Lista de Poemas
QUEM SOU EU
Sou alma além da matéria
Que ao corpo em dor esvazia
Não sou o vento do Norte,
Apenas alma que a sorte
Abrasa em sol de meio-dia
Não sou pobreza nem fome,
Apenas a dor de um homem
Que ousou amar algum dia
Não sou do ódio uma chama
Sou só o poeta que clama
E de seu amor faz poesia
Não sou mentira ou verdade,
Sou só lembraça e saudade
Que eternizam a nostalgia
Não sou do olhar a tristeza,
Sou o contemplar da beleza
Que o teu olhar irradia
Não sou mais desesperança,
Sou um sorriso de criança
E em teu regaço, a alegria
DEIXA-ME CHORAR
Minh'alma almeja suas mágoas dissipar
E não inquiras as angustias que ela sente,
são turvas águas que anseiam ir ao mar
Deixa-me chorar, te peço, os desalentos,
os devaneios, as loucuras e a solidão
Trazer ao peito adormecidos sentimentos,
regar em lagrimas meu espírito em sequidão
Deixa-me chorar, te peço, sem alarido!
Nenhuma compaixão quero despertar
Sufoco e silencio o meu gemido
Somente as lágrimas não consigo segurar
Deixa-me chorar, te peço, não me seques o rosto!
Que adianta minhas mazelas ocultar?
Se lá no íntimo o meu ser morre em desgosto
e o meu pranto é a tristeza a suspirar?
Deixa-me chorar, te peço, pras desventuras
lá do âmago de minh'alma eu desvendar
Buscar vestígios de tristezas e amarguras
pra nas recamaras do silencio as apagar
Deixa-me chorar, te peço, pois só em meu pranto
posso a doçura da vida reencontrar
Lavando em lágrimas de minha vida os desencantos,
pra em sorrisos o meu viver recomeçar
A LÓGICA E O AMOR
Uma vez, impelido pela lógica matemática que me é peculiar, perguntei a um amigo se a mãe dele não estava ruim da cabeça, pois não tinha renda e mesmo assim, aos 65 anos, pegou duas crianças recém-nascidas e abandonadas para criar?
Ele me respondeu com os olhos rasos d'água:
- Você tem toda a razão, mas se minha mãe não fosse assim eu teria morrido na lixeira onde me abandonaram, há 40 anos atrás, com apenas um dia de vida!
O NASCER DA POESIA
(Samuel da Mata)
A poesia nasce em mim nos dias tristes
Em que a névoa da ilusão se tinge em dor
E a minha alma faz florir em mil matizes
Buscar nos céus explicação pra o desamor
Nasce também na luz da cadente estrela
Que em novos olhos uma paixão faz florescer
E um céu de mágoas afugenta ao recebe-la
E dá à vida uma nova razão para se viver
Nasce a poesia no sorriso da criança
Que alheia às mazelas, apregoa amor
Ali renasce da humanidade a esperança
Que já há muito aos adultos abandonou

PRAIA DAS OSTRAS
Pra sermos apenas resíduos da história
Onde os mais belos castelos edificados
Já serão meras catacumbas do passado
Por mais bela que seja nossa aparência
Somos apenas moluscos na existência
E quando a areia da ampulheta se esgota
é que se sabe quem deu pérolas ou gosma
Quão mais vultosos sejam os bens deixados
Mais mostram o quanto esteve enganado
Quem optou por viver para si apenas
Vazio e nu chegará por fim na eternidade
Sem no seu bojo portar a fé e a caridade
Apenas lixo de sua arrogância efêmera
INTENSIDADE
Com mais profundidade que o teu olhar,
Com mais intensidade que a tua paixão,
Com mais carinho que o teu mimar,
E com mais fervor que toda sua devoção.
Mas, desprezar-te-ei,
Na velocidade do teu menosprezo,
Na cadência do teu descompasso,
Na proporção da sua frieza,
E magnitude do teu descaso.
E assim, abandonar-te-ei,
Tão longe que a decepção eu esqueça,
Tão ardente que me cauterize as chagas ,
Tão amargo que não mais a reconheça,
E tão sincero que me transpasse a alma.
MÃE ROSEIRA
delicada e serena no seu jeito de ser
Mas se vista de perto, te digo: és roseira
em amor e afeto, abnegado viver
Os perfumes e as flores que enfeitam o jardim
são as tuas carícias dedicadas a mim
O ciúme o cuidado com que viver a me olhar
são agudos espinhos o jardim a guardar
Os botões que florescem com inefável vigor
são os rebentos do ventre, frutos do teu amor
Os insetos e pássaros na roseira a pousar
são amigos cativos de sua graça sem par
Cabelos assanhados em meio a aflição
são pétalas que voam sob o vento da dor
Teus olhos cansados por mais um serão
são folhas que murcham no abrasar do calor
As mudas tiradas, pondo o tronco a sangrar,
são teus filhos e filhas que pra longe se vão
E aqueles que partem para não mais voltar
são seus brotos tosados a tesoura e facão
Raízes profundas te fazem resistir
às intempéries que te vem açoitar,
Mas ao raiar da aurora tu já estás a sorrir
em perfume e em flores, o jardim alegrar
A ORAÇÃO DE JÓ
Não de bens e de filhos, pois destes já nasci pobre
Livra-me das chagas n'alma, eternos aguilhões da dor
Dá-me candura e pureza, condições básicas do amor
Tira-me a amargura da abnegação vazia e do rosto cuspido
Apaga de minh'alma a desilusão, o nojo e o pranto contido
Faze-me esquecer o outono com o despontar da primavera
Quero prazer no que eu sou, não mais a dor de quem eu era
DOR DO OUTONO
O outono chega, vão-se as folhas, róseas ou amarelas
Uma melancolia profunda invade a alma da floresta
A luz entre troncos desnudos, expõe-lhe as mazelas
Glamour vazio, efêmeras folhas, nada mais lhe resta
Murcham, desapegam e caem, entregam-se ao vento
Pouco importa a sorte da árvore que lhes deu provento
Sucumbem só da expectativa de ter enfrentar o frio
Sugaram o que puderam, mas seu cerne inda é vazio
Prefira os galhos às folhas, oh árvores sofridas
Estes não te abandonam quando for dura a vida
No separar da foice, choram seivas de verdade
E no arder do fogo, gritos sinceros de saudade

NÃO, SE ÉS CONDA
Não mais se escondas na beleza do seu rosto
Nem
me seduzas com este seu sorriso vilNão use a mim como placebo ao seu desgosto
Nem exalte em mim as virtudes que não viu
Maldita a hora que te aceitei por companhia
És Conda, revelada está tua artimanha
Rastejante e vil, há muito a presa espia
Sutil como serpente, voraz como piranha
O mal cresce e implode, não há como detê-lo
As folhas amarelam, o tempo faz a monda
Quebrando a utopia, estancando o pesadelo
Desfazendo fantasias e revelando a anaconda

Comentários (2)
Sonhei com um mundo livre e justo. Acreditei que as oportunidades eram uma questão de esforço e que o sucesso só dependia da capacidade e do desprendimento. Pensei que os homens bons transformariam o mundo e que as injustiças seriam aniquiladas pela educação e a sensatez
Infelizmente, a maturidade revelou-me que os pobres são mais pobres de espírito que de oportunidades. Que os ricos, pra se fazerem ricos, já venderam a alma. Que as oportunidades não surgem, são compradas às escuras. Que a decência, quase sempre, sucumbe à propina e ao favorecimento. Que os idealistas se vendem ao poder. Que os justos não subsistem no trono. Que a caridade quase sempre não é cega. Que a violência e a miséria são orquestradas do trono. Que a abnegação tem a infâmia como troco. Que as pessoas amam mais imundícia que a dignidade. Que os insanos são mais aplaudidos que os sensatos. Que a morte é triste, mas sem ela os homens seriam eternos escravos de seus páreos.
Hoje eu luto, não mais para reformar o mundo, mas para não ser sucumbido por ele. Sofro para provar que nem toda dignidade está à venda. Combato a indecência e imoralidade, mesmo sabendo que perderei a batalha. Quero morrer com orgulho, não de ter vencido a guerra, mas de ter lutado sempre em defesa do que é correto. Não quero ser lembrado por ter mudado o mundo, mas apenas por não ter feito coro com aqueles que o tornam fétido.
Algum dia, espero que ainda longe, esta será apenas mais uma página esquecida e provavelmente apagada por falta de manutenção ou custeio. Todavia, antes que este dia chegue, quero fazer transbordar nela as inquietudes da minha alma; fazer soar os clarins da vida, sem ter a presunção de ser o dono da verdade, mas convicto de que proclamei meus erros como alerta aos jovens e chamei à reflexão os pensadores em busca de uma vida mais digna e próspera para as gerações vindouras.
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