Lista de Poemas

CINZAS

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DEZEMBRO ENCANTADO

Era dezembro. Chovia fino e constante nos meus idos de infância perdida. Minha vó fazia pirulitos puxentos, com açúcar e limão para vendermos. Também vendíamos, sob a chuva fina, ovos e verduras que pai e mãe traziam da roça. E em dias de sol, picolés em uma caixa pendurada no pescoço. Ganhava-se alguns trocados e, vez em quando, apenas riam, zombavam e saíam chupando o picolé sem pagar.


Mas vamos de volta ao dezembro de constante chuva. Eu amava dezembro com seus cheiros de plástico, com férias de escola e com a alegria de todo mundo naquele mês.


Num deles, desses dezembros, uma amiguinha minha perdera o pai. E eu pensei comigo, estou triste, mas vou aproveitar o dezembro, afinal é só um por ano e nem fui lá ver o defunto, coisa que eu fazia por curiosidade.


Uma semana depois, briguei com um amiguinho. E no trava-trava de gavetas, mãos nos pescoços, derrubei-o e montei nele. E o humilhei "Vai mexer comigo de novo, vai?"


O coitado sangrava pelo nariz e nada respondia se esperneando para sair. Outros me tiraram de cima dele e fomos embora.


Bem, mas o destino é o destino. Uma semana depois, ao descer de bicicleta uma rua com forte inclinação, trombou na trazeira de uma carroça que carregava, arrastando, ferros para construção. Ficou tão machucado pelas ferragens que, quando o fui ver, estava todo enfaixado dentro do pequeno caixão.


E eu pensei. É dezembro. É dezembro. É dezembro, poxa. E sinto o cheiro de plástico, dos presentes do papai noel. E dali me fui.


No dia de natal, ganhei um aviãozinho de plástico. Para a desgraça voar só na minha mão e com a minha mente no céu. Então pensei para que serve esse aviãozinho se sem ele posso voar mais, e o pai da minha amiguinha e meu amigo não podem nem andar mais.


Então fui tomar um banho. E descasquei a banana voando com uma mulher. Aquilo foi mágico, imaginar algo grande e peludo.


Gozei! Pela primeira vez na vida, gozei, embora não tivesse saído nada, a não ser um liquidozinho transparente. Mas o fato é que tremi e gostei.


E pensei de novo: "Caramba, que coisa boa!" Daí para frente, como sabem, é o humano cão.


E nunca mais deixei de descascar, nos banhos, a banana, com o uso da mente sobrepujando o mundo, a vida e suas trágicas contradições!
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TEMPESTADE QUE ME ASSOLA

A tempestade que me assola e desnuda meu ser, em chuvas contínuas de dor e de descrença em tudo, revela a frágil existência do ser mortal, imoral, que ainda ousa voar, quedado sob o escarro do mundo.

A quanto tempo já não vejo o sol acender sua ira,e Em raios que fulminam a morte e escondem as sombras, trazendo à luz a essência de uma vida ilusória?

Sem remorsos, é nas sombras que me movo em fúnebre morada.

Vermes miseráveis, rastejantes seres sois também vós. Comeis e bebeis das vísceras de vossos semelhantes!

É à luz que escondeis, teatralmente, vossos paradoxos, em sombras das quais surgistes para atuar no palco iluminado: silenciosas lâminas, infernais garras, prontas para o golpe fatal.

E quem do mundo enevoado e obscuro, como vós próprios, será a próxima refeição: um ser andante qualquer sem rosto, o O melhor amigo ou a amada a quem perjurais lealdade e fidelidade?

Devoradores, pragas, insetos humanizados de razão, tornai-vos mais insaciáveis que o próprio demônio, pelo vivo sangue e pelo corpo vil, em injúria a vosso deus, pPor vós mesmos, e para vosso refúgio, inventado insanamente, oO qual agora apenas se contorce em gritos silenciosos e tristes.

E eu, serena, fria e incompreendida bactéria tetânica, nego as vossas ilusões e todas as vossas esperanças mortas.

Pior que vós me torno. Sou a sombra que persegue e devora, que convida ao pecado, e abro as cortinas do espetáculo, em pleno reinado da luz onde vos escondeis!
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A FLOR DO DESERTO

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A FLOR DO DESERTO IV

... ontem estavas
tão bela que observei cada detalhe,
inclusive o formato da sombrancelha,
o cabelo amarrado ou posto
para trás,

os trejeitos,
a calma no falar e o sorriso,
embora meio triste, graciosíssimo;

e, então, eu pensei:
"Quer saber de uma coisa? De vários
modos já a amei, mas nunca ainda com o branco
silêncio dos olhos;

e conversávamos,
e conversávamos,
e conversávamos,

e tive um orgasmo mental
violentíssimo, desses que só em sonhos
de reinos encantados se tem,

destes que,
como sorrisos e lágrimas escondidas,
ninguém vê!
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SEU NOME ERA ANA

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EU AINDA TE AMAREI POR ALGUMAS ETERNIDADES

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EU QUERO!

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ILUSÓRIOS CAMINHOS

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A CONDUÇÃO

... que engraçado,
________________ hilária
é a piada _________ humana;

vejam só,
agora no fim da jornada

é que me
perguntam: "Thor,
você é escritor?",

e logo
agora que nem tenho
mais tempo para tirar
uma panorâmica
foto;

quando
antes as interrogações
e as exclamações
eram feitas

________________ assim:
"Você é o Thor,
sonhador e punheteiro
dos teatros e das
__________________ salas?
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Comentários (7)

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fernanda_xerez
2018-08-17

SEMPRE SUSPREENDE-ME COM TUA INESGOTÁVEL INSPIRAÇÃO. AMO TEUS POEMAS PARA A FLOR DE INVERNO, sinceramente. Saudações Alenarinas da Flor*

fernanda_xerez
2018-02-26

Por tudo, mais uma vez, obrigada! ¨¨¨¨¨Beijo_Flor*

Trivium
Trivium
2018-01-09

Olá, cara. Gostei bastante desta poesia tua. Você com partilha suas poesias em algum outro site que não este?

fernanda_xerez
2017-12-23

E eu tenho acompanhado toda esta história... E eu tenho me sentido feliz com as ''gotas orvalhadas'' que representam um passo a cada dia. Estamos juntos.

fernanda_xerez
2017-12-23

Lindo e provocante!