Lista de Poemas
Explore os poemas da nossa coleção
Tsunamidesaudade63
A chuva cai lá fora
A chuva caí lá fora,
o dia foi triste, como triste está a flor.
Lembrei-me, perguntei à chuva,
onde está meu amor?
Com a voz embargada disse, foi embora
por isso a chuva chora, chora.
Senti a tristeza invadir a vida, como já invadiu outrora,
a chuva continuava caíndo la fora.
Ó chuva, chora, chora, chorar é teu calvário
lá ao longe se calou também a voz do passarinho
era já um chilro triste e solitário
se acolheu no seu ninho
a amparar seus ovos, com todo calorzinho.
contínua a chuva a cair, agora ela ao frio se alia
ela caí lentamente na ainda bem fria.
Luzerna, 17.04.2024, João Neves.
Frederico de Castro
Rosa caída

No charco do tempo caiu uma rosa rubra
Volátil e tão despojada
Desvela o doce mandriar de uma
Luminescência enamorada
Pintalga nos terraços do céu uma serena
Carícia tão, tão abreviada
Sem mais espalhafatos o dia tatua cada silêncio
Esdrúxulo e bem sedimentado
Lava meus olhos tolhidos com as lágrimas
Depositadas no odre de um eco ousado
Passarinham pela tempestade mais intrépida
Dos meus desejos quase asfixiados
Frederico de Castro
Lucille
XXX
agathinha
o amor vai te matar.
sei que agora no começo vai ser mil maravilhas, ele vai falar que te ama, que você é a “mina” mais incrível que ele já conheceu-mesmo em pouco tempo de conversa-, sei que ele vai falar que você é gata e tudo mais.
mas acredite em mim, isso tudo pode mudar em um mês, e quando você perceber, já vai ter se entregado totalmente a ele.
eu me entreguei, mesmo sendo avisada para não esperar nada dele (e eu não esperava), eu não me arrependo.
demonstrei ao máximo meu amor, fiz cartinha, dizia que o amava, fazia presentes para o entregar, comprava chocolate para o agradar, e mesmo assim não foi o suficiente.
em um ano totalmente agitado eu decidi confiar na sua palavra, e deixar eu me apaixonar por você, até porque na minha cabeça você seria a válvula de escape pra sempre, me distraindo um pouco de toda a loucura da vida.
ingenuidade a minha querer confiar em alguém que nem tem a mentalidade desenvolvida.
não me arrependo de nada que senti ou fiz com você; é fato que eu não queria que tivesse esse fim, que eu queria que você fosse mais verdadeiro e honrasse mais suas palavras.
infelizmente esse talvez seja o último texto que eu escrevo pensando em você, e pensar que eu nem tive tempo de te entregar seu presente que eu estava preparando com tanto amor…
mas me desculpe por te incomodar nesses meses, e por talvez impedir você de viver no modo em que você deseja viver, mas obrigada por todos os momentos em que esteve comigo, e diante das circunstâncias, obrigada por nesse período ser o cais em meio ao meu caos.
-A
Marta Marta
Idas sem volta
De perto pensei que complementaria o teu eletrão solto com o meu protão melancólico,
Julguei ser a margarida no meio desses penhascos destroçados
Ou tu a cafeína do meu dia mal acordado.
Puseste um fim aos caminhos traçados mas sem deixar pegada,
Pernoitei à espera do Sol que me iluminaria a vontade de voltar a acreditar no impossível..
Mas tudo se resume ao temporário e como que por magia tornaste as tuas palvras em algo pouco credível.
E em vão foste, como o último raio de sol do dia.
Como uma migalha de pão que esvoaça pelo passeio me deixaste.
Estarás contente agora? De como me mandaste fora e pisaste?
E eu que acreditei nessas mentiras mal contadas..
Os olhos brilhavam, a voz tremia e a paz serena se encostava na minha alma
Quando te ouvia a ti e às palavras que proferias com calma..
Guardava-as no coração como páginas vincadas.
Mas apenas o destino sabe o porquê.
Apenas sei que se o amor fosse perfeito como a ciência
Estarias comigo agora e não pensaria constantemente na tua ausência.
Alma Perdida
Retorno à Angústia
Ilumine meu destino final.
Revira meu estômago, faça-me mal.
Sinta minha artéria pulsando.
Roda voando, motor ativo.
Por favor eu não quero ir,
não quero voltar, quero fugir.
Quero sorrir porque estou vivo.
Roda chorando, fantasmas avulsos.
Meus amigos mortos sussurram:
Anjos expulsos, Anjos expulsos…
Roda sangrando, mundo a ferver.
Cintilo o meu último suspiro,
e meu corpo para de se mover.
Helder Monteiro
HOJE
Hoje e agora: Viva tudo intensamente!
Hoje e agora com afecto, viva intensamente!
Diga o que quiser
Sem pudor nem pressas!
Hoje e agora: viva tudo
E para tanto aja de corpo e alma, em mente sã!
Hoje e agora! Viva e tudo seja!
Ame sempre igual e sem diferença deseje o que desejar!
Hoje e agora, o que longe ou perto veja
sinta cada segundo! Sim! Acene e acenda no cortejar
E hoje e agora, sem hora, ame e depois vá versejar!
Helder Filipe da Silva Monteiro
Rodrigo Fercost
Isabela
Sopra o meu barco à vela
Traz as cores pra minha vida
Tal qual uma aquarela
Estrela no céu radiante
Meu olhar é só por ela
Utopia dos meus sonhos
Oh minha Vênus moderna
Isabela é o nome dela
Flor tão linda e singela
Que me espera na janela
Isabela sempre bela
Amizade tão sincera
Obra prima, prima à vera
Beleza do meu jardim
Minha rosa amarela
Doce cheiro de jasmim
Cravo da minha lapela
Alegria dos meus dias
Cura pra minhas mazelas
Como vou viver agora
Minha vida é só por ela
H. Valentim
Enquanto a vida adormece.
Escrever sobre o amor
É escrever sobre ti .
É como colher flores
Sujar as mãos com o latejar
Do desejo inglório.
Que renasce
Adormece.
Mas não morre .
Escrever sobre o amor
É escrever sobre o que sou
Quando não estás
Sobre o que fica
Quando te vais .
Sobre o silêncio
Que canta alto
E ensurdece o clamor
Sobre o beijo
Suave no toque
Dos lábios trêmulos
Escrever sobre o medo
É escrever sobre o amor
Porque sei que nos perderemos
Porque a vida é fugaz
Porque o tempo é de ninguém
Porque Deus se diz seu dono
Porque a vida sempre adormece.
Encantada .
Pelo perfume da morte .
A poesia de JRUnder
Caminhos
O ponto de partida e o ponto de chegada.
Entre eles, caminhamos junto a objetivos, sonhos, desejos e expectativas.
Por vezes, os perdemos pelos caminhos e assim jamais atingiremos o ponto de chegada.
Mas caminhar é preciso, para que não venhamos a morrer inertes, dentro de nós mesmos.
Ademir D.Zanotelli *Poeta*
Poemas e Poesias.
"Uma Mulher Faladeira"
Eu não sei porque
tanta angustia me fere;
pois dói meus olhos e
e o meu corpo não dorme.
Ouço palavras sem parar
de uma mulher que não tem
papas na língua; fala...fala...
até o sol raiar.
Não sabe amar e nem sabe
cuidar de um lar...doce lar..
Minha angustia é não poder
faze-la parar... pois respeito
ao seu pensar.
Não sou obrigado a saber
de tudo... sou um simples sêr
humano, que quer descansar.
Minha grande dor é a solidão;
pois na cama nunca fez um carinho
de amor -amar.
Esta lástima vou levar para sempre
ao meu sofrido e devagar- andar.
Não guardo mágoas desta figura
de mulher... que quer ser algo acima
de seu saber e continua : para sempre
a gesticular.
Certo dia a cama amanheceu vazia; pois
a mesma tinha partido... para bem longe
com sua vida ; que jamais foi humana. foi-se
para sempre , até sua boca não poder mais
se abrir e falar. ( Graças ao Bom Deus ).
Ademir o poeta.
notthegirlw_
Entre dois amores.
Um é fogo, o outro é a calma.
Um me machuca, mas me transforma,
O outro cura, trazendo a alma.
O primeiro é um vício, uma corrente,
Que me prende em sua dança ardente.
Ele me fere, me deixa em pedaços,
Mas sem ele, sinto-me vazio, sem passos.
O segundo é um porto seguro,
Um amor puro, doce e maduro.
Ele me quer, e eu o quero,
Mas o primeiro amor, ainda espero.
Preso nessa teia de emoção,
Anseio pela luz da razão.
Desejo o amor que me faz bem,
Mas também anseio pelo mal, e sei disso também.
Nessa encruzilhada de paixões, estou confuso,
Por um amor, sou desfeito, pelo outro, refúgio.
Que decisão angustiante deve ser tomada,
Entre um amor que me despedaça, e outro que me aguarda.
E agora, neste mar de sentimentos, onde a razão se perde,
Onde o coração se divide, e a alma se rende,
O amor que me acalma, que me faz viver,
Pergunta ao meu coração: "Por que insistes em sofrer?
Por que te prendes ao amor que te desafia,
Que te quebra, que te tira a alegria?
Por que deixas-me aqui, à espera, em vão,
Enquanto te entregas à dor, à desilusão?"
L.
mcegonha
Solitude; O ensinar a viver;
solitude para compreender;
esta diferença; Em todo viver;
Que realidade esta disparidade,
solidão, leva ao caixão;
Solitude é pura compreensão,
como se cria uma vida com propósito;
Rumo ao tudo;
luz da salvação;
Solitude; É estar sozinho,
sentindo a alma em crescer;
Onde o espírito compreende;
O coração ensina a viver;
notthegirlw_
Cadeias Invisíveis
Uma necessidade de amor, um desejo tão constante.
Como uma videira, ela cresce, suas raízes se aprofundam,
Em cada batida do coração, suas cadeias se apertam.
Dependência emocional, um amor que sufoca,
Um abraço que prende, uma voz que provoca.
Como um pássaro na gaiola, com asas mas não pode voar,
Preso em uma dança, com medo de errar.
Mas o amor verdadeiro não é uma prisão, não é uma corrente,
Não é medo ou insegurança, mas um sentimento quente.
É liberdade e respeito, é apoio e bondade,
É a luz na escuridão, é a verdade na falsidade.
L.
ERIMAR LOPES
MEU FÔLEGO É JESUS
Erimar Lopes.
Aristides Jerónimo
Suposições
Se estes céus fossem mar
Para poetizar nas ondulações
Para verter minhas palavras,
O sopro de minha vida,
Para moldar o mundo em versos de poesia
Para fazer ondas versar como monções
Se este mar fossem os olhos teus
Para me guiar sob teu olhar
E assim, procurando pelo meu
Sob o céu mais sombrio, num dia frio
Mesmo nas manhãs mais nebulosas
Nunca escapar de ti
Porque se de tristeza o mundo for
Como se pintado na mais triste cor
Dor, sem nada que paralele o amor
A existência se findasse
Como se por nada vivesse
Seja minha poesia o mar
Poesia beirando cantares divinos
Trilhando o céu, criando caminhos
Indo, indo e subindo
Diferentes dos céus que choram como chuva
Lágrimas gotejantes
Vindo, vindo, caindo
...
Atila J.
renato ferraz souza
QUANDO AQUELE RIO MORREU
Renato Ferraz
Quando aquele rio secou,
enlutado eu chorei,
senti uma grande dor.
Se minhas lágrimas bastassem
para que suas águas não acabassem
eu choraria a vida inteira
se preciso fosse.
Eu vi a tristeza em sua face
da última vez que me despedi.
Saudoso tive que parar de navegar
Tentei, mas nada pude fazer para evitar.
A vida de quem ao redor se criou,
que do rio o alimento sempre tirou,
sofre a sua ausência e lamenta.
Sobrevive da saudade que só aumenta.
Hoje sentimos a seca em nosso peito
de um rio sem vida sem ter mais jeito.
A terra seca arde e reclama da sua dor
sofreram seu revés a vida e o amor.
A poesia de JRUnder
Águas límpidas
E no precioso baú onde guardamos os pertences da vida,
empilhamos um amontoado de momentos e atitudes,
caixas de alegrias e de tristezas também.
Lá estão as recordações da infância, o arrojo da mocidade,
as certezas que abandonamos...
As lições... Ah! As lições...
Por que deixamos de aprender e subestimamos a tantas lições que a vida nos ofertou?
Antigos sonhos amarrotados, largados no fundo do baú,
misturam-se às esperanças e aos desalentos. Nada mais importa.
É passado! Temos a viver o que nos reserva o futuro. Nada mais.
O amor é uma nascente inesgotável, de onde sorvemos forças para continuarmos a viver.
A deixarmos de amar, definhamos, perdemos o brilho do olhar, a expectativa do futuro.
Como água límpida e pura é o amor que desejamos e dele desfrutaremos desta forma se assim o mantivermos.
Águas incolores, insípidas e inodoras ou águas turvas. Não esperemos felicidade no amor contaminado com impurezas.
Entreguemos nosso amor em sua forma mais pura. Não imaginemos poder filtrar o amor impuro que recebermos.
Conheceremos do amor que temos a oferecer, mas não saberemos do amor que nos oferecerem, senão ao fim da vida, quando fecharmos a tampa de nosso baú.
Pedro Rodrigues de Menezes
quod absurdum
numa lentidão
intrépida
subtil
súbita
cadência
tudo me arde
numa lassidão
crânio
memória
orvalho
planta
palavra silêncio
quod absurdum
(Pedro Rodrigues de Menezes, "quod absurdum")
Kayc Carvalho
Samba Dedilhado
Fazia “um calor desgraçado dos infernos” na sala cujo as janelas grandes de vidro sujo de poeira passavam uma luz amarelada que só ressaltava esse calor que fazia com que os participantes da roda se realizassem em dançar inconscientemente.
Era a segunda vez que ele se sentava.
Mesmo seu paletó dando sinais óbvios de que era hora de ir embora com manchas escuras de suor nas costas, axilas e lapela do tecido de linho cinza claro, ele se recusava a ir. Tinha um motivo para ficar. Um motivo de cabelos curtos e onduladamente loiros.
Sua salvação era a única cadeira almofadada na mesa mais redonda mais distante de todos. Onde ele ficava até o sangue lhe esfriar para então logo voltar para a roda ao lado dela.
Além dele e da banda, haviam outros sentados nas mesas, apenas esperando novamente para dançar até o incandescente.
O cansaço dava certo conforto ao duro assento almofadado. Respirava ofegante por mais que tentasse disfarçar entre goles de água que já foi gelada, mas agora deixava o estado de frescor.
Mantinha os olhos vidrados nos belos ombros descobertos pelo vestido rosa que ela vestia. Em um rápido lapso e uma piscada de olho, ele se perdera nas memórias da noite anterior que ele dividiu com ela. Um jantar boêmio com filés de peixe empanados acompanhados de ao todo duas garrafas de vinho e alguns cigarros fumados por ela. Deitaram-se na grande cama delicadamente arrumada. Os dois, juntos no desfecho de um inocente amor, adormeceram para a lenta e delicada manhã do dia de hoje.
A doce memória lhe passava em mente várias vezes. Até que sua atenção é recobrada por uma fala externa a memória que dizia em um tom tão monótomo que foi impossível de se distinguir sexo ou idade.
-Toma aqui.
No mesmo instante, o copo d’água que ele segurava tornou-se subitamente mais pesado. Podendo sentir o “coice” do copo.
Seus olhos voltaram-se para o seu transparente copo americano com água um pouco abaixo da metade. Mas que agora, transbordava em uma água avermelhada.
O peso acrescentado lembrou ele do peso de dois grandes cubos de gelo. Foram dois erros que sua intuição lhe fez tomar. Não eram dois, mas sim um. E não era o mais requintado cubo de gelo, era o mais estranho e grotesco dedo anelar de uma mão que seu ofício de herdeiro latifundiário poderia lhe proporcionar.
Teve nojo. Teve vontade de vomitar e repúdio do pedaço de carne e osso. Mas acima de tudo, teve medo. Não do dedo boiando no copo em suas mãos. Mas do que as pessoas poderiam pensar dele com aquilo, da situação que poderia desatar e de quem colocou-lhe o dedo no copo.
Tamanho foi o choque que permaneceu parado a deslumbrar o dedo que, segundo a segundo, mais avermelhava a água com sangue. Passaram-se dois segundos dele nesse estado catatônico. Tempo em que a pessoa que lhe fez o exótico drink já havia se perdido entre a roda de samba.
Quando finalmente recobrou a integridade de seu pensar afetado pelo agora mais forte e notável calor, ele olhou para a frente e só viu a dançante multidão alegre por mais que cansada. Sua beleza era muita, e se originava da genuinidade dos que nela sambavam.
Ele desconfiou de todos. Da mais nova menina recém moça e que não entendia o por que da cólica e hemorragia que sofrera a poucos dias. Até da figura mais velha que sambava a passos descompassados e lentos. Desconfiava até do amigo do primo que lhe convidou para o baile.
Entretanto, ele não desconfiava de uma pessoa. A quem ele confiava a vida e seus segredos. Essa a quem ele deu a sua sagrada virgindade a duas semanas. Procurou por ela em meio aos bailarinos. Se levantou aflito à procura dos ondulados cabelos da cor mais douradamente loira. Não a encontrou.
Olhou à sua esquerda. Mas só encontrou a banda já cansada e que agora começava a tocar outro samba nitidamente mais lento que o anterior.
Teve medo em olhar a sua direita e ver o desconhecido e anônimo que lhe entregara seu pesadelo. Sonhou bom foi quando viu o rosa vestido ciganinha que ela usava. Ela vinha num caminhar singelo saindo da roda e indo ao seu encontro.
Foi o melhor e mais curto sonho que ele teve. Pois o vermelho sangue da água em que boiava o dedo não ornamentava com o açucarado e sutil rosa do vestido. Tinha de fazer algo para com aquilo.
[...]
Virou-lhe o copo.
Foram três goles até que por muita sorte o dedo estava em posição ideal para engoli-lo sem nenhum esforço necessário. E assim o fez no quarto gole.
No quinto e derradeiro gole ela já chegara ao seu encontro e se colocou ao seu lado.
Esperava por tudo. Mesmo que ele não tivesse resposta para nem metade das situações que poderiam acontecer. Mas ela, sem pestanejar, o puxa pelo braço direito. Ele em um último suspiro de suas faculdades mentais, deixa o copo vazia em uma das mesas.
Eles contornam a multidão e, quando estavam prestes a chegar a porta soltava uma brisa suave de vento vindo do restante do casarão, ela diz baixinho para que ninguém além dele ouvisse:
-Vamos, detesto essa música.
José Cassais
AMAR
As coisas é
Para ser feliz
A única condição.
As coisas.
Que coisas?
Qualquer coisa.
Pois tudo
Coisa é:
Nuvem é coisa.
Poeira é coisa.
Jornal velho é
Coisa.
Por isso,
Não ame
Com discrição.
Nunca discrimine
As coisas.
Não divida em
Amáveis,
Menos amáveis,
Não amáveis,
As coisas.
Fazendo assim
Você não estará
Amando as coisas.
Amando pássaros, nuvens,
Mulheres, talvez.
Mas não as coisas.
As coisas em si mesmas,
Que merecem ser amadas,
Que são dignas de espanto,
Que despertam o nosso Oh!
Separadas
Ou em conjunto,
Compondo a vida
Em obra de arte.
E o mundo se fez novo,
Digno de atenção
Como um quadro de Monet
Ou uma escultura do Aleijadinho.
Kayc Carvalho
Niilismo Estrangeiro
Péssima estrada. De terra seca e dura. Só não se torna mais esburacada que a arcada dentária deprimentemente amarela do homem que parece não conseguir distinguir um carro de um cavalo. Ele dirige tão bem quanto se barbeia. Ou seja, pessimamente. Tem diversas imperfeições no barbear. Mesmo se usasse uma colher como navalha, não teria resultado tão ultrajante.
Ele me irrita. Tudo nessa enrascada de viagem ainda há de me levar à loucura. Faz calor, muito calor. Está seco e a única brisa que tem neste vale desértico é uma ducha de poeira e mormaço.
Me fez repensar inúmeras vezes o por que eu estou aqui. Será que ser o “novo homem da honrada família Caunden” vá valer esse inferno de peregrinação para ir em uma terra arrasada que Deus se esforçou para esquecer.
-Vá lá ver o que tanto meu pai escondeu de nós em vida para só nos revelar sob a jura de seu testamento. [...] O que será que tem naquela fazenda? Será que é boa para plantar café? Pode esta graça de descoberta ser o nosso presente de casamento?
Convencido fui eu por me deixar levar por essas falas de encorajamento de minha esposa. Pois já deixou de ser um presente faz eras.
E se a viagem for terminar aqui, seria tudo uma grande e sem graça piada póstuma do Cobalto já vestido de seu glamuroso terno de tábuas. Seria de seu feitio antes de ele perder a lucidez e o ácido humor característico dele. Morreu velho o coitado. Viu e fez de tudo. Foi bem vivido. E mesmo morto ainda há de contar sua derradeira chalaça.
Lutou em guerras. Não esta Grande Guerra Mundial, mas foi uma guerra. Até porque, toda guerra é ruim, e por isso, toda guerra é igual e termina da mesma forma, sem significar absolutamente nada. Mas ele sempre dizia que não lutou propriamente, apenas foi mandado e recuado na mesma carroça. Apesar dele ter tido honrarias. Meu sogro, pai de minha esposa Helga, foi um virtuoso e imponente homem.
Trágica foi todo o drama tramado pelo destino que fez com que ele não estivesse vivo para ver o nosso casamento.
Helga e sua mãe, dona Adamar, choraram muito no dia em que ele partiu. Derramei lágrimas, mas foi só quando o vi no caixão vestido do terno turquesa que ele mais gostava. Era espalhafatoso e extravagante.
Mas se há um homem que tem total licença para usar o que bem entendesse, este foi o doutor e sargento Cobalto Solares Caunden.
Tenho muita sorte dele ter me aceito na família e ter confiado a mão se sua única filha a mim. Pois quando entrei na história, Cobalto já lecionava na universidade de São Paulo. Já tinha se consagrado doutor e sargento, ganhou diversos prêmios por seus estudos, trabalhos e livros. E além disso, Helga já era antes disso desejada por homens e mulheres muito mais capacitados que eu.
Ela poderia ter a família que bem quisesse com quem quisesse.
Mas ela me escolheu.
Eu, “filho do carbono e do amoníaco”. Que, na época, era apenas jornalista da segunda menor rádio. Estava na metade da faculdade de jornalismo e não tinha família. Deixei tudo em Linhares. Era eu um solteirão varrido que mal falara com mulheres antes na vida. Não sei o que ela percebeu ou sentiu uma meia dúzia de ossos dentro de um saco de pele. Talvez fosse um palerma que aceitasse viajar de São Paulo para o interior do noroeste paulista sozinho atrás de uma terra que eu aposto que será só uma imensidão de braquiárias amarelas de secas por não verem uma única nuvem a mais de quatro meses. E esse imbecil estupido não sabe dirigir. Isso eu afirmo com a certeza de alguém disposto a levar essa afirmação para ser colocada em minha lápide.
Ele conseguiu estourar o pneu em um buraco. Em um buraco de uma estrada de terra. Inocente fui eu que pensei que Jeca Tatu fosse a pior espécime que eu encontraria.
Agora me encontro em um complicado e dificílimo dilema que pode me custar a vida e a sanidade. Vou para fora do carro e queimo até a morte pela baforada de vento quente enquanto amaldiçoo o tonto do motorista trocando o pneu, ou, espero dentro dessa banheira velha e aceito meus miolos sendo lentamente cozinhados pelo calor do ar em temperatura ambiente dos calabouços do nono nível do inferno.
O que eu faço?
Fico pensando e debatendo no problema e mal dizendo minha recém esposa e sogra que mais parecem ter me despachado para enlouquecer nessa desventura, mesmo eu sabendo a resposta do dilema: Eu virarei um ensopado dentro do carro.
Acaba de cair uma gota de suor nas páginas brancas deste caderno de capa de couro preto. Escorreu outra gota de suor de minha testa. Ela passou pelas minhas sobrancelhas e conseguiu atravessá-las. Percorreu meu desnecessariamente grande nariz até chegar a ponta. Pensei que ela iria se acumular e então despencar e desaguar no assoalho. Mas contra todas as expectativas, ela caiu, mas foi barrada em pleno ar pelo meu bigode.
Mas que diabos de baderna!
Poderia ter logo me matado em vez de tentar fazê-lo com esse susto.
Aquele desafortunado desgraçado bateu na porta do carro enquanto gritava uma tentativa da mais rudimentar fala. Acho que ele quer que eu saia do carro para gratinar o monte de carne já cozida com as labaredas de luz do sol mais quente e estonteante que eu já tive o azar de sentir.
Quando abro a porta, veio até mim um vento quente de mormaço e poeira. Se assemelha quando se abre um forno e vem aquela baforada quente. A diferença se dá quando o vento do forno tem cheiro de bolos, tortas e pães. Enquanto ao que sofro agora é seco e tem cheiro das únicas coisas que esse carrasco de sol deixa se ter nesta terra, morte, peste e tristeza.
Lentamente tomo coragem de prosseguir com o suicídio. A terra é dura como pedra. Quando coloco meus pés nela, chego a pensar que estou pisando sobre os paralelepípedos das ruas de São Paulo. Mas o calor é este sujeito de cara abominável me lembram o quanto estou distante de casa.
Estou em algum lugar de Minas Gerais. O nome eu desconheço,até porque estamos no meio do absoluto e vazio nada. O último sinal de civilização ficou para trás há vários quilômetros.
O nome deste indivíduo desprezível é Romero Romeu. Um imprestável bêbado que contratei como guia no começo dessa empreitada por um grande equívoco. A propaganda era senão um sonho bom de alguém que realmente era guia. Certamente não foi Romero o publicitário. Ele não tem sequer a capacidade de sonhar miragem tão admirável. Desde então estou preso aqui com esses palheiros fétidos, bafo de bebida que mais se parece com o odor de um animal no décimo quinto dia de decomposição. Sem é claro esquecer dos comentários, falas e dialetos desagradáveis. Pois esquecer essa aberração bípede seria o grande tesouro dessa viagem ao inferno.
Quando esse diabo de caipira metido a caboclo com nariz torto dá-me uma paz, pego-me pensando: Será que o plano de Helga e Adamar de me mandar para esse fim de mundo é somente para se livrarem de mim e então ter todos os bens declarados no testamento só para a verdadeira família Caunden? Pois não há cabimento eu passar por isso sozinho enquanto as duas ficam tranquilas sob os aposentos do casarão e desfrutando dos frescos ares de São Paulo.
Posso bem, chegar até a terra prometida por Cobalto, colocá-la sob minhas propriedades e nunca mais voltar. Mas eu não teria coragem de fazê-lo. Não com Helga.
Iria contar a história de como nos conhecemos. Mas Romero me interrompe grasnando como um touro.
-Óia, u’diacho du pneu 'storô. E nóis nun'tem pneu reserva.
Ora, como os pais desse sujeito deixaram esse asno humanoide viver até atingir este estado catatônico de inutilidade. Melhor seria para a espécie humana se a chocadeira que cuspiu este verme matasse ele ali mesmo. Romero nem mesmo consegue dar total providências de seu próprio ofício que, se merece alguma caracterização somente pode-se dizer: é feito nas coxas.
-I'intão dôtor? Nóis tem duas coisa qui'a genti podi fazê. Ou'o sinhô vai até na cidadi'i'eu fico no carro. Ou'eu vô'e'ocê fica.
É de tamanha incompetência este caipira dos infernos. Mesmo quando Romero tem a insolência de me dirigir a palavra, ele não possui a decência de parar de fumar. E ainda nem muda seu olhar vagante e sem foco que, com qualquer mosquito, se distrai. Mesmo eu pagando, ele age como se me devesse satisfações. Eu o amaldiçoo.
Eu olho para a estrada que ainda iremos ter que percorrer. É longa, triste e quente. Nada de diferente do que passei até agora. Mas com um ótimo desconto que não teria este horroroso me perturbando. Porém lembro o por que ele fez essa pergunta, coisa essa que se não estivesse nos assolando ele nem mesmo iria perguntar. Era o sol, o grande astro estava radiantemente forte.
-Eu prefiro ficar aqui. Será melhor se você ir à cidade. - Falei eu me orgulhando de minha estupefata perspicácia.
-Ora sô, maiz’eu digo qui’é mió eu fica’qui.
Este desalmado acha que consegue barganhar comigo para que eu sofra em seu lugar? Eu estou lhe pagando seu idito imbecíl. Se há alguém que deve sofrer aqui é você. Ora se já não é pertencente ao seu povo preguiçoso e doente.
Romero que estava agachado de cócoras ao lado da roda traseira esquerda do carro se levantou. Mas somente esticou as pernas. Manteve sua postura lastimável com os ombros para frente de seu peito fazendo lhe uma corcunda tristonha e arrematadora de todos os piores diagnósticos de doenças.
-Oiá fí, vô ti fala’unegóço. Por’essas bandas tem’muito’é’onça. E seco du jeitu que ta’as coisa. As’onça nun’teve de cumê muit’não. Elas vai’ta é com os istrombu colado nas’costa de tanta’fome.
Onças? Nesse serrado de vegetação baixa e seca? Mas nem ao menos a mais temerosa criança teria acreditado em tamanha falácia sem cabimento.
Mairon
Traumas da Vida
Emocionalmente forte
Me peguei sem sentimento
Vivenciando a morte
Mas tenho fatos para esquecer
Fatos que me tiram a paz
Traumas da vida, pra mim?
São vidas deixadas pra trás
Você me queria perto
Temias ficar só, assim
Mas eu vivia um momento de luto
E você era outro para mim
E você, meu grande amigo?
Não lembro se me despedi
Há muito que já não te vejo
És, hoje, outra vida que perdi
A poesia de JRUnder
Apenas José.
Esse é o seu mundo, mas não lhe pertence,
Aqui está, mas não sabe o porquê.
Dia a dia, o cansaço lhe vence.
Vive fugindo, sem saber nem do quê.
Amizades sinceras as tem: mas são poucas!
Conta-as sem erro nos dedos das mãos.
Mas estão longe, sob outras luzes,
E ele aqui, na escuridão.
O amor, ah! O amor...
Não é mais o amor que deseja.
Não tem a pureza, que tanto procura.
Baladas, sexo e riqueza!
Se eles acabam, acaba a paixão!
Fica a solidão e a vida que dura...
Português
English
Español