Nuno Júdice

Nuno Júdice

1949–2024 · viveu 74 anos PT PT

Nuno Júdice foi um proeminente poeta, ensaísta, romancista e crítico literário português. Sua obra poética é caracterizada pela inteligência, ironia e um constante questionamento sobre a linguagem, a identidade e a própria realidade. Com um estilo que transita entre o lírico e o reflexivo, Júdice abordou temas universais como o tempo, a memória, o amor e a condição humana, sempre com um olhar aguçado sobre os paradoxos da existência. Sua vasta produção, reconhecida nacional e internacionalmente, o consagra como um dos mais importantes autores da literatura contemporânea em língua portuguesa.

n. 1949-04-29, Mexilhoeira Grande · m. 2024-03-17, Lisboa

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Nunca são as coisas mais simples

Nunca são as coisas mais simples que aparecem
quando as esperamos. O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida. Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras. Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios.
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Poemas

230

O repouso do modelo

A tela prolonga-se para o lado em que ela olha,
seguindo as notas como se as visse ao mesmo
tempo que as ouve. Uma harmonia entre o traço que
envolve o seu corpo, nítido e forte como a tarde
que se faz na rua, e o olhar que o acompanha,
inscreve-se no intervalo entre as teclas, como
se os seus dedos a procurassem, daí nascendo
a música. Por vezes, uma indecisão prende-lhe
os ombros, como se uma renda de lágrimas
lhe descesse sobre as costas, ocultando-as (mas
logo as mãos substituem a fragilidade da alma,
obrigando-a a voltar ao ritmo inicial). E nada
a interrompe, para que não se volte, e o seu
rosto não venha apagar, com o brilho dos
olhos, a luz obscura que nasce deste lugar.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 72 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 045

Acordar

Terá chegado a dormir? Os olhos não
o mostram; e as mãos, agarradas
à almofada, debaixo da cabeça, procuram
um apoio para o vazio em que mergulha. No
entanto, a linha paralela dos braços,
que a empurra para fora do quadro, é
contrariada pelo triângulo que se constrói a
partir dos vértices, doces e fundos,
dos mamilos e do umbigo. Algures,
num espaço em que o olhar se perde,
um mar sem fim convida à navegação
do amor, sem rumo nem porto à vista.
E limito-me a desenhar, mentalmente,
o triângulo invisível, hermético,
simétrico desse que o
lençol esconde. Então, peço-lhe
que feche os olhos e entreabra os lábios,
para que o desejo se solte do seu corpo,
como pássaro, e voe para o dia.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 66 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 416

Modelo no atelier do artista

As telas amontoam-se por trás da mulher que
se despe, deitando a roupa para cima do banco.
À sua frente, o pintor interrompeu o quadro
para lhe tirar uma fotografia; e vejo nos
olhos dela a surpresa de quem não esperava o
flash, como se estivesse cansada de ver
a sua imagem roubada, dia após dia,
em poses intermináveis que a obrigam
ao silêncio, sob os secos gestos da mão
que comanda o pincel. No reflexo do espelho,
porém, a cena é outra: molduras vazias;
e uma cabeça esculpida que mal se vê,
de olhos tapados pela blusa com que ela
a cobriu, como se quisesse impedi-la
de a ver, enquanto se despe.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 67 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
935

Rapariga lendo

Entre o livro e a laranja, uma sombra.
Entre os lábios e as pálpebras, uma cor.
Entre os braços e os seios, o branco.

Na flor que os dedos prendem, um perfume.
No risco dos cabelos, uma luz.
No ar com que sonha, um lume.

Na página que lê, um desenho.
Na testa descoberta, um sonho.
E na cabeça, o que só ela sabe.



Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 70 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 150

Jane com uma boneca japonesa

Entre o escuro das meias e o branco
da combinação, a coxa de Jane situa-se
no enfiamento dos ombros, ao contrário
do seu olhar de perfil, fixo na boneca
japonesa que ela se prepara para limpar
com o algodão seguro nos dedos. Há
algo de decidido no seu gesto, que
contrasta com a fita cor de rosa da
combinação, caída sobre a cadeira
de verga. A esse abandono contrapõem-se,
porém, os pés calçados, como se
tivesse interrompido a toilete para
se ocupar da boneca. Terá acabado
o seu dia? Ou limita-se a olhar a figura
de porcelana, com que ainda brincou, sem
reparar que um caracol se soltou do
cabelo para pontuar o início
do seio com uma interrogação
que oferece a quem, de súbito,
descobre a linha perfeita da perna
que as meias escondem, e revelam?
1 110

Um retrato de mulher com vestido branco

É o teu rosto que eu destaco sobre a pose
convencional e uma expressão de indiferença
ou cansaço, que as mãos presas uma na outra
sublinham. O cabelo cortado, de onde sobressai
a orelha; e os lábios cor de vida, que
bebem o brilho nascido dos teus olhos. Queria
tirar-te daí, e ver-te rir; ou ouvir o
teu desabafo, libertando-te da figura
de velho que te olha da tela pendurada
na parede. No fundo, já não estás aí;
e o teu pensamento viaja no sentido
oblíquo onde fica uma janela, uma porta,
qualquer saída para a perfeição do teu gesto.
Mas continuas imóvel, obedecendo
ao pintor; e é a tua ausência
que eu vejo, por dentro do vestido branco
onde secaram já todas as flores da primavera.
1 233

A banhista dita banhista Valpinçon

A mão direita pousa no lençol, acabado de
usar, e procura o calor de um corpo. Olha para
o travesseiro onde ainda ficou a marca da
cabeça; e não se importa com o que está
para trás, entregando-se à volúpia de
lembrar o instante que acaba de viver. Mas
o pé, num breve desequilíbrio, procura
o chinelo para se calçar; e entre a
melancólica imobilidade que a prende
à cama e o desejo de se levantar, faz
a pausa em que a sua nudez se fixa, para
sempre, como se a cama não tivesse de ser
feita, e o banho não estivesse pronto,
para a lavar da noite.
1 175

Ninfas de água

Alguém as espreita de trás do canavial, sem
que o pressintam; e não sei se é de espanto, ou medo,
a sua expressão, ao entrarem no rio, como
despreocupadas ofélias. Na tarde em que
falei com elas, porém, explicaram-me tudo:
a mais nova, interessa-se pelo Messias,
e estuda a sua relação com a água; a
da frente, prefere a linguística, e
ocupa-se da etimologia das plantas.
No café, não pediram nada: pousavam
os cotovelos sobre a mesa, e eu ouvia-as
falar com o ritmo musical das suas
frases bem articuladas. A noite caíu sem
darmos por isso; e a cortina da porta
transformou-se num arbusto em que
elas se meteram, antes de passarem
por cima de mim para entrar no rio.
1 072

Arrufos

A rosa caída não respira, como um pássaro
morto; e o seu corpo, estendido na cama,
esgota o pranto da tarde, como se todas
as sombras do dia se juntassem à sua
volta. Poderia estender a mão, e apanhar
a flor; mas receia que outra mão se
interponha entre ela e a rosa, e a puxe
para o reino em que nenhum pássaro canta.

Por vezes, um soluço agita-lhe o ombro;
e é o seu único movimento, como
se não tivesse força para se erguer,
puxar os cabelos para trás da cabeça,
e olhar o vazio, onde se esconde
o destino que a assombra. «Pode ser
o destino da rosa», digo-lhe; e cito
Ronsard, para que ela me ouça, e siga
o rumo do pássaro, o que voou junto
à janela, e preferiu subir até ao azul
a entrar no mundo que não lhe pertence.

Mas permanece deitada, e fez desta
cama o seu ninho, como se pudesse nascer
daí para uma outra vida, ou uma outra rosa.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 74 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
973

Retrato com véu

Um espaço branco que se atravessa nos olhos de
quem viaja por dentro da noite, com o tédio da chegada
preso a um desejo de eternidade. Alguém a espera,
ainda, cheio de uma certeza que se dissipa
no horizonte da manhã. Um traço de luz rodeia
o seu rosto; e logo se apaga, quando todas as convicções
a envolvem com o halo da sua estranheza. Os críticos
falaram de tudo o que habitou o seu sonho; e deram
uma interpretação exacta do que ela dá a ver
a quem se atravessa no seu caminho. O que não
dizem, porém, é o que se torna cada vez mais evidente,
à medida que o tempo irrompe pela frase
que os seus lábios fecharam. Ninguém ouviu
o murmúrio que nasceu desse breve silêncio; e
uma forma pesada como a nuvem do outono desceu
sobre ela, cobrindo-a com a teia de aranha
dos séculos antigos, ou como o véu que
não voltou a usar.


Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 68 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
934

Obras

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Comentários (5)

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Grande Poeta e romancista .... estes então das mulheres loucas é admirável.

Nalva
Nalva

Eu sou apaixonada pela poesia de Nuno Júdice, magnífico!

Francisca
Francisca

Bons almoços q partilhei com este senhor, eram reais banquetes.

kj
kj

alguem que diga as caracteristicas psicologicas dele

João Baptista
João Baptista

alguem pode analisar o tema e o assunto deste poema, também oxímoro e outros?