Escritas

Lista de Poemas

poética

quando a lua
abocanha o sono
e a sensação noturna
paralisa as mãos,
percebe-se
que entre
escrever
sobre o peso do mundo
e escrever
sob o peso do mundo,
existe um precipício
de bem mais
que só preposição.
👁️ 751

desassossego

em memória de fernando pessoa

Debruçado no dia para o qual desperto,
   Fito o vazio com o olhar entreaberto,
Trajando-o de enleios da subjetividade
   Que medra no solo da sensibilidade
Da minha alma pequena que visa ser grande,
   Que em si mesma não cabe e em outras se expande.

   Debruçado na tarde que em mim se entreabriu,
Sinto-me tal qual Soares, quando este viu,
   Por detrás dos olhos de Fernando Pessoa,
A casaria ensolarada de Lisboa
   Resplandecer seus sonhos na manhã nascente,
Com a vaga nitidez de um aceno ardente.

Debruçado na noite que logo em mim chega,
   O cansaço dos olhos tristes versos lega.
Sinto-me, como do quadro da vida, o pó,
   Com meus sonhos todos consumados num só:
O sonho de morrer para não mais sonhar,
   Retribuir o aceno ao dia, e cessar.

   E na carne do meu coração sinto a dor
Que um dia pousou no poeta fingidor,
   No desassossego de Bernardo Soares,
Uma de suas almas, um de seus pesares,
   Um sonho desdobrado à janela da vida
Que ora sinto através da palavra incontida.
👁️ 561

poema

beija-me,
que há tantas noites durmo
com este beijo preso
na garganta.

despeja teus olhos
nos meus sedentos olhos,
que há tantos anos espero
te ver chegar.

lê-me,
que sou todos os poemas
que um dia te compus
sem que você soubesse.

ou nada.
tanto me basta que sejas.

pois as palavras estão já distantes,
e tudo o que resta agora é este instante
em que as batalhas se sublimam.
memórias são pequenas pétalas
que caem sobre o mesmo chão
que um dia nos viu passar.

mas que não seja falso
este horizonte a que me lanço,
nem seja sonho
este instante;

este tão real instante
em que outra vez,
ao longe, vejo, e me vês,
e, perto, me sussurras
que, talvez,
nem tudo seja
sem sentido.

👁️ 733

cosmologia

ver-te nua a compor constelações:

a água percorre teu cosmos febril,
a lâmpada te cede a estrela infante

se sobre a pele não se guarda o instante,
sob a pele se guarda o arrepio
👁️ 530

ambíguo

não tens resposta e não teces proposta
em poema. lamentas, mas lamentos
são cansativos e cansar desgosta.
já não te alevantas contra os momentos.

a poesia esvaziou-se toda.
a poesia não tem mais poesia.
na superfície pensas: "que se foda,
é isto", mas, de fato, sob a névoa fria

e espessa que paira sobre teus olhos
(e que te impele a escrever de tal modo,
alheio e amargurado, como agora)

cativas a luminescência entre espólios.
és vela opaca sobre um mundo todo.
e és o próprio pavio que te devora.
👁️ 549

[prosa] fragmento diurno-noturno

Segunda-feira fria, quatorze horas e quaisquer minutos que são sempre outros. É noite.
Vagarosamente permito que meus olhos se percam nas ondas dos lençóis que me cobrem as pernas cruzadas, concebendo, com a desatenção de meu olhar cansado, faces e gestos que nascem e morrem nos desenhos formados pelos vincos e sulcos dos tecidos velhos.
Nascem, porque me tocam a alma sensível que transita contente pelas choupanas cômodas da imaginação. Morrem, porque os intervalos sonoros das gotas que pingam nas calhas os desmancham com a realidade da chuva.
Segunda-feira fria, quaisquer horas e minutos que são os mesmos no pleno feriado que trespasso, sábado de agosto. O sangue corre quente nas veias impossíveis dos sonhos que derrubo nestes panos que observo. Quanta amizade pelas criaturas que penso plausíveis! Quanta ternura me causa o pássaro de renda alimentando o filho de asa rasgada! Quanta humanidade no sorriso irônico do finado ente que fui outrora, e quanta possibilidade!... Quanto esquecimento.
E quanta chuva.
Angústia. Pássaros e demais criaturas assassinas e assassinadas. A monotonia do embarque à consciência dolorosa, e o desembarque de seguida, e de novo, e de novo, através do calendário absurdo. Angústia e chuva.
E a chuva chora fria na acuidade com que sinto a realidade desamparada de tudo.
Chove, e desperto. E então encontro a realidade quebrada. E enfim sempre torno a sonhar.
Mas é noite. É sempre noite.
👁️ 574

quimera

Toda a memória é uma quimera vaga:
A cauda, incerta, ora alegre ora triste;
O corpo, saudade; e a cabeça inexiste,
E então, é a nossa a que emprestamos à praga.

E a quimera de incerteza, saudade,
E nós mesmos, a tudo observa e pasma,
Distorcendo o tempo como um fantasma,
E roendo a si mesma com ferocidade.

Mas como amansar tal monstro distinto,
Se a ela damos a cabeça – a razão –,
E ela, impiedosa e ingênua, persiste?

Ora! Basta não alimentar-lhe o instinto,
E a ela dar não a mente – mas emoção,
No mais cauteloso afeto que existe...
👁️ 534

a busca

Ao transeunte, estou na calçada.
Ao patrão, estou no balcão, à disposição.
À família, estou em alguma caixa ou álbum.
Aos meus poucos lírios idos, estou na memória.
À dália quotidiana, estou na geladeira.
Ao chapéu estou abaixo, e ao espelho estou defronte.

Dissolvo-me.

Mas escondida nestas intrincadas engrenagens,
que giram em penumbras sonolentas,
uma fagulha de consciência resiste.

Pequena fagulha que,
em eventuais intervalos de entressonho,
sobe-me à superfície das sensações
num resfôlego angustiado:

E eu?

Onde estou em mim?...

             Onde
                        estou

                  em
                             mim

                     ?
👁️ 589

Cigarro

É morte que rasteja entredente.
Através do fundo trago no pavio
Recebo-a aos pulmões, sem brio,
Para que se instaure lentamente.

Sem culpa a tenho, inconsequente
A preencher, de fumaça, o vazio
Aquecendo-me, de pigarro, o frio
E me desfazendo gradualmente...

Por não ser súbita, não causa dor.
Arde em doença como ardo em vida
Entorpecendo a garganta sem pudor.

Pavio que queima em despedida!
Esvaindo, em câncer, qualquer candor
Na jazida de sua cinza arrefecida...
👁️ 691

permanência

quando não é a música,
de que se desenrolam
traços de outros momentos
que se infiltram na presente verdade,
quando não é a música
é a cidade.

quando não é a cidade,
com seus espelhos e lugares e sombras
de dentro dos quais salta à luz
tudo o que há de mais secreto
e tudo o que há de açoite,
quando não é a cidade
é a noite.

e quando não é a noite,
a noite, com suas estrelas e taquicardia,
noite que guia a angustiada mão
até as linhas tortuosas de uma vigésima tentativa
de exprimir em rimas mortas
uma coisa que é viva,

sim, a noite, onde boia a lua
com seu semblante tristonho,
nas águas escuras de seu esmo...
quando não é a noite
é o sonho.
sou eu mesmo.

quando não é isto,
é aquilo,
e se por acaso não é aquilo,
então é outra coisa.

mas não há nunca um dia sequer
em que tudo falhe
em te trazer de volta a mim
– as vidas, as hipóteses, os espólios –,
para que eu outra vez me renda
e morra, contritamente,
no fundo dos teus olhos.
👁️ 292

Comentários (4)

Iniciar sessão ToPostComment
sthefany
sthefany
2020-05-22

seus poemas são muito bem escritos e belíssimos!

rosalinapoetisa
rosalinapoetisa
2020-04-28

Parabéns por tão bela escrita poética, tens muito talento com as palavras. Abraços

rosalinapoetisa
rosalinapoetisa
2020-04-28

Muito obrigada pela apreciação de meu poema, sinto-me honrada. Abraços.

biancardi
biancardi
2020-03-20

Belos textos.