Lista de Poemas

dia mundial da poesia 2016

venero esse veneno que escorre das palavras
e amo-as
e essa sua sombra tenebrosa
envolve-me a alma
que significados ocultos encerram
que sentimentos pecaminosos descrevem
por vezes não as reconheço
quando materializadas no amargo do verbo
alinhadas
em posições calculadas
tecem em verso segredos invisíveis
entre versos errantes
que nos trazem à tona os fantasmas das noites alucinantes
e é no poema calado
mudo
sem forma
entre a bruma
que permeiam as letras vadias
o espirito rebelde das palavras
que constroem versos
que corroem o espectro dos poemas
não mais reconheço
estas letras que formam palavras
no poema oculto
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Esteganografia da vida

Não. Esta foi a mais dura das palavras que tive de pronunciar naquela tarde, mas um sim seria impensável e só o tempo, muito mais tarde, revelou que afinal de contas aquela tinha sido a palavra mais sábia que algum dia pude proferir.

Importa saber que jamais possuí a capacidade de predizer o futuro em toda a minha vida, mas, sem saber o que naquele dia estava a fazer, tomei uma, se não, a decisão mais acertada e ajuizada de toda a minha existência.

O significado de tal palavra ecoou para sempre até aos confins dos dias.

Passado, como alguns de nós o entendemos, é algo que não existe. É algo que num determinado momento foi o presente e que na efemeridade da nossa existência passou. Não existe um passado, nem nunca existiu, existe sim um momento.

Nem imagino que a vida alguma vez tenha sequer existido. A vida existe neste momento em que escrevo estas simples linhas. O que está para trás também existe, única e exclusivamente na forma em que existe, não como um passado, mas como algo que está simplesmente aqui e que foi em tempos um presente.

O que pretendo dizer é que não existindo passado, também não existe qualquer tipo de futuro.

Futuro é apenas um tempo verbal do que, hipoteticamente achamos, está para vir.

E, é no meio destas duas condicionantes temporais que existimos. O que é o presente, se não o momento actual. E foi num momento como este, que embora pareça que foi passado, antes pelo contrário, foi, é e continua a ser presente, em que proferi aquela palavra que deu início a tudo o que alguma vez importará, em qualquer existência, minha ou tua.

No momento em que escrevo estas linhas o tempo está suspenso, culpa de uma conspiração cósmica que no seu sempre presente conspira para que o que realmente importa seja o momento, nada mais que o momento temporal que levo a colocar um ponto final nesta frase.

Presente significa agora. Significa o instante e é no presente instante que o presente se apresenta. Não há como o esperar, pois ele simplesmente é, nem como lhe fugir pois ele é. É no presente que reside a vida. Não deixes que o teu “passado” interfira no teu “futuro”, e vive o momento, vive o presente que se te apresenta.

Eu não sou nem quero ser um oráculo, nem quero aqui profetizar qualquer tipo de presente futuro ou futuro presente. Quero apenas deixar-te estes escritos para que os leias com toda a atenção e carinho e percebas o que te quero transmitir, que percebas a mensagem que está no seu interior.

Amo-te.

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O outro lado

Às vezes olho-me no espelho e sinto medo, medo do que vejo, medo de quem vejo, medo de mim. Não me conheço, sou esquisito nesta minha forma humana. Uso óculos, como, bebo, fumo, defeco e mijo. Olho-me no espelho e este dá-me de volta uma parte de mim. Eu rio, alto, assustado. Duas longas coisas saem deste corpo: são os braços. Buracos, pelos, pele, nariz, duas orelhas presas na minha cabeça. Olho os dedos, olho os meus olhos; assustador. Falo, sinto emoções e bebo cerveja. Ridícula imagem, esta minha, ali de pé em frente ao espelho. Eu vejo-me de fora. Crio uma abstracção mental do que eu nunca vi. Sou humano, vejo e sinto. É esquisito. É realmente esquisito. Procuro-me no espelho e não me acho. Só vejo aquilo ali, parado. Um monte de carne equilibrada por ossos duros que me mantem de pé. Ali no espelho. Eu sei que não sou aquilo, e o que sou, o espelho não me pode mostrar… AINDA…
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Viagem

acho que a vida é uma viagem bárbara, mas talvez seja a melhor forma de se viver; viajando. a realização desta viagem pode ser vista como uma ida ao encontro do conhecimento passado numa tentativa desesperada da percepção do eu interior. tentamos estranhamente aceitar esta viagem fugindo à loucura paralela que se auto-instala entre o racional, o lógico e um mundo de percepções.
a própria ideia de se viver focado no conhecimento passado leva-nos à perda da nossa energia vital, à perda das nossas percepções.
vivamos então de uma forma despojada de materialismos que nos deixam a vida sugada desta energia que necessitamos para a nossa compreensão interior.
vivamos então dos erros.
vamos viver dos erros e dos erros criar novas coisas, experimentar novas coisas, aprender, viver, testarmo-nos, modificarmo-nos, modificar o mundo, fazer coisas que nunca fizemos. vamos fazer coisas, coisas que nunca ninguém ousou fazer, nem que sejam erros e criar uma nova consciencia.
não pares, não fiques ai especado qual espectador de teatro. faz parte do teatro, faz a tua arte, cria a tua vida e erra. é no erro que habita a sapiência, a sagesa.
vida mais estranha do que esta jamais conheci.
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Jim Morrison & Jack Kerouac: e se?

“Se ele não tivesse escrito o “Pela estrada fora”, os The Doors nunca teriam existido” – Ray Manzarek

Ray Manzarek podia ainda ter acrescentado que se Jack Kerouac não tivesse escrito o “Pela estrada fora”, o final dos anos 60 não podia ter acontecido da forma como ocorreu, com jovens a ir para a estrada na procura do seu eu, como JACK KEROUAC havia descrito nos seus romances.

“Pela estrada fora”, foi lançado em 1957, altura do boom da geração beat, em que os membros desta estavam na sua fase de adolescência. Os escritos de JACK KEROUAC eram irresistíveis, as descrições românticas de Dean Moriarty e as viagens pelo país de Sal Paradise. As aventuras que fervilhavam nas suas cabeças, conhecer novas pessoas enquanto viajavam pela estrada fora em busca de iluminação, que eles não sabiam bem o que era, mas reconheceriam quando a encontrassem.

As descrições viscerais de JACK KEROUAC sobre música coincidiram com o aparecimento de Elvis Presley e o nascimento do Rock’n’Roll. Apesar das descrições de JACK KEROUAC incidirem sobre músicos de jazz, ele viu a relação entre as suas descrições da cena jazzística e do Rock’n’Roll. JACK KEROUAC chegou mesmo a pedir à sua editora para que o “Pela estrada fora” fosse editado antes que a cena do Rock’n’Roll pudesse de alguma forma terminar.

“Pela estrada fora” abriu as portas para o mundo a uma geração cujos pais procuravam segurança e conforto nos subúrbios pré-fabricados e que antes de atingirem a maturidade, procuravam os destinos e a iluminação que JACK KEROUAC havia descrito.

Para Jim Morrison, o “Pela estrada fora” pode-lhe ter aberto um mundo de pensamentos. Os personagens de JACK KEROUAC falam de Baudelaire, Kafka, Nietzsche, Rimbaud e William Blake, todos eles declarados como favoritos por JIM MORRISON.

É discutível que JIM MORRISON tivesse adoptado Dean Moriarty como modelo. Em todas as suas biografias reconhece que começou a pedir boleia aquando da altura em que frequentava o ST. Petersburg Junior College, aos fins-de-semana, para ir visitar Mary Werebelow, sua namorada da altura, ou para ir visitar a família por altura da acção de graças. JIM MORRISON fazia-se à estrada para se aventurar com o seu primo num churrasco de família ou uma vez com um amigo em que pediram boleia a uma mulher, que parecia estar disposta a ter relações sexuais com um, ou mesmo com os dois, como ele próprio contou.

Pedir boleia e andar pela estrada fora foi apenas um meio de transporte para se deslocar, foi sobretudo uma maneira de procurar aventura e vivenciar experiências.

As descrições de Dean Moriarty feitas por JACK KEROUAC podiam muito bem ser aplicadas a JIM MORRISON: “A primeira impressão que tenho de Dean é de um jovem magro, olhos azuis, com um verdadeiro sotaque de Oklaoma”. É exactamente assim que JIM MORRISON aparece nas suas primeiras fotos publicitárias.

JACK KEROUAC é muitas vezes citado: “As únicas pessoas para mim são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, desejosos de tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca bocejam ou dizem uma coisa banal, mas queimam, queimam, queimam, como fabulosas velas romanas amarelas explodindo como aranhas através das estrelas e no meio você vê o azul pop luminoso e todo o mundo vai “awww!””.

JIM MORRISON parafraseou estas palavras para se descrever a si próprio: “Eu vejo-me como um enorme cometa de fogo, uma estrela cadente. Todo o mundo pára, aponta para cima e engasga-se – oh, olha isso! -. Então vou-me embora… e eles nunca irão ver nada parecido nunca mais… e eles não serão capazes de me esquecer.”

Todos nós já participámos do jogo do salão ou numa tempestade de ideias e perguntámo-nos o que faríamos se encontrássemos os nossos heróis e o que aconteceria? Entramos neste tipo de jogo mental a toda a hora, e se Jesus e Gandhi se reunissem para falarem? ou Karl Marx e Thomas Jefferson? ou Da Vinci e Van Gogh? ou Einstein e Marilyn Monroe? ou mesmo nós os dois!

Será que alguma vez JIM MORRISON e JACK KEROUAC se encontraram?

Há no meio de tudo isto uma evidência quase anedótica de que este encontro pode ter acontecido. A primeira evidência pode ter sido puro acaso, o facto de JIM MORRISON e JACK KEROUAC terem vivido em Clearwater, Flórida, ao mesmo tempo em 1961/62.

JIM MORRISON disse ter frequentado alguns dos mesmos cafés que JACK KEROUAC, como o “The House of Seven Sorrows” e o “Beaux Arts“. Ambos são conhecidos por terem frequentado esses dois cafés, o facto de aí terem estado ao mesmo tempo não é inconcebível.

Sabe-se que JACK KEROUAC é também conhecido por diversas vezes ter tido fans adolescentes a sair com ele. Por essa altura JACK KEROUAC tinha então 40 anos e JIM MORRISON estava na juventude dos seus 19 anos.

Acaba por ser tentador imaginar um adolescente como JIM MORRISON a partilhar uma cerveja com JACK KEROUAC, e ouvindo este falar de literatura.

No livro “Kerouac Subterranean” de Ellis Amburn, existe um parágrafo em que este fala de uma tentativa de JIM MORRISON visitar JACK KEROUAC na sua casa de Lowell MA, em 1968.

Se alguma vez JIM MORRISON e JACK KEROUAC se encontraram acidentalmente em Clearwater, tal facto nunca foi registado. Nunca poderemos saber se JIM MORRISON procurou JACK KEROUAC, mas podemos reflectir sobre o que aconteceria se os dois se tivessem encontrado algum dia ao longo deste nosso fosso existencial. Talvez nunca venhamos a saber se eles se encontraram, mas podemos sempre perguntarmo-nos: e se?

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