três sonetilhos
I
este infinito instante
em que vives agora
basta apenas que pisques
e pronto: é memória
inda não dás por isto
à sombra das batalhas
mas o tempo que torna
as crianças grisalhas
é este mesmo que colhe
teus momentos dispersos
e te confunde os olhos
para te dar, enfim,
da vida, alguns versos,
dos sonhos, seus espólios.
II
abre os olhos e vê:
o tempo já passou.
apenas em você
o instante não murchou.
este lugar não é
o de quando eras outro.
se aqui ainda vives,
talvez estejas morto.
nem houve no intervalo
de tempo dos teus olhos
qualquer sonho ou excesso...
mas se passaram anos.
e é como se tivesses
vivido em retrospecto.
III
como aceitar que a mão
que a minha mão enlaça
é só minha outra mão
que o coração disfarça?
a memória é um tecido
assim dissimulado
que tanto nos engana
mesmo estando rasgado
ah, que doce a mentira
que em mim se acalora
quase fisicamente...
mas o tecido é falho.
e as minhas mãos se esfriam
melancolicamente...
as nossas canções
não.
as nossas canções não tocam
nos bares
nem nas ruas
nem nas festas
nem nos carnavais.
e entanto
nas ruas
nos carnavais
nos bares
e nas festas
as nossas canções tocam em mim.
e eu nunca estou
nos carnavais
nem nas festas
nem nas ruas
nem nos bares.
não.
estou sempre nos lugares imateriais
aos quais me remetem
as nossas canções.
o que fica
o que pretendi deixar
para deixar-me consigo,
não poupa-me de levar
a mim pra morrer comigo.
posto no que agora sou,
não posso estar no que fiz.
só sombra se enraizou
da árvore sem raiz.
se mudo de opinião
à margem do tempo ido,
as letras não sabem: são.
mas, meu nome as tendo ungido,
resto, pra sempre, em meu não.
lembrado, e entanto, esquecido.
sibilo
em meu mosaico de escamas
guardo as partidas estrelas;
vê-as passar, se as amas,
que é inútil buscar retê-las.
aquele que me segura
ilude-se com um fantasma;
e o perfume que procura
reduz-se a mero miasma.
por isso, inda que eu te fira
o céu vazio, possessivo,
e teu sonho até prefira
um morto sol a um sol vivo,
não fujas à minha lira,
pois tanto eu dou quanto privo:
do rastro da luz que arquivo,
já um novo astro respira
– e outra vez tua vida gira.
poesia
a poesia é uma coroa de flores
sobre a miséria do amor
continuidade
a palavra escrita
nada eterniza
só fotografa
a eternidade
da palavra nunca dita
o que se escreve
é uma fração
que cada letra
delimita
a eternidade
é como fonte
fluindo as coisas
nunca ditas
não dirás
em teu tempo
tudo o que tens
a dizer
mas dirás
algo de flor
e tocados da flor
outros dirão por você
não cantarás
todo o amor
inteiramente
profundo
mas o lerão
e farão do amor
que não foi teu
de todo o mundo
e quanto mais a palavra
resgata do nunca dito
maiores
nos tornamos
em nossos corpos finitos
o símbolo
onde o poeta acaba
a poesia nasce
assim amamos as flores:
para compor jardins
do que nos escapa
lembrar é criar
nada se perde:
o que era azul
ficou em algum lugar
entre o amarelo
e o verde
o busco
– com sangue o busco –
na paleta,
e quando enfim o acho
o acho violeta
nada se perde, mas
nada se acessa, jamais
o azul que ali viaja
só se revê violeta,
roxo, talvez lilás
lembra
poucos meses de isolamento
comportam séculos de esquecimento
poucos meses de cinzas
caídas sobre a mesa
poucos meses de poeira cobrindo as prateleiras
poucos meses de fome
de penumbra
de ausência
de amor
subitamente toco as letras de um caderno:
coisas vivas de há poucos meses
acenam de algum lugar da eternidade
– quem escreveu estas coisas?
quem encarnou estas preocupações?
eu
não lembrava
havia vida aqui:
havia uma casa, um orquidário,
havia planos traçados,
o escarlate da vontade
sangrava pelos poros do papel
havia qualquer coisa que não fosse cinzas,
poeira, fome e penumbra,
como agora as minhas mãos parecem
implicar
havia uma carta a enviar, uma viagem a ser feita,
uma canção sempre a descobrir;
poemas embrionários,
sincera comoção pelos vencidos.
um cansaço distinto do exílio.
e para onde foi?
(pode um lírio desfazer-se
sem legar qualquer perfume?)
quanto desta repentina piedade será só culpa,
falta de cautela,
miragem?
e, no entanto, eu sei:
sou eu
tanta coisa minha
que eu nem lembro
de ter esquecido
eu não lembrava, céus,
eu não
lembrava
não é o esquecimento tão mais belo
quanto mais terrível
do que a morte?
rascunho
risco a palavra
no caderno de rascunhos
uma cerca de arame farpado
me separa do poema
o que ficou ali?
a vida que em mim fervia
interditou-se na tradução
e agora habita
o esquecimento
inacessível
porém jamais
inexistente
uma viva parte de mim
morrendo perpetuamente