Lista de Poemas
VISITA A MASMORRA
Para ver o que o homem tinha
Quando se punha face a face
Com sua alma mesquinha
Eu vi a ira nas pedras
Vi versos em sangue escritos
Vi vingança, desafetos
Escárnio, ódio e estrupício
Vi mágoas em alto relevo
Vi cicatrizes e feridas
Vi sombras de pesadelos
Amargos restos de vida
Eu vi a tristeza e a má sorte
Em dentes e unhas esculpidas
Eu vi a sombra da morte
Oculta em faces fingidas
Vi planos aterrorizantes
Angústia e mágoa explosiva
Vi a tristeza pulsante
Vi dor, malícia e intriga
Vi a vaidade desfeita
Vi arrogantes oprimidos
Vi soberbos na sarjeta
Eu vi valentes vencidos
Eu vi a miséria dos homens
A tristeza de arrependidos
Eu vi pensamentos profanos
Vi sonhos desvanecidos
Sai da masmorra em tormenta
Mui triste e apavorado
Por ver nas paredes cinzentas
O meu coração retratado
AVE CATIVA
é o que afirma um adágio popular,
expressa insensatez do ser humano
que, egocêntrico, a tudo quer domar.
Nas mãos do cativeiro o pássaro é mudo,
é triste, arrepiado e sem cantar.
Seu gorjear é pranto seco, absoluto,
pois lágrimas não possui para chorar.
Melhor é mãos vazias e ter à vista,
em graça, em alegria e em esplendor,
contida em doces amarras da conquista
aquela a quem tu chamas: meu amor.
A quem se ama, prende-se com carinho
e é por ternura que se deve cativar.
Então, se dando por inteira, em desatino,
a presa do amor não quer voar.
VOZES AO VENTO
Qual água em cascata do peito a jorrar
Da injustiça e descaso transborda o desgosto
É a voz dos que sofrem mas não ousam falar
Chora o poeta seus versos tristonhos
Sorrisos e prantos, do amor a ilusão
Fantasias desfeitas ou mantidas em sonhos
É o "glamour" da ventura, loucura e paixão
Canta o poeta a alegria do povo
Exalta em versos, da vida o prazer
Esquece a miséria, é Copa de novo
Deixa em sonhos e quimeras sua gente viver
DIA INTERNACIONAL DA MULHER
A agressão física é normalmente o culminar de muitas outras agressões inconcebíveis a um viver digno. As mulheres são ainda, em muitos lares, vetadas do seu direito de ir e vir, do seu direito de expressão, de sonhar com uma carreira profissional, de visitar e ser visitada, de participar da definição orçamentária da família, principalmente aquelas que se dedicam integralmente às atividades domésticas.
Vivemos ainda numa sociedade hipócrita, onde muitas mães ainda ensinam as filhas para suportarem as afrontas e agressões domésticas para que o casamento seja mantido. Mas, que casamento é este que se quer manter? Para agradar a quem, se a parte mais importante dele está sendo ferida e desrespeitada? Dizem que o tempo cura todos os males, mas há alguns que a passividade do tempo só os transforma em moléstias crônicas.
Quem perde o respeito próprio perde a alegria da vida. Os sonhos de uma mulher não podem se resumir à vida dos filhos. Elas têm o direito de sonhar e viver realizações que não podem ser trocadas pela imagem obtusa de uma aparente estabilidade conjugal, caracterizada pelo ostracismo e submissão.
É preciso mudar a nossa cultura. Ensinarmos as nossas filhas que a dignidade vale mais que um casamento; que onde não há respeito pode existir tara e até paixão, mas nunca o amor. É preciso mostrar-mos que o trabalho externo ao lar é doloroso aos filhos, mas é o primeiro passo para a manutenção da dignidade.
É preciso que amemos e apoiemos as nossas mães, irmãs e filhas, não apenas em palavras, mas em gestos e atitudes, quando sofrem por buscarem para si o respeito acima da aparência, bem como o direito de serem livres e felizes.
A todas as mulheres neste dia, o meu respeito, carinho e admiração. Que o vosso sorriso, e não as lágrimas, seja sempre a expressão da vossa ternura. Que nosso país amanhã, lhes dê a justiça que lhes nega hoje.
Parabéns! Parabéns e parabéns!
A COTA DO DIA
Não era um pedido qualquer, deste que se houve todo dia. Era um clamor sincero, com expressão e sentimento, daqueles que fazem doer a alma de quem ouve.
Virei-me. Era uma garotinha ruiva , cabelos anelados, olhos cor de mel, que brilhavam no reflexo da luz sobre as lágrimas que brotavam nos seus olhos.
- Não chore menina! Você quer um prato de sopa?
- Quero sim, mas não posso comer aqui. O dono da venda não deixa a gente comer. Depois ele briga com a gente. Eu quero mesmo é um real.
- Vai deixar sim! Quem está pagando sou eu. Ora essa! Garçom: traga-me um prato de sopa de frango aqui para a garotinha.
Meio a contragosto, o garçom trouxe a sopa. Já era tarde, umas vinte e trinta horas.
- Quantos anos você tem? Perguntei, quebrando o gelo, enquanto a menina se afogava na sopa.
- Acho que vou fazer seis em setembro, minha mãe é quem disse.
- Por que ainda não foi para casa? Onde você mora?
- Moro na estrutural. Ainda não fui prá casa porque só fiz "sete real". Está dentro do short, senão os garotos tomam.
- Ora, se fez sete reais, por que não foi embora?
Esta hora já é perigoso e ninguém vai te dar mais nada.
- É por isso que eu falei com o senhor. Eu só posso
ir para casa depois que fizer "dez real". Ontem eu só fiz "seis real" e meu pai não deixou eu entrar em casa. Dormi do lado de fora na porta.
- Não é possível! E sua mãe não fez nada?
- Moço. Meu pai é muito brabo. Ele bebe muito e
quando minha mãe fala alguma coisa ele esmurra e chuta ela. Ela está barriguda e doente.
Perdi o apetite. Paguei a conta, dei o troco para a menina e fui para casa revoltado. Não só com o acontecido mas, principalmente, por saber que amanhã ela voltaria e provavelmente com a exigência de uma cota maior.
A CONQUISTA
Ou por troféu que se premia a um vencedor
A vejo apenas como a razão maior já vista
Pra um coração se desmanchar de amor
Se por lauréus fosse, assim, minha corrida
E falsa a busca pra conquistar seu coração
Vazia e triste seria enfim a minha vida
Sem seu amor, só amargura e solidão
Que importa se conquistei ou fui conquistado
Na sedução não há derrotado ou vencedor
É uma batalha onde o orgulho é derrotado
Pra que almas enfim se unam em pleno amor
TEUS OLHOS
Da divina arte, o maior fulgor.
Mais que as esmeraldas rubis e turquesas
São pureza, encanto, brilho e esplendor!
Teu olhar fascina, encanta, arrebata
Rouba-me a calma, tira-me a razão
Sua beleza e charme são cordéis e amarras
Que me prendem a alma e o coração
Estes olhos mágicos, fórmula da loucura
São insanidade, perda do juízo
Mas, trazem a minh'alma paz e tal doçura,
Tiram-me da mágoa para o paraíso
Assim, diante deles eu já não sou mais nada
Sou eterno súdito desta admiração
Pronto a seguir-te em qualquer jornada
Que me prenda a ti minha fascinação
MENINA MOÇA
Ora é pimenta, ora é bonina.
Ora é afoita, ora é insegura.
Ora é pirraça, ora é ternura.
Ora é madura e ora é infante.
Ora é calada, ora muito falante.
Ora é muito pacata e ora é pura energia.
Mas sempre da casa, a maior alegria.
FLORES DE ESTAÇÕES
Querendo ou não acreditar
Tal qual foi jamais será
Triste é o espelho do viver
Tal qual amou não amará mais
O amor em mágoas se desfaz
Só as cicatrizes vão viver
Em sonho e amor vida se faz
Mas no amanhã já não é mais
Nuvens de quimeras e ilusões
Mas tão volúvel é o coração
Logo se entrega a outra paixão
Flores e perfumes de estações

O JOIO DA JOIA
Descalços e nus ante o espelho
Nada de bom a os acompanhar
Guerras, flagelos e mil pesadelos
É só o que sabem, hoje cultivar
De planos e sonhos, vazia é a vida
Nada de bom conseguem mirar
Exaltam o jasmim mas plantam urtiga
O joio da maldade impregna o ar
Valores trocados, maldita existência
Acabam com a terra, joia milenar
Mesmo não tendo qualquer referência
De um igual paraíso, para se habitar

Comentários (2)
Obrigado Eusébio, espero vê-lo cheio de inspirações felizes.
Que bom ler teus poemas meu amigo estive andando por ai a procura de inspiração e voltei cheio de desejos e para começar quiz ler algo novo algo que me encante assim como teus poemas um abraço
Sonhei com um mundo livre e justo. Acreditei que as oportunidades eram uma questão de esforço e que o sucesso só dependia da capacidade e do desprendimento. Pensei que os homens bons transformariam o mundo e que as injustiças seriam aniquiladas pela educação e a sensatez
Infelizmente, a maturidade revelou-me que os pobres são mais pobres de espírito que de oportunidades. Que os ricos, pra se fazerem ricos, já venderam a alma. Que as oportunidades não surgem, são compradas às escuras. Que a decência, quase sempre, sucumbe à propina e ao favorecimento. Que os idealistas se vendem ao poder. Que os justos não subsistem no trono. Que a caridade quase sempre não é cega. Que a violência e a miséria são orquestradas do trono. Que a abnegação tem a infâmia como troco. Que as pessoas amam mais imundícia que a dignidade. Que os insanos são mais aplaudidos que os sensatos. Que a morte é triste, mas sem ela os homens seriam eternos escravos de seus páreos.
Hoje eu luto, não mais para reformar o mundo, mas para não ser sucumbido por ele. Sofro para provar que nem toda dignidade está à venda. Combato a indecência e imoralidade, mesmo sabendo que perderei a batalha. Quero morrer com orgulho, não de ter vencido a guerra, mas de ter lutado sempre em defesa do que é correto. Não quero ser lembrado por ter mudado o mundo, mas apenas por não ter feito coro com aqueles que o tornam fétido.
Algum dia, espero que ainda longe, esta será apenas mais uma página esquecida e provavelmente apagada por falta de manutenção ou custeio. Todavia, antes que este dia chegue, quero fazer transbordar nela as inquietudes da minha alma; fazer soar os clarins da vida, sem ter a presunção de ser o dono da verdade, mas convicto de que proclamei meus erros como alerta aos jovens e chamei à reflexão os pensadores em busca de uma vida mais digna e próspera para as gerações vindouras.
Português
English
Español