Lista de Poemas
🔴 Mãozinha pro alto
Nesse ritmo, Chris Martin (Coldpllay) logo estará tocando ‘Trem Bala’ no ‘Teleton’ ou cantando no encerramento do ‘Criança Esperança’. Com discursos enfadonhos, Chris se iguala a Leonardo DiCaprio ou Mark Ruffalo tuitando para “salvar a Amazônia”. Não se sabe se é megalomania, tédio da vida pós-sucesso ou coisa de assessoria oportunista, mas o destino é conhecido: cacique Raoni no palco, Santo Daime e perda de relevância musical.
Musicalmente indiscutíveis, Sting, Bono Vox e Roger Waters caíram nas armadilhas do sucesso e decidiram ir até ali e mudar o mundo. Se bem que o assessor surge com uma frase de efeito a ser entoada como um mantra. Afinal, esse populismo pop sempre funciona. Ou não. Às vezes, quem grita “We don’t need no education” não aceita doutrinação.
Esses músicos consideram contar com uma massa, bestificada como zumbis, sem opinião própria e agem como líderes messiânicos, conduzindo o povo a uma terra prometida (salvação), que só eles sabem o caminho, bem como onde fica. Esse proselitismo barato significa jogo ganho, mas não pode substituir os acordes de guitarra. Quando não se sabe se está num show de rock ou numa missa, alguma coisa está errada.
Achando que entram em campo com o jogo ganho, crendo que têm a plateia pagante na mão, eles acreditam que qualquer “I love Brazil” ou o baterista vestido com uma camiseta da seleção brasileira ganhará a ovação automática. Como mentiras sinceras não interessam mais, não temos mais um comportamento sectário.
Mesmo com um carisma descartável, apesar da catarse ensaiada, o artista consegue uma conexão, embora frágil, escorada num sentimento de culpa coletiva. Nessa “vibe”, o “charlatão vendedor de um mundo melhor” domina um ambiente propício à culpa coletiva. Aí brotam pérolas como: crítica ao capitalismo, dentro dos Estádios Unidos; ou culpabilização das nações industrializadas, no coração da Europa ocidental. Isso é como a Marilena Chaui (“Eu odeio a classe média”) sendo efusivamente aplaudida num auditório da USP (Universidade de São Paulo).
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🔴 Pindorama: o reino da Borboleta Azul
A maior contribuição da Carreta Furacão (Lula e sua turma) chama-se Flávio Dino. A criatura com nome jurássico trouxe humor involuntário ao debate político. Involuntário porque ele não quer ser engraçado, mas como se leva a sério, acaba sendo cômico.
Esta semana, um “Zé Graça” da internet publicou uma performance de um (ou uma) “drag queen” fantasiado (ou fantasiada) de Borboleta Azul. Isso viralizou na internet. A Agência Lupa correu para avisar que aquilo não era o Flávio Dino. Provavelmente, ninguém achou que a (o) “drag queen” era o ministro.
“O meme passa por baixo da porta, enquanto a notícia ainda está tocando a campainha”. Ignorando que o meme é uma piada, a Agência Lupa correu para atestar a veracidade de algo que é propositalmente uma caricatura. Assim, a Agência Lupa novamente vira piada, cai em descrédito e mostra-se militante.
Dino não precisaria se esforçar para ser ofendido. No entanto, ele parece fazer questão de se “vender” autoritário. Sua presença já é grosseira, sua voz é um desacato e sua expressão parece sempre chamar para briga. Além do “kit” de fabricação, esse é um ministro da Justiça e Segurança Pública pronto para perseguir pessoas “de bem”.
O ministro maranhense já compareceu na Câmara dos Deputados, quando convidado para depor. Numa dessas ocasiões, saiu-se com essa: comparou-se com um Vingador (super-herói). Com muita boa vontade, poderíamos associar o substantivo a “vingativo”, sabendo-se que é comparsa do Lula. Porém, não é isso. A referência revelou uma alma infantilizada, bem como a estreiteza de raciocínio. Mas também parecia revelar um funcionário público bonachão, sem aquela sisudez atribuída aos burocratas. Temos aqui um brincalhão!? Engano. O ministro não absorveu a brincadeira. Mesmo sem matar ninguém, o autor do meme foi chamado de nazifascista.
O pobre Flávio Dino pode ser uma alma boa, trancada naquela carranca que parece um cárcere impedindo que a vida seja aprazível. Mas mesmo com esforço contrário, esse sujeito é engraçado.
Obs: texto com imagem no blog:
Gazeta Explosiva
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🔵 um gato na estante
Quando frequentei a biblioteca circulante Mário de Andrade, em São Paulo, li muito, porém algo me intrigava. Circulando pelos corredores, entre estantes e livros, eu fui surpreendido por um gato. Coincidentemente li que gatos eram usados para acalmar ambientes. De fato, aquilo estava funcionando. Entretanto, aquele animal não poderia ser utilizado como um objeto para harmonizar cômodos, como um sachê que a gente compra no supermercado. Entretanto, fiquei mais tranquilo ao constatar que o felino gostava da biblioteca instalada em um casarão histórico.
Realmente, o silêncio era respeitado, e eu não havia presenciado maus-tratos animais. Não, a única coisa que interrompia minhas tardes e atormentava demais, era que o gato parecia me perseguir. Isso dificultava minha escolha. Entre Machado de Assis e Marcelo Rubens Paiva, lá estava o bicho. Inclusive quando eu arriscava puxar um Paulo Coelho, lá estava o “zoião” esbugalhado do gato.
Aquele bichano não estava completamente entregue ao ócio. Além de observar a dinâmica da movimentação intelectual, ele, às vezes, pulava no chão de madeira brilhante e escorregadia. Aquele movimento interrompia a tranquilidade meditativa do gato; porém era por um motivo convincente: havia uma vasilha de ração e outra de leite. Logo, ele estaria acomodado numa estante, escondido entre os livros.
Havia algo místico naquele bicho peludo, ou eu estava esotérico demais devido à filosofia budista e a leitura dos livros do Dalai Lama. Contudo, pode até ser bem normal, mas eu achava muito inusitado o gato ciceroneando minhas seleções literárias.
Hoje, a biblioteca circulante foi transferida para outro local mais moderno. Prédio moderno e central não é ambiente para aquele felino. O casarão antigo, mais longe e pouco frequentado era ideal para o animal viver. Pergunta: onde que o gato passou seus últimos dias?
Poderia, até, atribuir a “sorte” que tive, num concurso público ao gato e não aos títulos que devorei.
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🔴 Vai que cola
Recentemente, houve uma debandada da Rede Globo. Quando deixou de ser loucura se demitir da Globo, os ex-funcionários demonstraram um alívio pessoal e uma liberdade destituída de demonstração forçada de “compliance” ou “lacração” para ficar bem na foto". Entretanto, dificuldades financeiras fizeram a emissora carioca recrudescer o ritmo das demissões, mas muitos ex-globais descobriram como pode ser boa a vida profissional pós-Globo. No entanto, um repórter vem deixando sua credibilidade escorrer a cada aparição.
Marcos Uchôa tinha muita credibilidade como repórter. Cobrindo guerras ou esportes, toda vez que aparecia no vídeo, “emprestava” uma aparente confiança e praticamente “carimbava” a matéria como algo que podia ser acreditado sem contestação. Essa constatação é baseada, lógico, na competência e profissionalismo. Sim, isso tudo é muito subjetivo, porém creio que também seja senso comum.
No entanto, esse capital profissional é muito difícil ser adquirido, mas fácil e rápido deixar ser escoado. É o que tem acontecido com o repórter ex-global. Com participação em “podcasts” e outros programas de entrevista não “engessados”, Uchôa demonstrou incertezas e dificuldades em lidar com o contraditório.
Quando assumiu seu viés político, sobretudo quando começou a militar, sua credibilidade, acumulada durante anos, se esvaiu. O tiro de misericórdia veio quando ele aceitou um pacote chapa-branca do governo petista: emprego na EBC (Empresa Brasil de Comunicação) e conversa na “live” lulista. Tudo de acordo com sua profissão. O que não devia estar no contrato é a mentira.
Lula quis testar sua popularidade numa “live”. Errou porque, contrariando a descontração do formato, produziu demais e, distribuindo sua sinceridade controlada, conversou com um jornalista de estimação: Marcos Uchôa. Resultado: os números de audiência da “live” foram baixos, refletindo o grau de interesse, bem como confiabilidade em ambos. Detalhe, o novo camarada do Lula, conforme o vídeo, mostrou que está aprendendo a mentir.
Foi mais que uma guinada de 180°. Querendo ganhar altitude, Marcos Uchôa descartou a credibilidade. Como não tem recuperação, basta a ele dizer: eu era feliz e não sabia.
Texto com vídeo no blog:
Gazeta Explosiva
Marcos Uchôa tinha muita credibilidade como repórter. Cobrindo guerras ou esportes, toda vez que aparecia no vídeo, “emprestava” uma aparente confiança e praticamente “carimbava” a matéria como algo que podia ser acreditado sem contestação. Essa constatação é baseada, lógico, na competência e profissionalismo. Sim, isso tudo é muito subjetivo, porém creio que também seja senso comum.
No entanto, esse capital profissional é muito difícil ser adquirido, mas fácil e rápido deixar ser escoado. É o que tem acontecido com o repórter ex-global. Com participação em “podcasts” e outros programas de entrevista não “engessados”, Uchôa demonstrou incertezas e dificuldades em lidar com o contraditório.
Quando assumiu seu viés político, sobretudo quando começou a militar, sua credibilidade, acumulada durante anos, se esvaiu. O tiro de misericórdia veio quando ele aceitou um pacote chapa-branca do governo petista: emprego na EBC (Empresa Brasil de Comunicação) e conversa na “live” lulista. Tudo de acordo com sua profissão. O que não devia estar no contrato é a mentira.
Lula quis testar sua popularidade numa “live”. Errou porque, contrariando a descontração do formato, produziu demais e, distribuindo sua sinceridade controlada, conversou com um jornalista de estimação: Marcos Uchôa. Resultado: os números de audiência da “live” foram baixos, refletindo o grau de interesse, bem como confiabilidade em ambos. Detalhe, o novo camarada do Lula, conforme o vídeo, mostrou que está aprendendo a mentir.
Foi mais que uma guinada de 180°. Querendo ganhar altitude, Marcos Uchôa descartou a credibilidade. Como não tem recuperação, basta a ele dizer: eu era feliz e não sabia.
Texto com vídeo no blog:
Gazeta Explosiva
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🔴 MGLU3
“Vou-me embora pra Pasárgada, lá sou amigo do rei”. Luiza Trajano não foi para Pasárgada, como no poema de Manuel Bandeira, entretanto a dona do Magazine Luiza é amiga do “rei”, como no poema de Manuel Bandeira.
Luiza foi convidada a integrar um inútil conselho. Ela, lógico, aceitou. Talvez não seja essa a intenção, mas é uma excelente oportunidade de estabelecer um contato direto com o Poder Executivo e salvar a sua rede de lojas, que passa por sérias dificuldades. Com seu faro comercial, ela não perderia essa chance de se tornar uma “insider trader” oficial, obtendo informações econômicas privilegiadas. Porém, mais que aproveitar prováveis manobras, a lobista de si mesma, Luiza, arrisca palpites para o economista Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central. Sei...
A empresária disse pro neto do icônico economista Roberto Campos baixar os juros... na canetada. Brilhante! Ela e o Lula deram essa dica para um economista. Sei... Minha intuição diz, ela não está nem aí para a plebe. Claro, sua rede de lojas não cresceria tanto se ela pensasse no bem comum. Falando o Português arcaico: é impossível fazer uma omelete sem quebrar alguns ovos.
A lojista pôde suplicar a queda dos juros diretamente para Roberto Campos. Ele respondeu com uma risadinha. Quando eu entrei numa das suas lojas, procurando um aparelho de som baratinho, me conformei com o preço alto. Se fosse hoje, tenho certeza, se eu sugerisse que Luiza Trajano reduzisse o preço, receberia um ríspido “não” e, talvez, um sorrisinho. Paciência, ela deve entender muito de “aparelhamento”.
Luiza Trajano, a empresária, engana com sua carinha de vovó, suas roupas simples, o sotaque interiorano e a maneira “pobre” e simpática de falar de finanças no diminutivo (dinheirinho, precinho, carnezinho). No entanto, ninguém chega aonde ela chegou sendo “boazinha” nos negócios; com aquele jeitinho meigo ninguém consegue administrar sequer um carrinho de pipocas.
Se Roberto Campos Neto baixar os juros, Luiza Trajano garante o carnezinho; o povo, a dívida; e as instituições financeiras garantem... os juros.
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🔴 É essa a juventude que quer tomar o poder? — Falta de maturidade
Há muito tempo, assisti a um vídeo sensacional. Sensacional significa que causa sensações, nesse caso: vergonha alheia.
Juventude costumava ser quase um sinônimo de contestação, repúdio a toda forma de poder. No entanto, o que se vê aqui é praticamente um flagrante da burrice explícita. O conteúdo é minuciosamente feito para confrontar os conservadores, entretanto diverte justamente aqueles que seriam o alvo. Chegará algo que cessará o ritmo da dança e tirará a graça de cantar essa musiquinha ridícula: o boleto.
O grupinho executa uma dancinha constrangedora e a música, uma letra inacreditável. A estética da maioria condiz com o contexto. E, com uma rápida olhada, é fácil perceber que uns dois ali estão cursando a faculdade há uns dez anos. Porém, é claro que alguns “peixes fora d’água” foram “obrigados” a pagar uma modalidade lamentável de “pedágio ideológico”, sob pena de não fazer parte da turma, embora não integrar esse bando garantiria um ganho duplo. Tenho certeza que muitos ali se arrependerão desse vídeo.
A gravação é de 2013, mas o opróbrio proporcionado pelo, digamos, musical é eterno. A peça é uma coroação da doutrinação escolar. Porém, inépcia e ideologia geram paradoxos que contaminam o pensamento, aí surgem “democratas” que veneram Nicolás Maduro. É o quadrado redondo.
A visita do ditador venezuelano, com afagos de Lula, gerou desaprovação de muitos que apoiaram o vingativo ditador caseiro. Na campanha, o apoio ao petista apareceu disfarçado de “Carta pela Democracia”. Isso foi, lógico, um evidente oportunismo na modinha da palavra “democracia”. Esvaziada de sentido, vemos “democracia” e suas variações, bem como “paz” sendo pronunciadas como “sinalização de virtude” ou salvo conduto para cometer algumas arbitrariedades. Para quem quer ganhar o prêmio Nobel da Paz, não adianta falar em democracia e paz “da boca pra fora”.
“Democracia é quando eu mando em você, ditadura é quando você manda em mim”.
(Millôr Fernandes)
Texto com vídeo no blog “Gazeta Explosiva”.
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🔵 Rio Abaixo
A barraca, solitária no Camping Jacaré, provavelmente servia de ponto de referência. Fomos a Brotas, interior de São Paulo, para, diferentemente de descer as cataratas num barril, descer o rio Jacaré Pepira num bote.
Apesar da confraternização animada com cerveja e violão, o clima naquele restaurante era sombrio. O céu noturno prometia que a chuva não cessaria, dando mais volume à correnteza e empregando mais adrenalina à nossa expedição ou novamente cancelando o “passeio”.
No dia anterior, a chuva havia frustrado o “rafting”. A caudalosidade do rio rendeu uma pequena reunião. Eu e meu amigo, desconhecendo o perigo e talvez encorajados por “shots” da pinga com mel brotense, decidimos “navegar” o rio. Porém, a negativa geral, inclusive dos profissionais, nos trouxe à realidade. Fomos votos vencidos pela prudência.
A chuva deu uma trégua, entretanto o volume d’água classificava o nível de dificuldade “5”. A seriedade com que isso foi dito, me fez cair na real e acreditar que o passeio contemplativo e turístico havia sido cancelado. Agora exerceríamos funções fundamentais para o sucesso da aventura. A peripécia, recomendada a idosos e crianças, virou esporte, e precisávamos vencer.
O bote comportava 5, acho que, tripulantes. Era espaçoso, no entanto a correnteza parecia brigar com aquela nossa embarcação, que significava a nossa “tábua de salvação”. Desviando de pedras, galhos e despencando de cachoeiras e corredeiras o bote, antes espaçoso, parecia uma boia; o remo, inútil; e o capacete, uma casca de ovo. Em vez de fugir, estávamos enfrentando uma espécie de tromba d’água.
Felizmente, o que devia ser próximo de uma experiência dentro de um liquidificador ou uma máquina de lavar, reservava seus momentos de trégua. Navegando no remanso, tínhamos um instante contemplativo de “Montanha Encantada”, quando ouvíamos o som da natureza. Com essa alternância, entre aventura e passeio, concluímos a expedição.
O veículo que transportou o equipamento de “rafting” deixou-nos na rodoviária. Viajamos recordando, com a equipe do rapel (descer uma montanha pendurado por cordas), o que tinha acontecido naquele dia.
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🔵 No rio dos tubarões * (Peruíbe)
Não precisei voar para o Japão nem para o Oriente Médio; não tive que vender um rim nem qualquer órgão ou objeto valioso. Bastou achar um estacionamento grátis, no estádio do Morumbi para assistir ao jogo do Corinthians contra o Real Madri, da Espanha, pelo campeonato Mundial de Clubes da FIFA 2000.
Me chamaram para assistir à final contra o Vasco da Gama, no Maracanã. Mas eu preferi ir à praia, em Peruíbe, São Paulo. Cheguei em cima da hora. A família corintiana, um são-paulino e um santista. A disputa nos pênaltis ajudou a “pilhar” o clima de decisão. Meu tio, como tradição, foi caminhar para “não sofrer” a cada cobrança. O “não sofrer” (entre aspas) significa que é impossível não sofrer com qualquer disputa, em qualquer lugar, envolvendo o nome do Corinthians. Então, esse hábito não tem escapatória: cada grito e cada estrondo de rojão tem um “DNA” ou a “impressão digital” alvinegra.
Vencido o jogo e o primeiro Mundial de Clubes da FIFA, mantivemos um irresponsável costume, saímos pela cidade. Fosse em Peruíbe ou na Inglaterra, as ruas estariam lotadas de corintianos, ô raça!
O litoral de Peruíbe, virando nosso quintal, trouxe repentinamente uma lembrança nada edificante e que somatiza, automaticamente, um embrulho no estômago, dor de cabeça e tremedeira:
Naquelas areias, há alguns anos, a notícia de que era aniversário do meu cunhado e meu chegou aos ouvidos da proprietária de uma barraquinha de batidas, raspadinhas, caipirinhas e tudo que fosse demasiadamente alcoólico. Sabendo da data (no final do expediente), ela resolveu usar toda sua criatividade, e um pouco de bruxaria, adquirida durante anos de preparo de drinques com teor entorpecente.
A “véia” resolveu levar menos peso pra casa, de modo que ela despejou o resto de todas as garrafas nos copos. O resultado foi uma intoxicante “farmácia”, quase tão eficiente quanto injeção letal.
Rosa. Sim, a dona do carrinho de bebidas foi batizada com este singelo nome. Mesmo assim, quase nos assassinou recolhendo o resto do que havia de pior em cada garrafa. Dona Rosa, a bruxa, e seu drinque diabólico se tornaram inesquecíveis.
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🔵 Jornal da Vila Galvão
O jornalzinho da Vila Galvão era uma publicação simpática aos moradores do bairro, porém o nefasto intuito era eleger seu dono, o eterno vereador. Para mim, era a oportunidade de parar numa padaria ou boteco para comer alguma coisa, ganhar alguns trocados, dois sanduíches de presunto e queijo e uma lata de guaraná.
Para realizar essa troca justa, era só eu fornecer a minha incipiente força de trabalho, arremessando exemplares nas casas, prendendo nos para-brisas dos carros e entregando aos transeuntes. Assim, a população ficava informada das fofocas, dos óbitos e do mundo das subcelebridades locais; o vereador impulsionava sua candidatura; e eu mudava meus hábitos alimentares no recreio escolar, pois eu sabia que seria promovido da fila da sopa para a cantina.
Saímos para divulgar as inutilidades da nossa aldeia com os ameaçadores capangas do candidato. Sim, o postulante à vereança de Guarulhos, além de dono do jornalzinho, era um tipo de chefe da máfia local.
Pois bem, com uma proteção supostamente armada íamos divulgando as amenidades da periferia guarulhense. Os mais preguiçosos ou desonestos descartavam volumes generosos em terrenos baldios e bueiros. Como se Deus ou os capangas estivessem vendo, eu entregava as edições religiosamente, temendo os castigos divinos e com medo de ser uma vítima da dupla de agentes da justiça paralela.
Do alto dos meus onze anos de idade, um par de sanduíches de presunto e queijo e uma lata de guaraná valiam todo o esforço de espalhar algumas páginas recheadas de propaganda politica. Além disso, o pagamento em dinheiro garantiria o acesso ao mundo maravilhoso das guloseimas escolares.
Enfim, a precoce vida laboriosa, na modalidade “manhã de jornaleiro” seria recompensada, na aula antes do intervalo, com o cheiro de esfirra que aguardava a minha fome. Essa expectativa era muito mais forte que o resultado: mão preta, suja da tinta do jornal.
O jornalzinho da Vila Galvão não existe mais, nem o candidato/vereador, mas eu me lembro bem de quando eu difundia as notícias de falecimento, fofocas e colunas sociais. Nas casas, nos carros e de mão em mão.
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🔵 Aniversário fora de época
Com alguma ansiedade, mal disfarçada de pressa, já que a faculdade ficava deserta à tarde, mais uma vez eu girava a roleta, descia as várias escadas e percorria corredores até chegar à biblioteca. Bastava entregar a carteirinha e acessar um computador. Todo o procedimento fazia com que eu fosse confundido com um aluno da faculdade e, de certo modo, me comportava para contribuir com a verossimilhança.
Eu podia acessar a internet gratuitamente, estudar e conferir os resultados do concurso público. Entretanto, um detalhe sem importância me distraia. Embora meses distanciavam a data do meu aniversario, a tela exibia a data errada: 4 de janeiro (meu aniversário). Troquei de micro, a mesma coisa. Estiquei o olho em outros computadores ocupados: 4 de janeiro.
Eu estava propenso a acreditar em algo transcendental, mas não naquele momento. Depois de esgotadas as possibilidades de coincidência e sincronicidade, achei que aquele caso era falta de manutenção. Como o resultado do concurso não havia sido divulgado, a decepção foi proporcional à, até aquele momento, coincidência, sincronicidade, transcendência ou falta de manutenção que deixou a data do meu aniversario nos computadores. Diferentemente do que esperava, faltou o presente.
Voltei dias depois. Repeti o mesmo trajeto, suplantei os mesmos obstáculos e já acostumado e gostando daquilo, fui tratado como aluno da universidade. Quando cheguei no micro, olhei a data. Lá estava: 4 de janeiro. Conferi outras máquinas, e a efeméride se repetia. A probabilidade da “coincidência” era remota: 0,27397260 %.
Aquele acontecimento só podia ser um sinal. A esperança de que aquilo fosse um sinal atenuava minha ansiedade, podendo ser, finalmente, o “presente” aguardado.
O resultado positivo do concurso impulsionou o mistério da data. Seja o que for, do início da empreitada (biblioteca) até o término, tudo foi perfeito. O incrível, o bizarro e o imaginário povoaram as possibilidades místicas. No entanto, minhas maiores elucubrações não se realizariam se eu não estudasse.
“Há mais coisas entre o céu e a Terra do que pode imaginar nossa vã filosofia”.
(William Shakespeare)
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