentar os pássaros. Todo esse ritual demorava quase uma hora, e ao mesmo tempo ele meditava e tomava vitamina D na forma solar (quando não chovia).
Os pães que sobravam, ele mantinha ensacados e pedalava até o bairro mais pobre da cidade, até encontrar um transeunte necessitado que os aceitava receber.
Arrumou uma diarista que limpava a casa e lavava suas roupas uma vez por semana. Adquiriu um computador onde passou a escrever e a comunicar-se com os familiares todos os dias. Aboliu o uso do telefone e do relógio.
Dormia quando tinha sono, comia quando tinha fome.
Passou a frequentar o grupo de oração da Renovação Carismática Católica. Chegava de bicicleta e com roupas simples. Ninguém imaginaria que aquele senhor anônimo era alguém tão importante na capital da república.
Quando alguém perguntava seu nome, ele respondia:
- José.
O nome mais comunal da população brasileira ajudaria a esconder sua identidade.
Virou um observador social e estudava atentamente o comportamento daqueles habitantes. Usou esses conhecimentos para escrever dois livros.
Sempre que alguém pedia oração no grupo da igreja, ele ouvia atentamente e buscava uma forma de ajudar, sem ser identificado.
Em um dos cultos, uma senhora clamava desesperadamente por sua mãe, que precisava de uma consulta e de exames cardiológicos; dizia que se fosse esperar pelo poder público, iria demorar vários meses. Gileade (ou José) pegou seu veículo na manhã seguinte e se deslocou até à cidade de Marília, onde encontrou uma clínica de cardiologia. Pagou o equivalente a uma consulta e a um pacote de exames e exigiu que lhe entregassem um recibo na forma de “vale procedimento”. Retornou à comunidade e entregou ao padre, pedindo a ele que procurasse àquela senhora que havia pedido oração e lhe desse os encaminhamentos.
Sentia-se bem em confessar ao padre que sabia da sua verdadeira identidade. O líder religioso passou a abençoar pessoas através dele.
Foi assim que o menino Gabriel recebeu uma bicicleta nova em sua residência; dona Margarida ganhou uma geladeira de duas portas e seu Mário que estava desempregado viu suas contas de água e de luz serem quitadas. Outras dezenas e dezenas de moradores tiveram seus problemas saneados.
Um dos problemas mais graves das cidades pequenas é a fofoca. Manter a identidade secreta de super-herói, estava ficando cada dia mais difícil.
Todos queriam saber onde o padre arrumava tanto dinheiro para presentear a comunidade. Houve quem o caluniasse, dizendo que ele estava encobrindo algum chefão do crime organizado.
Um vereador mais esperto, mandou circular a informação de que era ele quem atendia os pedidos dos moradores. Pagou para um locutor de rádio fazer a propaganda de forma transversa. O radialista dizia que sabia que era o vereador quem pagava, mas que o vereador jamais admitiria isso em público, porque o propósito dele era ajudar anonimamente.
A notícia extrapolou fronteiras. Começaram a chegar caravanas de pessoas na cidade, com bilhetes de pedidos endereçados ao padre. Multiplicaram o número de exploradores.
Certo dia, Gileade soube que dona Joana tinha sido abandonada pelo marido com duas crianças para cuidar, sem ter aonde morar. Foi ao cartório, fez um termo de doação da casa para ela e lhe entregou as chaves com os móveis dentro.
Na madrugada seguinte, Gileade sumiu da cidade com seu Clio, suas roupas e seu computador. Ninguém sabe de seu paradeiro.
O padre não revela o mistério, por conta da obrigação do sigilo em confissão. Os eleitores do vereador, reclamam que ele parou de dar presentes. Dona Joana, insiste em dizer que o anjo que habitou na cidade, era o proprietário anterior da casa onde mora.
Coincidentemente, o contraventor do jogo do bicho, conhecido como Bento Maia, foi preso naquela semana em que Gileade foi embora. Parte significativa da população credita a ele os benefícios entregues de forma anônima, e dizem que se a polícia e a justiça não tivessem agido, o povo estaria muito mais feliz, atendido em suas necessidades.
Ao sair da cadeia, Bento foi assassinado na porta de sua chácara, a mando de um banqueiro rival. O local onde caiu alvejado, virou ponto de romaria com a colocação de flores e velas acesas.
O dono da barbearia, localizada próxima da igreja matriz, insiste em dizer que seu filho foi curado de gagueira, após fazer uma promessa a Bento Maia. Esse milagre já rendeu pauta na rádio, sites de notícias e no jornal impresso da região.
O padre, coitado, tem que assistir a tudo sem poder dizer a verdade. O sacramento o impede revelar os fatos.
Ao povo, os seus heróis imaginários.
As pessoas labutam diariamente em busca da vida perfeita, do corpo perfeito, da saúde perfeita, da família perfeita e de tudo mais que representa o ápice na sociedade.
O doutor Gileade era a síntese do que seria um ser humano invejável. Com 57 anos de idade, era desembargador em Brasília e gozava do auge da saúde física e mental. Poderia ter se aposentado, mas preferiu continuar trabalhando para manter o status do cargo e os benefícios complementares que faziam sua remuneração da ativa saltar às alturas.
Sua família era indelével: a esposa e companheira de mais de 30 anos, e um casal de filhos. A filha mais velha era promotora de justiça e o caçula médico geriatra casado com uma endocrinologista. Três netas complementavam a continuidade da geração.
A típica família de propaganda de margarina. Residência num condomínio de luxo, carros importados, férias nos lugares paradisíacos, refeições em restaurantes com estrela “Michelin”.
Num domingo ensolarado de outono, Gileade levanta-se da cama e observa sua esposa que continua repousando. Vai à cozinha preparar o café e vinte minutos após compor a mesa, retorna ao quarto para avisar que o “breakfast” está servido.
Chama e ela não responde. Toca em seu ombro e sente que o corpo está gélido e sem vida.
Desesperado, ele aciona o atendimento médico de urgência. Era tarde demais. Ela morreu dormindo, ou como diria um vereador brasileiro que virou meme na internet “dormiu e quando acordou já estava morta”.
Foi um dos velórios mais concorridos da capital federal. A nata da sociedade se fazia presente. Àquela altura, já havia uma meia dúzia de mulheres despertando interesse pelo novel viúvo - desde mocinhas na casa dos 25 anos, balzaquianas e até uma prima da falecida que já rompera o marco da terceira idade.
Casar-se com o desembargador era como ganhar na loteria. Era garantia de vida tranquila, confortável e de glamour social.
Nos dois primeiros dias após o sepultamento, houve a companhia dos filhos e netas e após isso, cada qual seguiu seus passos, mantendo apenas o contato por aplicativos de mensagens.
No final do mês, ele teria que tomar uma decisão difícil. Estava prestes a concluir um curso de pós-doutorado em direito público na Universidade de Salamanca e as passagens já estavam compradas em nome dele e da esposa. Seguir os planos originais ou desistir da viagem: era a dúvida que lhe martelava o cérebro.
Mesmo a contragosto, tomou o avião até Madri. Pernoitou no hotel que a esposa tinha reservado, no bairro Chamberí. Na manhã seguinte, foi na locadora buscar o carro, conforme previamente programado.
No estrada rumo à Salamanca, tinha a intenção de almoçar em Ávila. Restando menos de 40 quilômetros para chegar ao restaurante pretendido, ele não percebeu e passou sobre um objeto metálico caído na pista.
Estourou o pneu e quase capotou o veículo. Parou no acostamento e foi pedir socorro num sítio à margem da estrada.
O morador idoso lhe prestou auxílio e o levou para sua casa. Gileade chorava sem parar, como uma criança perdida. Seu choro não tinha uma explicação certa: era pelo acidente do carro, pela perda da esposa, pela dúvida em continuar o pós-doutorado, pela falta de rumo na vida, pelo medo de cair em depressão ...
O espanhol era Alfredo, que morava naquela pequena propriedade com o seu filho, este tinha um certo grau de deficiência mental. A granja fora herdada dos avós, transferida aos seus pais e seguiu a linha sucessória.
A casa feita de pedras tinha mais de cem anos. Após percorrer o mundo, Alfredo decidiu voltar às origens e viver no estilo minimalista na propriedade da família. Utilizava apenas o necessário para viver bem. Tinha uma camionete na garagem, mas transitava com uma bicicleta com a qual se deslocava até o povoado de “Ojos-Albos” para comprar mantimentos e visitar os amigos. Fazia questão de ajudar os necessitados.
Parece que os astros convergiram naquele momento. Um desembargador que estava perdido e precisando de ajuda encontra um altruísta disposto a lhe acolher.
Gileade desistiu do curso e ficou ali por mais de uma semana. Trabalhava na terra e visitava o vilarejo; às vezes a pé, e em outras vezes de bicicleta.
No retorno ao Brasil, entendeu o propósito da viagem e entendeu que Alfredo fora um anjo colocado em sua vida para lhe mostrar o caminho da felicidade.
Pediu aposentadoria e reuniu-se com a família. Explicou que precisava de uma nova razão para viver.
Dividiu o patrimônio em cinco cotas e transferiu cada uma para filhos e netas. Guardou para si apenas o dinheiro de um dos carros, que foi vendido, e de um investimento que possuía em títulos do Tesouro Nacional. Nem os móveis e utensílios da casa lhe acompanhariam na nova jornada.
Comprou um carro básico com seis anos de uso, colocou nele algumas roupas e objetos pessoais e tomou rumo ignorado.
Transformou-se numa espécie de andarilho, mas com algum tipo de conforto.
Tirou a barba que era sua marca registrada e apagou todos os registros em redes sociais. Em princípio, sonhava em aportar em alguma cidadezinha no estado de Minas Gerais.
Andar sem rumo pelas estradas tinha uma grande vantagem: podia se perder à vontade porque ele não sabia qual seria o destino. Quando sentia fome, parava em algum ponto simples na beira do caminho e ali mesmo lanchava e às vezes tirava uma sesta - à sombra de alguma árvore.
Já havia atravessado o estado das Minas Gerais, quando avistou uma senhora humilde com uma criança de colo pedindo carona às margens da rodovia SP-425. Seu projeto de vida era ajudar as pessoas e ali havia alguém necessitando.
Parou seu Renault Clio e abaixou o vidro do passageiro. A mulher pediu carona dizendo que a filha bebê estava queimando de febre e precisava ser levada a um posto de saúde para ser medicada.
O local mais próximo era a pequena cidade de RINÓPOLIS, no estado de São Paulo. Ele deixou a mãe e a criança na porta do posto de saúde e deu-lhe a quantia de duzentos reais em dinheiro - suficientes para a compra de remédios e para pagar um táxi de retorno.
Já passava das 16 horas e ele decidiu hospedar-se num hotel popular no centro da cidade. Guardou os pertences no quarto e foi sentar-se na praça do outro lado da rua. As pessoas lhe cumprimentavam, mesmo sem conhecê-lo, desejando boa tarde e perguntando como ele estava.
Parecia ter encontrado o local ideal, para manter o anonimato da vida e buscar uma rotina simples.
Conheceu pessoas, inclusive um corretor informal (desses que atuam sem registro no órgão oficial) e que coincidentemente, lhe perguntou se queria comprar uma casa naquela cidade. Gileade entendeu aquilo como uma mensagem divina.
Foi conhecer o imóvel que ficava a poucas quadras dali (aliás, tudo naquela cidade ficava a poucas quadras). Era uma casa de alvenaria construída na década de 1950, que não recebia pintura e reforma há pelo menos uns trinta anos. Ficava a cerca de 200 metros da praça central, na rua São Paulo, numa baixada onde aos sábados acontecia a feira livre dos produtores agrícolas.
Um terço do dinheiro que reservou para si, foi suficiente para comprar, reformar e mobiliar o imóvel.
Comprou uma bicicleta e incorporou-se à rotina dos moradores. O Clio ficava escondido na garagem fechada.
Todos os dias acordava pela manhã e ia pedalando rumo à padaria. Comprava uma dezena de pães (franceses) e pedia para encher sua caneca plástica com café. Atravessava a rua e sentava-se calmamente no banco da praça, onde tomava o café e comia um dos pães. Outros dois ou três, ele jogava de forma esfarelada sobre o gramado, para atrair e alimentar os pássaros. Todo esse ritual demorava quase uma hora, e ao mesmo tempo ele meditava e tomava vitamina D na forma solar (quando não chovia).
Os pães que sobravam, ele mantinha ensacados e pedalava até o bairro mais pobre da cidade, até encontrar um transeunte necessitado que os aceitava receber.
Arrumou uma diarista que limpava a casa e lavava suas roupas uma vez por semana. Adquiriu um computador onde passou a escrever e a comunicar-se com os familiares todos os dias. Aboliu o uso do telefone e do relógio.
Dormia quando tinha sono, comia quando tinha fome.
Passou a frequentar o grupo de oração da Renovação Carismática Católica. Chegava de bicicleta e com roupas simples. Ninguém imaginaria que aquele senhor anônimo era alguém tão importante na capital da república.
Quando alguém perguntava seu nome, ele respondia:
- José.
O nome mais comunal da população brasileira ajudaria a esconder sua identidade.
Virou um observador social e estudava atentamente o comportamento daqueles habitantes. Usou esses conhecimentos para escrever dois livros.
Sempre que alguém pedia oração no grupo da igreja, ele ouvia atentamente e buscava uma forma de ajudar, sem ser identificado.
Em um dos cultos, uma senhora clamava desesperadamente por sua mãe, que precisava de uma consulta e de exames cardiológicos; dizia que se fosse esperar pelo poder público, iria demorar vários meses. Gileade (ou José) pegou seu veículo na manhã seguinte e se deslocou até à cidade de Marília, onde encontrou uma clínica de cardiologia. Pagou o equivalente a uma consulta e a um pacote de exames e exigiu que lhe entregassem um recibo na forma de “vale procedimento”. Retornou à comunidade e entregou ao padre, pedindo a ele que procurasse àquela senhora que havia pedido oração e lhe desse os encaminhamentos.
Sentia-se bem em confessar ao padre que sabia da sua verdadeira identidade. O líder religioso passou a abençoar pessoas através dele.
Foi assim que o menino Gabriel recebeu uma bicicleta nova em sua residência; dona Margarida ganhou uma geladeira de duas portas e seu Mário que estava desempregado viu suas contas de água e de luz serem quitadas. Outras dezenas e dezenas de moradores tiveram seus problemas saneados.
Um dos problemas mais graves das cidades pequenas é a fofoca. Manter a identidade secreta de super-herói, estava ficando cada dia mais difícil.
Todos queriam saber onde o padre arrumava tanto dinheiro para presentear a comunidade. Houve quem o caluniasse, dizendo que ele estava encobrindo algum chefão do crime organizado.
Um vereador mais esperto, mandou circular a informação de que era ele quem atendia os pedidos dos moradores. Pagou para um locutor de rádio fazer a propaganda de forma transversa. O radialista dizia que sabia que era o vereador quem pagava, mas que o vereador jamais admitiria isso em público, porque o propósito dele era ajudar anonimamente.
A notícia extrapolou fronteiras. Começaram a chegar caravanas de pessoas na cidade, com bilhetes de pedidos endereçados ao padre. Multiplicaram o número de exploradores.
Certo dia, Gileade soube que dona Joana tinha sido abandonada pelo marido com duas crianças para cuidar, sem ter aonde morar. Foi ao cartório, fez um termo de doação da casa para ela e lhe entregou as chaves com os móveis dentro.
Na madrugada seguinte, Gileade sumiu da cidade com seu Clio, suas roupas e seu computador. Ninguém sabe de seu paradeiro.
O padre não revela o mistério, por conta da obrigação do sigilo em confissão. Os eleitores do vereador, reclamam que ele parou de dar presentes. Dona Joana, insiste em dizer que o anjo que habitou na cidade, era o proprietário anterior da casa onde mora.
Coincidentemente, o contraventor do jogo do bicho, conhecido como Bento Maia, foi preso naquela semana em que Gileade foi embora. Parte significativa da população credita a ele os benefícios entregues de forma anônima, e dizem que se a polícia e a justiça não tivessem agido, o povo estaria muito mais feliz, atendido em suas necessidades.
Ao sair da cadeia, Bento foi assassinado na porta de sua chácara, a mando de um banqueiro rival. O local onde caiu alvejado, virou ponto de romaria com a colocação de flores e velas acesas.
O dono da barbearia, localizada próxima da igreja matriz, insiste em dizer que seu filho foi curado de gagueira, após fazer uma promessa a Bento Maia. Esse milagre já rendeu pauta na rádio, sites de notícias e no jornal impresso da região.
O padre, coitado, tem que assistir a tudo sem poder dizer a verdade. O sacramento o impede revelar os fatos.
Ao povo, os seus heróis imaginários.
118
jaiamiranda
Assisto lembranças
Quem dera esquecer
Um dia
Toda manhã fria
Que passei por lá.
Quem dera
Ser lembrada um dia
Da caminhada longa
Que me fiz passar.
Quem me dera
Esquecesse a vez
Da fila, do furo, do fundo do dia
Que dá de frente pro ambiente
Sentado e mergulhado
Num dicionário de lembranças.
Sentado encostado
Na prateleira de seu nome
Ah, eu me esqueceria
De muitos erros do que vem passando deslizando
Interna(eterna)mente aqui.
Isso que vem passando deslizando
Não sabe o que dizer
Inúmeras vezes
Que não há decimal para contar.
Os números, mentira, podem ser infinitos
Desde quando alguém inventou,
São infindas também minhas lembranças
Do dia recostado para a noite
Que eu vi você passar.
Passou.
Toda manhã fria
Que passei por lá.
Quem dera
Ser lembrada um dia
Da caminhada longa
Que me fiz passar.
Quem me dera
Esquecesse a vez
Da fila, do furo, do fundo do dia
Que dá de frente pro ambiente
Sentado e mergulhado
Num dicionário de lembranças.
Sentado encostado
Na prateleira de seu nome
Ah, eu me esqueceria
De muitos erros do que vem passando deslizando
Interna(eterna)mente aqui.
Isso que vem passando deslizando
Não sabe o que dizer
Inúmeras vezes
Que não há decimal para contar.
Os números, mentira, podem ser infinitos
Desde quando alguém inventou,
São infindas também minhas lembranças
Do dia recostado para a noite
Que eu vi você passar.
Passou.
412
Português
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Español