Escritas

Lista de Poemas

SOBRE A ARTE DE VIVER



Que inveja do jardineiro!
Quão terna é a vida que tem!
Dia a dia, o ano inteiro,
nunca uma queixa de alguém.

Velhinho, já sem saúde,
sempre com solicitude,
dos seus canteiros de flores
ao nosso encontro ele vem.

Tem lá consigo suas dores
quem é que, enfim, não as tem?
Todavia, por mais graves,
guarda-as sob sete chaves,
não as revela a ninguém.

Ele sabe: a vida é breve
e é só o amor que a sustém.
Não se escraviza ao dinheiro
e dos vícios se abstém.

Assim, no seu passo leve,
me vai mostrar um canteiro.
Inveja-me o jardineiro.
Quão terna é a vida que tem!

(Da coletânea "Estado de Espírito" de Sergio de Sersank)







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ROGATIVA



Senhor Jesus,

fonte de amor, verdade e vida,
Por dádivas me deste uma senda a seguir
E a cruz menor que me compete conduzir
Adiante, por mais íngreme a subida.

Devo olhar para frente, lembrar-Te, ao cair,
Sofrer sem murmurar. Sob as farpas da lida
Calar-me e persistir, manter a fronte erguida.
Nada me turve os horizontes do porvir!

Preciso humildemente devotar-me ao bem .
Sentir-me agraciado ao ajudar alguém
E ver somente irmãos, jamais um inimigo...

Aprimorar-me - seja o lema dos meus dias.
E por mais nada eu troque as doces alegrias
De estar somado aos últimos que tens Contigo!...


(Do Opúsculo "Oásis de Luz", de Sersank)
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CANTIGA DO AMOR EFÊMERO



Um crime, se me permites,
leitor, revelar-te-ei:
a mais linda das mulheres
eu, insensato, magoei.

Por breves, diáfanos dias,
foi-me ela a Sherazade
que, em sonhos de mil e uma noites
corporifiquei.
Amou-me. Também a amei.

Mas sem desculpa plausível,
fleumático, inacessível,
ontem a noite, (que noite!)
assim, sem mais e sem menos,
a diva, a lívida Vênus,
eu para sempre deixei.

Por certo que chora, ela,
como estrela de novela,
no cenário em que atuei.
O "script" não trazia
tão abrupta cisão.

O meu velho coração
já, por fim, petrificou-se,
desiludiu-se, não sei...

Já, por fim, pesa-me, imensa,
essa aonírica noite
na qual, mesmo à luz dos dias,
para sempre me embrenhei...

(Da coletânea "Estado de Espírito", de Sersank)
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OS POEMAS


Quanto durem, sejam únicos,
impregnados da vida
que enlaça nos seus arcanos
os seres todos, viajores
do vasto campo estelar.

Lembrem cantigas de berço.
Resgatem náufragos sonhos
de frascos vindos do mar.

Duros como as pedras que se douram
ao sol na extensão das paisagens;
suaves como os lampejos
dos astros sobre as folhagens,
sejam, mas não banais.

Densos como as pardacentas tardes
de inverno em remotos cais,
sejam, mas desiguais...

Ressoem na corneta solitária
ao pé da sepultura onde o soldado
é agora nada mais que um capacete
fazendo sombra ao fuzil.

Rompam as cercas de arame farpado
que o gênio da guerra expandiu.

Assim, um valha por mil.
E assim, profundos, traduzam
a voz do pássaro alvissareiro.
Desvendem a mística da lua imensa e calma
na via estreita do desfiladeiro.

Renasçam dos tsunamis,
sibilem na aragem
que afaga os trigais.

Irrompam do rochedo das palavras
como as águas,
naturais.

Únicos, quanto durem.
Sejam
como urzes
que vicejam
em meio a pedras e
espinhos
e, como vindos do Oleiro
que amolda a terra, a girar,
dêem sentido à canção dos caminhos.

Poemas de caminhar...

Sergio de Sersank (Da coletânea "Estado de Espírito")

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DE VOVÔ PARA OS NETINHOS




No princípio, apenas Deus,
nada mais, mais nada havia.
Na eternidade do espaço
o tempo não transcorria.
De nada valia o espaço.
De nada o tempo valia.

Deus - o Supremo Senhor
do tempo - todo esse espaço
desde sempre percorria.
Sonhava um novo universo
que outro antes deste, por certo,
pleno de luzes teria.

A vida - esse dom sublime -
por Ele e n'Ele vibrava,
dava ao Nada algum sentido.
Fazia lembrar um quadro
distante das mãos do artista
e ainda descolorido.

Pois que a noite dominava,
até que o bom Deus com arte,
amor e sabedoria,
fez eclodir de entre as trevas
esplêndido sol, gigante,
ao qual chamou "Luz do dia".

Surgiu, assim, a matéria,
como a lava incandescente
no interior de um vulcão.
Estrondo intenso deu corda
ao tempo - o relógio eterno.
E o espaço ocupou-se, então.

Novas estrelas e mundos
e, dentre eles, o nosso
recebem a luz da vida.
Pródiga, a natureza
faz da Terra a jóia ímpar
que Deus, o Ourives, lapida.

E sem que saibamos como,
nem para que, nem por que
chegamos e d'onde viemos,
ao escrever nossa história,
outros pequeninos deuses
orgulhosos nos fizemos.

O belo planeta azul
é o lar-escola que herdamos.
Malgrado sofra os reveses
do homem dominador,
devemos confiar, crianças,
que nos governa o Senhor.


(Da coletânea de Sergio de Sersank)

Visite o blog "Estado de Espírito" - http://sersank.blogspot.com








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O POEMA DA INQUIETAÇÃO



O que é a vida de um homem
nesta imensa e bela Argos
que os potentados celestes
puseram a navegar?

Que haverá além das ilhas
e terras, que não sabemos?
Perde-se o mar no horizonte.
Onde nos leva esta nau?

Quem há de ler nossa história?
São apenas arabescos
em livros inacabados,
nos porões do Panteão.

Giram nas volutas da galáxia,
aos milhões, mundos e sóis.
Perdem-se pra sempre nessas vagas.
Então, que será de nós?

(Da coletânea "Estado de Espírito")
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