Escritas

Lista de Poemas

O homem de Munique

O homem que falava sozinho na estação central de Munique
que língua falava? Que língua falam os que se perdem assim, nos
corredores das estações de comboio, à noite, quando já nenhum
quiosque vende jornais e cafés? O homem de
Munique não me pediu nada, nem tinha o ar de
quem precisasse de alguma coisa, isto é, tinha aquele ar
de quem chegou ao último estado
que é o de quem não precisa nem de si próprio. No entanto,
falou-me: numa língua sem correspondência com linguagem
alguma de entre as possíveis de exprimirem emoção
ou sentimento, limitando-se a uma sequência de sons cuja lógica
a noite contrariava. Perguntar-me-ia se eu compreendia acaso
a sua língua? Ou queria dizer-me o seu nome e de onde vinha
- àquela hora em que não estava nenhum comboio
nem para chegar nem para partir? Se me dissesse isto,
ter-lhe-ia respondido que também eu não esperava ninguém,
nem me despedia de alguém, naquele canto de uma estação
alemã; mas poderia lembrar-lhe que há encontros que só dependem
do acaso, e que não precisam de uma combinação prévia
para se realizarem. - É então que os horóscopos adquirem sentido;
e a própria vida, para além deles, dá um destino à solidão que empurra
alguém para uma estação deserta, à hora em que já não se compram
jornais nem se tomam cafés, restituindo um resto de alma ao corpo
ausente - o suficiente para que se estabeleça um diálogo, embora
ambos sejamos a sombra do outro. É que, a certas horas da noite,
ninguém pode garantir a sua própria realidade, nem quando outro
como eu próprio, testemunhou toda a solidão do mundo
arrastada num deambular de frases sem sentido numa estação morta.

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Receita para fazer o azul

Se quiseres fazer azul,
pega num pedaço de céu e mete-o numa panela grande,
que possas levar ao lume do horizonte;
depois mexe o azul com um resto de vermelho
da madrugada, até que ele se desfaça;
despeja tudo num bacio bem limpo,
para que nada reste das impurezas da tarde.
Por fim, peneira um resto de ouro da areia
do meio-dia, até que a cor pegue ao fundo de metal.
Se quiseres, para que as cores se não desprendam
com o tempo, deita no líquido um caroço de pêssego queimado.
Vê-lo-ás desfazer-se, sem deixar sinais de que alguma vez
ali o puseste; e nem o negro da cinza deixará um resto de ocre
na superfície dourada. Podes, então, levantar a cor
até à altura dos olhos, e compare-la com o azul autêntico.
Ambas as cores te parecerão semelhantes, sem que
possas distinguir entre uma e outra.
Assim o fiz - eu, Abraão bem Judá Ibn Haim,
iluminador de Loulé - e deixei a receita a quem quiser,
algum dia, imitar o céu.



Nuno Júdice | "Meditação sobre Ruínas", 1994
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Verbo

Ponho palavras em cima da mesa; e deixo
que se sirvam delas, que as partam em fatias, sílaba a
sílaba, para as levarem à boca - onde as palavras se
voltam a colar, para caírem sobre a mesa.

Assim, conversamos uns com os outros. Trocamos
palavras; e roubamos outras palavras, quando não
as temos; e damos palavras, quando sabemos que estão
a mais. Em todas as conversas sobram as palavras.

Mas há as palavras que ficam sobre a mesa, quando
nos vamos embora. Ficam frias, com a noite; se uma janela
se abre, o vento sopra-as para o chão. No dia seguinte,
a mulher a dias há-de varrê-las para o lixo.

Por isso, quando me vou embora, verifico se ficaram
palavras sobre a mesa; e meto-as no bolso, sem ninguém
dar por isso. Depois, guardo-as na gaveta do poema. Algum
dia, estas palavras hão-de servir para alguma coisa.



Nuno Júdice | "As Coisas Mais Simples" | Publicações Dom Quixote, 2007
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Tempo

Se corre devagar o tempo, e o tempo
não corre, em que relógio contarei
os segundos que se demoram quando as
horas se precipitam, ou o amanhã

que nunca mais chega neste hoje
que já passou? Mas o tempo só o é
quando o perdemos; e ao ver que
é tarde, não se volta atrás, nem

as voltas que o tempo dá o voltam
a fazer andar. Por isso é que o tempo
nos dá tempo para o ter, se ainda

houver tempo; e se tivermos de o perder,
nenhum tempo contará o tempo que se
gastou para saber o que se perdeu, ou ganhou.
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Durante um passeio, no campo, uma águia

Desce ao nível do monte onde estou,
encostado às pedras que sobram do moinho antigo.
Paira, negra, no ar cuja transparência
se vai tornar azul, no cimo, e cinzenta
no horizonte onde o mar se adivinha.
Fica imóvel, como se fixasse a presa,
ou se tivesse esquecido da lei da gravidade.
No entanto, tem as asas bem abertas; só,
a esta distância, não é possível
ver-lhe os olhos.
Ao mesmo nível, eu e ela, apercebemo-nos
das diferenças mútuas:
presa ao espaço em busca da presa, ela;
com os pés na terra, voando em direcção
à sua imagem, eu.



Nuno Júdice | "O Movimento do Mundo", 1996
👁️ 1 009

Enigma ornitológico

Um pássaro entrou numa nuvem.
Uma nuvem entrou num pássaro.
"Qual a verdade?", perguntou
o homem. "Está no pássaro? Ou
está numa nuvem?" E enquanto
o homem procurava a resposta,
o pássaro saiu da nuvem, fazendo
com que a verdade saísse do homem.


Nuno Júdice | "A Matéria do Poema" | Publicações Dom Quixote, 2008
👁️ 1 263

Pedra

A pedra escreve-se em torno
do nome. Um banco de pedra serve
de assento a quem escreve,
com esse nome, a pedra. Os lábios
não a atiram quando dizem:
pedra. Nem a pedra rola
na boca, como a palavra.



Nuno Júdice | "Meditação sobre Ruínas", 1994
👁️ 1 148

Luta de classes

Nem todos os que construíram as catedrais viram
o mesmo. Uns, ergueram torres e pináculos, à luz do sol,
e chegaram ao céu; outros, metidos nas criptas,
pintaram infernos à luz de velas, deixando no chão
o lugar para os mais anónimos dos mortos. Os
que chegaram ao cimo, receberam o olhar divino e
viram o júbilo das madrugadas primaveris; os
que ficaram no fundo, arrancando à humidade das paredes
o gesto alucinado dos demónios, trocaram
obscenidades e doenças. No entanto, a catedral
é única; e quem a visita, apreciando a totalidade que, dizem,
nasceu de uma visão do absoluto, não pensa
em pormenores. Que importa os que trabalharam
na sombra, perdendo a luz dos olhos com o minucioso
desenho arrancando à treva, se o que hoje se vê
é esse contorno em que a pedra trabalha o céu? Assim,
conclui-se, é da desigualdade que nasce
a harmonia; e é a desordem humana que faz brotar,
do nada, tudo o que admiramos.


Nuno Júdice | "Cartografia de Emoções" | Publicações Dom Quixote, 2002
👁️ 1 122

Escola

O que significa o rio,
a pedra, os lábios da terra
que murmuram, de manhã,
o acordar da respiração?

O que significa a medida
das margens, a cor que
desaparece das folhas no
lodo de um charco?

O dourado dos ramos na
estação seca, as gotas
de água na ponta dos
cabelos, os muros de hera?

A linha envolve os objetos
com a nitidez abstrata
dos dedos; traça o sentido
que a memória não guardou;

e um fio de versos e verbos
canta, no fundo do pátio,
no coro de arbustos que
o vento confunde com crianças.

A chave das coisas está
no equívoco da idade,
na sombria abóbada dos meses,
no rosto cego das nuvens.

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Deus

À noite, há um ponto do corredor
em que um brilho ocasional faz lembrar
um pirilampo. Inclino-me para o apanhar
- e a sombra apaga-o. Então,
levanto-me: já sem a preocupação
de saber o que é esse brilho, ou
do que é reflexo.
Ali, no entanto, ficou
uma inquietação; e muito tempo depois,
sem me dar conta do motivo autêntico,
ainda me volto no corredor, procurando a luz
que já não existe.

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Comentários (5)

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ademir domingos zanotelli
ademir domingos zanotelli
2025-08-12

Grande Poeta e romancista .... estes então das mulheres loucas é admirável.

Nalva
Nalva
2022-02-11

Eu sou apaixonada pela poesia de Nuno Júdice, magnífico!

Francisca
Francisca
2020-03-12

Bons almoços q partilhei com este senhor, eram reais banquetes.

kj
kj
2020-02-18

alguem que diga as caracteristicas psicologicas dele

João Baptista
João Baptista
2018-02-25

alguem pode analisar o tema e o assunto deste poema, também oxímoro e outros?