Lista de Poemas
MADRIGAL
Ah, pobre poeta
que a turba, indiscreta,
a rir, lisonjeia!...
Não passa de um homem
que mágoas consomem
e as grafa na areia...
Em vez de honrarias,
mercês, regalias,
que almeja, no fundo?
O "affair" necessário:
ouvir, solitário,
o ego profundo...
(Do livro "Estado de Espírito", de Sergio de Sersank)
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O GRITO DA TERRA
Ahinsa!
Desde as eras primitivas
a Terra se nutre do fluido cósmico
que abre-lhe entranhas,
percorre-lhe inteira.
Na etérea poeira
de luz das estrelas
o fluido lhe vem.
Inunda-a de vida
esse mágico bem.
O sangue dos seres
que surgem e passam
Gaia o transfunde
noutros que, em ciclo
ascendente, sustém.
O espírito de Gaia
canta na Natureza
a música do Infinito.
Em culto à beleza,
exalta essa Fonte
da Vida que a anima.
e que ela sublima
ao multiplicá-la
no espaço irrestrito.
Mas traz no seu canto
uma ária bem triste.
Sofre os excessos
dos filhos ingratos.
Está no limite.
Dá mostras de seus
sucessivos maus tratos.
Lamentavelmente,
comovem a poucos,
por certo, aos melhores
os duros apelos que emite.
Gaia está farta de sangue,
farta dos homens, talvez,
porque não cessa a ganância,
porque não cessa a violência,
esses cancros resultantes
da insensatez.
Ciclônico éolo a bramir,
convulsiona o oceano,
rebenta do solo, feroz.
Sofrem-lhe muitos a fúria.
Ouvem-lhe muitos a voz.
Há os que riem e bebem e comem,
com as mãos manchadas de sangue.
Sabem que a Terra prescinde do homem.
Nenhuma voz os confrange.
(Da coletânea "ESTADO DE ESPÍRITO")
AHINSA! (En Esperanto)
Serĝjo de Sersank
De la primitivaj tempoj -
kia profunda mister'! -
el kosma emanaĵo,
kiu plene ĉirkaŭas
kaj ĝin trapenetras,
nutriĝas la Ter'.
Simile al l'etera pulvo,
devenas tiu ĉi fluido
el la senfina stelar'
kaj ĝi alportas la vivon -
miraklo ja sen kompar'.
La sango de ĉiu estaĵo,
tuj naskita jam pasanta,
transfuzas Gaja en aliaj,
tio ĉi en ciklo kreskanta.
Tial, la animo de Gaja
aŭdigas en la Naturo
la muzikon de l' Senlim'.
Tiele, ŝi laŭdas la dian belecon
de l' Vivofonto kiu vigligas ŝin
kaj kiu sublimigas ŝî per disdonad'
en ritmo intensa,
eble sen fin'.
Tamen, la kanto de Gaia
nune fariĝas ia tristega ario.
Pro tio ke agresojn de nedankaj filoj
jam multe suferas,
nun ŝi kantadas en frua agonio.
Ve, bedaŭrinde, nur kelkajn homojn
la plibonajn, certe, kortuŝas la petoj,
kiujn, averte, elĵetadas ŝi .
Jam Gaja satiĝis je sango.
Eble je la homoj ankaŭ satiĝas,
ĉar ne ĉesiĝas la homa perforto,
eĉ la homa ambici' ne ĉesiĝas.
Ho, furnaj ŝankroj de l' homa nesci'!
Ciklona Eolo, blekante feroca,
diskrevas el la subgrundo,
agitas la maron, subite.
Multaj suferas sian furozecon,
multaj aŭdiĝas sian voĉon, aflikte.
Ja multaj, malgraŭe,
ridegas kaj drinkas kaj manĝas,
je sango malpurajn havante la manojn .
Tiuj sciadas: la Ter' sin aranĝas:
neniel bezonas la homojn.
Tamen, nenia voĉ' ilin tuŝas.
Nenia far' ilin ŝanĝas.
(El la poemaro "SPIRITOSTATO")
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APOCALIPSE (O Poema Indesejável)
"... E vi um novo céu e uma nova terra. Porque já o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existia."(Apocalipse, XXI : 1)
... Ainda há pouco ouviram
(os que se debatiam, agonizantes, em meio aos escombros),
grande explosão nas nuvens.
Depois, a sucessão interminável
De estrépitos menoresno solo em estertores.
Da mais temida tempestade
as derradeiras luzes
vergastam, vigorosamente,
a crosta planetária.
Exibem para os sóis na Imensidade
o horror do grande ocaso,
o imenso caos.
Por fim, instaura-se, lenta,
a mais negra e pesada das noites.
Frio terrível.
Estranhos odores
alastram-se aos uivos do vento da morte.
Assim,
a interstícios,
domina o silêncio.
Absoluto.
Não mais o pulsar do tempo.
Nem uma luz peregrina
no imenso e profundo abismo
que os mais aptos
filhos da vida
chamavam de Terra...
22 de abril de 2012 (DIA MUNDIAL DA TERRA)
(Da coletânea "Estado de Espírito")
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APONTAMENTO
(Ouvindo cantar o andarilho em certa noite vazia.)
"As cousas não
têm significação: têm existência.
As cousas são o
único sentido oculto das cousas."
(Fernando Pessoa)
As cousas com o tempo
tornam-se elas mesmas:
perdem essa aura
de importância que lhes pomos -
essa capa de magia.
As cousas, todas, sistêmicas,
concretas, subjetivas,
vagas, difusas, confusas,
distantes, amorfas, vivas -
perdem, todas, com o tempo,
força e peso e forma
e brilho.
A noite inextrincável que as revolve, imensa
e soberana do mais ínfimo ruído,
a noite, unicamente -
coisa estranha -
faz sentido.
(Poema de Sergio de Sersank . http://sersank.blogspot.com)
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UM HOMEM MORRE DE FRIO
"E, respondendo o Rei, lhes dirá: Em verdade vos digo
que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a Mim o fizestes."
Mateus 25:40
que quando o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a Mim o fizestes."
Mateus 25:40
Nos braços de Morfeu queda a cidade.
Gélida avança a noite sob o vento
Que zune açoites, bravio.
Por leito e barricada andrajos tendo,
Num canto, ao pé de arranha-céu imenso,
Um homem morre de frio...
Agonizando, ali, talvez delire,
Vendo os pedestres últimos, em busca
Do leito morno, macio...
Talvez, sinta-se um deles, por momentos...
Um homem desses, livres das algemas
Do destino. Ah, desvario!...
Morre indigente. Já não mais lhe ocorrem
Reminiscências de melhores dias.
Não tem mais traços de brio.
Distantes sons de uma boate em festa
A custo põe-se a ouvir. Perdem-se, agora,
no seu imenso vazio...
Nem todos dormem. Ornam-se de luzes
Os altos edifícios. E eis, um carro
Pára junto ao meio-fio.
Traz de Mammon uns súditos restantes
Que, indiferentes, tiritando e rindo,
Vão-se com seu vozerio...
Ensaia erguer-se; embalde, embalde tenta...
Thanatos já, movendo as longas asas,
O envolve, terno e sombrio.
À volta, entre as paredes, que ironia:
Há tantos indivíduos que se abraçam
E tanto leito vazio!
Bem cedo hão de encontrar-lhe o corpo, inerte.
Hão de exprobrar-se, por negar-lhe auxílio,
num gesto inóquo, tardio...
Talvez, alma remida, ao sol do Além planando,
Não mais proscrita, logo exulte e louve
O Averno da crosta, frio...
"- Coitado!"... "- Oh, que infeliz!"... "- Quem era ele?""
- Um ébrio, com certeza". "- Um andarilho."
"- Um réu, talvez, arredio"...
Descerrem seus portais, guardiões do Inferno!
Estendam o seu fogo ao mundo infrene!
Um homem morre de frio...
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O VERBO
"Quod non mortalia pectora coges, auri sacra fames!"
Virgílio (Eneida, 3. 56-57)*
Virgílio (Eneida, 3. 56-57)*
Esfera azul, joia imensa,
solitária Terra-Mar,
até quando irás girar?
Um verme voraz te permeia
e a febre que desencadeia
está por te devorar.
Circula nas veias do homem,
mina-lhe os campos da paz.
O verbo vil da avareza
cria esse verme voraz.
Quem poderá salvar-nos
desse mal
que nos infesta?
Ah, ânsia de ter e mais ter -
febre funesta -
que apenas no homem
se manifesta!...
(Da coletânea "Estado de Espírito", de Sersank)
* Execrável fome de ouro, a que desgraças conduzes os peitos mortais!
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BILHETE PARA NÃO SER ENTREGUE
Amor que llegas tarde,
tráeme al menos la paz:
Amor de atardecer, ¿por qué extraviado
camino llegas a mi soledad?
Dulce María Loynaz ( Cuba)
LA BALADA DEL AMOR TARDÍO
Os dias passam depressa,
bem mais depressa. É ruim,
pois soube que tens saudade,
que perguntaste por mim...
Eu temo: depressa os dias,
meus dias, chegam ao fim.
Será que hei de te ver-te ainda?
Ah, minha esperança infinda!...
Meu doce amor!... Ah, se, enfim,
tiver-te à frente, direi
que desde sempre te amei,
que sempre hei de amar-te, assim,
:mesmo que vivas distante,
mesmo que esqueças de mim...
(Da coletânea "Estado de Espírito")
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A FOME AFUGENTA O SONO
Esse que traz na carne,
da luta pelo pão
as fundas cicatrizes,
não sabe dessas crises
de novo anunciadas
que afetam-lhe, de muito:
as crises inventadas.
Quer mais que essa liberdade
de dormir, de encher a cara,
de ir e vir, sem compromisso,
de cantar uma canção.
Quer mais que esse tosco circo
em que se ri, sem razão.
Mas, nada diz. Não o comove
ver ao alto embandeiradas
as esperanças do povo
em épocas de eleição.
Suporta, pois, em silêncio,
mágoas nunca mitigadas.
E segue. É trabalhador.
Que outra coisa, ele faria?
Ausculta, assim, sua dor
na dor furiosa dos martelos
e foices do dia-a-dia.
Esse que traz na carne,
sem honra, tais cicatrizes,
não sabe falar de crises.
Se soubesse, gritaria.
Visite o blog "Estado de Espírito"
http://sersank.blogspot.com
da luta pelo pão
as fundas cicatrizes,
não sabe dessas crises
de novo anunciadas
que afetam-lhe, de muito:
as crises inventadas.
Quer mais que essa liberdade
de dormir, de encher a cara,
de ir e vir, sem compromisso,
de cantar uma canção.
Quer mais que esse tosco circo
em que se ri, sem razão.
Mas, nada diz. Não o comove
ver ao alto embandeiradas
as esperanças do povo
em épocas de eleição.
Suporta, pois, em silêncio,
mágoas nunca mitigadas.
E segue. É trabalhador.
Que outra coisa, ele faria?
Ausculta, assim, sua dor
na dor furiosa dos martelos
e foices do dia-a-dia.
Esse que traz na carne,
sem honra, tais cicatrizes,
não sabe falar de crises.
Se soubesse, gritaria.
(Da coletânea "Estado de Espírito", de Sergio de Sersank)
Visite o blog "Estado de Espírito"
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GRAVURA
(Lembrança de um antigo prato de porcelana chinês, ilustrado)
Ecos de antigas tragédias
presos nos ermos penhascos,
na melodia dos cascos,
a noite os cala, encantada....
Na melodia dos cascos,
o carro outros sonhos leva.
Outras mãos prendem as rédeas.
E a lua ainda banha a estrada...
(Da coletânea "Estado de Espírito")
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AS NOITES ACABAM NUM DIA
Em vez de estrelas, recontros
e sonhos, a noite escura
teve imagens de outras tantas
dissipadas na aventura.
Reixas de esquinas e becos.
Sussurros. Risadas. Brados.
Tredos e turvos olhares.
Delitos dissimulados.
Pesando-lhe aos ombros,
um gênio maldito
gritara-lhe: - Volta!
Inútil seu grito.
Longe dos lumes dos lupanares,
sabia ser tarde. Recuar, estultícia...
Ao som dos seus passos de fera exaurida
ladravam os cães, evocando a polícia...
Ao vento emergiram, informes, calados,
extintos afetos de um tempo esquecido.
Ao vento vagaram, despedaçados,
excertos de dramas, paixões sem sentido.
De roupa surrada e soturno semblante,
lembrando avantesma do além foragida,
seguiu sem voltar-se, um único instante.
Qual soterrado que emerge do túnel,
banhou-se do sol que escarlate surgia.
Novo rumo no horizonte,
por mais árduo, seguiria...
(Da coletânea "Estado de Espírito")
"A maior revolução de nossos tempos é a descoberta
de que, ao mudar as atitudes de suas mentes, os seres humanos
podem mudar os aspectos externos de suas vidas."
William James
(Filósofo americano, fundador da escola pragmática)
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Dados biográficos
SERGIO DE SERSANK
Autor do Livro: Estado de Espírito
Gênero: Poesia
Data de nascimento: 03/09/1953
Naturalidade: Florestópolis – PR
Endereço:
Rua James Reeberg, 243
- Jardim Real
86025-060 – Londrina (PR)
Formação: Tecnólogo em Administração Pública - Área Legislativa - (Unisul – SC)
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