Escritas

Lista de Poemas

Aparição num dia de inverno

Um dia, lendo este poema, lembrar-te-ás:
o amor falou através dele. Ouvirás no seu ritmo
a voz que tantas vezes desejaste; reconhecerás
nos seus versos o corpo que encheu
a tua vida; tocarás em cada uma das suas palavras
os dedos que te ensinaram a medir os dias
pelas suas contas de ternura. E o tempo
entrará por ti como esse rio que alagou os campos
do inverno. Olharás à tua volta, vendo a desolação
de uma paisagem inundada. Algures, porém,
uma árvore antiga sobressai; e os seus ramos
verdes dar-te-ão a esperança de uma nova
primavera, em que voltes a ouvir a voz
que o poema te trouxe com os seus dedos
de música.
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Desperdícios

« - Por que me escreves? Que inspiração alheia
te suja os dedos de versos, se os teus lábios
não pronunciaram nunca as palavras que esperei,
quando, em tardes de vento, te olhava em
silêncio? Por que interrompes a estrofe no meu nome,
a flor obscura de uma primavera que não
chegou? Deixa-me!, entre
as copas geométricas de um ritmo vegetal,
respirando na efémera duração de vozes que não ouço;
e sob um breve bater de folhas nos arbustos
perenes que o fumo da madrugada escurece: sombra
separada da própria sombra, e eco já vago
de um canto de pássaro morto! E não deixes que
a minha queixa se dissipe num rumor de águas estagnadas -
charcos da chuva sedentária do outono,
lagoas baças de um choro matinal...» Desperdícios
de vida num fundo amargo de memória.
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Eva

Quando Eva andava nua pelo paraíso,
disfarçava o tédio à sombra das árvores,
colhendo as flores, cheirando o seu perfume,
e pensando como seria bom ter um céu
para espreitar.
Um dia, uma dessas flores transformou-se
em fruto; e Eva levou-o à boca,
trincou-o, provou a sua polpa.
Por um estranho efeito
de causa e consequência, o sabor da maçã
obrigou Eva a cobrir a sua nudez
com folhas e flores, que passaram
a ser uma metáfora do corpo
que escondem.
Então, o pecado tornou-se uma simples
figura de retórica, e o sexo um exercício
de interpretação.
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Visão

Nas correntes frias onde morre a luz dos astros,
e entre os gritos rápidos dos condenados, encontrei o reflexo
de um amor antigo. Deixou-me um gosto de sangue nos dentes,
os lábios gretados num roxo de ânsia. Rasgou-me a alma
num seco crepitar de papel. Estava imóvel, encostado aos ventos
e às marés, e o seu corpo exalava o cheiro húmido dos litorais. Falava
baixo, num segredo de sombra, num horizonte de bocas sem alegria,
arrastando a voz num sussurro de litania. Fiquei de longe,
a olhar, enquanto o sol nascia.


Nuno Júdice | "A partilha dos mitos", pág. 23 | Na Regra do Jogo, 1982
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Poema II

Por entre os arcos da nuca e a luz

vidrada dos oblíquos idiomas do amor: as cinzas

de um pássaro refractam-te os cristais da

respiração, prendendo-me os olhos no sulco das cores

amargas da voz. Um eco de mar na concha dos lábios

anuncia o crepúsculo dos hemisférios, que uma

súbita dissolução de versos canta - rumor

que se perde no canto dos mapas, onde o rumo do corpo

se sobrepõe ao traçado de um continente sinuoso.


Colho as flores coaguladas dos sexos

abolidos. Misturo-as no fogo dos tampos arredondados

da manhã, quando o avermelhado silêncio das cigarras

se afoga num encrespar de charco. Bebo as

essências de um sonho cartulário, húmidas sombras

cuja mancha se inscreve na obscura alma. - Que

forma reproduzem? Traços da análoga caverna, peitos

marcados pelo chicote das viagens, im-

precações do rum na voz rouca dos faróis...


Só o que ouço subsiste ( - Mas que luzes

vacilam ainda na névoa da eternidade?)



Nuno Júdice | "Obra poética 1972 - 1985", pág. 297 | Quetzal Editores, 1999

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Deixei contigo o meu amor

Deixei contigo o meu amor,
música de açúcar a meio da tarde,
um botão de vestido por apertar,
e o da vida por desapertar,
a flor que secou nas páginas de um livro,
tantas palavras por dizer
e a pressa de chegar,
com o azul do céu à saída.
por entre cafés fechados e um por abrir.
Mas trouxe comigo o teu amor,
os murmúrios que o dizem quando os lembro,
a surpresa de um brilho no olhar,
brinco perdido em secreto campo,
o remorso de partir ao chegar,
e tudo descobrir de cada vez,
mesmo que seja igual ao que vês
neste caminho por encontrar
em que só tu me consegues guiar.
Por isso tenho tudo o que preciso
mesmo que nada nos seja dado;
e basta-me lembrar o teu sorriso
para te sentir ao meu lado.

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Sob o tampo do poema

Da última vez, não reparou já no escuro cimo

do cipreste. O vento frio puxava-lhe os cabelos para cima

do chapéu negro. Punha os óculos, apoiava-se ao muro.

Do outro lado um sinistro oceano impunha-lhe a vocação,

o sonho; bebia os pequenos barulhos terrestres

como quem se despede. Começou, finalmente, a reparar

na espessura das suas próprias mãos. O trabalho de segurar

a caneta sobre o papel gastara-lhes a pele. Levantou-as

à altura dos olhos e, através delas, viu o escuro traçado

do horizonte. Ficou assim, foi assim que o encontraram

os vorazes animais da morte. Mas a boca mexeu-se ainda

durante dias e noites sucessivas: "Poesia... poesia."


Nuno Júdice | "Obra poética:1972-1985", pág. 188 | Quetzal Editores, 1999

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Explicação

O poema é esta casa abandonada, o rosto belíssimo de imagens mortas.


Nuno Júdice | "Obra poética 1972 - 1985", contracapa | Quetzal Editores, 1999

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Epigrama gastronómico

Há mil e cem anos
de poesia num só dia
mil e cem palavras
numa só sílaba,
mil e cem páginas
numa linha
-quando abro o livro
do teu corpo, e provo mil
e cem receitas num só
amor.
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Carta de outono

Pensarás que não te escrevi antes porque o verão
consome a energia da alma com um apetite solar; e
porque as tempestades do crepúsculo incendiaram as
palavras com o rápido fogo aéreo. No entanto, eu
ouço aquelas aves que gastaram as asas na travessia
do Espírito, cujos olhos viram o que havia de duvidoso
nas traseiras do invisível, onde um deus culpado
se esconde e se ouvem as vozes sem nexo dos
anjos enlouquecidos. Essas aves deixaram de saber voar;
agarram-se aos ramos dos arbustos e, ao fim da tarde,
gritam em direcção às nuvens com os olhos secos e
sem medo. Abri-lhes o peito: e encontrei as entranhas
verdes como as folhas perenes do norte. Então,
ouço-te bater por dentro de mim, embora estejas morto;
e os teus dedos tenham perdido a força antiga que
desafiava a sombra. Procuro uma entrada no átrio
desabrigado da página; avanço entre sílabas e versos
perdendo-me do silêncio na insistência dos passos.
O passado é todo o dia de ontem; a vida coube-me
neste bolso do infinito onde guardei os últimos cigarros;
o teu amor gastou-se com um breve brilho de
isqueiro. Saio sem desejo dos desertos de outubro
e novembro, arrastando o outono com os pés, nas planícies
provisórias de um esquecimento de estações.


Nuno Júdice | "A Condescendência do Ser", págs. 50 e 51 | Quetzal Editores, 1988

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Comentários (5)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2025-08-12

Grande Poeta e romancista .... estes então das mulheres loucas é admirável.

Nalva
Nalva
2022-02-11

Eu sou apaixonada pela poesia de Nuno Júdice, magnífico!

Francisca
Francisca
2020-03-12

Bons almoços q partilhei com este senhor, eram reais banquetes.

kj
kj
2020-02-18

alguem que diga as caracteristicas psicologicas dele

João Baptista
João Baptista
2018-02-25

alguem pode analisar o tema e o assunto deste poema, também oxímoro e outros?